Divaldo pereira franco



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ABIGAIL E JOSEFA

Sendo livre o homem de agir num sentido ou noutro, seus atos lhe acarretam, e aos demais, conseqüências subordinadas ao que ele faz ou não. Há, pois, devidos à sua iniciativa, sucessos que forçosamente escapam à fata­lidade e que não quebram a harmonia das leis universais, do mesmo modo que o avanço ou o atraso do ponteiro de um relógio não anula a lei do movimento sobre a qual se funda o mecanismo. Possível é, portanto, que Deus aceda a certos pedidos, sem perturbar a imutabilidade das leis que regem o conjunto, subordinada sempre essa anuência à sua vontade.”

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” — Capítulo 27º — ~Item 6.
A orientação oferecida pelo Mentor, quanto à transferência de Ester para outro Hospital, foi acolhida com insopitável felicidade.

Como o dr. Ivan Albuquerque mantivesse estreito círculo de amigos médicos, sugeriu que a jovem fosse encaminhada a respei­tável Casa de Repouso, recém-inaugurada, em local próximo à cidade, no bairro de Jacarepaguá e que tinha na direção excelente esculápio, verdadeiro sacerdote da Medicina.

Aceito o alvitre, o passo inicial foi apresentar o Coronel Santa-maria ao Dr. Armando Bittencourt, que ouviu os detalhes clínicos da paciente necessários para ajuizar o caso e encarregar-se pessoal­mente da orientação especializada.

Espiritualista abnegado e conhecedor de veneráveis doutrinas, era crente afervorado na reencarnação, conhecendo os fundamentos das obsessões, que ora investigava com esmero e acuidade.

O agradável encontro, ensejou, en passant, entre o dr. Gilvan,

o Coronel Santamaria e o dr. Bittencourt considerações relevantes sobre o Espiritismo, criando elos de simpatias recíprocas.

Ficou constatado que Ester seria removida no dia imediato, para o que ficara reservado agradável apartamento, no andar térreo com ampla área próxima ao jardim e contígua ao pomar.

D. Margarida acompanharia a fflha, enquanto o esposo se des­locava à cidade do Salvador.

Era muito importante esse período de reajustamento psicológico e adaptação familial para a egressa do sombrio corredor da obsessão tormentosa.

Seguindo, ainda, instruções oportunas do benfeitor de Rosân­gela e por ele acolitado, o Coronel Santamaria dirigiu-se ao Freno­cômio, expondo, com franqueza, ao diretor o ensejo de remover a filha, imediatamente, para outro local, por motivos que considerava imperiosos.

Obviamente, o diretor-clínico advertiu o genitor resoluto, expondo que não se responsabilizava pelos resultados da medida extemporânea, apresentando argumentos técnicos, que, de forma alguma, modificaram a decisão do Coronel.

Tomadas as providências compatíveis e regularizados os trâmi­tes indispensáveis, a ficha de “alta” foi firmada. Tentando impedir futuras complicações, o pediatra dispôs-se a• assumir as responsabili­dades do caso, ao lado do genitor da enferma.

Ficou, então, assentado, que, no dia seguinte, estes voltariam acompanhados da senhora Santamaria, a fim de providenciarem a transferência da jovem.

As horas foram passadas ao embalo das expectativas ditosas em relação ao futuro.

No dia imediato, à hora aprazada, os genitores de Ester e o abnegado médico, em sala especial, receberam a jovem convalescente.

A surpresa que dominou os pais foi dolorosa. Não obstante preparados para o momento grave, o estado de deperecimento da filha lacerou-os. Cambaleante, exaurida e revelando na face o longo cativeiro e o abandono que sofria, a moça parecia um escombro humano. Dir-se-ia que saía de um campo de extermínio, não de um Hospital...

Os pais abraçaram-na, enquanto esta foi acometida de um vágado, decorrente da debilidade e da emoção.

O dr. Ivan tranqüilizou os pais e, logo, a jovem recuperou par­cialmente a lucidez, solícitou uma maca, transferindo-a para o veículo que os aguardava à porta.

Não recobrara totalmente a razão. Dava-se conta, porém, da ocorrência e identificava sem maiores expressões de discernimento os pais ansiosos ao seu lado. Supunha-se numa esfera penumbrosa de sonho que ruma para a claridade objetiva da realidade.

Balbuciava palavras inintelegíveis umas, desconexas outras, entremeadas de soluços e suspiros entrecortados.

Os pais acariciavam-na angustiados, animando-a:

— Tudo passou, filhinha querida. Coragem e confiança em Deus!

O olvido do passado para os viajores carnais ali estava demons­trando mais uma vez constituir bênção imensurável.

A Casa de Repouso, além da privilegiada situação em local bucólico, sem os ruídos do bulício fervilhante da cidade tumultuada, possuía pessoal selecionado e atencioso que cuidava dos enfermos, utilizando-se dos recursos oficiais da ciência bem como os generosos dotes do coração. Sabiam da eficiência em qualquer aplicação tera­pêutica dos recursos da paciência, da atenção, do amor.

Por sugestão do dr. Bittencourt, nos primeiros dias deveriam ser evitadas maiores emoções, sugerindo a técnica sonoterápica em tempo breve, de modo a ajudar o organismo seviciado pela demorada conjuntura.

A genitora poderia acompanhá-la, quando adviesse a lucidez, reeducando-a e reconduzindo-a com o carinho e a paciência indíspensáveis ao reingresso nas atividades do cotidiano. A providência sonoterápica e de curta duração teria caráter experimental.

Indubitavelmente, amenizando o fator cármico nos destinos da família vivamente interessada em recobrar a serenidade, os meios eficazes para a saúde se faziam promissores e apareciam, afortunados.

A paz bonançosa do Cristo visitava os endívidados em resgates mútuos, concitando-os à vitória final.

Logo pôde organizar o programa de viagem, o Coronel Santa-maria, sem qualquer protelamento, trasladou-se para a cidade do Salvador, onde o aguardavam amigos generosos e dedicados.

À chegada, entre sorrisos e evocações queridas, sem minudenciar as razões da viagem, fez questão de declinar a gentileza dos compa­nheiros que lhe ofereciam o conforto do lar, preferindo as facilidades de movimento que lograria num Hotel, a que se recolheria.

Obsequiado com um almoço típico, no dia imediato procurou com gentil colega inteirar-se da situação de alguns familiares de pracinhas desencarnados na guerra, obtendo, a pouco e pouco, infor­mações que o capacitaram a encontrar em afastado bairro da cidade a casa da genitora de Matias, conforme dados por ele mesmo for­necidos...

Dominado por compreensível emoção, aproximou-se da choupana pobre guindada em ladeira íngreme, não logrando encontrar a Sra. Abigail. Vizinhos prestimosos elucidaram que somente à noite ela retornava a casa, após os giros que dava pela cidade.

Sem atender a curiosidade ardilosa da vizinhança, o visitante procurou desviar o interesse, informando quanto à possibilidade de um retorno, e partiu.

Mais tarde, às vinte horas, regressou, com redobrada ansiedade. A senhora o aguardava, igualmente curiosa... Mandou-o entrar, algo aturdida, desculpando-se pela aparência do lar.

Deveria ter a mesma idade que ele. No entanto, macerada pelos maus tratos da vida, caminhava vergada como se carregasse fardo pesado às costas cansadas. A cabeça, quase branca, tez que fora de delicada cor morena, enrugada, assinalava profundos sulcos de dor e de desventura. O traje, humilde, como o lar, apresentavam esme­rado asseio.

Instintivamente, recordou-se de Matias. Nos olhos da senhora triste revia os olhos do jovem que, servindo a Pátria, trabalhara sob suas ordens... Comoveu-se, desejando abraçar aquela pobre, solitária mulher.

“Quanta penúria teria sofrido, quantas humilhações deveria ter provado, durante os demorados anos de miséria e vergonha curtidos amargamente! Se ele o houvera sabido! — Pensava. — Quiçá no passado, antes do desencadear de todos os sucessos se lhe chegas­sem ao conhecimento os dramas daquele lar, não se comovesse! O orgulho cegava-o. Não defrontava nas ruas, humildes velhinhas can­sadas, sobraçando problemas e tropeçando nos destroços de que se constituíam?

Que fizera até então, por qualquer delas? Fora um cego, sim. Agora, porém, felizmente, via.”

Tinha lágrimas, que não se encorajavam extravasar da com­porta dos olhos.

Como o silêncio se alongasse, dona Abigail, algo tímida, inter­rompeu-lhe as reflexões, dizendo:

— Eu soube que o doutor esteve aqui, na parte da tarde. Aconteceu alguma coisa?

Havia hesitação na pergunta. Não se saberia dizer se era medo de ver-se envolvida em algum novo problema ou era a cautela natural que o sofrimento oferta aos que vivem com a dor.

— Não, não, desculpe-me! — Acudiu, pressuroso, respondendo.

— Não sou doutor, não, conforme a senhora pensa. Sou militar e conheci seu filho, que serviu comigo, na guerra... Por isso, venho aqui...

A expressão de espanto que se desenhou na face amargurada da mulher, logo se transformou em vertente de agonia.

Levou a mão ao coração, como desejando desatar a compressão que sentia e exclamou:

— Meu Deus, Senhor meu! O senhor conheceu meu filho Matias!?

E desatou a chorar. O pranto convulsivo, represado por largo período, espocou, volumoso.

Ela se desculpava e prosseguia, vencida.

O Coronel sabia o valor daquelas lágrimas. Conhecia-o de motu proprio. Deixou-a extravasar a angústia, a fim de prosseguir.

Bezerra e nós outros que o acompanhávamos no elevado desi­derato participávamos, também, do encontro fraternal.

O Benfeitor, diante do desespero incontido da saudosa mãezi­nha, aplicou-lhe providencial recurso magnético, diminuindo-lhe a aflição e acalmando-a.

Nós outros orávamos, contritos, buscando criar e manter um ambiente favorável à consecução do programa espiritual, no qual estavam engajados aqueles espíritos em prova, lição para todos nós.

Cessada a tormenta, e inspirado, o Coronel explicou:

Ouça-me com calma. Depois pergunte-me o que quiser. Tra­ta-se de uma história longa.

Não há, porém, pressa. Se a senhora não se estiver sentindo bem ou disposta, hoje, voltarei quando lhe convier. Necessito que me ouça, porém, com atenção e calma.

— Perdoe-me, senhor! Já estou melhor. São as saudades do meu filho... Ando um pouco atordoada ultimamente... Depois a presença do senhor... Sou toda ouvidos e que Nosso Senhor me dê o entendimento que me falta!

Historiando os acontecimentos já narrados, omitindo aqueles que poderiam afligir mais à senhora humilde, tais o estado de pertur­bação de Matias, a obsessão da filha, elucidou-a no que poderia cons­tituir-lhe consolação e esperança, de modo a cumprir a promessa que fizera ao ordenança...

Explicou-lhe sobre a crença espírita que lhe dulcificava a alma e o veemente desejo de reparar o que considerava imperdoável esque­cimento.

Por vezes emocionado, minuciou-lhe a razão por que aderira ao Consolador, graças à crucial enfermidade da filha, sem explicar, com­preensivelmente, a causa do demorado infortúnio que era também o motivo da sua inabalável convicção religiosa atual. Expôs-lhe que Matias, comunicando-se, mediunicamente, relatara os sofrimentos dela e da irmã, fazendo-o, desse modo, recordar-se do compromisso que não tivera ocasião de regularizar.

A senhora o ouviu, paciente, em alguns momentos lacrimosa. Digna, escutava, e ele, nobre, narrava.

A confissão de alto porte, selava sagrada comunhão espiritual, enfatizando os deveres entre as criaturas, todas irmãs, conforme o ensino de Jesus.

Não lhe vinha trazer moedas, comprar a paz. Rogava-lhe ajuda, compreensão e bondade, a fim de socorrê-lo com a caridade de con­ceder-lhe a honra de tê-la como irmã..

Ao terminar, lívido e transpirado, após o comovedor processo de reabilitação, solícitou abraçá-la.

Muito embaraçada, dona Abigail agradeceu-lhe toda a gentileza e elevação.

Não compreendia bem pelo cérebro tudo que lhe fora narrado. Todavia, sentia, pelo coração.

A seu turno, confessou-lhe, também, a crença no Espiritismo...

A soma de dores atingira o clímax, quando a filha, perturbada, há quase quatro anos atrás, abandonou o lar e foi homiziar-se em reduto de degradação moral, onde a abandonaram, ali teimando continuar.

Houve um dia que supôs enlouquecer. Ajoelhou-se na via pú­blica e gritou por Deus, desesperada, recordando que se o filho não houvesse desencarnado, talvez, lhe fossem evitados os sofrimentos amaríssimos que passava. Não saberia dizer quanto durou a deses­peração. Sentiu a sensação de que o filho acudira aos seus apelos, no entanto, não conseguira qualquer luz para a perturbação que a arrojava em densas trevas...

­ Passado algum tempo, procurou o socorro de uma Casa Espírita que passou a constituir-lhe o último reduto para a esperança e a paz.

Pelos Benfeitores Espirituais foi informada que o filho sofria, no Além, necessitando das suas orações intercessórias e das suas lembranças, sem mágoas nem rancores... Que oportunamente seria libertado da situação em que se encontrava, podendo conversar com ela em radioso dia do abençoado futuro...

Naquele mesmo período, soubera pela filha, que tivera ocasião de vê-lo, deformado, aterrador, passando a defrontá-lo noutras opor­tunidades, o que lhe causava horror indescritível...

Fora informada que Josefa era médium. Não conseguira, apesar dos reiterados esforços, qualquer mudança de atitude na jovem, que, sem dúvida, era obsidiada por dominadores vampiros do sexo...

— Deus nos escutou, senhor Coronel! — arrematou dona Abi­gail. — Que fazermos, agora?

— Permita-me uma entrevista com Josefa — propôs, confiante.

— E se ela não aceitar? — interrogou, receosa.

— Nada perderemos. Hemos de encontrar uma outra solução. Demais, confiemos em Deus e façamos o melhor ao nosso alcance.

A hora seguia, vertiginosamente.

Chegara o momento da despedida. Nada de concreto se estabe­lecera, porém, estava lançada a ponte para o trânsito feliz, na direção da vitória.

— Já que somos espíritas — argumentou, solicitando a senho­ra — poderíamos encerrar esta noite orando... por Matias... por todos nós?...

— Com imenso prazer, senhora! — concordou o visitante.

E com as almas tocadas de elevada unção oraram, comovidos, agradecendo ao Senhor as dádivas e suplicando-Lhe inspiração para as providências que pretendiam tomar, nos dias próximos.

A choupana modesta saturou-se de fluídos superiores, em con­seqüência da prece fervorosa.

Os Céus desceram à Terra, atendendo aos que confiavam em Deus.

O Coronel tomara a providência de deixar com dona Abigail Ventura um cartão com o nome do Hotel em que se encontrava. Re­ceando um justificável problema, combinou retornar no dia imediato, à noite, no mesmo horário.

Quando se despediram, passava da meia-noite e o empíreo era um festival de estrelas, fitando o mar na distância, entre mistérios insondáveis, duradouro convite à meditação.

De volta, aspirando o ar benevolente da noite, em ônibus veloz, não pôde sopitar todas as reminiscências que lhe afloravam à mente, em caleidoscópio vertiginoso.

“Como a vida encerra caprichos e sutilezas estranhos! — refletia, num ensimesmamento. — Examinadas, agora, as dificuldades pare­ciam transpostas e as angústias uma dádiva de Deus para mais ampla visão dos objetivos da existência...

“Ele mudara expressivamente — reconhecia. — Ao homem rígi­do sucedera o coração afável que compreende e se comove. Não que se lhe modificasse a estrutura moral, mas se alterara a forma de considerar os valores. Transferindo as realidades para a vida espiri­tual, reformara compulsoriamente o mecanismo de exame dos con­ceitos humanos...

“Intimamente, sentia necessidade crescente de Deus, almejando maior identificação com a fé, de modo a honrá-la até com o sacrifício, se se fizesse mister.”

Estava sensibilizado. Pela tela mental anteviu os dias em que o Evangelho conseguiria triunfar nas criaturas humanas...

Chegara ao local em que se hospedava sem perceber o percurso vencido.

Buscou o leito, vivamente tocado pela grandeza do gesto que o reabilitava no próprio conceito e diante das sagradas Leis que nin­guém burla indefinidamente.

Adormeceu, de imediato, consciência em paz e alma reconhecida.

Dona Abigail Ventura não conseguia, no entanto, encontrar-se, totalmente...

“O filho desencarnara — refletia no leito pobre, desprovido de qualquer conforto — fazia quase dezessete anos... Parecia, agora, ressuscitar do túmulo para trazer aos seus amargurados dias um con­vite ao júbilo.

“Tudo quanto ouvira parecia-lhe real e o senhor Coronel se lhe apresentava despido de todos os artifícios e impositivos munda­nos, que ele conquistara a valiosos esforços.

“Chamara-a irmã, com tal naturalidade e elevação, que ela sen­tira a vibração pura do gesto.

“Vinha ele do passado, acreditava, sustentá-la no último alento pela caridade do Céu. Seria o socorro de que lhe falaram os Espíritos para a filhinha estremunhada e enferma da alma.”

Recordou-se das lições escutadas sobre a reencarnação, as “leis de causa e efeito” e, como estivesse cansada do serviço excrucial de doméstica, adormeceu, orando...

Bezerra de Menezes e nós, horas adentradas da madrugada, fomos ao local em que estagiava Josefa e lhe recolhemos o espírito aturdido, desembaraçando-a, em caráter parcial, dos densos fluídos da organização física.

Em sono profundo conduzimo-la ao lar da genitora, enquanto o Mentor e um novo auxiliar, o irmão Izidro, seguiram a buscar o Coronel Santamaria. Encarregava-me de atender a jovem em transe e sua mamãe, igualmente, ali retida.

Fui surpreendido pela amorosa presença de José Petitinga, que aumentava a equipe, trazendo o genitor de Ester, com o nosso Izidro...

Após nos abraçarmos, informou-nos que fora convidado pelo Diretor, em considerando ser dona Abigail militante em Casa Espí­rita que lhe recebia a cooperaçao.

Naquele instante adentraram-se o irmão Melquíades e Ester, a dormir suavemente.

Tudo estava organizado com esmerada meticulosidade.

No Mundo Espiritual são programadas as ocorrências boas ou infelizes que irromperão mais tarde, entre as criaturas, em conexões ditas casuais... Crimes, reabilitações, tragédias, sacrifícios são, inicialmente, concertados cá...

A sala estava referta com outras presenças de amigos de Josefa e dona Abigail interessados, por sua vez, na tranqüilidade de ambas.

Conjugavam-se esforços múltiplos para se colimarem os resul­tados felizes e gerais que todos anelávamos.

Não havia tempo, porém, para mais amplas informações.

O amorável Bezerra, colocando os participantes encarnados em volta da sala singela, visitada por ondas saturadas de perfume e ador­nada de fulgurações procedentes do nosso lado, convidou Petitinga à oração, depois de haver despertado os convidados...

A meiga voz do apóstolo baiano, exorando a Jesus e a Maria as dádivas do amor e da inspiração indispensáveis ao momento, tocou o cerne de todos nós.

Em seguida, o amigo generoso explicou:

“Filhos do coração!

“Encontramo-nos reunidos, a fim de abrirmos a alma ao Senhor, liberando-a das reminiscências amargas e dos ódios injustificados.

“O passado é algema para quem nele se fixa e asa de luz para quantos o transformam em experiência bendita.

“A aduana da consciência cobra as taxas dos erros de todos, mas não dispõe de direitos para alcançar a bagagem moral do próximo, exigindo tributos...

“Assim, examinemo-nos para acertar e ajudemos para que nos ajudem...

Fez uma parada, enquanto aguardava que as mentes assimilas­sem o conteúdo das palavras, predispondo-se para as informações posteriores. Logo depois, adiu:

— Monsenhor Severo Augusto dos Mártires, arrependido da defraudação sistemática aos postulados da fé abraçada, no pretérito, dá início à redenção, após as excruciantes dores que o vêm depurando, ao lado de Dona Eduardina Rosa de Montalvão do Alcantilado, de quem se fizera cúmplice em ardilosos crimes e que agora está corpo­rificada em filha do coração.

“O amor que por ela nutria e o desgovernava, santifica-o hoje, mediante o desvelo e a ternura que lhe tem dado; inobstante, até há pouco encontrar-se a mesma encerrada num Hospício expiando parte das loucuras antes perpetradas. .

Quando Josefa escutou as últimas referências, foi acometida de um riso histérico passando ao desacato verbal.

— Quer dizer que Deus alcançou a infeliz? — interrogou, visi­velmente transmudada.

Maria do Socorro volvia dos dias agitados do ontem para aquele momento. Chorava e detinha o pranto para gargalhar.

- Como me recordo. Tia infame e perversa! — Pôs-se a imprecar. — Roubou-me o amante e encarcerou-me, desterrando meu filho... Arrojou-me a uma “Casa de Deus”, na qual a revolta e o desespero fizeram-me odiá-lo... Nunca soube do ser que eu carre­gava comigo; nem sequer me deixaram vê-lo... Alegro-me por saber que ela paga... E Casimiro, onde se encontra... Diga-me, alguém...

Como o amo!

— Casimiro, filha — elucidou-a o venerando Benfeitor, — como tu mesma, retornou à Terra.

“Ouve: a Justiça de Deus não erra, nem tarda, manifesta-se, não conforme nosso agrado, porém no momento oportuno.

“Eduardina, conforme informei, ressurgiu no corpo de filha do Monsenhor dos Mártires; Casimiro envergou as roupagens físicas de Matias, teu irmão, a quem te apegavas e de quem recebias as santas carícias da fraternidade; tua filhinha, pois que fora uma menina o teu rebento, e que teve vida efêmera, volveu na condição de tua mãe, que ora por ti se sacrifica, qual tu mesma fizeste, a fim de conceder-lhe a bênção do corpo...

“Observa a justeza e a sabedoria das Leis Divinas...

“Nosso Matias, em momento de exacerbação, ergueu-se como vingador, cobrando a dona Eduardina o débito que lhe não cabe exigir... Graças, no entanto, a essa circunstância de que o Celeste Amor se utilizou, aqui estão os algozes oferecendo proteção às víti­mas..

“Não lhes negues o teu concurso.

— Estou confusa — arremeteu Josefa. — No local a que me arrojaram, alimentei tanto desprezo pelo corpo e corrompi-me, men­talmente, de tal forma.

— Que agora transitas num lupanar de hediondez — concluiu o Instrutor. — Pobre filha! O corpo é sagrado patrimônio de que se há de respeitar e dar conta ao Criador.

- O amor, todavia, passará à tua porta, sob outro aspecto, po­rém. O desvario do sexo não aplaca a sede de quem aspira ao amor.

Aqueles que buscam na sofreguidão do corpo o lenitivo para a febre interior preferem não ignorar que o desespero mais produz ardência e desgaste, alucinando a razão.

“Estás presa a amarras obsessivas onde te demoras, tendo neces­sidade urgente de fugires, dali, hoje, amanhã, no mais tardar... Imediatamente.

“O Senhor, no entanto, enriqueceu-te com recursos psíquicos que te auxiliarão na escalada de luz, se te dispuseres à ascensão desde já... Ajudar-te-emos, em nome do Cristo Jesus, se te fizeres maleável à nossa voz...

“Atenta, agora, para a realidade do momento. A nossa Eduardina deseja falar-te.”

Ester, que se encontrava regularmente consciente, conduzida pelo irmão Melquíades, acercou-se de Josefa e, inspirada, abraçou-a. Am­bas, desgastadas pelos diferentes rumos que tinham as existências, eram quase da mesma idade.

— Como te abandonei — propôs Ester — na condição de tia, invigilante e perdida, ajuda-me a amparar-nos como irmãs arrependidas, em recuperação... Dá-me a mão que desprezei... Eu estava louca e não sabia.

Josefa, igualmente sofrida, abraçou-a, redargüindo:

— Ajudemo-nos, sim! Ambas precisamos de paz!

Foi o momento de dona Abigail afagar as duas moças, teleguiada pelo Mentor e amparada por Petitinga, aduzindo:

— Nas águas claras do amor dilui-se o lodo pestilento do ódio, que se desintegra e desaparece. Louvado seja Deus!

O Benfeitor conduziu o Coronel Santamaria, que estreitou as três personagens em nobre gesto de carinho, informando:

— Rogarei a Deus tornar-me digno da reabilitação a que nos propomos todos. Tudo farei por ser fiel ao Pai, a vocês e à santa fé que me infunde vida e forças ao espírito calceta.

Tomadas as providências cabíveis e proferida a prece de júbilos foi encerrado o encontro, com a carinhosa recondução dos partici­pantes aos seus compromissos habituais...

Amanhecera. A aurora, entre as nuvens ruborizadas de rosa, refletia-se sobre o mar imenso, transformado em espelho sem fim.

Um novo dia nascia com as dadivosas messes do amor de Nosso Pai.



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