Divaldo pereira franco



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INTERFERÊNCIA ESPIRITUAL

Imaginamos erradamente que aos Espíritos só caiba manifestar sua ação por fenômenos extraordinários. Quiséramos que nos viessem auxiliar por meio de milagres e os figuramos sempre armados de uma varinha mágica. Por não ser assim é que oculta nos parece a intervenção que tem nas coisas deste mundo e muito natural o que se executa com o concurso deles.



Assim é que, provocando, por exemplo, o encontro de duas pessoas, que suporão encontrar-se por acaso; inspirando a alguém a idéia de passar por de­terminado lugar; chamando-lhe a atenção para certo ponto, se disso resulta o que tenham em vista, eles obram de tal maneira que o homem, crente de que obedece a um impulso próprio» conserva sempre o seu livre arbítrio”.

O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Questão 525 — Comentário.


Na sua festa de aniversário, Ester fora surpreendida pela agressão de revoltado Espírito que, acoimado por violenta crise de ódio, en­controu na sua sensibilidade mediúnica o campo propício para a incorporação intempestiva quão infeliz.

Assenhoreando-se das forças medianímícas da jovem, o obsessor, na sucessão dos dias, imantou-se-lhe quanto pôde ao campo psíquico, culminando no lamentável e longo processo de subjugação.

Compreensivelmente, Espírito em débito ante os Códigos da Divina Justiça, possuía os requisitos para uma sintonia perfeita, propícia ao agravamento do problema.

À sua semelhança na “Casa de Saúde”, onde expiava os delitos ultrizes do passado, muitos outros pacientes eram vítimas da cons trição obsessiva. Fugindo à etiologia clássica da loucura, na qual o enfermo é Espírito que busca fugir à realidade objetiva, fortemente assinalado pelas reminiscências próximas em que chafurda, torna-se suicida inconsciente por meio de cujo recurso procura evadir-se às responsabilidades novas que lhe cumpre assumir e desenvolver, a fim de liberar-se.

Naturalmente, eclodindo a manifestação da loucura, instala-se, também, um simultâneo processo obsessivo, graças às vinculações que mantêm encarnados e desencarnados na Contabilidade dos de­veres múltiplos, poucas vezes desenvolvidos com retidão.

Na obsessão, a loucura surge na qualidade de ulceração poste­rior, irreversível, em conseqüência das cargas fluídicas de que padece o paciente, vítimado pela perseguição implacável.

Face à insidiosa presença de tal energia deletéria, desarticulam-se o equilíbrio emo­cional, a estabilidade nervosa, o metabolismo orgânico e, pela intoxi­cação de que se vêem objeto, vários departamentos celulares se de­sorganizam, envenenando-se, ulcerando-se.

Através de tal esquema em muitos processos obsessivos, a tera­pêutica salutar há de ser múltipla: acadêmica e espírita, imprescin­díveis para colimar os resultados eficazes.

No caso específico de Ester, encontravam-se como agravantes múltiplos fatores cármicos, que aumentavam o sofrimento da atur­dida obsessa.

Como ninguém se encontra marginalizado ante os recursos divi­nos, a presença de Rosângela representava o recurso inicial utilizado pelos Benfeitores Invisíveis para os primeiros tentames favoráveis à alienada, embora jamais houvesse ficado sem a superior assistência.

Profundamente amadurecida, não obstante a pouca idade física, a auxiliar de Enfermagem experimentara desde cedo o cadinho puri­ficador de muitas vicissitudes e aflições, que contribuíram para a harmonia íntima de que se fazia possuidora.

Órfã desde os oito anos, ficara aos cuidados paternos, em subúrbio carioca, lutando com bravura pela sobrevivência.

Sensível e meiga, conseguira granjear afeições espontâneas entre os vizinhos, que passaram a assisti-la com desvelo, inclusive matri­culando-a em escola primária próxima ao lar. O pai, diligente, traba­lhava afanosamente, mantendo-se viúvo quanto pôde. Consorcian­do-se, alguns anos depois, a esposa fez-se terrível adversária da enteada, que foi, então, trasladada para digno lar em Botafogo, onde se alojou, na condição de ama de criança... À medida em que o tempo se desdobrava, natural, conquistou a amizade dos patrões que, em lhe identificando o drama resignado, resolveram socorrê-la da maneira mais favorável. Espíritas convictos, adestraram-na, membro da família em que se convertera, na grandiosidade dos estudos doutrinários, cuidando, também, da sua instrução, através do ingresso em Ginásio noturno, donde estava recém-saída, após concluir ligeiro curso de enfermagem-auxiliar a cujo mister agora se entregava. Participando dos labores espiritistas, aguçaram-se-lhe as faculdades mediúnicas, que receberam carinhoso e lúcido trato dos benfeitores, encaminhando-a ao Centro Espírita, onde passou a cooperar nos benéficos ser­viços de socorro desobsessivo.

Ao defrontar Ester, pressentiu a tragédia que se desenvolvia além das manifestações exteriores da paciente. Simultaneamente, po­derosa simpatia brotou-lhe dos sentimentos puros, envolvendo a ator­mentada, desde então, na devoção das suas preces e vibrações.

Inspirada pelos seus e pelos Guias Espirituais da doente, foi-se, a pouco e pouco, acercando, até conseguir com a simples presença acalmá-la, desembaraçando-a da “camisa-de-força” a que vivia jugu­lada, quando não se encontrava sob as altas doses de sedativos que lhe eram impostas com regular freqüência.

Suas horas de folga as dedicava à moça, que nem sempre a recebia com qualquer lucidez ou passividade. Todavia, pelas emana­ções psíquicas que exteriorizava, conseguia neutralizar a agressivi­dade do obsessor, que se lhe submetia à força moral, como se fora uma energia balsamizante que se contrapunha à sua nefasta pertinácia.

Emocionada, inteirou-se do terrível sofrimento da tutelada, me­diante o conhecimento da “história clínica” e por meio de informa­ções que logrou recolher discretamente.

Aconselhando-se com os tutores, resolveu-se procurar os pais da internada, na pressuposição de elucidá-los sobre a enfermidade da filha. Confiava poder ajudar, fiel à recomendação evangélica.

Solicitando por telefônio uma entrevista formal com o senhor Coronel e Senhora Constâncio Santamaria, foi recebida em clara manhã de setembro no apartamento outrora feliz, ora transformado em triste refúgio de amarguras e reminiscências dolorosas.

Acolitada pelos Espíritos Benfazejos que a amparavam, ao apre­sentar-se com natural timidez e constrangimento, não lhe, passou des­percebido o enfado refletido na face dos anfitriões.

Sentia-se vistoriada com enérgica observação, e não fossem as excelências dos propósitos que a animavam, teria solicitado excusas, recuando...

Na conjuntura, firmemente teleguiada pelos Espíritos, falou sem rebuços:

— Rogo-vos permissão para elucidar, que afeição muito grande, e até certo modo inexplicável, liga-me a Ester, de quem me fiz encarregada no Hospital, por solicitação espontânea.

O casal, emudecido, surpreso, escutava-a, sem dissimular o desin­teresse pela sua presença.

Depois de breve pausa, continuou, ante o mutismo descortês dos ouvintes:

— Venho cuidando dela há mais de um mês, sem conseguir-lhe uma palavra de equilíbrio, que denotasse raciocínio, exceto...

— Exceto? — inquiriu a senhora.

— Exceto há poucos dias — prosseguiu — quando, muito debi­litada, num breve momento, pareceu recobrar a claridade mental, balbuciando: — “Mamãe! mamãe, onde você está?... Tenho medo, mamãe...

— Oh! meu Deus! — exclamou, em pranto incontrolável, a dorida senhora.

— Acalme-se, meu bem! — Acudiu o esposo, igualmente la­crimoso.

— Perdoai-me trazer-vos a renovação das lágrimas... — Inten­tou a auxiliar, emocionada, a seu turno. — Sucede que acompanho Ester como somente o faria a uma irmã muito querida e com o senso de observação aguçada, comparo-a a outros enfermos, anoto, percebo o que muitos não conseguem ou talvez prefiram não ver...

— Como assim? — interrompeu-a o senhor Coronel. — Por favor, seja mais clara, diga-nos o a que veio. Nossa filha é hoje o pouco e o tudo da nossa inditosa existência... Você também é tão jovem, que não consigo ficar à vontade... Parece-me imatura, sem experiencia... Todavia, somos ouvidos atentos. Prossiga!

— Senhor Coronel — iniciou Rosângela — Ester não é uma louca segundo os padrões comuns, tradicionais..

— Sim, sim — interrompeu-a o Coronel Constâncio — nós o sabemos. Seu psiquiatra já no-lo asseverou o mesmo.

— Não, por favor — atalhou Rosângela — ouvi-me primeiro... Não é comum porque não a considero louca.

— Digo bem! — assegurou, calma e lúcida, dirigida espiritual­mente. — uma obsessa por Espíritos!

— Não compreendemos a alusão, que nos parece absurda. —Interceptou-a, o interlocutor, azedo.

— Ouvi-me primeiro — solícitou, confiante. — A morte não elimina a vida; antes a dilata. Mudam-se as aparências, no curso de uma única realidade: viver! Assim, com a morte do ser físico não cessam as impressões do ser espiritual, conforme asseguram todas as religiões, do que decorre um natural intercâmbio, incessante, entre os que sobrevivem ao túmulo e aqueles que ainda não o atravessaram. Retornam, felizes ou desventurados, os que foram conduzidos ao país da morte, seja pelo veemente desejo de ajudar os afetos da reta­guarda, adverti-los e confortá-los, com eles mantendo agradável comunhão; seja vítimados pelo sofrimento com que se surpreenderam, buscando ajuda e, muitas vezes, perturbando; seja dominados pelas paixões inditosas de que não se conseguiram libertar, perseguindo, distilando ódios, obsidiando, em incessante conúbio...

— Mas isto é bruxaria! — interrompeu-a, quase violento. —Aqui somos tradicionalmente religiosos e detestamos essas práticas vulgares de fetichismo que, desgraçadamente, empestam, nestes dias, a nossa Sociedade... Rogo-lhe o favor de mudar o curso da conver­sação. Aliás, creio que já não temos o que conversar.

Rosângela tornou-se lívida, enquanto o progenitor de Ester estava rubro de ira, furibundo. Sob o verniz social, agasalhavam-se muitos estados de ferocidade.

Diga-me, senhorita: — Interrogou-a, áspero. — Qual a sua re­ligião?

— Espírita, senhor!

— Desde quando o Espiritismo é religião?

— Desde os primórdios.

— Atrevida e petulante. Vir à minha casa arengar sobre magia negra, superstição, como se fôramos pessoas ignorantes, pertencentes às classes inferiores que se comprazem, por fuga psicológica e misé­rias, nessas práticas, de que faz falta a repressão policial enérgica. Antes de retirar-se, responda-me: nos hospitais, agora, se permitem bruxos e macumbeiros entre os seus servidores?

— Querido!... — exclamou a senhora — Não se encolerize.

— Isto mesmo. — Redargüiu. — Diga-me!

A jovem estava perplexa, porém lúcida, e tefletia: “Como a verdade é proposital, comodamente ignorada! Quão poderoso é o cerco do orgulho, que separa homens por dinheiro, posição, aparên­cia, apesar de todos marcharem inexoravelmente para uma mesma direção: a consciência que os examinará despidos dos engodos a que se aferram!” Inspirada, contestou, delicadamente:

— Excelência, aqui venho propondo-me servir com humildade e desinteresse. A minha confissão religiosa não tem ligação com a minha modesta função hospitalar, senão para impor-me a conduta cristã, que ensina misericórdia em relação aos infelizes: estejam nas camadas do infortúnio social ou no acume da ilusão econômica. No santuário espiritista, que freqüento, o alvo redentor é Jesus, a estrada a percorrer chama-se caridade, seguindo sob o sol da fé viva e a força do amor fraternal. Venho a este lar em missão de paz e dele sairei pacificada, sem embargo, expulsa, o que muito lamento, não por mim, que reconheço a minha própria desvalia... O vaso modesto não poucas vezes mata a sede, oferta o medicamento salvador, retém o perfume, atende a misteres relevantes, enquanto preciosas taças de cristal lapidado adornam, mortas, empoeiradas, móveis luxuosos e inúteis...

O Coronel Santamaria e esposa ouviam-na, incomodados pela argumentação superior, apresentada com humildade, impossibilitados de a interromperem, magnetizados pelos Instrutores Espirituais pre­sentes.

Enquanto isso, semi-incorporada, Rosângela aduziu:

— “Brilhe a vossa luz” — conclamou o Cristo — para que o mundo vos conheça. A luz da verdade fulgurará, apesar das mil tenta­tivas da Treva em domínio transitório, Os pseudobruxos que a into­lerância fez queimar, ao perecerem, não deixaram silenciosas as Vozes, que retornaram e volverão até instalado na Terra o “reino de Deus”.

E após rápida reflexão:

— Continuarei velando por Ester...

— Nunca mais! — Esbravejou o senhor Coronel, que rompera o mutismo obrigatório a que estava subjugado. — Providenciarei para que não volte a vê-la, caso não resolva exigir a sua expulsão daquele Frenocômio.

— Como lhe aprouver, excelência. Dai-me vossa licença. Bom dia, senhores, passai bem.

E retirou-se. O dia seguia bonançoso, tépido. O vento e a ma­resia que corriam pela Avenida Atlântica, aspirados em longos haustos pela jovem servidora da esperança, despertaram-na. Só, então, conca­tenando idéias e ordenando lembranças, deu-se conta dos aconteci­mentos, sendo visitada pelos receios e as lágrimas.

Rosângela fora excelente instrumento indireto dos Bons Espí­ritos, que tentavam, desse modo, interferir e ajudar no grave sucesso da subjugação de Ester.



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