Do museu da quinta da boa vista ao museu do palácio do ipiranga: a invençÃo do museu social republicano nas experiências de geraçÃo de edgard roquette-pinto e affonso e. Taunay (1917-1939)



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DO MUSEU DA QUINTA DA BOA VISTA AO MUSEU DO PALÁCIO DO IPIRANGA: A INVENÇÃO DO MUSEU SOCIAL REPUBLICANO NAS EXPERIÊNCIAS DE GERAÇÃO DE EDGARD ROQUETTE-PINTO E AFFONSO E. TAUNAY (1917-1939)
Jorge Antonio Rangel (Fidel)

Prof. Adjunto da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado Rio de Janeiro (FFP-UERJ)

Pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em História da Educação e Infância (NIPHEI-UERJ)

fidelrangel@uol.com.br


A presente comunicação tem por intuito compreender o processo de institucionalização da antropologia histórica educacional brasileira a partir das experiências de geração dos cientistas sociais Edgard Roquette-Pinto e Afonso D`Escragnolle Taunay que, em momentos diferentes, ocuparam a direção, respectivamente, do Museu Nacional do Rio de Janeiro nos anos de 1926 a 1935 e do Museu Paulista (do Ipiranga) nos anos de 1917 a 1939. Ambos, cada um o seu modo e estilo, buscaram construir uma interpretação “positiva” dos trópicos. Por caminhos diferentes, do ponto de vista da ciência, pensaram e agiram sobre a produção de uma narrativa histórica acerca das concepções de nacionalidade, de identidade e de território. O antropólogo e o historiador das bandeiras. Ambos criaram representações do social e argüiram, de forma incisiva, a construção de uma memória e uma identidade nacional, apeados em desvendar os (des) caminhos da modernização científica e cultural do país ao qual dedicaram seus projetos de reforma, científica, social e cultural para o país continente.

Por esse aspecto, construíram os museus em questão como representações instituídas de prestígio intelectual e científico, instituições capazes de produzir através da ciência e da história, uma visão positiva dos trópicos que, por conseguinte, alinhava-se com as idéias de monumentalidade e de celebração para além dos dissensos característicos das diferenças étnicas e culturais presentes na formação social brasileira. Assim, como item primeiro de suas agendas figurava a criação do museu como museu social evocativo das representações do pluralismo da sociedade industrial a se formar e também engajado em defender os interesses da nacionalidade em suas formas e em seus domínios público e privado.

Com efeito, no limiar do século XX, ambos, os cientistas sociais em questão idetificaram os museus sociais como instrumentos de modernização, espaços de ciência e de educação, lugares privilegiados para se fazer operar a transição da antiga sociedade colonial frente ao advento da sociedade moderna industrial burguesa. Lugar de invenção do museu social republicano. Prática esta inclinada a desenvolver, pelo menos em parte, do ponto de vista do liberalismo, as tarefas de instruir e de capacitar os indivíduos-cidadãos frente ao ingresso a um nível de vida civilizado espelhado no mundo europeu dos finais dos novecentos. Esse processo instaurou no conjunto dos meios de produção do social (Boom, 2004, p.214) dos museus Nacional e do Ipiranga, mais precisamente, no momento das comemorações do Centenário da Independência do Brasil no ano de 1922, a preocupação de se preparar o público, de um lado, para o entretenimento e, por outro, para a aceitação e para o reforço de um sentido já cristalizado do consagrado sobre a memória do nacional, republicano. Exemplificava-se, dessa forma, um esforço de articular os museus para a cidade. No caso do Museu do Ipiranga, nos diz Cecília Helena de Salles de Oliveira (2000, p. 75), as “significações estéticas, celebrativas, científicas e pedagógicas.”

Laboratório da ciência e da história, o museu social consagrou-se como guardião do patrimônio nacional imbuído de uma linguagem caracterizada, entre outras, por uma convenção visual sobre as culturas materiais e imateriais do litoral e do sertão do país capaz de criar, com certa eficácia, um lugar de mediação e ponto crucial para aquisição de conhecimentos e de estabelecimento de um guia prático para se praticar a ciência social. (Menezes, 2005, p.31) Um “laboratório de sentidos” capaz de institucionalizar o campo das reformas sociais e, ao mesmo tempo, estar a serviço da fundação de uma república social com influência ilimitada sobre a sociedade civil. (Horne, 2004, p. 159) Sendo assim, as experiências estéticas, científicas e culturais de Roquette-Pinto e de Taunay complementam-se em sua integralidade, em seus campos de possibilidades particulares (Velho, 1989, p. 50) espelhando confrontos e contradições do progresso industrial e científico de suas épocas.

No primeiro quartel do século XX, os museus, Nacional e Paulista (do Ipiranga), converteram-se, nas gestões administrativas, respectivamente, de Edgard Roquette-Pinto e de Affonso E. Taunay, num lócus privilegiado do desenvolvimento científico do país e lugar por excelência da “fabricação” da instrução pública como discurso social e como intervenção racionalizada da republicanização da Nação. Nesse contexto, as noções da ciência e da educação entrecruzaram-se numa lógica formativa que se definia por meio das intenções reformistas de se “nacionalizar” o país a partir da institucionalização da pesquisa científica, de caráter histórico antropológico, no sentido de desenvolver instrumentos de comunicação, de instrução e de pedagogia. Dessa forma, os cientistas sociais em questão não somente conceberam e atuaram nos processos de produção, de circulação, de apropriação e de difusão de conhecimentos e saberes científicos em suas épocas, como também, engajaram-se político-institucionalmente na criação, na produção e na execução de projetos de intervenção científico-pedagógicos realizados no âmbito da sociedade que pretendiam reformar para modernizar, escolarizando e civilizando. Assim, os pensamentos sociais desses dois cientistas sociais tinham por princípio reabilitar e reconfigurar às representações do social do Brasil moderno, republicano. Usos e os fazeres da prática científica que se expressariam através do cientificismo positivista da história de Taunay e da antropologia físico-cultural de Roquette-Pinto que, por conseguinte, buscariam imprimir forma e argumento na produção de uma razão crítica capaz de enfrentar as antinomias da “complexidade perturbadora” – como nos diz Antonio Candido (2003, p.103) que advinha da tradição escravocrata marcada pelo estigma da mestiçagem.

Com efeito, Roquette-Pinto e Taunay investiram na produção de uma prática social que se resvalou para a construção de modelos de interpretação da tropicalidade brasileira, considerando a “brasilidade” como uma construção social comprometida com as “glórias” do passado nacional, mas também como um desafio científico de enfrentamento das questões objetivadas do presente e do futuro. Dedicaram-se, ambos, a adoção de táticas e estratégias no sentido de racionalizar seus inventos científicos na invenção da história nacional. O Museu Nacional e o Museu Paulista reorganizar-se-iam em instrumentos capazes de assegurar, por diferentes processos constitutivos de suas capacidades de produção da memória histórica e coletiva do país, um modelo incorporador dos valores liberais republicanos. Assumiriam, assim, ao mesmo tempo, lugares trânsito entre o passeio público e o testemunho de conhecimentos produzidos pelas ciências naturais e humanas, incorporando “diferenciados segmentos sociais”. (Oliveira, 2000, p. 76)

Roquette-Pinto e Taunay visualizaram os museus sociais como responsáveis pela modernização da sociedade brasileira e do Estado. Este último visto como instituição condutora dos “caminhos civilizadores” pelos quais a nação devia guiar-se. Caberia aos museus protagonizar a missão de “educar para civilizar”, reestruturando e nacionalizando o país, a sociedade em seu conjunto. Atuaram, dessa forma, criando dispositivos de modelização pedagógica e de escolarização contra a barbárie instituída entendida como sociedade desorganizada. Esse processo nos impõe analisar, de um lado, os usos e práticas da história positivista e da antropologia da época na demarcação de um campo de conhecimentos que rogou para si as explicações em torno da natureza “rústica” do homem nacional; de outro, avaliar como essa antropologia darwinista social, de cunho biológico, positivista e racista, transmutou-se numa antropologia expedicionária, de cunho cultural orientada para a incorporação do hibridismo das culturas branca e mestiça.

A essa altura, formar-se-ia uma nova museologia que foi capaz de se inserir novas táticas e novas estratégias de poder encetadas na obtenção de legitimação da autoridade científica através do monopólio de produção de seus profissionais cientistas que, por conseguinte, dominavam um corpus de saberes específicos (Bourdieu, 1998, p. 168) e, muito mais, eram também portadores de um sentimento goetheano que somava razão e sentimento em “afinidades eletivas” a produzir uma espécie de consciência nacional a favor da brasilidade. (Chacon, 2001, p.19)

No caso do Museu Nacional do Rio de Janeiro, a antropologia expedicionária de Roquette-Pinto (re) dimensionou o tratamento científico conferido às questões relacionadas à raça e aos tipos do Brasil, incorporando antropológica e etnograficamente as culturas materiais e imateriais dos negros, dos índios e dos sertanejos do interior do Brasil. Sendo assim, o Museu Nacional conectou as relações travadas entre ciência e técnica, razão e consciência. Realizou esse percurso científico por dentro dos sertões do Brasil. Exemplo disso, vale recordar, a antropologia expedicionária de Roquette-Pinto que se realizou pela densa floresta amazônica da Serra do Norte em 1912. Pelos caminhos das águas de Rondon, Roquette-Pinto criou uma tipologia dos homens considerados “rústicos” do sertão brasileiro, transgredindo o pessimismo dos pressupostos biológicos racistas que alimentavam a antropologia física de sua época.

Mesmo próximo da tradição francesa dos continuadores de Paul Broca, Bertillon e Manouvrier, Roquette-Pinto superou em suas análises antropológicas os “empecilhos intransponíveis” para se construir o protótipo do “homem educado e civilizado” tão requisitado pela modernização científica e cultural do país. Rompeu com a concepção de que o alcance da “civilização” estivesse comprometido pelo caldeamento e pela idéia de inferioridade das raças. (Santos, 2000, p. 120) Os problemas de civilização do Brasil estavam associados à deficiência das raças constitutivas da nacionalidade. Era, antes de tudo, uma questão de organização social do qual falava Alberto Torres. Sob a antropogeografia de F. Ratzel, Roquette-Pinto apropriou-se dos instrumentos de análise do cientista alemão para pensar o território e as políticas de sua ampliação. Com eles, tencionou mapear com detalhadas descrições morfológicas as realidades geográficas dos índios do sertão brasileiro, valendo-se do determinismo geográfico para dizer que era possível e necessário mudar o meio e criar novos condicionantes sociais capazes de influenciar positivamente a transformação do homem do “neolítico” em homem educado, civilizado.

A idéia de museu social alimentava como ponto de chegada a transformação de homens “rústicos” em brasilianos, cidadãos. Em companhia da Expedição de Rondon, em 1912, Roquette-Pinto estudou as doenças, a fauna e a flora dos índios da Serra do Norte. Usou como recurso a fotografia. Valeu-se do filme para registrar as cantigas, os rituais de magia, as formas de habitação, as lendas do milho, da mandioca, os enfeites como o Utiarití, enfim, mediu ossos e observou as condições anatômicas desses homens considerados incultos e “fósseis” do interior do Brasil. Era preciso documentar-lhes a vida e registrar aqui essa observação, como um caso clínico de patologia social. Foi o que eu fiz – dizia Roquette-Pinto (1938, p. 154).

Roquette-Pinto percorreu os sertões da Serra do Norte. Conviveu com as tribos Nambikuáras no alto do rio Juruena. Nas cidadelas de Três Buritis e de Campos Novos, em plena floresta amazônica, examinou os grupos de índios Kokozú, Anunzê, Tagnani e Tauitê. Esforço-se para avaliar etnograficamente a tribo Uaintaçú que se constituía de índios considerados hostis, “comedores de homens”. Formado em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1905, catalogou, de forma minudente as tribos daquela região do norte do país, recuperando-lhes em diário de bordo os traços marcantes do que considerou “homens do neolítico”. Em sua pesquisa registrou os traços étnicos dessa população, a cor da pele, da epiderme, dos cabelos, dos fios de bigode, a presença de barba, o tamanho das unhas, dos pés, das mãos, o tipo de comida, os utensílios, a altura da cabeça, o tronco, o sexo, enfim, uma infinidade de caracteres que faziam a aproximação desses índios da raça negra do litoral. No epicentro de suas pesquisas etnográficas e antropológicas estava à formulação de uma nova concepção positiva dos trópicos preocupada com a busca de uma tradição conciliadora entre o ideal de comunidade e às inconsistências da ordem e das identidades do nacional. À luz das teorias mendelianas e da antropogeografia de F. Ratzel da época, Roquette-Pinto estudou as culturas materiais e imateriais das tribos dos Parecis, dos Terenas, dos Aruaques, entre outras nações indígenas da Serra do Norte.

A emergência dos museus de ciências naturais no Brasil, em finais do no século XIX, ajudou a consolidar as redes de comunicação de continuidade do projeto modernizador, confirmando a edificação dos processos contemporâneos de construção dos museus sociais no país. Estes museus firmaram-se enquanto poder social na sociedade através de redes de comunicação que procuraram instituir, em ordem de prioridades, de realização das pesquisas cientificas, promovendo cooperação e disputas por hegemonias científicas, sociais e políticas de caráter nacional, regional e internacional. (Lopes, 2005) A inserção do país às exigências do chamado “mundo civilizado” identificado com a Europa ocidental, conectando os museus enciclopédicos brasileiros à comunidade científica européia e internacional. Isso fez com que se alargasse o desenvolvimento das pesquisas em diferentes campos do conhecimento científico, a exemplo da biologia, da botânica, da mineralogia, da geologia, da zoologia, da arqueologia, da etnografia e da antropologia, transformando os museus brasileiros em centros de investigações da constituição da brasilidade. Dessa forma, os museus brasileiros desempenharam funções de centros irradiadores e propulsores da pesquisa e da instrução científicas, atuando como protetores e difusores das culturas locais e dos valores liberais da nacionalidade.

Inaugurado em 1895, o Museu Paulista foi concebido como sendo um museu histórico, uma instituição científica direcionada à realização de pesquisas sobre a história fundadora de São Paulo, em particular, através da recuperação da história dos bandeirantes. Ao longo da década de 1920, transformar-se-ia num museu de evocação e celebração da história da nação, com destaque para os eventos da epopéia da descoberta de esmeraldas e outras pedras raras, acomodando os interesses diversos de convivência entre coleções que representariam elementos da zoologia, da biologia e de objetos de história material dos homens. Exemplo disso foi a realização das exposições de caráter permanente que ornamentaram com pinturas e quadros emoldurados de grandes vultos da história colonial e monárquica. Na gestão de Afonso E. Taunay, o Museu Paulista produziu uma narrativa histórica positivista recuperando a história dos Bandeirantes e sua saga civilizadora.

O Brasil começaria por São Vicente. No dizer de Cecília Helena de Salles Oliveira (2002, p.77) fora durante essa gestão que se organizaram, gradativamente, as seções de exposição do Museu com destaque para as grandes personalidades e feitos heróicos dos grandes vultos do Brasil colônia os lugares de importância conferidos às coleções de Zoologia e de botânica.
Em linhas gerais, o conjunto argumentativo, planejado com esmero, ocupa o saguão de entrada, a escadaria de mármore, os espaços que a cercam e o Salão Nobre, fazendo do eixo central do edifício um “caminho”, demarcado por episódios e personagens que representam o percurso da história de São Paulo e do Brasil, e que se inicia com a colonização encontrando seu desfecho na Independência. Sob feições teatralizadas e formais, pinturas, esculturas de mármore e bronze, bem como as ânforas de cristal contendo as águas dos principais rios brasileiros compõem o cenário de um espetáculo visual, esteticamente impressionante e que procura mobilizar sensibilidades para a “realidade objetiva” e aparentemente inquestionável do passado ali apresentado. ( Oliveira, 2002, p.78)
Nessa perspectiva, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Paulista construíram-se como museus sociais a serviço da formação por meio da instrução e da educação da população em geral. Esses museus inspirados em grande parte na tradição republicana francesa atuaram transformando indivíduos em “cidadãos” portadores de direitos à história e à inserção à civilização. Compreendendo uma série de iniciativas que aproximavam museu e povo, conferências públicas foram realizadas, exposições permanentes, criaram-se museus escolares, enfim, um cipoal variado de técnicas de sensibilização voltadas para forjarem o público educado e preparado para absorver as práticas do conhecimento científico e histórico da nação. Um museu social inspirado na Terceira República Francesa. (Horne, 2004, p.123)

Erguia-se um museu social identificado com as pesquisas científicas de caráter experimental, tendo como exercício as funções de catalogação e de classificação das inúmeras coleções que se desdobravam da biologia, da botânica, da arqueologia e da etnografia, entre outras fontes.


Aos museus de Ilhering, Neto e Lacerda e mesmo de Goeldi não se ajustavam a categoria de ‘coloniais’, com que Bather caracterizou os museus do Império Britânico e que Sheets-Pyenson tomou de empréstimo em sua análise dos museus canadense, argentinos e australianos. Nem tampouco as sugestões usuais à época, de que museus menores se concentrassem na exposição de materiais locais, fazendo com que os habitantes conhecessem seu próprio país e permitindo aos especialistas estrangeiros estudar com facilidade o país em questão. Essa última concepção talvez particularizasse o caso do Museu Paranaense, com cuja visão seus diretores se identificavam, e só parcialmente o do Museu Botânico da Amazônia, cujo forte caráter especializado era claramente delimitado por Barbosa Rodrigues, mesmo alguns anos antes de Ihering pontificar esse tipo de museu como solução para a crise dessas instituições. (Lopes,1997, p.334)
O discurso do moderno/modernidade revertia-se de um sopro civilizatório surpreendente, em finais do século XIX, no Império do Brasil, buscando consolidar empenhos de ordem política, econômica e administrativa na intenção de estabelecer novos parâmetros nos quais devem se pautar as produções científicas brasileiras, demarcando lugares de execução de sua prática social e científica, como também redefinindo os lugares de convívio em prol da reforma de costumes e de trocas das experiências mentais na sociedade do alvorecer capitalista. Essa concepção de “reforma” teve como ponto de partida a luta contra “os arcaísmos” que diziam respeito a um perfil colonial de brasilidade que precisava ser substituído pela instituição da ville moderna. Portanto, o enfrentamento da questão da modernidade tornava-se, conjuntamente, à idéia vitoriosa de progresso ocidental, um marco fundamental para a efetivação de um repertório de influências que tinha como epicentro a efetivação homogênea da cultura nacional. O moderno instaurou a idéia de homem novo em oposição ao homem rústico, procurando congelar a sociedade arcaica, seus valores, seus símbolos e seu status. (Freitas: 2006, pp.86-88).

No caso de ambos os museus sociais mencionados, esse processo esteve conectado a fixação de um repertório programático de reformas que se caracterizavam, por um lado, pela mudança física enquanto espaço da Quinta da Boa Vista e do Ipiranga a serem (re) ordenados para atender as funções museais; por outro, pela reafirmação do pensamento social histórico-antropológico associado a um repertório de questões étnicas e raciais que incluíam o confronto entre os estigmas “negativos” e “positivos” dos trópicos. A essa época, a antropologia baseava-se, acima de tudo, nos esquemas das teorias racistas da Europa dos finais dos novecentos. Estudaram-se as populações negras e indígenas a partir de matrizes evolucionistas que congregavam em seu interior técnicas científicas de Gall, Quatrefages, Topicard, Spencer, Mendel, Davenport, entre outros. Esses estudos tinham como pressuposto científico valerem-se da craniologia e da frenologia para localizar e, posteriormente, enquadrar, os desviados e os desviantes da sociedade recém abolicionista. (Santos, 2008)

A obra Rondônia, escrita por Roquette-Pinto em 1912 e publicada em 1917, desabrochou construindo uma literatura científica que se estabeleceu como um divisor de águas no cenário do pensamento social e científico. Em primeiro lugar, porque foi capaz de operar um deslocamento na forma de conceber a idéia de natureza e de cultura, miscigenação e civilização, e por outro, na capacidade de desmontar os sistemas conceituais que nutriam à concepção de inferioridade e degeneração das raças negra e índia em relação à branca colonizadora. Nesse debate científico, rechaçou as abordagens de Euclides da Cunha em Os Sertões, conferindo a ausência de organização social e ao espectro da doença, os únicos males a serem superados pelas populações dos sertões e do litoral em direção à civilização. O mal não era a miscigenação em si, mas as desgraças da deseducação e a incompletude das políticas de saúde pública. Posteriormente, na década de 1920, confirmando esse repertório de questões colocadas em debate, Roquette-Pinto criaria a Quinta Seção de Assistência ao Ensino de História Natural do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Essa Seção foi responsável em institucionalizar as funções educativas e instituir práticas de instrução nas dependências do Museu Nacional e fora dele, a exemplo os cursos oferecidos na Associação Brasileira de Educação (ABE), no período compreendendo os anos de 1924 em diante. Outro exemplo, ainda na década de 1910, foram as Conferências promovidas pela e na Biblioteca Nacional. Estabelecia-se uma dimensão educativa para o Museu Nacional do Rio de Janeiro transformando-o em museu social. Sendo assim, a história da nacionalidade brasileira esteve marcada não somente pelo projeto nacional de se instituir uma memória do vencedor, mas também pela experiência histórica de enquadramento intelectual e político das questões raciais e da miscigenação a uma dinâmica, ao mesmo tempo, contraditória e integracionista. Esta memória foi capaz de urdir e fermentar as noções de ciência, de modernidade e de educação. Nesse aspecto, a idéia de constituição do Estado-Nação associou-se ao princípio de reforço do sentimento nacional quanto à formação das representações sociais que diziam respeito à medicalização da sociedade, à definição étnica do povo, abarcando seus troncos lingüísticos, sua história institucional e as demarcações de fronteiras entre outros aspectos.

A formulação do projeto de uma história nacional estava enredada a uma idéia de modernidade que procurava a todo custo fazer de suas instituições, entidades promotoras da história nacional e da construção da identidade nacional, demarcando, para isto, os interesses da elite letrada imperial. O período de administração do João Baptista de Lacerda a frente do Museu Nacional do Rio de Janeiro, dos anos de 1895 a 1915, revitalizou-se o cenário da Quinta da Boa Vista em São Cristovão como lugar preferencial de símbolo da modernização da produção das ciências naturais no país perseguido pela geração de intelectuais de 1870. A antiga residência oficial da monarquia brasileira transfigurou-se por adaptações sucessivas em lugar de entreterimento, ciência e educação.

Superando conflitos da administração anterior enfrentadas por Ladislau Netto, implementava-se uma nova política de rearranjo documental das coleções diversas existentes, aprimorando as relações geofísicas. Um museu dentro de uma Quinta que obrigava em certa medida o visitante a diversificar o olhar para um complexo natural que incluía o zoológico e o horto. A contratação de cientistas viajante-naturalistas para atuarem como botânicos, biólogos, paleontólogos, antropólogos, etnólogos sinalizava uma preocupação em dotar o Museu Nacional do Rio de Janeiro, situado ainda no Campo de Santana, de um quadro de servidores compatível com a missão e a determinação de se compor um museu de história natural, de primeiríssima ordem mundial, detentor de valiosas coleções constituídas de peças originárias da fauna e da flora das regiões norte e sul do Brasil, das doações de múmias egípcias pelos Imperadores Pedro I e Pedro II e, em especial, de exemplares fósseis das escavações realizadas em sítios arqueológicos pela própria Imperatriz Thereza Cristina na Itália. (Lacerda, 1905, p.68)

Na esteira da modernização científica, o Museu Nacional do Rio de Janeiro sofreu um conjunto de reformas exemplificadas no movimento de (re) aparelhamento material de suas dependências para alocação de suas coleções raras. Estas reformas abrangiam o melhoramento no edifício do Palácio da Quinta da Boa Vista, a adaptação das divisões internas do edifício para recebimento das coleções, seguindo-se de uma metódica distribuição de objetos dispostos no espaço museal organizado em conformidade com as diferentes seções científicas. Isto significou o rearranjo documental do Museu Nacional e a sua reestruturação orgânica num modelo de palácio-museu.



O palácio que servira de habitação do Imperado havia passado por grandes transformações depois do advento da República, para nele instalar-se o Congresso Constituinte. O pavilhão do Congresso, armado no centro do edifício, fechado hermeticamente um grande pátio, que fornecia luz e ar a todos os aposentos internos, mudou inteiramente as condições higiênicas do edifício, tirando-lhe a iluminação e impregnando a umidade as paredes dos aposentos interiores.

As coleções mineralogias jaziam acumuladas, sem ordem, nem método, nos desvãos das colunas, que sustentavam a cúpula dessa construção esdrúxula, enxertada no âmago do velho palácio: a luz escassa, que vinha de cima coada de uma clarabóia, não permitia examiná-las; e a impressão que se sentia dentro desse vasto âmbito sombrio, atravancado de colunas e suportes, não convidava os visitantes a ali permanecerem. (Lacerda, 1905, p.69)
No percurso das reformas promovidas por Lacerda programou-se uma primeira campanha pela demolição do pavilhão que serviu de Congresso Constituinte da Primeira República, sem qualquer ônus para o Tesouro Nacional, rasgando os pavimentos do Pavilhão e os adaptando às novas necessidades de distribuição das coleções museológicas. Aproveitaram-se as salas para acomodar as coleções paleontológicas, pintando, limpando e caiando tudo o que se podia com recursos próprios do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O espaço físico do Museu Nacional do Rio de Janeiro foi demarcado pelos limites do Parque da Quinta da Boa Vista, sendo cercado por postes de ferro e fios de arame, recebendo uma configuração estética que se pretendia colocar a altura dos museus de história natural de Paris e de Londres. Lacerda iniciou a confecção de um catálogo das coleções no qual buscou conferir maior impulso à distribuição dos arquivos, fazendo aparecer nas publicações não somente trabalhos escritos em português, mas em francês, inglês e alemão. A perspectiva era universalizar as publicações científicas do Museu Nacional e a sua difusão pela Europa e pelos Estados Unidos da América. Todavia, a produção científica de Lacerda incorporava a matriz evolucionista e as investigações em antropologia física assentadas nos estudos de craniologia e de freanologia que se destinavam não somente a medir crânios e dimensionar sua capacidade e seu volume, mas também “aprimorar” as possibilidades interlocução com os museus de Paris e de Londres.

Como diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro (1926-1935), Roquette-Pinto aprimorou as conquistas da época de Lacerda, elegendo a questão da mestiçagem como tema e problema de análise antropológica dos tipos humanos que compunham a nacionalidade. O museu como objeto de estudo e sujeito, chave interpretativa para a formulação de uma teoria social sobre o Brasil e seus habitantes do litoral e do sertão. Pesquisador dos sambaquis e dos minerais do litoral sul do Rio Grande do Sul, etnógrafo dos índios da Serra do Norte e dos sertanejos do Centro-Oeste do país, Roquette-Pinto transitou por uma complexa rede de inter-relações sociais e científicas vivenciando estratégias de apropriação, produção e circulação de saberes. Sua antropologia visou mostrar o Brasil a ser descoberto em sua cultura mestiça, defendendo uma política científica de vulgarização dos fazeres do esprit réformateur. Examinar, observador e observado, sujeito e objeto de estudo, agindo sobre eles. (Horne, 2004, p.191)

Pois bem: o processo de modernização do Estado e da nação, em finais do século XIX e início do século XX, expressou-se através de diferentes formas, conteúdos e programas político-institucionais, instituindo-se a partir de sucessivos exemplos de violência institucionalizada. Exemplo disso, a dizimação das populações indígenas e a manutenção férrea da escravidão dos negros africanos e brancos pobres. Herdeiro muito próximo da tradição iluminista francesa, sem o expediente explosivo da rebelião, esse Estado-Nação consolidou-se consoante à idéia de “nação homogeneizada” (Guimarães, 1988, p. 13), constituiu-se sob o paradigma da similitude evocada pela tarefa civilizadora comandada pelos portugueses. Sendo assim, a política centralizadora da dinastia dos Bragança preocupou-se em sepultar as culturas consideradas estranhas, a do índio e a do negro, assegurando a inevitabilidade da presença/domínio do branco como pleno exercício civilizatório construído pelo apagamento das diferenças étnicas e culturais de índios e de negros que foram excluídos do projeto vencedor. Por esse ângulo de análise, três aspectos apareceriam como singulares para selar a construção de uma história nacional do país: o primeiro deles, a construção da idéia de nação não se assentaria na oposição à antiga metrópole portuguesa, estabelecendo a acepção de continuidade e de prolongamento da herança ibérica portuguesa; o segundo, a idéia de que a civilização a ser forjada deveria surgir da eliminação e do enquadramento do Outro (o índio e o negro), respectivamente, pelo genocídio e pela escravidão; o terceiro, a concepção de que a modernidade estaria comprometida em assegurar a integração do velho com o novo num misto de permanência da tessitura social urdida entre escravidão e o liberalismo.

Na década de 1920, deu-se o processo de metamorfosear o Museu Nacional do Rio de Janeiro em “museu social”. Museu das reformas republicanas que teve como acompanhamento as experiências do Museu Paulista (do Ipiranga) por Taunay que, instaurou, durante sua direção, nos anos de 1917 a 1939, um conjunto de iniciativas que procuraram apoderar o Museu de uma vocação historicista ligada a recuperação da história da nação através da história de São Paulo. Uma história civilizadora capaz de formar o “cidadão” republicano e a constituir um axioma da verdade de seu legado. Edifício erguido desde 1885, somente em 1890, a obra do Museu Paulista (do Ipiranga) foi finalizado como um monumento a sintetizar o ato da Independência do Brasil.

Um museu do Grito do Ipiranga capaz reescrever uma história grandiosa da nação que se iniciou com as bandeiras e as entradas em São Vicente. Projeto arquitetônico de Gaudenzio Bezzi que rememorava o Palácio de Versalhes, o Museu Paulista (do Ipiranga) constituiu-se num museu da história nacional. Em 1922, o rearranjo das coleções museais existentes contaram com a participação organizadora do antropólogo Roquette-Pinto, possuindo, na ocasião, a visitação de diferentes classes de públicos. Essa experiência contagiou ambos os museus em questão que se tornaram enunciados e enunciação de uma museofilia da memória nacional. A concepção de Taunay sobre o papel social a ser desempenhado pelo museu social republicano conectou o Museu Paulista (do Ipiranga) ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, em particular, nas estratégias tecidas pelos dois museus no sentido de criar mecanismos de vulgarização científica, a exemplo das revistas e dos museus escolares em escolas primárias.

Conciliando tradição monarquista e arrivismo republicano, Taunay estendeu - como nos assevera Cecília Helena de Salles Oliveira (2002-2003) - “o raio de inserção social” do Museu Paulista, formando uma espécie de aliança entre ciência e história. Taunay foi um produtor de imagens museais que objetivavam compor certo mosaico acerca da invenção da memória do triunfo nacionalista paulista, da reforma social da sociedade e de sua preparação para o advento da modernização. Conciliar para conter e controlar os possíveis jacobinismos. Reformador do Museu Paulista (do Ipiranga) e de suas representações, criou a Seção de História com vistas a conferir visibilidade a concepção de nacionalização do país através da história de São Paulo. Preencheu com esmero as salas e as paredes do Ipiranga, adornando espaços vazios, conferindo-lhe uma feição paulista.

Como bem pontua Nicolau Sevcenko (1989, p.94), a entrada do país na órbita da modernidade européia ocidental impôs um clima frenético de mudanças que apontava para a regeneração do tecido social e para a efetivação de um processo completo de metamorfose envolvendo a sensibilidade coletiva.

Mudança essa que obrigaria os autores a redefinir suas posições intelectuais e que, paralelamente, determinaria uma clivagem no universo social dos homens de letras, de amplas proporções e graves conseqüências. A volatilização dos valores tradicionais e a rápida vigência de novos padrões de pensamento, gosto e ação se disseminam rapidamente, atingindo a todos os setores da sociedade e da cultura. O efeito é o de um vórtice avassalador a que nada escapa. (Sevcenko, 1989, p.5)
Não somente os homens de letras, mas os de ciência também participaram da Belle Époque tropical. A cidade modernizadora desenvolveria uma linguagem mediante duas redes diferentes e superpostas que, segundo Angel Rama, teria a ver com a construção de um espaço múltiplo e fragmentado e também a produção de um espaço simbólico que teria como função, ordenar e interpretar os vãos da cidade. (Rama, 1985, p.53) Os dois museus sociais em questão incluir-se-iam nessa cartografia dos poderes instituídos e instituintes da modernização conservadora brasileira.

Ambos, construíram narrativas sobre o campo de forças científico nacional. Essas envoltas no turbilhão de que nos menciona Marshall Berman (1986, p.15).



O turbilhão da vida moderna tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas nas ciências físicas, com a mudança da nossa imagem do universo e do lugar que ocupamos nele; a industrialização da produção, que transforma conhecimento científico em tecnologia, cria novos ambientes humanos e destrói os antigos, acelera o próprio ritmo da vida, gera novas formas de poder corporativo e de luta de classes; descomunal explosão demográfica, que penaliza milhões de pessoas arrancadas de seu habitat ancestral, empurrando-as pelos caminhos do mundo em direção a novas vidas; rápido e muitas vezes catastrófico crescimento urbano; sistemas de comunicação de massa, dinâmicos em seu desenvolvimento, que embrulham e amarram, no mesmo pacote, os mais variados indivíduos e sociedade; Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e geridos, que lutam com obstinação para expandir seu poder; movimentos sociais de massa e de nações, desafiando seus governantes políticos ou econômicos por obter algum controle sobre suas vidas; enfim, dirigindo e manipulando todas as pessoas e instituições, um mercado capitalista mundial, drasticamente flutuante, em permanente expansão. No século XX, os processos sociais que dão vida a esse turbilhão, mantendo-o num perpétuo estado de vi a ser, vêm a chamar-se modernização.( Berman, 1986, p. 16)
Os museus sociais revestiram-se de diferentes significações e estratégias de atuação segundo seus públicos, como também atuaram como instrumentos de percepção da questão social e dos projetos de reforma social construindo o que Michel de Certeau (1982, p.66) chamou de uma prática panóptica. Observar, medir e controlar, ‘incluir’ à visão. Ver ao longe seria, igualmente, prever, antecipar-se ao tempo pela leitura de um espaço a ser mudado, a ser moldado. Foram tributários da laicidade, da construção de um campo conceitual científico dado à propagação e à recepção de idéias. Roquette-Pinto e Taunay tiveram suas atuações sociais ligados a essa dimensão educadora. Divergentes em idéias e convergentes em atitudes e ações, ambos, demarcaram seus territórios intelectuais a partir do entendimento dos museus sociais como lugares de produção de memória, de história e de ciência da e sobre o binômio identidade/nacionalidade.

Tributários da modernidade européia em quase tudo, os museus sociais tornaram-se ativadores dos sentidos da nacionalidade e da civilização moderna, um meio auxiliar da educação e instrução pública no país. Não era de se estranhar que interpretar a sociedade e planejar o futuro seria um dos pressupostos básicos do discurso fundador de uma nova sociedade pautada na ordem liberal democrática. As comemorações do Centenário da Independência do Brasil preconizaram a elaboração de um projeto de “educar para civilizar”. Com seus museus escolares, suas revistas científicas, seus seminários e seus encontros intelectuais, esses museus sociais apontavam para assumir a tarefa de moldar o povo e constituir a nação. Dessa maneira, a concepção museal de Roquette-Pinto e de Taunay aproximaram-se na construção de uma lógica operatória que visava para além da recuperação dos objetos relíquias, considerados restos do passado, a necessidade de conservar e de inventariar, construindo um processo de (re)significação da informação trazida pelos objetos capturados, (re)elaborando sentidos e tecendo uma nova interpretação.

Como afirma Aida Bañuelos (2003, p.344) a realidade histórica não existe por si só, ela é construída. Os objetos de museologia não estão desgarrados de um fetiche, constituem testemunhos, fontes de pesquisa histórica. O discurso transmitido pelo museu, ou pela coleção, não pode se desligar de quem a constitui nem da época em que é constituída. (Felgueiras, 2003, p.346) Construtores da identidade nacional, os museus brasileiros, em particular, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Paulista contribuíram para promover a idéia de civilidade associada à ciência e a educação (Lopes, 1997, p.325).

Ancoradas na concepção da verdade da ciência, especializando áreas de conhecimento, criando novos espaços de pesquisa e cumprindo o papel de instituição educativa colaboradora da educação normativa. Ambos os museus buscaram contribuir para a ampliação das possibilidades de escolarização, permitindo maior acessibilidade do público em geral ao produto e ao resultado de suas pesquisas científicas. Conformou a comunidade científica pelo interesse, cada vez maior, em obter a centralização do poder social e do prestígio adquiridos através das viagens de exploração científica e das publicações de catálogos classificatórios da tipologia humanas, da fauna, da flora e dos objetos arqueológicos. Sob esta ótica, a transformação desses museus em museus sociais metropolitanos significou fazer da ciência e da educação passaportes para progresso civilizatório.

No primeiro quartel do século XX, os museus sociais metropolitanos tornaram-se redes de sociabilidades no sentido de colocarem suas coleções, seus catálogos e suas investigações científicas à serviço da obtenção por hegemonia científica. Articularam em torno de si, ciência e educação, buscando transformar com a produção sistematizada do conhecimento a instrução do mundo. E, nesse sentido, cumpriu uma função social na pesquisa e na educação laica e popular, combinando as funções científicas e educativas, assemelhando o museu a um organismo vivente. Faziam-se surgir os museus contadores da história nacional. Laboratórios e teatros da memória e da história da ciência. (Meneses, 2005, pp.15-73).

No dizer de Michel De Certeau (1982, p.78) fazer história é uma prática social. Neste aspecto, a produção científica da antropologia-educacional de Edgard Roquette-Pinto aponta para a musealização da educação como ato e ritual celebrativo da da nação, monumentalizando e homogeneizando os diferentes e os diversos aspectos da cultural material dos índios, negros e mestiços, no sentido de produzir uma idéia da identidade nacional associada à campanha por uma nova civilização a exigir uma visão intelectual positiva da raça, da etnia e da cultura. Por esse viés interpretativo, a história positivista de Taunay e a antropologia expedicionária de Roquette-Pinto estabeleceram como pontos de chegada de suas inflexões a formulação de uma teoria social direcionada a problematizarem as noções de raça, cultura e etnia.

Em Roquette-Pinto essa crítica aprofundou-se no rompimento de uma acepção pessimista da fundação do povo e da nação. Refutou o legado da herderança das teorias racistas européias que se forjaram no determinismo geográfico e no darwinismo social. Remando contra a maré do pensamento racista da época, Roquette-Pinto enfrentou pressupostos teóricos racistas de autores como Conde de Gobineau,Casal Agassiz, Chamberlai, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, João Baptista de Lacerda, Oliveira Vianna, Nina Rodrigues, entre outros, fazendo de sua antropologia uma visão positiva dos trópicos, combatendo as noções de inferioridade racial e étnica do que chamou de “brasilianos”. (Rangel, 1997, p. 150)

Roquette-Pinto imputou as razões do fracasso civilizatório do país às precárias condições de sobrevivência dos mestiços do sertão do Brasil, homens trabalhados pela doença. Por essa concepção, a antropologia de Roquette-Pinto dedicou-se a desafiar o desconhecimento das fronteiras e do homem fronteiriço. A questão era a de nacionalizar o país sob os princípios de uma nova ordenação científica e social baseada em educar para civilizar. Nessa perspectiva, a criação dos museus escolaters vislumbrou contar a história da nação através das coleções, das exposições e das expedições científicas realizadas no período, transformando o Museu em um museu educativo, pedagógico, estratégico veículo de e para salvação nacional sdo país, uma espécie de palácio-monumento da educação nacional, teatro da memória e laboratório da história. (Meneses, 2005, pp. 15-24)

A função de instituição do museu social - Nacional e Paulista – esteve associado aos interesses de instruir para desenvolver as potencialidades culturais e científicas do país, envolvendo e aplicando as ciências sociais ao conjunto de reformas econômicas, culturais e sociais produzidas pela sociedade, trazendo ao debate público as contribuições da ciência e da educação no sentido de objetivar a formação de cultura política capaz de interrogar as razões estratégicas do Estado republicano a se forjar.

BIOGRAFIA


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