Divaldo pereira franco



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FORÇAS EM LITÍGIO

Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei, mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes que semear, porqüanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangéli­cas. Ide e pregai!”

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” — Capítulo 20º — Item 4.
Embora as qualidades morais que exornavam o caráter do Co­ronel Santamaria, era ele um homem temperamental. Forjado na escola do dever, desenvolvera-se-lhe, simultaneamente, o orgulho em que apoiava decisões e atitudes, sem embargo, probo e justo quanto possível sê-lo.

Com a enfermidade que dominava Ester, fazendo pe­recer os entusiasmos e aspirações de pai, a amargura solapou-lhe as alegrias, e o azedume contumaz transviou-o para as rotas de surda revolta contra todos, contra tudo, reagindo, em volta, por ignorar os móveis legítimos da aflição e poder removê-los, adquirindo, assim, a necessária serenidade para suportar as vicissitudes habituais na existência humana.

Tornou-se arredio, fechando ainda mais o círculo de amizades, somente saindo de raro em raro, razão por que mais aflitiva se lhe tornava a conjuntura.

Freqüentador de uma igreja religiosa, não possuía fé verdadeira. Habituara-se ao mecanismo da ritualística e, como antes não houvera experimentado o travo das lágrimas, não se exercitara na comunhão com Deus nem chegara a cultivar colóquios com o Mundo Espiritual. Nos primeiros dias da aziaga desesperação recorrera à Divindade, guindado à falsa posição de impositor, sem os lauréis do humilde requerente que confia. Ë natural que se deixasse desesperar. A oração vazia de expressão espiritual não conseguira leni-lo: eram palavras sem tônica de amor nem fé.

Guardava, no entanto, insculpido na vaidade social, o rótulo de uma crença em que não participava de forma alguma. Acredi­tando-se merecedor da subserviência divina, por acomodação e igno­rância, subvertera a ordem das posições entre ele e Deus, graças a cumplicidade clerical, sempre disposta à distorção dos lídimos ensi­nos do Cristo, a fim de agradar os conspícuos transitórios vence­dores no mundo, a que se submete por desmedida ganância de desta­que terreno.

Por isso, atribuiu à coragem de Rosângela os laivos da petulân­cia e do atrevimento, por incomodá-lo com as arremetidas do socorro que se via impossibilitado de receber. O orgulho é cruel inimigo do homem, porqüanto, envenenando-o, cega-o, totalmente. Simultanea­mente, graças à psicosfera da felonia que cultivava, passou a sinto­nizar com outras mentes amotinadas que lhe cercavam o lar, em plano concorde com o perseguidor de Ester, planeando alcançá-lo mais duramente... Rosângela, representando o auxílio divino indireto, fora expulsa pelos vingadores desencarnados, que lhe sabiam dos propósitos elevados.

Ferido na insensatez do orgulho desmedido, aguardou que pas­sasse o domingo dourado e, no dia imediato, fortemente conduzido pelos adversários desencarnados com quem sintonizava, nos últimos tempos, foi queixar-se à direção do Hospital, com as tintas carrega­das da irritação, sobre o procedimento da moça. Exigia que ela não voltasse a qualquer contato com a filha. Certamente não lhe impunha a demissão, todavia, propunha severa admoestação, de que redun­dasse, na próxima vez, expulsão dos serviços pelo perigo que representava sua convivência junto aos pacientes. Vã cegueira da Huma­nidade! Luta inglória contra o aguilhão!

Saindo aturdida do apartamento palaciano e trazida à realidade objetiva pelo afago da natureza festiva, Rosângela não dominou as lágrimas. Receio injustificável assaltou-a, e a antevisão da perda do trabalho afigurou-se-lhe como odiento fantasma de rude fracasso.

Caminhou um pouco, algo desarvorada, sentou-se próxima ao mar, deu vasão aos sentimentos desconexos, depois recordou-se da prece, deixando-se arrastar pelas lucilações e consolos da oração. Mesmo no regorgitar da praia imensa, vestida pela multidão quase despida, sentia-se a sós em intercâmbio com os seus Protetores, do que lhe resultou renovação íntima, paz reconfortante.

Logo refez-se, volveu ao lar, adiando a exposição dos resultados da entrevista.

Os domingos, na residência do dr. Gilvan de Albuquerque, eram o dia dedicado aos estudos do Evangelho, em estreito círculo de amigos e familiares.

O dr. Gilvan era pediatra próspero, que residia na praia de Botafogo. Ultrapassara os 50 anos, havendo constituído uma família ditosa.

D. Matilde, sua esposa, era o exemplo da abnegação cristã, e o seu domicílio tornou-se núcleo de recolhimento espiritual, no qual Mensa­geiros da Luz encontravam vibrações superiores para o ministério a que se afervoravam, no socorro aos padecentes de ambos os planos da vida. Genitores de uma filha única, Márcia, esta, ao consorciar-se, enriqueceu-os com a bênção de linda menina: Carmen Sílvia. Residiam todos juntos, por insistência do dr. Gilvan, que, devotado, conseguira a aquiescência do genro, tido como filho do coração. Rosângela viera para pajear a criança.

Trasladando-se, porém, há menos de dois meses para um curso de especialização nos Estados Unidos, os jovens nubentes seguiram com a filha, deixando a servidora ao lado dos pais, na condição de familiar, conforme lograra pela abnegação e demais dotes de espírito de que a moçoila se revestia. Nesse ínterim, o benfeitor localizara-a para trabalhar na Casa de Saúde.

Estudando e praticando metodicamente o Espiritismo, a família apurara a sensibilidade moral e psíquica, entesourando valores ina­preciáveis com que se dispunham ao nobre labor do bem. Os deveres espirituais, livremente abraçados, eram desenvolvidos em clima de severidade e otimismo, gozando de primazia em qualquer circuns­tância. Os “vícios sociais”, inocentes na aparência quão perniciosos na realidade, foram dali expulsos, e as conversações edificantes, leitu­ras seletas, entremeadas de opiniões e humor agradável, constituíam serões que restauravam as forças, revigorando o espírito após os quefazeres do cotidiano.

O Espiritismo naquele domicílio tornado santuário constituía lídima ventura, caracterizando uma típica família cristã.

O “culto evangélico do lar”, como natural conseqüência, se fazia realizar entre gáudios e esperanças. Música suave do clássico universal predispunha os assistentes, antes da reunião ao recolhimento, à õração, em cujos momentos acalmavam-se-lhes as atribulações, desligavam-se dos atros problemas e desembaraçavam-se dos fluídos perniciosos. O grupo reduzido constituía-se de doze a quinze pessoas, em freqüência habitual, interessadas na reforma íntima, empenhadas na auto-ilumi­nação.

Às 20:00, pré-estabelecidas para o início da reunião, acerca­vam-se da mesa sob a direção do dr. Albuquerque, encarregado de conduzir os estudos.

Naquela noite, sob as fortes impressões do acontecimento da manhã, Rosângela sentia-se confrangida. Ninguém a constrangera a explicações. Ali a liberdade e a confiança se afagavam, facultando perfeita compreensão dos deveres e dos direitos. Não havia imposições.

Ato contínuo à prece de abertura, procedida com discreta emo­tividade pelo orientador da tarefa, dona Matilde tomou de “O Evan­gelho Segundo o Espiritismo”, confiante, e, impulsionada pelos Men­tores Espirituais presentes, abriu-o no Capítulo número XX: “Os tra­balhadores da última hora” e leu o subtítulo: “Os obreiros do Senhor”. Um leve sorriso de júbilos delineou todos os lábios, por saberem que aquela era a instrução vertida do Alto para conduzi-los e sustentá-los nas lutas porvindouras. Com voz pausada e boa dicção a nobre se­nhora começou a ler:


5. “Aproxima-se o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a cari­dade! Seus dias de trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado. Ditosos os que hajam dito a seus irmãos: Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra, porqüanto o Senhor lhes dirá: Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio às vossas rivalidades e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!”
A palavra bem articulada com inflexão de sadia emotividade contagiante prosseguiu até o fim da eloqüente mensagem ditada pelo Espírito de Verdade, em Paris, em 1862, que seria o tema central dos comentários e estudos da noite. Com ordem, os componentes do grupo respigaram opiniões, entretecendo conceitos e comparações àqueles dias, com que se ensejavam a levantamento de ânimo e predisposição para os ardorosos trabalhos, em considerando a “última hora”, em rápida andadura. Inspirados, adaptavam-na às próprias necessidades, formulando conotações valiosas em relação a outras lições das demais Obras da Codificação, especialmente “O Livro dos Espíritos”, que, passo seguinte, foi lucidamente examinado.

O ambiente respirava o ar festivo da Natureza que se adentrava, misturando-se às saturações balsâmicas da sala onde Espíritos Felizes confraternizavam com os obreiros terrenos, em preparação das tare­fas futuras.

Transcorridos alguns minutos reservados à oração intercessória e às vibrações pelos enfermos, presidiários, sofredores de vária classi­ficação, fez-se espontânea pausa, como se, fortemente magnetizados pelas Presenças, sentissem que amado Benfeitor, em ação especial, viesse instruí-los, orientá-los. Fluídos anestesiantes penetravam-nos, e suave melodia tangida por mãos seráficas, alcançava-lhes a alma, sem rociar-lhes sequer os ouvidos.

Adolfo Bezerra de Menezes, o amorável Instrutor, tomando os centros da mente e o comando da voz de Rosângela, apresentou-se em suave manifestação psicofônica de relevante significação:

— “Meus irmãos: — enunciou com entonação inesquecível. —Jesus nos favoreça com a Sua paz e nos abençoe!”

Todos eram ouvidos, em uníssono, mentes e sentimentos estrei­tados em dúlcida emotividade.

Após a saudação repassada de ternura, prosseguiu:

“Trabalhadores imperfeitos que reconhecemos ser, encontramo-­nos no campo que a própria insensatez deixou ao cuidado das pragas e do abandono. Em todo lugar, desolação e ruína: jardins vencidos pelo matagal, pomares destruídos pelas tormentas, solo crestado, sebes arrebentadas, fontes vencidas por miasmas, habitadas por animais venenosos... Todavia, é a nossa área de labor e redenção, onde de­vemos recomeçar e agir. Dispomos do trato da terra que a nossa incúria desrespeitou, cabendo-nos, agora, recuperar pela carinhosa assistência o prejuízo, aplicando todos os recursos ao nosso alcance, enquanto urge a oportunidade.

“Em razão disso, mister considerarmos em profundidade o ensino evangélico do “Ide e pregai”, ensinando com o exemplo que edifica e avançando com as mãos enriquecidas pelas obras, através de cujo resultado atestaremos a excelência dos nossos propósitos.

“Não há tempo, nem seria justo malbaratá-lo nas discussões in­frutíferas das vaidades intelectuais, exaltando a fatuidade e a arrogân­cia, enquanto as epidemias morais e sociais assolam terríveis, arreba­nhando e destruindo multidões de incautos e incontáveis criaturas que lhes experimentam a coercitiva escravidão.

“O Evangelho é o nosso zênite de amor e o nosso nadir de men­suramentos. Quem se exalta, inicia a trajetória para baixo; aquele que se glorifica, entorpece-se na ilusão... Todavia, o que avança infatigável, ignorado, mas servindo, humilhado, no entanto valoroso, perseguido, porém, imperturbável, transformando os sentimentos numa concha afortunada de amor, logrará o elevado cometimento do êxito real.

“Nenhuma queixa, portanto, nenhum rol de mágoas.

“Nosso tempo mental deve ser dedicado à elaboração dos planos de serviços relevantes e contínuos. Jesus é o exemplo ideal do traba­lhador modelo. Não foi poupado nem compreendido.

Entretanto, ela­borou e viveu o código de felicidade com que nos acena e de que dispomos para o desiderato regenerativo.

“Advir-nos-ão muitas dores e provações, por serem o que merecemos.

“Provaremos amargos testemunhos. Estes nos serão os preços àhonra e à glória de servir.

“Ninguém alcança as cumeadas da paz sem os estertores no vale das lutas. Indispensável perseverar e insistir.”

Intervalo natural ajudava a reflexão dos conceitos e fixação deles nos recessos da alma, enquanto diminutas gotas fluídicas pairavam no ar qual orvalho divino, penetrante.

De imediato, prosseguiu:

“Comprometemo-nos restaurar a primitiva pureza cristã entre os homens, vivendo de maneira condicente com os ensinos evangélicos; responsabilizamo-nos ante os Instrutores Elevados em não menos­prezar a atual concessão celeste, tornando-nos maleáveis à inspiração superior, de modo a realizarmos a tarefa, mais de uma vez interrom­pida; concordamos em dar a vida, se necessário, pela implantação do Consolador no mundo, nestes dias tumultuosos. Recebemos auxílios de toda sorte. Não nos têm sido regateados socorros. Conhecemos de perto a agonia e a miséria, também sabemos o paladar da esperança e o aroma dos júbilos. Que mais aguardamos? Avisados de que nossa luta seria entre as forças em litígio: o bem e o mal — eis-nos na liça. A refrega é nosso leito de repouso, a dificuldade, o desafio que nos chega e a dor nossa condecoração.

“Ainda por demorado período se fará cruenta a luta dos cristãos novos, decididos. Ontem, a arena requisitava o estoicismo do momento. Hoje as balizas do circo se situam em perímetro colossal, que abrange intérmina área de ação e as feras — as paixões! — tentarão o nefando morticínio ferindo de dentro para fora.

“Não há porque recear.

“Muitas vezes o pretérito de delitos assomará à frente como ultriz necessidade, ou ferida exposta, ou desequilíbrio tormentoso, ou açoite inexorável, ou inquietação afugente...

Mergulhando-se a mente e as preocupações nas águas lustrais da Boa Nova e as mãos no trabalho, não haverá ensejo para o desânimo nem para a acomo­dação no lamento ou a tentação da fuga.

“Vive-se morrendo e morrendo, está-se vivendo. Cada realização enobrecida constitui título de ventura e todo receio mais sombra na treva dos problemas. As alternativas são servir sem desfalecimento e confiar sem tergiversação. Jesus fará o que nos não seja possível realizar.

“Confiados em que a vitória final a Ele pertence, exultemos e prossigamos.

“Suplicando que o Seu amor nos permeie e a Sua misericórdia nos alcance, sou o servidor humílimo de sempre, Bezerra.”

Respirava-se o ambiente das primitivas células do Caminho. A atmosfera suave expressava o significado do momento. Lágrimas aljo­fravam os olhos de todos, nascidas nos peitos túmidos de emoção.

Proferida a prece final, o dr. Albuquerque considerou encerrado o culto da noite entre gratidões a Deus e esperanças no futuro promissor.

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