Divaldo pereira franco



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PENOSAS REFLEXÕES


Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há-de ser anterior a essa vida, isto é, há-de estar numa existência precedente”.

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” — Capítulo 5º — Item 6.



Sem dúvida, para o Coronel Constâncio e Senhora, o desequilíbrio que vítimava Éster significava inominável tragédia.


Logo passados os terríveis primeiros dias, em que a surpresa conseguira obliterar a lógica do raciocínio ante os acontecimentos, adveio a intolerável adaptação à realidade: Éster enlouquecera e o processo que a aturdia se caracterizava por parcas possibilidades de recuperação. O fantasma do desespero rondava, portanto, a família vencida, em prostração moral indescritível.

O tempo transcorria lento, traumatizante, desanimador. O especialista encarregado de assistir a jovem não ocultava a estranheza, face ao comportamento inusitado da enferma. O quadro clínico era desalentador, tal o desgaste orgânico de que se via objeto.

Atendida pelo eletrochoque, após a convulsão e o repouso, não retornava à lucidez, como seria de desejar, por um momento sequer. À prostração sucedia, surpreendentemente, maior tresvario.

A jovem, de lábios de mínio, jamais proferira expressões obsce­tas, pois fora educada com refinamento, sem maior condicionamento inconsciente de vis palavras, agora estorcegava, maquinal, verbetes infelizes para esbordoar moralmente o genitor, qual se estivesse do­minada por ignominiosa força inteligente que a governava, desgover­nando-a.

Na literatura psiquiátrica que compulsara — refletia o esculá­pio — a paciente não tinha menecma, era especial, porqüanto mudava de características a todo instante, como se voltivoando em persona­lidades estranhas.

Reagia à convulsoterapia de forma negativa, e a terapêutica do sono não conseguira o êxito cobiçado. Recusava-se à alimentação como se estivesse com a boca impedida, fazendo-se mister obrigá-la a ali­mentar-se contra sua vontade.

As terapias várias naquele primeiro mês foram inócuas, quando não se fizeram perniciosas.

Após conferenciar com eminente colega, terminou por confessar ao senhor Coronel o próprio embaraço que, todavia, não significava receio ou fracasso. Pacientes havia que somente apresentavam os pri­meiros sinais de melhora depois de longo tratamento realizado através dos meses.

A providência em apresentar honestas informações, justificava como salutar medida para impedir a inquietação crescente e a vã expectativa dos genitores por uma pronta, imediata recuperação da enferma, o que estava sendo improvável.

A realidade é que o problema psíquico de Ester se enquadrava noutra diagnose, dificilmente constatada pelos métodos tradicionais do agrado puro e simples do academicismo dos que se permitem a fatuidade, evitando o aprofundamento nas questões que dizem respeito à vida espiritual, à sobrevivência ao túmulo, à obsessão!

Com esse adicionar de preocupações e sob a torpe desventura da incerteza quanto à restauração mental da filha, o senhor Coronel fez-se taciturno, arredio, transformando-se em inditoso sofredor.

Intimamente não podia aceitar a conjuntura que o alcançava, absurda sob qualquer ângulo que examinada.

Homem íntegro, sua vida era uma excelente folha de serviços à Pátria e à Arma a que se dedicara, aliás com excessivos zelo e pudicícia.

Desde jovem cursara a Academia Militar, onde formara com rigidez a personalidade, o caráter, disciplinando a vontade com férreo esforço. Amante da verdade, tornara-se defensor do direito, da justiça, da lealdade.

Cultor das amizades relevantes, sabia distinguir afeições e deve­res, sem perturbar-se com as questões de pequena monta.

Aos cinqüenta e seis anos de idade podia considerar-se feliz, até à data do infortúnio que o propelira de chofre ao desar... Con­sorciado em segundas núpcias com dona Margarida Sepúlveda de San­tamaria, de tradicional família fluminense, reencontrara a dita que a morte lhe arrebatara, ao falecer a primeira esposa, que lhe não dera filhos, depois da breve enfermidade que a vítimara.

Senhora formosa e sensível poetisa, fora educada em elegante e primoroso colégio carioca, onde auferira invejável cultura. Dedi­cada aos bons livros, aprimorara aptidões na convivência com a literatura francesa de Montaigne a Molière, a Sartre, de Rousseau, Hugo, Balzac, Saint-Exupéry, de Lammartine, Sainte-Beuve, a Flau­bert... Cultuava os seus autores prediletos e os poetas românticos no original. Desde que se consorciara, fizera do lar o agradável taber­náculo dos saraus culturais entre amigos e admiradores do Roman­tismo, da literatura refinada.

O transe que a vencia dilacerava-a mortalmente. Por mais que reflexionasse não alcançava as matrizes patológicas que justificassem o tormento que excruciava a filha.

Nenhum membro da sua família, até onde alcançava as linhas da árvore genealógica, fora portador de alienação mental de qualquer natureza. O lar sustentava-se sobre admiráveis bases de equilíbrio moral, emocional, econômico, e Ester jamais revelara qualquer traço de desequilíbrio, insegurança, nevrose... Filha extremosa, possuía excelentes qualidades intelectuais de que dava mostras na Escola onde era modelo: amada por todos — mestres e colegas — e cumpri­dora responsável das tarefas que lhe diziam respeito.

Visitando-a mais de uma vez, não obstante a negativa dos espe­cialistas, alcançara o tentame, apelando para o receio de não suportar a vida sem rever a filha. Assim pudera, a distância, contemplá-la durante a hibernação, desfigurada, sem conseguir deter as lágrimas. Uma dor moral de tal monta convertera-se numa inqualificável dor física que a estiolava de dentro para fora.

Na sua mudez, refletia o Coronel, a seu turno, revoltado, ante a cruel vicissitude em que se sentia emaranhado irreversivelmente.

Um pesadelo! Sim, um pesadelo, considerava a desdita. Acor­daria de inopino e reveria o sol dos sorrisos no firmamento do seu lar. Quando se conseguia evadir das férreas garras do sofrimento que se insculpira à brasa no seu cérebro, experimentava ligeira ilusão de que tudo aquilo era irreal.

A filha adorada, sonho transfigurado em fada de perfeição, não poderia estar encarcerada num hospício. Sim, num hospício, embora de alto preço. A vergonha, a hediondez da doença que transforma um ser inteligente num asqueroso animal — isto era inaceitável haver acontecido consigo, pior, com o querubim diretor do céu das suas venturas: a filha!

O homem, que raras vezes umedecera os olhos no fragor da guerra, naqueles tumultuados dias do inverno de 1944 e da primavera de 1945, agora se surpreendia com as lágrimas abundantes, que extra­vasavam da ânfora do coração sob camarteladas contínuas.

Não poucas vezes, abraçado à esposa, naqueles terríveis silêncios, caminhando pela Avenida, em frente ao mar e sob o zimbório salpi­cado de estrelas, evadia-se na direção da cela em que delirava, trans­tornada, a carne da sua carne, o rebento querido da sua vida. Que não daria, por poupá-la a tais sofrimentos!

Enlaçados na mesma dor e braços unidos, caminhavam a sós, vencendo o tempo, soturnamente, e apesar da agitação trepidante da larga e decantada orla perolada em lâmpadas feéricas de Copaca­bana, estavam sozinhos, fundidos na hedionda sortida da amargura aniquilante.

— Deus não existe! — resmungava, por fim, após as inúteis peregrinações mentais, pelos meandros da lógica materialista.

Todavia, o sabor da ira mal contida e do desespero revoltado mais lhe açodavam o ser extremunhado, na via do combalimento.

O que lhe representava pior, em toda a tresloucada investida da jovem alucinada, é que ele surgia na condição de algoz impenitente, odiento, aterrador...

Desejou vê-la uma única vez para lenir-se um pouco e luarizar a saudade. Ao formular o desejo ao médico, que não aquiesceu como compreensível, veio a saber, a posteriori, que ela lhe adivinhava a cogitação, apresentando-se, então, mais transtornada, mais agressi­va... A agitação que a espezinhava não tinha termo. Era lancinante.

— Se ela morrer — arrematava, a concluir os raciocínios intér­minos — suicidar-me-ei.

Aliviava-se com esse pensamento pernicioso, acalentando a vã idéia de, na morte, encontrar a cessação da vida e, na desorganização dos tecidos, perder a razão, a lucidez, desagregar o pensamento.

O infortúnio, porém, é mais sombrio e truanesco quando se faz acompanhar dos sorvos contínuos do ácido da revolta; principalmente dessa mal contida aversão ao fato afugente que faz oscilar da apatia à agressividade, gerando um estado de surda, permanente mágoa que é a desatreladora dos corcéis da desgraça real.

O orgulho penetrado pela verruma das Leis inescrutáveis reage, cercando-se de espículos envenenados pelo desconforto que a reali­dade lhe impõe, para colimar no simplismo do autocídio, o cobarde delinqüír que traça a linha inicial das hórridas paisagens que aguar­dam o infrator que se torna seu sequaz.

O homem forte nos embates externos somente afere as poten­cialidades quando luta sem quartel nos campos morais em que se consagra vencedor. Para tais cometimentos, a humildade e a fé constituem os mais hábeis valores de que se pode dispor com êxito, porqüanto portadores da fortaleza indispensável para qualquer situa­ção.

Acostumado às alturas do prestígio e da bajulação requintada, o matrimônio Santamaria não dispusera do imprescindível tempo para as reflexões em torno do sofrimento, que não constitui patri­mônio exclusivo da ralé, dos habitantes dos pardieiros imundos onde rebolcam os esquecidos da Terra...

A religião deveria ter-lhe dito que a sua não era uma existência de exceção, na qual somente a glória e o riso possuíssem o condão mágico para o regime permanente. As meditações que não foram experimentadas antes faziam-se indispensáveis, agora, enquanto espe­ravam sem a convivência da resignação e da paciência.

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