Do futuro, a força preventiva



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Terceira parte
A estação dos frutos


Do futuro, a força preventiva


A história recente aconselha que na educação é melhor perscrutar o futuro para compreender as respostas exatas no presente.

O desafio educativo deve partir da esperança, muito embora a variável da liberdade torne a educação sempre uma aposta.

Para não perdê-la, o padre Vecchi convida os educadores a desempoar, com maior convicção, o patrimônio da experiência educativa denominada Sistema Preventivo, proposto e experimentado por Dom Bosco, baseado na confiança no menino e, por conseguinte, sensível ao futuro.

Revigorar o Sistema Preventivo, fazê-lo dialogar com as grandes e pequenas instituições educativas, na esperança de que possa servir aos jovens, é a proposta cultural que o padre Vecchi lança como atual, para vencer o desafio educativo, mesmo diante das novidades tecnológicas e informáticas. Com uma diferença, porém, em relação ao passado: os educadores guardem a lição que lhes chega dos jovens no século 20, quando, a partir dos anos 60, começou o perigo de afastamento e conflito entre gerações.

Mas para o padre Vecchi há uma outra frente que deve unir-se à educação, a política: no sentido que as comunidades nacional e internacional devem tornar-se responsáveis pelo do futuro dos jovens. E isso acontece com uma cultura da prevenção que leva a planejar a paz e não os conflitos.

A prevenção permanece, portanto, um programa ambicioso para o novo século.


11.
Educação é questão de coração
Há um segredo para o bom êxito na educação, válido também na sociedade informática e tecnológica. E há um papel difícil para o educador, o de saber deixar espaço para que os jovens cresçam.

Atualidade do Sistema Preventivo


No contexto cultural governado pela tecnologia e pelo estímulo ao consumo, tem sentido falar em educação de Sistema Preventivo?

O interessante do Sistema Preventivo é que nasceu colocando no centro a relação com o menino. Nessa centralidade poderia colher-se o elemento que, talvez, se contrapõe ao primado do técnico, racional, exato.

Por outro lado, o Sistema Preventivo pôs sempre em seus programas algo que tem a ver com a técnica, o trato da matéria. Basta pensar em todo o programa de trabalho.

O Sistema Preventivo chama a pessoa a unificar em si, equilibrando-as e ordenando-as, as diversas dimensões. Neste sentido, ele pode colocar-se em qualquer cultura, marcada por qualquer modalidade.


O que é exatamente o Sistema Preventivo?

O Sistema Preventivo é, em primeiro lugar, uma experiência histórica que Dom Bosco realizou com seus rapazes.

Dom Bosco, em uma época de profundas transformações sociais, viu o fenômeno da juventude desorientada, sem instrução e meios de vida e se pôs a orientá-la, guiá-la, abastecê-la de idéias, sentimentos, ideais, horizontes, energias interiores.

Em 40 anos elaborou práxis típicas, descobriu dinamismos que depois considerou definitivamente válidos, aperfeiçoou uma relação que desde a primeira intuição pareceu-lhe fecunda, mas que depois se ampliou de relação interpessoal à criação de um ambiente.

Sua experiência com os jovens produziu também uma certa visão pedagógica completa.
Aonde quer chegar concretamente o Sistema Preventivo?

Quer oferecer ao jovem a possibilidade de desenvolver tudo aquilo que é e que tem.


Quais os pontos básicos do sistema?

Em primeiro lugar, travar com o jovem um relacionamento de estima, de amizade, acolhimento e avaliação positiva do que tem, do que é, do que pode.

Compreende-se, então, o presente como graça e o futuro como projeto.

Nessa relação pessoal é preciso inserir o jovem num ambiente favorável. E é o segundo ponto. Para isso Dom Bosco criou o oratório. Dizia ele: é interessante que haja muitos jovens que criem amizade, alegria e possibilidade de jogar e exprimir-se.

No relacionamento pessoal e com este ambiente, oferecem-se aos jovens propostas de vida, de aquisição de idéias e de visões realistas do mundo, propostas e amadurecimento da consciência, fazendo descobrir e apreciar o bem traduzido em experiência concreta, abrindo novas relações com os companheiros e com o mundo em que se vive.
Se no Sistema Preventivo muda a perspectiva sobre os jovens – colocado no centro –, muda também a fisionomia tradicional do educador?

O educador foi-se definindo também de acordo com o movimento da pedagogia.

Diria que Dom Bosco e o Sistema Preventivo sempre favoreceram o papel ativo do jovem. E assim, a educação, embora no passado tenha tido um papel diretivo notável, conforme às idéias do tempo, no sistema de Dom Bosco apresentou-se sempre como o chamado assistente: não o assistente disciplinar, mas o acompanhante.

Com efeito, o papel do educador é, antes de tudo, o de avaliar, compreender positivamente, descobrir as energias. Em segundo lugar, o de ficar ao lado, estimulando tudo o que o menino já desenvolve bem por conta própria, fazendo, quando muito, correções onde percebe surgir algum desvio.

Cabe ao educador fornecer os elementos com que pode contar da própria preparação, da cultura, da fé e que o menino ainda não descobre.

No que tange ao educador, o Sistema Preventivo procurou estabelecer um equilíbrio para que não fosse nem diretivo nem neutro, ou seja, uma pessoa que não faz propostas, que não sente a paixão de comunicar uma experiência positiva feita por ele precisamente em solidariedade cultural com outros da própria geração.


Um sistema muito bonito na teoria, mas talvez difícil na prática. Mesmo nos últimos 100 anos viu-se pouco desse sistema no âmbito educativo e social, no qual prevaleceu a repressão sobre a prevenção.

O sistema é difícil. Já o dizia Dom Bosco. Difícil porque supõe grande capacidade e generosidade no educador. Exprime-se na regra de humildade que João Batista ditou: é necessário que os jovens cresçam e que nós diminuamos também no espaço da vida deles.

Pressupõe a ascese da confiança: vemos as coisas e as deixamos funcionar. Comporta o valor da proposta. Para um educador só, isto não é fácil.

Os salesianos somos ajudados nessa dificuldade justamente pela comunidade. Nela as capacidades médias de todos se unem para criar um ambiente favorável, uma possibilidade de amizade, um equilíbrio entre os limites.

De qualquer maneira, educadores há-os também de todo o nível: alguns conseguiram praticar o Sistema Preventivo de forma eminente, outros de forma média ou suficiente. Há outrossim uma minoria que recua para a linha da repressão, mas prática.
Coração educativo

Se bem lembro, Dom Bosco definia a educação sobretudo como uma questão de coração. Que entendia dizer?

Entendia dizer que educar não é apenas questão de imposição de regras aceitas a duras penas ou então praticadas de forma voluntarista, mas que é preciso atingir no menino o núcleo profundo do sentir, da convicção. O objetivo é atingido quando o menino se mostra feliz com aquilo que está aprendendo, quando sente certo prazer na relação educativa que lhe é oferecida.

Questão de coração quer dizer também que a proposta educativa convence não somente por um raciocínio, mas porque foi experimentada como bem, como alegria.

Dom Bosco tocou dois pontos talvez esquecidos: o primeiro é a dimensão estética do aprendizado. Sabe-se que a beleza tem muito que ver com o prazer, com a satisfação legítima. A estética da beleza é um aspecto esquecido. Ele repetia que os jovens compreendem e são sensíveis à beleza da religião.

O outro ponto esquecido é a satisfação ou o prazer que o conhecimento e a alegria podem produzir.
Há ainda espaço para o coração no âmbito educativo ou é preciso lutar contra a corrente para afirmá-lo num contexto onde a violência juvenil se mostra inquietante?

Justamente por causa da rigidez técnica, pela abundância de conteúdo científico que parecem destinar todo o tempo ao aprendizado das noções e pela dificuldade de relações na sociedade complexa, é que se nota na educação uma exigência dos jovens de que se dê mais espaço ao coração.

Os jovens desejam experimentar uma relação humana profunda, de compreensão, no sentido de que dentro dessa relação possam exprimir-se com espontaneidade esperanças, dificuldades e anseios de vida. Dificuldades experimentadas interiormente ou em família e às quais a escola não presta atenção.

Uma das últimas críticas que se fizeram ao sistema escolar é que a escola transmite noções científicas, mas não abre espaço a problemas vitais.

Foram muito bem distinguidos os lugares da educação formal e os lugares vitais. Nos primeiros dão-se conteúdos precisos, sistemáticos. Tem-se uma regulamentação correta mas formal, que não destrói a vida. Nos lugares vitais, o menino se solta, fala do que sente e quer, e fala como sente e como o quer e então entrega os problemas da vida a educadores informais, como os companheiros.

Prevalece hoje a orientação de não considerar a educação e o próprio relacionamento educativo em formas separadas.


Os jovens são suficientemente amados?

Pode haver um déficit de amor para com os jovens, que deve atribuir-se a muitas causas: a família pequena e freqüentemente desunida pode produzir carências afetivas nos meninos. O clima de cálculo, interesse e lucro que geralmente se respira na sociedade, torna difícil também a amizade entre os jovens, porque num determinado momento, cada um começa a privilegiar os próprios interesses, a própria carreira e as amizades esvaecem.

Na situação presente é urgente que os jovens saibam realmente, por experiência positiva e generosa, que são seriamente amados por si mesmos.
Na América Latina existem defesas sistemáticas contra os meninos de rua, fenômeno que está atingindo também a Europa. Os jovens estão sendo vistos cada vez mais como perigo social.

Há algumas manifestações juvenis, como delinqüência e barulho excessivo, que provocam sentimentos de defesa.

Isso põe a descoberto que a sociedade não pensou em todos os fenômenos conaturais à juventude como período de crescimento e, assim, não previu meios e possibilidades para recuperá-los e amá-los.

Os movimentos de repressão e defesa social, no que diz respeito aos jovens, nascem justamente diante da periculosidade de tais fenômenos, que se mostram incontroláveis.


Existem concordâncias entre Sistema Preventivo e a educação não-violenta?

O Sistema Preventivo, em seu fundamento e em seu interior, é todo ele uma educação não-violenta. Aposta no coração, no afeto, na bondade (amorevolezza), na mútua estima entre educador e educando, na vontade de colaborar.

Dizia Dom Bosco: “É preciso fazer que o menino faça próprios os objetivos que nós propomos”.
Na cultura da concorrência

Na cultura cada vez mais generalizada da competição, o sistema da prevenção não seria lá uma proposta de outros tempos?

É preciso ver como é que se entende a preventividade ou a prevenção. É possível que tempos atrás fosse interpretada no sentido de defesa e proteção dos jovens contra os perigos.

bom tempo, porém, é interpretada de forma positiva e ativa, como um desenvolvimento das potencialidades, como tornar o jovem capaz de emergir da complexidade da vida: então previne-se a queda justamente reforçando as energias, desenvolvendo tudo o que alguém possui.
Se é um sistema bom para todas as épocas, é então um sistema um tanto indiferente em nível social.

É bom para todas as épocas, mas de forma rígida. Dizemos que se parte de uma experiência com muitas potencialidades, mas que não deve reproduzir-se de forma material.

Assim sendo, as intuições, as virtualidades, as visões mesmo em experiências germinais do Sistema Preventivo, devem ser todas elas adequadas e repensadas com formas novas, segundo os contextos em que nos encontrarmos e de acordo com a evolução das ciências pedagógicas e psicológicas que abriram novos panoramas para o dinamismo humano.

Se um educador o aplicasse de forma intocável em todas as épocas, a todos os destinatários, em todos os tempos, mais que indiferente seria um falido, porque não obteria nem resposta nem consenso.


No nosso tempo, os jovens experimentam a solidão. Cresce a depressão dentro de uma sociedade competitiva e da imagem. Não é um quadro inquietante para o educador?

A solidão, quando é capacidade de recolher-se em si mesmos à procura de sentido é a premissa de intensas experiências espirituais, próprias da vida contemplativa, que se abre para Deus e para os outros.

Entendida como isolamento exasperado e forçado, como se experimenta especialmente em algumas condições sociais, é um elemento perigoso, provoca tragédias. Pode derivar do sentido de vazio, mas também da dificuldade muito disseminada de comunicar e partilhar.

Acho que mortifica enormemente a pessoa estabelecer na sociedade graduações injustas, porque afinal o êxito depende da colaboração de todos. Na educação é preciso saber estimular ao máximo o desenvolvimento das próprias capacidades, fazer ver o valor da vida, dos bens humanos e espirituais que possuímos e ao mesmo tempo a colaboração que podemos dar ao bem comum.

É preciso outrossim favorecer na sociedade uma redistribuição das vantagens a fim de que não se acumulem apenas sobre alguns, mas sobre todos os que trazem uma contribuição própria.
Sistema Preventivo e valores da sociedade capitalista ou neoliberal: estão em harmonia ou como alternativa?

Um sistema de educação nunca está em total harmonia ou em total desarmonia com o contexto em que se vive. Deve, com efeito, ajudar a viver e sobreviver, e depois deve ajudar a colher os elementos positivos.

Mas deve também neutralizar ou ajudar a criticar, identificar e defender-se dos elementos negativos e tudo isso sem renunciar a viver. A educação não deve provocar um afastamento do contexto em que estamos vivendo, mesmo que leve a criticar muitos de seus elementos.

No sistema capitalista, hoje dominante, há elementos dos quais se podem extrair coisas boas: é só pensar na grande quantidade de meios e possibilidades que oferece em benefício da inteligência. Da própria competição se poderia colher o aspecto de emulação ou o encorajamento à qualidade. Mas outras coisas, neste sistema, deveriam ser criticadas.


No modelo de família em crise

Não obstante os esforços da Igreja, a família tradicional está submetida a uma lenta crise evolutiva. O Sistema Preventivo ressente-se dessa crise?

Perde certamente um apoio notável, porque a família é a experiência que se ressuscitava, reproduzia e despertava no Sistema Preventivo, que não era considerado totalmente como suplência, mas como fortalecimento da experiência familiar.

Os jovens provindos de uma família camponesa, pobre quanto se quiser, mas afinal unida no trabalho, com o afeto despertado na educação reforçavam valores e dinamismos interiores. Os valores propostos no âmbito do Sistema Preventivo tinham um correspondente, embora pequeno, na família.

A dissolução da família, e o isolamento pessoal que se lhe segue, evidentemente tiram um pilar ao Sistema Preventivo.

Isto, porém, não quer dizer que não possa operar, antes se lhe propõem novas tarefas. Por um lado assistir a família: por mais que esteja em crise, deverá ser acompanhada, ao menos para que administre a crise com os menores riscos possíveis.

Dever-se-ão, ademais, suprir as carências familiares ou reeducar o menino para elaborá-las positivamente, a fim de que não se tornem complexos ou vazios.


As ciências da educação elaboram respostas capazes de fazer crescer no novo contexto, que oferece modelos familiares diferentes?

Será preciso assumir este novo contexto, quando na sociedade começam a conviver e a ser aceitos também modelos familiares diferentes do tradicional, como objeto de pesquisa científica para fornecer conclusões orientadoras.

Com relação ao novo tipo de relacionamento originado de modelos familiares diferentes ou de formas de nascimento artificial, penso que a análise dos casos não foi feita de forma suficiente para chegar a uma síntese da qual possam vir indicações para o educador.

Não é de nenhuma utilidade fazer uma hipótese e supor simplesmente que o jovem pode viver sem relações familiares ou com relações familiares de qualquer gênero.

Afinal, a própria educação da afetividade não pode ser apenas teórica, deve basear-se em algumas experiências. Não saberia como educar um jovem sem ter uma referência familiar que tenha algum valor definível.
Os salesianos foram tidos e também vistos pelo povo como os apóstolos do Sistema Preventivo. Ainda o são, ainda acreditam nele, devem atualizar alguma coisa?

Devem sempre atualizá-lo. Falei de experiência inicial contendo virtualidades, intuições, e ainda grandes princípios inspiradores que devem ser continuamente repensados, sobretudo à luz de três coisas: a situação do destinatário, a cultura em que se vive, todos os progressos que vai fazendo a ciência que se dedica ao homem.

Penso que os salesianos estamos fazendo esse esforço: basta considerar que têm uma faculdade universitária de ciência da educação, um instituto histórico, um grupo pedagógico que publicou uma série de importantes estudos sobre a experiência de Dom Bosco, um observatório sobre a condição juvenil.

Evidentemente, nem todos caminham no mesmo passo. Entre muitas pessoas, é natural que cada uma tenha um passo próprio: há os extremamente vigilantes e entusiastas e alguns que se repetem e atrasam.


O objetivo educativo de preparar “bons cristãos e honestos cidadãos” em que medida e em que formas é atual e deve traduzir-se hoje?

A fórmula clássica de Dom Bosco inclui conotações que a tornam atual também hoje. Só mudaram um pouco as explicitações das qualidades, das atitudes que fazem de uma pessoa um bom cristão e um honesto cidadão.

O honesto cidadão de hoje é uma pessoa que participa da dinâmica democrática. É crítico, porque vivemos numa sociedade pluralista e cheia de mensagens. Na conotação do século passado, honesto era mais um cidadão disciplinado na sociedade e na própria estrutura de trabalho, responsável no cumprimento das leis, mais responsável em cumpri-las do que em mudá-las, um que, de qualquer maneira, propiciava uma vida tranqüila.

Mudaram também as conotações do bom cristão, sobretudo após as mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II com a nova identidade do leigo. O leigo cristão não é mais apenas aquele que depende da hierarquia, recebe os sacramentos e observa as normas canônicas, mas uma pessoa empenhada na construção de uma cidade temporal solidária e, ao mesmo tempo, parte ativa e responsável na comunidade eclesial. A educação cristã deve formar pessoas capazes de crítica e discernimento diante de qualquer tipo de poder. Caso não o fizesse, falharia na sua função.


O Sistema Preventivo é adequado a uma educação de massa ou pode aplicar-se também em nível de educação familiar?

É indicado para as duas situações. Falar de massa é impróprio. Talvez seja mais apropriado dizer grandes grupos. As grandes indicações de método, de conteúdo e de relação aplicam-se perfeitamente ao grupo e também ao relacionamento familiar.

Em conclusão, que deve fazer um pai? Compreender os filhos, acompanhar que coisa elaboram internamente, ser amigo deles e acompanhá-los, criar na família um ambiente tal que o menino julgue vantajoso para ele permanecer nela e não queira escapar.

O Sistema Preventivo pode ser aplicado pela família porque a intuição de Dom Bosco talvez teve origem na experiência familiar. Dizem muitos que Dom Bosco transferiu para o ambiente educativo do oratório, naturalmente adaptando-o e enriquecendo-o, o que tinha experimentado no lar com mamãe Margarida.


O papel educativo do pai tem pouca presença nos cursos preparatórios para o matrimônio. Que fazer para remediar essa constatação?

Pode-se fazer alguma coisa. Atualmente esses cursos contam com unidades de especialistas no relacionamento dos candidatos, nos problemas morais da vida e no sentido cristão do matrimônio.

Seria interessante contar também com uma unidade didática voltada para a educação dos filhos, porque pais não se improvisam. No momento, porém, isso poderia não representar um interesse imediato nos cursos matrimoniais.
Um debate educativo

Que debate social poderia juntar todos os educadores?

A luta pela opção social de uma ampla e total prevenção parece-me um debate digno dos educadores: em favor de todos e especialmente para os meninos que entraram num primeiro nível de abandono ou perversão.

Com apropriados recursos econômicos e sociais poder-se-ia recuperar muitos meninos e dar-lhes pelo menos os meios para se orientarem na vida.

Pensemos somente no significado da prevenção na área da toxicomania, da Aids, da carência em geral. E no campo da saúde e da instrução. A cultura da prevenção levaria a viver melhor e a poupar enormes quantias de dinheiro público e privado.

A passagem de uma cultura do cuidado dos males sociais a uma cultura da sua prevenção seria uma virada incrível para a humanidade, um sinal concreto e forte de que, finalmente, se começa a planejar a paz.

Ensinar a projetá-la é uma tarefa nova para os educadores. Mas eles podem contar com poucos exemplos concretos. Poderiam, então, lançar um desafio para o novo século: pedir à comunidade internacional que projete e realize em duas áreas geográficas experimentais dois projetos de qualidade a serviço dos jovens e dos idosos, destinando para tanto uma soma análoga à que as nações do mundo, no século 20, gastaram para sustentar as duas grandes­ guerras mundiais, realizando-os com o mesmo espírito de consonância e determinação posto a serviço da guerra.

Os educadores poderiam pedir projetos de prevenção social em âmbitos locais.
Julga de fato praticável e desejável uma cultura da prevenção também na economia e na política?

Uma capacidade de prevenção não só é possível mas obrigatória em âmbito político e econômico. Que faz o Estado com todos os cidadãos se não consegue garantir-lhes condições mínimas de vida digna? Essas condições mínimas não são iguais para todos, porque muitos partem em desvantagem. Neste caso, a programação se torna prevenção quando vê à distância e tende a garantir o bem comum e não simplesmente interesses setoriais, e visa a não desperdiçar recursos.

Até agora a única prevenção mais sistemática e consistente realizou-se na preparação dos conflitos e, em muitos países, no campo das pensões. Mas há uma exigência generalizada de rever os sistemas de pensão. Querem fazê-lo, dizem, para garantir oportunidade aos jovens.

Reequilibrar os recursos entre gerações é um dever de justiça, contanto que não se trate de simplesmente fazer passar também para os idosos a precariedade que pesou e pesa sobre tantos jovens.

Seria desonesto que, na revisão das pensões, se usasse a categoria dos jovens como um biombo para esconder interesses econômicos menos nobres ou punitivos em relação aos mais pobres socialmente.
12. Dom Bosco hoje
O inventor do Sistema Preventivo foi um santo padre, cuja lembrança está sempre ligada aos jovens. E que uma vez, pouco antes de morrer, escreveu de Roma uma carta, revelando o segredo de sua relação: um amor que mesmo hoje raramente se encontra, porque desinteressado.
Um relacionamento especial

Dom Bosco e os jovens: como se criou uma relação tão estreita que não permite lembrar este santo sem os jovens, nem ocupar-se da questão juvenil sem levar em conta a proposta educativa de Dom Bosco?

Há uma combinação muito feliz de elementos na existência de Dom Bosco. Um certamente é o talento natural em simpatia, vontade de aproximação, comunicação e partilha, que ele, ainda menino, manifestava entre os colegas. Tinha uma capacidade de atrair os jovens que a alguns até assustavam.

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