Docente: Antonia Terra



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Encontro29.07.2016
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Universidade de São Paulo

FFLCH – DH

Ensino de História – Teoria e Prática (2º sem./09)

Docente: Antonia Terra

Discente: Bianca N. Marcossi - vespertino



Descobrindo a história em nosso cotidiano

(do encanto/consumo à consciência histórica)
Resumo

Trata-se de uma seqüência didática que se propõe a trazer o exercício da reflexão/indagação históricas para o cotidiano dos alunos do Fundamental II, a partir da provocação reflexiva de algumas imagens com as quais as crianças convivem em seu dia-a-dia, tais como rótulos de refrigerantes e propagandas de revistas de grande circulação. Pensou-se nesta seqüência como um plano introdutório ao estudo da História no ciclo do Fundamental II.


Objetivo e justificativa

A partir da observação ‘crítica’ e da análise das fontes (disponíveis no anexo 2), busca-se aguçar o espírito inquieto e investigativo dos alunos em relação ao seu próprio universo imagético. O objetivo da atividade é o de tirar a história – e o fazer histórico – do lugar distante e estático dos arquivos e dos documentos (muitos dos quais ininteligíveis – pelos menos na concepção das crianças) dos séculos passados. Este olhar da história como “história dos mortos”, comum a alunos e professores no ambiente escolar e no senso comum, além de tirar a curiosidade dos indivíduos em relação aos temas históricos – já que estes aparentemente não os dizem respeito –, perde seu principal objetivo enquanto disciplina/matéria escolar, que é o de colocá-los como sujeitos históricos, responsáveis por suas escolhas sobre que mundo queremos produzir ou que mundo estamos reproduzindo a cada dia. Segundo Georges Duby, “é absolutamente necessário que o historiador colabore na tarefa essencial que consiste em manter vivo na nossa sociedade o espírito crítico. Quando digo que sou cético em relação à objetividade, é também porque penso estar a prestar um serviço às pessoas, persuadindo-as de que toda informação é subjetiva, que é necessário recebê-la como tal e, por conseguinte, criticá-la” (grifos nossos).

Considerando a escola o lugar de produção de um saber próprio (e, nesse sentido, distinto do saber acadêmico), vemos que um de seus maiores desafios na contemporaneidade é o de ser também o espaço de relativização/consciência/resistência em relação ao contínuo presenteísmo vivido por nossa geração de forma intensa – geração esta que não “percebe liames com o passado e que possue vagas perspectivas em relação ao futuro pelas necessidades impostas pela sociedade de consumo que transforma tudo, incluindo o saber escolar, em mercadoria”1. Entendemos, portanto, que o ensino de História deve contribuir para libertar o indivíduo do tempo presente e da imobilidade/inevitabilidade dos acontecimentos.

Nesse sentido, pretende-se exercitar o ouvido e os olhos em relação a nós mesmos – a nossas produções, a nossos espelhos, a nossos desejos. Não há lugar mais apropriado para se buscar isso do que nossa cultura material e, principalmente nos tempos pós-modernos, investigar nossa cultura imagética/estética/simbólica. A partir deste universo (principalmente, aqui, o das propagandas), podemos entender o que somos enquanto sociedade: em que acreditamos, o que desejamos, quais nosso valores, qual nossa idéia sobre o tempo e sobre o ambiente em que vivemos (bem como seus respectivos usos) etc. Para isso, é preciso perceber que tudo o que está ao nosso redor fala; tem uma história para contar – se quisermos ouvir. Em tudo está imbricada uma experiência histórica – uma experiência que está em nós mesmos: em nossa forma de vestir, de falar, de comer, de fazer, de ver, de usar, de se relacionar com os outros...


Desenvolvimento da seqüência didática

- Alunos do Ensino Fundamental II (é possível a flexibilização da atividade para cada ano do FII)

- Duração: aprox. 7 aulas

- Procedimentos didáticos:



  1. (A1)Organizar a classe em um grande semi-círculo.

2) (A1)Iniciar a aula de história com a leitura, em voz alta, do texto Zadig, de Voltaire (O cão e o cavalo), disponível on-line em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/zadig.html. O objetivo aqui é introduzir os alunos no tema da investigação histórica (observação atenta dos documentos históricos que nos rodeiam). A leitura poderá acontecer com pausas para que os alunos criem hipóteses sobre o enigma central da história: como é que sabe Zadig de tantos detalhes do cão da rainha e o cavalo do rei se não os viu?


3) (A1) Terminada a leitura, iniciar a discussão sobre o trabalho do historiador, ora atendendo a demanda dos alunos a partir das questões levantadas por eles, ora propondo caminhos e questões novas à discussão: qual a relação (semelhança) entre Zadig e um historiador? Como sabem os historiadores do que já passou/morreu se não estiveram lá (se não viram nem o cavalo do rei nem a cadela da rainha)? É preciso voltar no tempo para estudar história? O que/quais são documentos históricos? São feitos por quem? Eles são prova de quê, exatamente? O que é e o que não é documentado? Como estudar a história do que não tem documento escrito? Quanto tempo leva um documento para ser histórico? Quando produzimos um documento histórico? Objetos são documentos históricos? E fotografias? E roupas? E gírias? E prédios? E notas monetárias? E técnicas de guerras? (...)
4) (A2) Contar as diversas formas de como foi visto o documento histórico pelos historiadores, desde o século XIX até nossos dias (o texto, no anexo, poderá servir de base para o professor), tentando demonstrar a função do historiador e do fazer histórico em cada um desses momentos.

CONCLUIR QUE TUDO O QUE SOFRE MUDANÇAS NO TEMPO (TEMPO-ESPAÇO) PODE SER COSIDERADO DOCUMENTO HISTÓRICO PORQUE FOI PRODUZIDO E SIGNIFICADO POR UM TEMPO, POR UM HOMEM E POR UMA SOCIEDADE ESPECÍFICOS.

ENTENDER TAMBÉM QUE NADA É DOCUMENTO ENQUANTO NÃO OS TIVERMOS ENQUANTO TAL, ENQUANTO NÃO OS DESNATURALIZARMOS DO SEU ESPAÇO/TEMPO/USO COMUNS E FIZERMOS “PERGUNTAS” A ELE.
5) (A3)Reunir os alunos em 6 grupos e distribuir a cada um dos eles as imagens selecionadas (anexo 2) para a discussão de um tema. Os temas são: A) meio ambiente; B) alimentação; C) violência. Desse modo, de acordo com o número de alunos na classe, haverá mais de um grupo por tema – o que é bom para, na hora de apresentarem as observações, haver confrontações entre os grupos.

Por exemplo: Grupos 1 e 2 / tema A / Imagens 1, 2 e 3

6) (A3) Propor o exercício de observação, descrição e investigação das imagens: em grupo, os alunos deverão observar atentamente as imagens que vêem. Em seguida, em uma folha, deverão descrever a imagem, identificando:

- sua origem e valor: da onde veio?, para quê/para quem foi feito?, por quem foi feito?, como foi feito?, por quanto se vende?, quanto custou para o vendedor? E para o anunciante? o quanto a imagem está presente na vida das pessoas? De quais pessoas?, onde mais esta imagem aparece? Em outros meios de comunicação? Em outras cidades? Em outros países?, qual seria o objetivo da imagem?, qual seria o objetivo de quem vendeu a imagem?, qual o objetivo de quem a comprou? (...)

- seus aspectos estéticos/formais: do que material é feito o documento?, a imagem é bonita?, há consenso sobre a sua beleza/feiura?, quais as cores usadas?, como estão os objetos e as pessoas representadas?, qual a sensação que a imagem provoca?, quem são as pessoas da imagem? Quem elas representam? (...)

- seus aspectos informacionais: o que diz a foto?, O que diz o texto?, qual informação está em destaque?, o que dizem as informações “secundárias” (em letras menores)?, Há referências para contato? Quais são elas (telefone, e-mail...), Há referência a pessoas famosas? Há referências a pessoas comuns?, Tudo aquilo que os alunos não souberem e acharem interessante/relevante, deverão anotar as hipóteses do grupo, verificar através de pesquisas (internet, pessoas, etc.) e trazer o resultado para a classe.


7) (A4) Agora, cada grupo deverá escrever um texto sobre o tema sugerido pela professora a partir dos elementos observados nas imagens e descritos. A idéia é que, como desconhecessem a sociedade em que vivem, possam, a partir do documento histórico, delinear as principais questões e preocupações (sobre meio ambiente, alimentação e violência) que definem nossa sociedade e nosso tempo: o que somos, do que gostamos, o que comemos, o que nos preocupa, o que entendemos por desenvolvimento e segurança, quais nossos medos, nossos valores, nossos desejos, nossa moda, nosso jeito de produzir e publicar idéias, nossa ideologia etc.. O objetivo é chagar ao homem, ao tempo e ao espaço através de suas produções.

8) (A5) Cada grupo deverá então apresentar a descrição das imagens e a conclusão sobre seu tema à classe. Pode haver apresentações orais e confrontações com outros grupos.

9) (A6) Como fechamento do processo, propor a produção de um material (musical, textual, fotográfico, artístico etc.) individual, fora do espaço escolar, que diga algo sobre o meio em que o autor do material vive, seu modo de vida, suas preferências estéticas, e musicais, seu jeito de falar ou escrever etc. A idéia é que este material seja trocado entre os alunos aleatoriamente para que sejam tratados como documento histórico – a partir da criação se chegará ao criador (dependendo do envolvimento dos alunos pode ser que esta etapa do trabalho, nos casos de série mais maduras, possa ser excluído).

10) (A7) A professora, em seguida, junto com a classe, poderá fazer uma análise do conjunto de documentos produzidos para entender/desvendar o(s) universo(s) da classe, considerando-a uma parcela específica da sociedade brasileira contemporânea (ou da sociedade mundial),com a sua própria história e características. Nesta análise coletiva, é possível se fazer algumas questões aos alunos como:



Conseguimos saber mais de nós mesmos por aquilo que produzimos, que desenhamos, que escrevemos, que gostamos ou não gostamos, que comemos, que fazemos? Para quê conhecermos a sociedade em que vivemos? Para quê conhecermos sociedades que já não existem mais? Para quê conhecer sociedades diferentes das nossas?
Documentos sugeridos – anexos 1 e 2.


1 Bittencourt, Circe (org.) “Capitalismo e cidadania nas atuais propostas curriculares de história”. In O saber histórico na sala de aula, SP, Ed. Contexto, p.14.

Catálogo: sites -> lemad.fflch.usp.br -> files
files -> Esclarecimentos sobre a Licenciatura em História
files -> O censo realizado no início do ano 2000
files -> Anexo 1 – texto-base para a discussão sobre a história da relação do historiador com o documento histórico
files -> Nazismo e preconceito
files -> Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História Ensino de História-Teoria e Prática Professora Antônia Terra de Calazans Fernandes William Gama dos Santos, período noturno n°Usp
files -> Sequência Didática Tema
files -> Sequência Didática Título: Simón Bolívar e a figura do herói. Tema
files -> Como podemos trabalhar com a nossa história de vida numa sala de aula? Algumas considerações sobre história oral, local, e fontes visuais Giovanna Pezzuol Mazza
files -> Aluno: Graduando: Bruno Fernandes Mamede Número Usp: 6838238
files -> Esperamos que tudo bem com todas e todos


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