Divaldo pereira franco



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A LOUCURA

No segundo caso (subjugação corporal), o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários.”



L.M. — Capítulo 23º — Item 240.
O dia imediato surgiu penumbroso, apesar da pujança do Sol e do calor que assolava a cidade. No apartamento do Coronel Santa-maria, a dor se dobrava em sucessivos esgares, destroçando os que lhe caíram nas malhas.

Ester não recobrou a lucidez. Embora a prostração que a domi­nara, após os sedativos, as crises voltaram terrificantes, enquanto a dêbil mocinha, transfigurada, tornou-se o espëcime legítimo da dese­quilibrada. Palavras obscenas e gestos vis repetiam-se ininterrupta­mente; gritos e gargalhadas constantes terminaram por enrouquecê-la. Muito pálida, com olheiras arroxeadas e manchas nas faces, tinha os lábios escuros e a expressão de olhar dura, sem luminosidade. Sacudida a cada momento por convulsões torturantes, traduzia no rosto conturbado as dores inextricáveis que experimentava.

Saindo desse estado, por instantes, parecia recobrar a claridade da razão, desvairando de imediato, a elucidar que alguém a lapidava com longo relho de que não se conseguia evadir. Nesse comenos tornava-se rubra e, se fosse observada mais detidamente, poder-se-ia verificar que alguns vergalhões lhe intumesciam a pele delicada e mar­cavam a face em congestão.

Logo retornava ao desequilíbrio, ao sarcasmo, e as ofensas se sucediam mordazes como se as Fúrias a estivessem cavalgando.

O clínico, facultativo de larga experiência, durante a primeira crise ocorrida à noite, elucidara que, se houvesse recidiva, seria de todo conveniente convidar um especialista em doenças nervosas, pois tudo indicava tratar-se de uma crise histeropata, com agravantes para um longo curso. Aquele, dissera, era o período da transição, em que se fixam os caracteres da personalidade e nos quais desbordam as ex­pressões da sexualidade, em maior intensidade. E, como bom discípulo das doutrinas freudianas, teceu considerações sobre a libido e sua ação enérgica nas engrenagens da emotividade.

Os pais, alarmados, não sabiam exatamente como proceder. Con­vidado, porém, o médico da família, este confirmou literalmente a diagnose do colega: tratava-se de um problema histérico com alar­mantes sinais tendentes a complicações mais graves, O psiquiatra se fazia necessário.

Indicada eminente autoridade em Psiquiatria, o tratamento teve início no próprio lar, sem que diminuíssem os sintomas do desequilí­brio ou se modificasse o quadro patológico como de desejar.

O estado da enferma se tornava cada vez pior, enquanto se lhe minavam as resistências físicas, pois que recusava qualquer alimen­tação, sistematicamente, sendo necessário aplicar-lhe indispensáveis medicações tônicas, de sustentação orgânica, à força.

Transcorridos três dias sob carinhosa assistência especializada e familial, sem que qualquer resultado fosse lobrigado, o psiquiatra aconselhou internamento em Casa de Saúde relevante, onde poderia aplicar técnicas próprias, a par de isolamento do grupo doméstico, em que, certamente, estavam as causas inconscientes dos traumas e distonias que a impediam retornar ao campo da lucidez.

Inconsoláveis, os pais, aflitos, aquiesceram. Sob forte sedativo, Ester deu entrada no Sanatório, localizado em recanto bucólico e praieiro do Rio de Janeiro, onde as perspectivas de recuperação da saúde pareciam auspiciosas.

Sem embargo, a utilização dos melhores recursos da moderna Psiquiatria, a jovem paciente reagia negativamente em alucinação de­morada, irreversível. Dia a dia registravam-se distúrbios novos e, no monólogo da distonia, não cessava de referir-se à vingança, à impe­riosa necessidade de lavar a desonra com o sangue da imolação de uma vítima, à justiça demorada mas sempre oportuna, ao desforço pessoal.

Um mês transcorrido e a psicopata era frangalhos.

O tratamento a que sempre resistia se lhe oferecia um aspecto de vitalidade superficial já que com o corpo volumoso, graças às dro­gas que lhe eram ministradas, a realidade expressava a insânia que dela se apossara totalmente. Não mais voltara à lucidez, por mais amplas fossem as tentativas experimentadas. A técnica do eletrocho­que não produziu, na primeira série, qualquer resultado. Pelo con­trário, fê-la hebetada, o que poderia parecer um recuo da loucura, quando, em verdade, ante a impossibilidade de reações nervosas, em face das pesadas cargas assimiladas, frenava, temporariamente, o de­salinho psíquico.

Os genitores desesperados não sabiam para que apelar.

Sem formação religiosa segura, acostumados à tradição e ao convencionalismo da fé, entregaram-se a orações formuladas por pa­lavras que redundavam em exorbitantes exigências à Divindade, sem que conseguissem lenir o coração na prece confortadora, no inter­câmbio salutar com as Fontes Geradoras da Vida. Objetivando apenas a cura da filha, mediante o concurso da oração, de que se utilizavam, como alguém que, através da prece, paga um imposto a Deus e de tal mister desagradável se desobriga. Infelizmente, não possuíam o hábito superior do dulçuroso convívio da meditação, em que se haurem expressões de vida e paz indispensáveis ao equilíbrio no carro somá­tico, retornando das experiências e vilegiaturas religiosas com o espírito ressequido e o sentimento revoltado. Surda mágoa contra tudo e todos aumentava-lhes o aniquilamento íntimo. Feridos no orgulho e esma gados na suscetibilidade a que se dão apreço na Terra das frivo­lidades, passaram a experimentar sentimentos controvertidos em rela­ção à própria filha, motivo da aflição que os compungia.

Enquanto o tempo se dobava, uma aceitação mórbida, parasitária, indolente, foi criando situação apática no lar, como já ocorria entre os facultativos que assistiam a jovem, no Sanatório. Dos cuidados iniciais, insistentes e imediatos, a uma tácita compreensão de que tudo se estava a fazer, veio o diagnóstico alarmante, irreversível:

Esquizofrenia!

A simples palavra ainda hoje constitui aparvalhante libelo.


*
Não obstante as excelentes experiências realizadas pelo eminente psiquiatra americano, dr. Sakel, em Viena, nos idos de 1933, cujos resultados apresentou a três de novembro daquele ano, através da convulsoterapia em que aplicara o metrazol, depois a insulina, abrindo as portas ao eletrochoque, a partir de 1937, após um Congresso Psi­quiátrico em Roma, ocasião em que os preeminentes drs. Bini, Kali­nowski e Cerlletti chegaram à conclusão da excelência do método do choque controlável, capaz de produzir anoxemia sem qualquer pertur­bação para o aparelho circulatório, particularmente a bomba cardíaca, do que resultaram admiráveis contribuições à saúde de diversos psico­patas esquizóides. A distonia esquizofrênica, porém, prossegue, sendo dos mais complexos quadros da patologia mental, revelando-se nas quatro fases cíclicas e graves do Autismo, Hebefrenia, Catatonia e Paranóia...

Assim, a loucura, apesar das avançadas conquistas Psiquiátricas e Psicoanalíticas, continua desafiador enigma para as mais cultivadas inteligências. Classificada na sua patologia clínica e mapeada carinho­samente, os métodos exitosos nuns pacientes redundam perniciosos noutros ou absolutamente inócuos, inexpressivos. Isto, porque, a tera­pia aplicada, apesar de dirigida ao espírito (psiquê), não é conduzida, em verdade, às fontes geratrizes da loucura: o espírito reencarnado e aqueles Espíritos infelizes que o martirizam, no caso das obsessões.

Fixados, no entanto, aos princípios materialistas que esposam, muitos cultores da Ciência fecham, propositadamente, os ouvidos e os olhos às experiências valiosas que ocorrem a cada instante fora dos seus limites, como a desdenhar de tudo que lhes não traga a chancela vaidosa da Academia, que não poucas vezes se utilizou do resultado dos fatos observados fora dos seus muros e fronteiras, para elaborar as bases de muitas das afirmações que ora são aceitas por legítimas.

A psicoterapia e os métodos admiráveis psicoanalíticos, como as orientações psicológicas hão logrado, como seria de esperar, resul­tados favoráveis algumas vezes, especialmente quando as causas da loucura, do desequilíbrio psíquico ou emocional são individuais ou gerais (conforme a classificação de alguns expoentes da doutrina psiquiátrica), psíquicas e físicas. Nestas últimas, se examinadas sob o ponto de vista da importância endógena ou exógena (no caso do abuso do fumo, barbitúricos, alucinógenos, álcool e outros), como das infecções e traumatismos, possivelmente se conseguem expressi­vos êxitos na aplicação clássica do tratamento.

Merece, porém, considerar, o a que denominamos de causas cármicas, aquelas que precedem à vida atual e que vêm impressas no psicossoma (ou perispírito) do enfermo, vinculado pelos débitos tran­satos àqueles a quem usurpou, abusou, prejudicou e que, ainda que mortos, não se aniquilaram na vida, havendo apenas perdido a forma tangível, sempre transitória e renovável.

Na atualidade, graças ao empenho do Espiritismo, a alma hu­mana, o Espírito, já não pertence à velha conceituação de “sombra trágica”, de Homero ou “o enigmático e transcendente hóspede da glândula pineal”, de Descartes, antes é um ser perfeitamente identi­ficável, com características e constituição própria, que se movimenta à vontade, edificador do seu destino, graças às realizações em que se empenha. Conseqüentemente, a vida espiritual deixou de ser imaginária, concepção ingênua dos antigos pensadores éticos que recor­riam ao fantasioso para traduzir o que não conseguiam compreender.

Estruturada em realidades que escapam às denominações con­vencionais, a vida prossegue em mundos que se interpenetram ao mundo físico, ou se desdobram além da esfera meramente humana, ou se fixam a outros centros de força de atração, no Sistema Solar e fora dele, a multiplicar-se pelas incontáveis galáxias do Universo. E o ser, na sua viagem incessante, evolute de experiência a experiência, de mundo a mundo, de esfera a esfera, até libertar-se das baixas faixas da sensação, donde proveio, na busca da angelitude a que aspira.

Ante a terapêutica da Psiquiatria Moderna, que desdenha a con­tribuição dos conceitos filosóficos e religiosos, merece evoquemos o pensamento do dr. Felipe Pinel, o eminente mestre e diretor de L’Hospice de la Bicêtre, a cuja audácia muito deve a ciência psiquiá­trica: “L’hygiene remonte jusqu’au temps des plus anciens philoso­phes” (*)• Isto, porque, da observação empírica à racional, nasceram as experiências de laboratório que, a princípio estribada em conceitos ético-filosóficos, resultantes do acúmulo dos fatos, passou ao campo científico como estruturação da realidade.

Entretanto, aferrados ao ceticismo, esses estudiosos da Ciência, mesmo diante dos fatos relevantes, permanecem fixados aos conceitos em que se comprazem, sem avançar, realizando conotações, compa­rações com outros resultados procedentes de outros campos.

Não há muito, por exemplo, o dr. Wilde Penfield, no Instituto Neurológico de Montreal, realizando uma cirurgia cerebral com anes­tesia local, percebeu que, estimulando eletricamente determinados centros do encéfalo, fazia que a paciente recordasse lembranças mortas, como se as estivesse vivendo outra vez.

Ao invés de logicar face à possibilidade de estar diante dos depó­sitos da memória que o Espírito guarda, consubstanciou a velha teoria de que aquela retém as lembranças por um mecanismo de impulsos elétricos encarregados de registrar todas as ocorrências... Como mais tarde outros pesquisadores encontrassem compostos químicos nas células dos nervos encarregadas de tal mister, conceberam a teoria de que tais arquivamentos são fruto da presença desses compostos,
(*) “A higiene remonta exatamente aos tempos dos mais antigos filósofos.”

Nota do Autor espiritual.
já que os modestos impulsos elétricos, que se descarregam com facilidade, não poderiam possuir durabilidade para conservar evocações de longa distância desde o tempo em que as mesmas ocorreram. E ninguém verificou a possibilidade das lembranças de outras vidas, igualmente impressas no cérebro, hoje largamente evocadas através da hipnose provocada como da recordação espontânea, testadas em diversos laboratórios de Parapsicologia.

Dia surgirá, porém, em que a Doutrina Espírita, conforme no-la apresentou Allan Kardec, se adentrará pelos Sanatórios, Frenocômios, Casas de Saúde e Universidades, libertando da ignorância os que jazem nos elos estreitos da escravidão de uma ou de outra natureza. À semelhança do dr. Pinel, que libertou das algemas os pacientes de Bicêtre, em 1793, e logo depois Esquirol que fez o mesmo, ensejando uma nova era à terapia psiquiátrica, o Espiritismo, também, a seu turno, penetrará nos velhos arcabouços e nas catedrais da cultura e de lá arrancará os padecentes algemados à loucura, à obsessão, projetando luz meridiana e pujante, sugerindo e aplicando a tera­pêutica espiritual de que todos precisamos para elucidar o próprio ser atribulado nos diversos departamentos da vida por onde jornadeia.



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