Do dia-a-dia à vida-a-vida: um poema pedagógico



Baixar 36.04 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho36.04 Kb.
DO DIA-A-DIA À VIDA-A-VIDA: um poema pedagógico
É possível transformar a vida esvaziada de experiência em vida como presença? Essa comunicação procura responder tal questão, aqui considerada como questão pedagógica já que pressupõe um caminho de aprendizagem. Essa assume, por sua vez, uma perspectiva poética e procura perfazer o percurso em três etapas. A primeira delas desconstrói a idéia de poder enquanto realização da vontade, isto é, da subjetividade do homem, e aproxima a idéia de poder à possibilidade de abertura à realidade sempre já dada da terra. Outra etapa consiste no encontro com o pensamento, enquanto expressão e “possibilitação” de abertura à lei inaparente da terra. O destaque que se dá à inaparência revela a necessidade de aceitação do mistério como fonte de onde se origina o pensamento mesmo fora do alcance da razão. Por fim, chega-se à visão da presença como experiência histórica, na qual, simultaneamente, se abarca o tempo em três dimensões _ o cronológico; o experimentado enquanto instante inaugural (quando a possibilidade se realiza e a percepção do pensar e do viver se dá no ser); e é nessa realização que o outro tempo se dá _ o tempo de decisão, de oportunidade, de salto transformador.

Assim, nesse percurso, tido como poético, vida vem a ser o que Heidegger em vários momentos chamou “ek-sistência”. Sua preferência por esse termo devia-se à necessidade por ele apontada de afastar-se da dicotomia existência-essência e também da corrente vitalista que defendia vida como negação da razão. Aqui, não se pretende assumir tal perspectiva negativista (ou nihilista, como prefere Nietszche). Apenas vida é a palavra escolhida pelos poetas como Clarice Lispector e pode ser encarada como portadora de uma afirmação do ser-no-mundo na aceitação do que é, para além da razão, pela sua obrigatória e permanente passagem, assim como no seu esgotamento.


O senhor que obedece

Sua sensação de poder já era tão grande que se tornara inconfortável e inútil. (LISPECTOR,1970, p.77)

Um poema pode falar de espinho para dizer rosa. Talvez se use essa figura de linguagem não por querer esconder a rosa, usando um truque, quase uma adivinhação para o leitor, mas porque essa rosa sobre a qual se procura falar é invisível, apesar de inegável. Por isso, aqui se quer falar, de início, de poder, justamente porque existe uma crença de que se pode falar da rosa invisível simplesmente por se saber os atributos típicos de qualquer rosa. Isso seria desprezar o seu mistério. O que é preciso reconhecer para trazer de volta aquilo sobre o qual não podemos falar, mas apenas sentir é: o homem tem poder limitado.

Parece simples: poder não poder; recuperar o pudor, e no entanto a humanidade se mantém no esquecimento expresso pela pretensão do conhecimento todo-poderoso, aquele que regula a vida e a morte de qualquer ser humano hoje, o conhecimento científico, a tecnologia, o pensamento metafísico dualista que ignora o sensível e restringe-se ao inteligível, como se fosse possível isolar a dimensão invisível mas presente em nosso dia-a-dia.

Por isso, antes de começar a escrever esse poema pedagógico, como começar uma aula, como ensinar uma profissão, como iniciar uma pesquisa ou como escolher um equipamento adequado, é preciso repensar poder, pois estar em busca de não poder não significa negar sua existência. O que é poder? É o mesmo que potência ou possibilidade? De antemão, parece claro que aqueles instalados na vontade de poder não procuram essa redefinição. E aqueles instalados na vontade de poder expressam apenas uma época na qual o poder se afirma sem ser pensado, no qual poder é supremacia, esmagamento da diferença, nivelamento, coação. Nessa época, em que a vontade de poder domina, não se repensa poder. É um tempo de desertificação, de vigência de um poder que impede as coisas serem. Nada incognoscível (ou invisível) pode ser. É a surdez ao apelo do mistério, à transcendência. Só o que se faz ouvir é a imanência do homem, na vontade de poder ter vontade, de querer, de controlar, num ideal de asseguramento, concretizado pelo império do tecnológico. O que significa tudo estar a serviço da certeza? Essa pergunta é feita por Heidegger em seu ensaio “A superação da metafísica”. Escrito durante os anos da 2a Guerra Mundial _ 1936 a 46 _ esse texto atravessa uma década de profundas marcas deixadas pelo poder de controle, de subjugação; do uso que exaure, desertifica, aniquila.

Porém, aqueles tempos permanecem, enquanto um tempo no qual a relação ternária ser-homem-mundo viu-se transformada em relação binária homem-mundo, na qual o homem acredita poder moldar o mundo; ser o sujeito imperial a desdobrar sua consciência interior no mundo exterior. Os próprios termos “invisível” e “mistério” antes mencionados como forma de dizer o indizível encontram-se na esfera das representações produzidas a partir da perspectiva binária do conhecimento. No sentido totalitário do humano (humanismo), só há lugar para sujeito (homem) e objeto (mundo). Nesse totalitarismo, só se admite como real o que compraz a vontade de poder desse sujeito, cioso de suas valorizações, suas preferências e suas escolhas.

Frente à escalada da consciência como cogito, porém, há a presença que deixa a coisa ser, se manifestar; que é multiplicidade e movimento. Quando se percebe o poder como revelação, auto-exposição; como um mostrar-se e uma imposição pela evidência (através da qual tudo que aparece, é), a vontade chega à exaustão.

“Antes que possa acontecer propriamente a sua verdade inaugural, o ser deve romper-se como vontade, o mundo deve reconhecer a derrocada, a terra, a desolação e o homem deve ser forçado ao mero trabalho.” (HEIDEGGER, 2002, p.63) Essa verdade inaugural é a do desvelamento (a da rosa que se mostra e não se mostra no espinho) em contraposição à “verdade” funcional ou adequação, com a qual é possível exercer controle. Na travessia do deserto, a vontade é posta à prova; agüenta-se a desertificação, se é perpassado por ela, sem se deixar esmagar. A verdade inaugural é a do sentido da terra, a que se dá em nome da vida. Em seu movimento, é que se pode vir a ser outro. Nessa travessia, participa uma força que se pode chamar de espírito, que não está sob o domínio do homem; está a experiência do corpo, mais do que a reflexão intelectual. O cansaço é imenso diante da aridez do percurso e do atravessamento da dor, isto é, da companhia constante da dor. Essa exaustão, no entanto, é afirmativa frente à despotenciação do espírito, ante o ser abandonado; e é instauradora de uma força e de um sentido nos quais se reconhece poder. Esse poder instaurador de força e de sentido está em todo pensamento, em toda obra de linguagem. Um poder que se dá (basta ser reconhecido) mas que também se retrai (pela nossa própria limitação) e é assim que tem de ser, pois só assim o homem está aberto ao “acontecer abrupto”. (SANTORO, 1994, p.27)

O pensamento potente é aquele que instala-se nessa abertura e, com desejo e com prazer, entrega-se ao poder que não pode dominar. “O ser que tomou conta de uma ‘pessoa’ ou de uma ‘coisa’, ama e deseja esta ‘pessoa’ ou ‘coisa’. (...) O poder do desejo é aquele ‘graças’ ao qual qualquer coisa tem poder de ser. (...) Por conta desse desejo o ser pode pensar. Ele torna o pensamento possível.” (HEIDEGGER, 1969, p.71)

Nos trechos anteriores, algumas expressões “saltam à vista”, isto é, podem fazer o leitor “saltar” para mundos invisíveis e não totalmente compreensíveis, nos quais é possível se reportar a alguma experiência pessoal que reitere ou anule as mesmas expressões. Esse pequeno “salto” pode ter ocorrido com as palavras “espírito”, ou “acontecer abrupto”, ou ainda “pensamento potente”. Aqui não importa se a reação foi positiva ou negativa, o que importa é marcar a sua loqüacidade, não enquanto poder de argumentação (pois não pertencem à lógica) mas a uma outra espécie de poder que detona pensamento, em presença da experiência. Cada ouvinte teve o seu “pensamento possível”, mais ou menos potente, cada um participou de um acontecimento abrupto.

Então, o poder existe e subsiste através do “eu” de cada um? Não, o “eu” existe e subsiste em sua experiência; através da sua experiência, o “eu” pode querer sustentar ou afastar aqueles mundos invisíveis e não totalmente compreensíveis, mas nunca poderá dispor deles. Ao se render a eles, ao se deixar tomar por eles sem explicá-los, o “eu” sucumbe, supera a sua experiência e vem a ser outro. Não é passividade, nem atividade. Clarice Lispector diz: o querer, não mais movido pela esperança, aquieta-se e nada anseia.

Dessa maneira, possibilidade é uma espécie de “campo” para poder ser. E o movimento nesse campo é a não subsistência do eu. Esse sucumbe quando obedece à lei inaparente da terra, por saber que é justamente o inaparente que a resguarda. Assim, não importa quão largos e numerosos possam ser os saltos dos homens, esses estarão sempre restritos a um círculo do possível. Quando se desfaz esse círculo passa-se a querer o impossível. Talvez, a impossibilidade de alcançar o impossível aborreça a muitos, que queiram justamente apostar no que consideram totalmente fora dos padrões. Ora, mas a possibilidade não é uma norma. O “fora dos padrões” é uma possibilidade que, a cada vez e a cada coisa, se apresenta diferentemente.

“Desde que o passado não pode mais ser salvo para a luz de um futuro possível e palpitante, ele atua como uma realidade que pesa sobre o homem e o enterra em vida.”(GRASSI, 1978, p.29) Tal pensamento parece impelir o homem a um eterno transe a fim de que não se enterre em vida. A busca desenfreada pela novidade talvez tenha sua raiz aí, pois _ em sua vontade de poder _ o homem quer assegurar até mesmo o “fora dos padrões”. Não vê, como dizia Heidegger acima, que a travessia implica em se deixar atravessar. E o homem não vive (reforçando aqui a palavra “vida”) fora dessa tensão, que não é meio termo entre volúpia e acomodação. A tensão torna possível a atenção daquela lei inaparente da terra. Isso é serenidade. Quando o eu pára de lutar, o cansaço da travessia se desfaz. Toda ação pode ser revitalizadora se ela não quiser outra coisa que não ela própria. Quando des-espera a vontade, o homem, tal como a criança que joga, passa a ser senhor da terra, porque obedece a terra.



Pensar o não pensado


Pensar não lhe era natural. (...) Conhecia o susto de estar viva, tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. De estar viva teria de ser agora em diante, que fazer o seu motivo e tema. Parecia estar comendo delicadamente viva o que era muito seu. A fome de viver. (LISPECTOR, 1973, p.156-7)

Se a tensão torna possível a atenção, essa vem a ser pensamento em harmonia com a lei inaparente da terra. Armonía, no entanto, era a forma com que se dava o pensamento originário, próprio daqueles pensadores da manhã _ os gregos da era arcaica _ que expressavam a correspondência com o ser, pois ser e pensar eram o mesmo, sem a turvação que se seguiu com a evolução filosófica dos homens. Hoje, a tarefa do pensador é des-pensar já que a metafísica reduziu o ser a um conceito e o pensamento a uma adequação lógica e racional. O pensador tem de lidar com esse percurso, refazê-lo, rememorá-lo, numa tentativa de interpretar a gênese desse aqui e agora no arcaico, que vem à luz no fim, no crepúsculo, tal como o Zaratustra que desce a colina nessa hora do dia em busca do superhomem e ao encontro do eterno retorno.

Essa tarefa exige afirmar a unidade e não reiterar a separação. Trata-se de tentar pensar em direção à verdade do ser, o que traz à linguagem, na dificuldade dessa aproximação, uma necessidade de ser outra, diferente da “ciência” e da “pesquisa”. Trata-se de se encaminhar em direção a um entendimento integrado de linguagem e vida; de compreender extralingüisticamente as palavras, para além da montagem de uma estrutura geradora de mensagens, de um instrumento, de um sistema de signos. E o que é essa linguagem senão a linguagem poética? O pensamento abandona a ciência e procura a saúde na poesia; só assim o pensamento trabalha para construir a casa do ser. (HEIDEGGER, 1969, p.120-1)

Estar atento ao dizer pensante não é só saber sobre e como deve ser dito o que se quer, mas também se é possível dizer, e até que ponto se pode dizer, o que é para pensar. Heidegger recomendava rigor, atenção e economia. Mas sobretudo é essencial que se perceba a linguagem como condição da humanidade ser humana. E, para isso, não há caminhos, nem vias de acesso: seu acontecer é abrupto. (SANTORO, 1994, p.26) “Nossa compreensão é feita através das palavras perdidas (...) e é por isso que sempre valeu tanto viver pois muitas foram as palavras ditas que mal ouvimos mas elas foram ditas.” (LISPECTOR, 1970, p.201) Parece que a poesia leva o pensamento, assim como o amor conduz o homem em direção a um lugar incompreensível mas maravilhosamente ampliador. Apenas não é possível ao homem permanecer por muito tempo nessa unidade feita de tensão. O homem precisa do esquecimento para se manter em cadência com o inesperado. O império absoluto da luz seria aniquilação total do pensamento que precisa iluminar o mundo de baixo, inclusive para iluminar o lado escuro da busca de luz, quando se identifica automaticamente saber com certeza e segurança.

A linguagem então abre-se e dispõe a tensão própria da tarefa do pensador. Ela traz a marca da perda da aura, tal como tudo que é singular, tal como tudo que “sofre” pelo mascaramento da reprodução técnica.1 A linguagem também perdeu sua potência e encontra-se em decadência pois permaneceu congelada no esquecimento, passou a ser apenas meio de reprodução, de afastamento do ser, impedindo-se a experiência do sensível. A própria cultura deixou de ser vida, paideumática, deixou de fundar comunidade com o invisível para ser produto da consciência (boa ou má) e uma espécie de teologia sem a dimensão do sagrado.

Ainda assim, a poesia presente na obra de arte autêntica _ ao operar um estranhamento frente às realidades instituídas e desvendar as múltiplas possibilidades da existência humana _ pode auxiliar no esforço de recuperar a tensão rememoração-esquecimento, própria da tarefa do pensar. A poesia pode recolocar o pensamento na cadência da vida, levá-lo a dizer a tensão entre a fala da obra e a escuta do intérprete. Nessa tensão, ecoam os pensadores originários que viam o revelado apenas enquanto revelação; o feito apenas enquanto “fazimento”. Com a poesia, o pensamento pode deixar-se levar para além das separações; para além da decadência perdida em classificações; da propedêutica da lógica como ciência do pensar correto; do entronizamento do sujeito e da frustração de não se conseguir provar a realidade; e também para além da consciência como princípio.

Hoje, a doutrina do método debate-se com a doutrina perspectivista dos afetos e a educação também oscila entre uma dimensão instrucional e outra, existencial. Então, se pergunta: como pensar o educar (ou o “conduzir para fora”) com a visão que o pensamento poético proporciona? À pergunta do como atingir o outro, Nietzsche indica _ quando pensa o ler e o escrever _ o caminho do sangue. Escrever com sangue; isto é, com afeto é o modo de ser possível. A compreensão é o afeto. A ação de auto-exposição compreende um salto para a possibilidade do afeto, isto é, um salto para si-próprio, para a conquista e a realização de si. É o “venha a ser o que tu és”, máxima de Píndaro. Já a metodologia indica o caminho seguro mas através dela não é possível se lançar à coisa mesma; através da metodologia, o homem se esforça em controlar a realidade e evita se lançar à experiência transcendente.

O homem, na sua história de busca de luz, pode chegar até a consciência da consciência e pode chegar a encará-la como vontade de viver. Pode encarar vontade de viver como “o chamado do selvagem” mas o erro continua se permanecer a separação entre sensível e inteligível. O pensamento não é um querer individual mas uma necessidade da história; que alinha a necessidade e a leva adiante; faz com que a história cumpra o seu destino. Isso não quer dizer determinismo, porém. Não há antecipação; a necessidade se mostra a posteriori. Filosofia vem a ser então o próprio pensar. Não mais “busca para”. É o serenamento.



Por uma maneira de ser presente


Como prolongar o nascimento pela vida inteira? (LISPECTOR, 1973, p.143)

A história do ser inicia-se num momento de vigor essencial, de irrupção do sentido do ser como ser (quando o homem se vê como compreensão possível da realidade em presença de um real incompreensível em sua totalidade). A partir daí, esse passa a ser o seu destino. “Vida”, “presença”, “acontecer”, “suceder”, isto é história. Enquanto a explicação desse devir é historiografia. É, portanto, na apropriação do acontecimento que este começa a fazer parte da história. Por apropriação entende-se não a sua compreensão, mas a imposição da lei inaparente da terra. A terra é quem apropria o acontecimento.

A terra eleva um acontecimento, ao apropriá-lo; o mundo o conserva, ao torná-lo um projeto; e na cadência-decadência em que vive o homem, o acontecimento se perde pelo esquecimento. A história é a tensão provocada pelo vínculo do passado e do presente; da terra e do mundo, sob o constante risco da esterilidade, da desertificação, quando se embalsama o passado e ele se torna distante da experiência presente, e ele vira peça de museu, programa escolar, produto da indústria cultural, isto é, um fantasma, como diz Goethe. (cf. BAKTHIN, 1992)

Nascer para o passado, indica Gilvan Fogel2, significa ser sob a forma do sido sem nostalgia. Como? Por uma maneira de ser presente. Então, o passado nunca termina. De algum modo, algo sempre se conserva e algo se perde. No mergulho sobre as possibilidades presentes, vive-se e não só se observa o abismo criado entre o sensível e o supra-sensível. Esse presente assim concretizado dá a dimensão do futuro (os eflúvios do futuro, diz Bakthin em comentário sobre o sentimento de tempo em Goethe, libertam-no dos fantasmas do passado). O futuro não se antecipa. Talvez seja o reconhecimento da multiplicidade de possibilidades; a felicidade de ser, não só sob a forma do sido (sem nostalgia), mas sob a forma da plenitude de nada querer em presença da terra. É assim: a multiplicidade sempre também é perda, daí que viver significa ser capaz de sofrer a(s) perda(s); de viver simultaneamente as três dimensões temporais: a cronológica; a do instante fora do tempo e a da oportunidade.

Das três, a dimensão do instante pode parecer a-histórica mas a história nem sempre tem a nitidez da historiografia. As origens, por exemplo, não são historiografáveis. E o originário se manifesta na nossa necessidade de encontrar caminho no mundo. Portanto, o sub-histórico liga-se ao subconsciente que eclode uma oportunidade da cronologia dar um salto. (cf. SOUSA, 1964) Por isso, o pensamento descreve esse instante, sem se preocupar com a sua fixação. Importa ultrapassar o fato, o espinho, o deserto e ver o originário, a rosa invisível, a lei inaparente da terra.

A simples negação, no entanto, não garante a “visão”. A visão dá-se na experiência da travessia, que não tem o sentido da errância, não é busca para distrair o tédio. Essa experiência não é tampouco espírito de pesquisa, aquela que mata o espírito em favor do intelecto. A experiência, dento do círculo comedido do possível, se dá “fora do baldio da terra devastada”, num movimento desimpedido como na tradição peripatética os passeios no “Liceu” aristotélico. As aulas se davam nesse movimento, mais afeitas portanto à cadência da vida. Nessa atenção ao ritmo, nessa atitude, o afeto transparece em tudo o que se faz. E cada pequena “viagem” vem a ser um ato genesíaco, de reencontro com o pensamento originário. Dia-a-dia, pequenas catábases, num transcender limites do cotidiano.

Parece exagero, mas o exagero é o único tamanho possível para quem é pequeno. (LISPECTOR, 1970, p.237) Do dia-a-dia à vida-a-vida. (LISPECTOR, 1973, p.32)

Ver o tempo no espaço, como propõe Goethe, é se deixar possuir pelo milagre das folhas, como faz Clarice Lispector:



Estava andando na rua e do vento lhe caíra exatamente nos cabelos: a incidência de linha de milhões de folhas transformada em uma que caía, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-lo a ela. (LISPECTOR, 1973 p.122)

A experiência da singularidade de cada instante; a percepção dos sinais diferenciados do cosmo; a visão do invisível se fazendo visível _ esse o modo de ser presente.


Maria Beatriz Albernaz

Referências bibliográficas


BAKTHIN, M. “O romance de educação na história do realismo” em Estética da criação verbal. Trad. M. Ermantina Pereira. Martins Fontes, SP, 1992.

GRASSI, E. Poder da imagem, impotência da palavra racional: em defesa da retórica. Trad. Henriqueta Ehlers, Rubens Siqueira Bianchi. São Paulo, Duas Cidades, 1978.

HEIDEGGER, M. “Lettre sur l’humanisme” in Questions III, Trad. Roger Munier, Paris, 1969.

______________. “A superação da metafísica” in Ensaios e conferências. Trad. Márcia Sá Cavalcante Schuback, Petrópolis, Vozes, 2002.

LISPECTOR, C. A maçã no escuro. José Alvaro, Editor. Rio de Janeiro, 1970.

___________ . Uma aprendizagem ou O livros dos prazeres. Rio de Janeiro, Sabiá, 1973.

NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Trad. Alex Marins, Editora Martin Claret, 2003.

SANTORO, F. Poesia e verdade – interpretação do problema do realismo a partir de Aristóteles. Sette Letras, Rio, 1994.

SOUSA, E. “Texto introdutório” in ARISTÓTELES. Poética. Trad. e notas de Eudoro de Sousa. Guimarães Editores, Lisboa, 1964.

SOUZA, Ronaldes de Melo. A epigênese do pós-moderno. Revista tempo Brasileiro, 84: 32/60, jan-mar, 1986.


RESUMO

O artigo descreve um processo de transformação considerado poético, em que se passa pela desconstrução das idéias habituais de poder; de pensamento; e de história. A condução por esse percurso é tida como pedagógica e vale-se principalmente de pistas deixadas por Heidegger em suas investigações quanto à superação da metafísica e por passagens pontuais do itinerário em Clarice Lispector.


CURRÍCULO

Maria Beatriz Albernaz graduou-se e fez mestrado em educação. Tem um percurso que procura reunir atividades relativas à educação fora do âmbito escolar (bibliotecas, comunidades, cursos livres) e relativas à literatura (edição de livros de poesia de sua autoria e de outros autores). Atualmente está em pesquisa de tese sobre “A pedagogia poética na cidade sitiada (uma leitura de Clarice Lispector).





1 Apud SOUZA, Ronaldes de Melo. “A epigênese do pós-moderno.” Revista Tempo Brasileiro, 84: 32/60, jan-mar, 1986, p.40-4.

2 Muitas das observações desse artigo devem-se às anotações feitas ao longo do seminário sobre “A superação da metafísica” (texto de Heidegger na bibliografia), realizado pelo prof. Gilvan Fogel do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, durante o ano de 2002.





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal