Doenças Relacionadas com o Trabalho: Diagnóstico e Condutas Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde Ministério da Saúde – ops capítulo 17



Baixar 398.14 Kb.
Página10/16
Encontro29.07.2016
Tamanho398.14 Kb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   16


OUTRAS FORMAS DE ACNE RELACIONADAS COM O TRABALHO: “CLORACNE”

CÓDIGO CID-10: L70.8




I - DEFINIÇÃO DA DOENÇA/DESCRIÇÃO

A cloracne ou acne clórica pode ser definida como uma dermatose caracterizada por comedões e cistos. É indicador sensível de exposição excessiva a determinados hidrocarbonetos policromáticos halogenados.







II – EPIDEMIOLOGIA/FATORES DE RISCO DE NATUREZA

OCUPACIONAL CONHECIDOS

A cloracne foi descrita pela primeira vez no final do século passado em trabalhadores da produção de ácido clorídrico. Naquela época, foi atribuída à exposição ao gás cloro, porém mais tarde, a etiologia da cloracne passou a ser associada à exposição aos hidrocarbonetos aromáticos clorados.


A cloroacne tem sido descrita como resultante da exposição a várias substâncias organocloradas, entre elas, as bifenilas policloradas (PCBs) e os naftalenos policlorados. Estes foram usados como misturas em óleos de transformador ou capacitor e como trocadores de calor (no Brasil, conhecido como Askarell). Apesar de serem, hoje, proibidos em todo o mundo, ainda há equipamentos elétricos com esta carga.
O grupo das dioxinas, também, provoca cloroacne. A mais perigosa delas é a 2,3,7,8 paradibenzodioxina (TCDD), que pode aparecer como contaminante na síntese de diversos produtos clorados, entre eles os herbicidas. Outros produtos clorados têm sido associados à cloroacne, como resultado do próprio produto em si ou pela presença de contaminantes de dioxinas ou naftalenos policlorados, entre eles os derivados halogenados do benzeno, como o bromo benzeno, clorobenzeno, o monoclorobenzeno, di, tri, tetra e penta, e ainda o hexaclorobenzeno (HCB), fungicida muito usado, e derivados clorados do fenol como o pentaclorofenol (PCP), usado como conservante de madeira, conhecido no Brasil como “pó da China”.
Em trabalhadores expostos aos produtos clorados a cloracne deve ser reconhecida como “doença relacionada com o trabalho”, do Grupo I da Classificação de Schilling, constituindo o trabalho causa necessária.




III – QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

A distribuição das lesões é de grande importância na caracterização do quadro clínico, sendo freqüente na região malar e atrás das orelhas. O nariz é muito resistente e, geralmente, é poupado, enquanto que o escroto e o pênis são freqüentemente envolvidos. As axilas são mais comprometidas em pacientes que ingeriram cloracnógenos. As lesões localizadas em áreas de alta fricção podem inflamar por ruptura dos cistos. As lesões, também, podem aparecer em locais afastados da área de contato indicando absorção sistêmica importante.


As lesões iniciais são caracterizadas por pequenos comedões abertos, na ausência das lesões pustulares ou nodulares da acne vulgar. Com a progressão da doença, começam a aparecer lesões miliares (milia) junto com cistos de inclusão epidermóide de cor palha, que alguns autores consideram patognomônicas da cloracne. Nos casos mais graves as lesões inflamatórias (grandes lesões císticas ou abscessos) podem se formar, localizados, preferencialmente, nos ombros e nas nádegas.
Associada às lesões clássicas da cloracne, a pele tem aparência relativamente seca. Ocorre metaplasia do epitélio sebáceo, com subsequente atrofia de glândulas sebáceas, levando a aparência xerótica da pele do rosto, tórax e ombros. Pode ocorrer ainda uma hiperpigmentação, usualmente restrita ao rosto, que nos casos mais graves pode ser generalizada.
O aparecimento das lesões ocorre duas a oito semanas após exposição a um agente cloracnogênico.
Se a exposição recente é descontinuada a lesão regride após um período de quatro a seis meses. Em exposições mais graves e persistentes, as lesões podem permanecer ativas por períodos tão longos quanto 15, 30 ou mais anos, apesar da interrupção da exposição.
Entre os critérios diagnósticos mais importantes citam-se:

  • exposição a um cloracnógeno;

  • agravamento ou aparição do quadro após algumas semanas ou até 2 meses de exposição;

  • predominância de comedões abertos e cistos de cor palha;

  • distribuição atípica de pelos, como por exemplo, na região malar;

  • histologia compatível; e

  • cistos inflamatórios e abscessos na face, atrás das orelhas, no pescoço, nádegas, no escroto e nas coxas.

A cloracne distingue-se da acne vulgar pela distribuição das lesões, pela idade de aparecimento e pela morfologia.







IV – TRATAMENTO E OUTRAS CONDUTAS

A principal medida terapêutica é a cessação da exposição ao cloracnógeno. Podem ser utilizados a tretinoína tópica e, eventualmente, antibióticos (tetraciclina ou eritromicina).








V – PREVENÇÃO

A prevenção da Acne relacionada com o trabalho baseia-se na vigilância dos ambientes e condições de trabalho e da vigilância dos efeitos ou danos à saúde, conforme descrito na Introdução deste capítulo.


A limitação da exposição aos agentes cloracnógenos e de outros fatores envolvidos na determinação da doença inclui as seguintes de medidas de controle ambiental:

  • substituição dos produtos clorados por outros menos tóxicos, especialmente daqueles utilizados como herbicidas e fungicidas, dado serem proibidos em outros países e apresentarem evidências de carcinogenicidade. O mesmo se aplica àqueles que possuem dioxinas como contaminantes;

  • enclausuramento de processos e isolamento de setores de trabalho;

  • uso de sistemas hermeticamente fechados, na indústria;

  • adoção de normas de higiene e segurança rigorosas com sistemas de ventilação exaustora adequados e eficientes;

  • monitoramento ambiental sistemático;

  • mudanças na organização do trabalho que permitam diminuir o número de trabalhadores expostos e o tempo de exposição;

  • medidas de limpeza geral dos ambientes de trabalho e facilidades para higiene pessoal, recursos para banhos, lavagem das mãos, braços, rosto, troca de vestuário;

  • fornecimento, pelo empregador, de equipamentos de proteção individual adequados, em bom estado de conservação, nos casos indicados, de modo complementar às medidas de proteção coletiva.

A manipulação, preparo e aplicação de agrotóxicos deve ser feita somente por pessoas treinadas, observando as normas de segurança, de cuidados especiais com os equipamentos de aplicação e uso de roupas protetoras. Deve-se buscar substituir os produtos tóxicos por outros com menor grau de toxicidade. A produção, transporte, uso, comércio, aplicação, disposição de embalagens (lixo tóxico) de agrotóxicos deve obedecer as normas estabelecidas na Lei Federal N 7.802/89 e os regulamentos específicos dos estados e municípios. Observar também o disposto nas Normas Regulamentadoras Rurais, Portaria MTb N 3.067/1988.


Recomenda-se a verificação do cumprimento, pelos empregadores, de medidas de controle dos fatores de riscos ocupacionais e acompanhamento da saúde dos trabalhadores prescritas na legislação trabalhista e nos regulamentos sanitários e ambientais existentes nos estados e municípios. Os Limites de Tolerância para exposição a algumas substâncias no ar ambiente, para jornadas de até 48 horas semanais, podem ser consultados na Norma Regulamentadora Nº. 15 (Portaria MTb Nº 12/83). Entretanto, esses limites devem ser comparados com aqueles adotados por outros países e revisados periodicamente à luz do conhecimento e evidências atualizadas, observando-se que mesmo quando estritamente obedecidos, não impedem o surgimento de danos para a saúde.
O exame médico periódico visa a identificação de sinais e sintomas para a detecção precoce da doença. Consta de avaliação clínica, que inclui o exame minucioso do tegumento e exames complementares de acordo com a exposição ocupacional e orientação do trabalhador. A Norma Regulamentadora No. 7 define parâmetros específicos para o monitoramento biológico da exposição a alguns agentes, como por exemplo, o pentaclorofenol na urina – o IBMP é de 2 mg/g de creatinina.
Feito o diagnóstico e confirmada a relação da doença com o trabalho deve ser realizado:

  • informação aos trabalhadores;

  • exame dos expostos visando identificar outros casos;

  • notificação do caso ao sistema de informação em saúde;

  • caso o trabalhador seja segurado pelo SAT da Previdência Social, providenciar emissão da CAT, conforme descrito no Capítulo 5; e

  • orientação ao empregador para que adote os recursos técnicos e gerenciais adequados para eliminação ou controle dos fatores de risco.







VI – OBSERVAÇÕES ADICIONAIS E LEITURAS RECOMENDADAS

ADAMS, R.M. (Ed.) – Occupational Skin Disease. 2nd. ed. Philadelphia, Saunders, 1990. 706 p.


ALI, S.A. - Dermatoses Ocupacionais. São Paulo, Fundacentro, 1994. 224 p.
ALI, S.A - Dermatoses ocupacionais. In: MENDES, R. (Ed.) - Patologia do Trabalho. Rio de Janeiro, Atheneu, 1995. p.139-72.

ILO - Encyclopaedia of Occupational Health and Safety. 4th ed. Geneva, International Labour Office, 1998. 4 v.


LEVY, B.S.& WEGMAN, D.H. (Eds.) – Occupational Health – Recognizing and Preventing Work-Related Disease.4rd ed. New York, Little, Brown and Co., 2000.
ZUGERMAN, C. – Chloracne. Clinical manifestations and etiology. Dermatologic Clinics, 8:209-13, 1990.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   16


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal