Divaldo pereira franco



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ADVERTÊNCIA E ESCLARECIMENTO



Pergunta: 459. “Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?»

Resposta: “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que de ordinário são eles que vos dirigem.”
*
Pergunta: 465. “Com que fim os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal?»

Resposta: “Para que sofrais como eles sofrem.”

O LIVRO DOS ESPÍRITOS” — Parte 2ª — Capítulo 9º.


A entrevista mantida pelo Coronel Santamaria com o diretor da Casa de Saúde deixara no esculápio as vibrações da cóleramal contida. Incontinente, Rosângela foi convidada à Administração e compreen­deu que chegava o instante decisivo para a sua fé

O psiquiatra não se deu à gentileza de mandá-la sentar-se. Olhando-a com rispidez, ardil de que se utiliza a fraqueza para disfarçar a falta de valor, foi incisivo:

— O Coronel Constâncio Santamaria acaba de deixar este gabinete, após apresentar grave acusação ao seu comportamento.

A moça estava lívida, não obstante, serena.

O chefe, levantando-se, enfrentou-lhe o olhar tranqüilo e pros­seguiu, fuzilante:

- Como se atreve transformar esta Casa num deplorável sítio de práticas ignominiosas, nigromânticas?

— Deve haver um engano, doutor. — Retrucou, surpresa.

— Não me interrompa. — Revidou, colérico. — Não esqueça sua função e resttinja-se a ela. Aliás, você aqui se encontra em período experimental e a sua falta é condição para despedi-la, pura e simples­mente.

— Solícito melhores esclarecimentos. — Justificou a auxiliar.

— A senhorita é acusada de práticas de magia ao lado de uma paciente, a filha do Sr. Coronel. Que tem a dizer?

— Que a informação é falsa e a acusação, portanto, injusta.

Rosângela estava socorrida pela inspiração de que se fazia credora, ante a trama nefasta da sordidez humana e da ardilosidade dos comparsas do mal, desencarnados.

— Então, deseja dizer que o Coronel está mentindo? Ë louca?

— Em absoluto, não digo isto. Assevero que jamais me afeiçoei a qualquer prática desabonadora à minha dignidade, muito menos em relação a magias, que desconheço inteiramente.

No entanto, é metida em Espiritismo, filiada a esse círculo de loucos desnaturados?

— O dr. está equivocado. Sou espiritista, sim, aliás, com imensa honra, o que é perfeitamente permitido pelas leis do país, consti­tuindo uma admirável filosofia de vida e religião consoladora. Quanto à alegação de que o Espiritismo e um circulo de loucos”, desejava indagar ao senhor diretor qual a religião que professam os inter­nados nesta Casa? Não me consta que a jovem Ester jamais houvesse freqüentado uma Casa Espírita, o que, talvez, se ocorresse, lhe teria evitado a tragédia em que sucumbe, a pouco e pouco.

— Além de desequilibrada é atrevida!

Desculpe, doutor. Sou convicta da fé que esposo e minha conduta é irrepreensível. Se os meus serviços não servem a este Nosocômio, não há porque transformá-los em problema; porém, não me cabe silenciar diante da acusação improcedente. Confio em Deus e sei que o senhor é portador de excelentes dotes do sentimento, do caráter, da razão.

Havia nobreza e coragem nas afirmações da jovem. Colhido de surpresa pela argumentação da auxiliar, o diretor administrativo sentou-se, desenovelando-se dos fluídos mefíticos que lhe obliteravam o discernimento e asserenou-se.

O doutor Nilton Silva era homem judicioso. Dedicado à direcão da Casa, não se transformara num mercador da saúde. Possuía sempre um recurso para dispensar aos enfermos e descobria uma “vaga” para os casos de emergência. Aplicava a psicoterapia do sorriso e do bom-humor, fazendo-se amar por todos: funcionários, serviçais, colegas, enfermeiros...

Naquela manhã, no entanto, atritara no lar, experimentando singular aborrecimento, que aumentara com a visita do Coronel Santa-maria: sua primeira entrevista do dia.

Não era religioso, e isso exibia com orgulho. No entanto, erá cortês, gentil-homem.

Fora vítima do cerco das Entidades infelizes que se compraziam na cobrança à família do Coronel e se desforçavam em Ester.

Não era a primeira vez, como de fácil entendimento, estando ele em função relevante. O mesmo ocorria a outros colegas que nem sempre suportavam as constrições, sucumbindo, desastrosamente.

Olhou, então a moçoila frágil à sua frente, dependente do tra­balho honrado, que conseguira fazer-se estimar em pouco tempo por quantos privavam da sua companhia. Como a desculpar-se, esclareceu:

— O Coronel proíbe-a de acercar-se da filha. Quer dar-me a sua versão do caso?

— Serei sucinta — esclareceu, Rosângela. — Afeiçoei-me a Ester desde que a vi. Aliás, dedico-me ao trabalho com carinho e sou partidária da teoria de que o amor muito consegue, quando falham outros recursos. Após observá-la, demoradamente, considerando as lições do Espiritismo, no capítulo das obsessões, resolvi, com per­missão do doutor Gilvan de Albuquerque, o meu benfeitor, do senhor conhecido, solicitar uma entrevista ao senhor Coronel, dando-lhe minhas desvaliosas, porém honestas impressões sobre o problema psíquico da filha. Sequer não me ouviu, impedindo-me, de certo modo, concluir o desejo de sugerir-lhe a terapêutica espírita, simul­taneamente à que vem sendo tentada neste respeitável Frenocômio.

— E qual seria? — Interrompeu-a, algo zombeteiro.

— Freqüência, dele e da senhora, a uma Sociedade Espírita, ajudando a filha com orações, e, a posteriori, com labores desobsessivos.

— E crê, você, realmente, em orações, em “labores desobsessi­vos”? — Rosnou, sorrindo, largamente.

— Sem dúvida. — Anuiu, imperturbável — Não apenas creio, como sou testemunha dos seus resultados surpreendentes.

— Junto a nevropatas — arengou, perspicaz, escarnecedor, —sugestionados, “místicos”!?

— Não somente com esses — refutou, gentil — muitos dos quais nada houveram conseguido em tratamentos longos, quão inócuos, porqüanto a sua enfermidade não procedia exclusivamente da psiquê, mas do Espírito, doente em si mesmo, quando não perturbado por outros Espíritos... Outros pacientes, desenganados, portadores de diagnose depressiva, esquizofrênica, recuperaram a lucidez, ante os meus olhos, por serem, realmente, obsessos em trânsito provacional.

Minha jovem, não esqueça que sou ateu e psiquiatra —arremeteu, finalista. — Linda ilusão, essa, porém irracional, impro­vável. Como provar?

— Mui facilmente — contestou, confiante — freqüentando as boas Casas Espíritas..


  • E as há de má qualidade? — interceptou-a.

- Sim — confirmou —, como os maus médicos, os incom­petentes, os aventureiros, os maus servidores que estão em todo lugar; assim como as péssimas Organizações que triunfam em muita parte, porqüanto, onde predomina o homem, aí se fazem presentes as suas manifestações morais, poucas vezes salutares.

  • Mas, se não creio em Deus e considero toda essa gente uns psicopatas perigosos?

— Não crer em Deus é mau para o Sr., uma vez que não aceita uma realidade, tal não lhe modifica a estrutura... Quanto à con­sideração final, se não me engano, até há pouco os partidários da “Escola fisiológica” agrediam rudemente os profitentes da “psicoló­gica”... Não vão longe os dias em que Pasteur, Broca, Hughlings Jackson e outros eram tidos por loucos, inclusive o eminente Pinel... Sábios e cientistas de todas as épocas não se puderam libertar da alcunha, pois é muito mais fácil atacar o que se ignora do que estudá-lo, azucrinar os trabalhadores, do que fazer-lhes as tarefas, perseguir os idealistas, do que erguer-se do comodismo, a fim de ultrapassá-los... Não, o doutor, com sua licença, não está bem informado. As caóticas opiniões que lhe chegaram são defeituosas, resultado do preconceito e da má-vontade. Com a permissão do dr. Gilvan, estou autorizada a franquear-lhe aquele lar para observações...

— Muito obrigado, sou-lhe reconhecido. Estou satisfeito com o meu modo de encarar a vida e os fatos. Encerremos esta entrevista que se alonga. Por favor, reserve suas opiniões para si mesma, e não se aproxime da jovem Ester. Não é boa medida?

— Perfeitamente, doutor. Posso retirar-me?

— À vontade.

Rosângela afastou-se e o médico-diretor, surpreso com o que ouvira, mergulhou em graves meditações. Afinal, eram lógicas as palavras da jovem e pontificadas por muita vivacidade. Dava a impressão de possuir cultura.

As forças do Bem venciam o tentame e o rio da misericórdia divina conduzia o seu curso na direção da subjugada.



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