Dois Perdidos Numa Noite Suja: Quase Quarenta Anos Depois



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Encontro02.08.2016
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Dois Perdidos Numa Noite Suja: Quase Quarenta Anos Depois

Se você é daquelas pessoas que acompanham as aventuras da Sol em América ou, ao menos, percebe que as edições dominicais dos jornais estão se pautando pela novela das oito, então você tem à sua disposição agora um DVD que pode ampliar essa discussão e também os seus horizontes.


Dois Perdidos Numa Noite Suja, lançamento da Europa Filmes, antes de chegar às locadoras, foi filme em cartaz, dirigido por José Joffily, roteirizado por Paulo Halm e estrelado por Debora Falabella e Roberto Bomtempo, em 2003.
O longa, a partir de uma peça de Plínio Marcos de 1966, narra as desventuras de dois brasileiros no exterior, mais especificamente na Nova York pós-11 de Setembro, enquanto lutam pela sobrevivência, em alguns momentos buscando o sucesso a qualquer preço.
Tonho, um mineiro de Governador Valadares, foi para os Estados Unidos com o sonho de “fazer a América”. Já Paco, ou originalmente Rita, partiu rompido(a) com a família e transformou seu exílio voluntário em fuga (provavelmente da sua condição de homossexual).
Enquanto Tonho tenta ganhar a vida honestamente, a não ser pelo fato de que se casa com uma americana apenas para obter o visto permanente ou green card, Paco parte direto para a marginalidade, ainda que sonhe com o estrelato como compositor de hip-hop. Quando se conhecessem, Tonho é apenas um faxineiro de banheiro público e Paco faz michê a 25 dólares. Aproveitando-se do seu biótipo andrógeno, Paco atende a homossexuais e pedófilos. Volta e meia se mete em encrencas – e, numa ocasião dessas, é justamente salvo por Tonho.
Vão morar no mesmo galpão abandonado, planejam um golpe juntos, comentem assassinato e encerram a fita num (anti)clímax que é a grande cena do filme e o grande momento da atuação dos atores (notadamente, Debora Falabella, em seu primeiro papel em cinema, que surpreende). É assistir para saber.
O filme foi bastante criticado por subverter muitas situações da peça original. E, de fato, um dos mais ricos paralelos a se traçar é entre o Brasil de Plínio Marcos, na segunda metade da década de 60, e o Brasil de José Joffily e Paulo Halm, nos anos 2000.
Dois Perdidos Numa Noite Suja foi escrita pelo dramaturgo santista depois da revelação em Barrela (1958), sua primeira obra, descoberta pelo homem de teatro Paschoal Carlos Magno. Num festival promovido por Pagu, a mesma de Oswald de Andrade, destacou-se a incrível história dos presos sodomizados no cárcere.
Apesar da repercussão inicial, a consagração não veio de imediato e Plínio Marcos compôs Dois Perdidos Numa Noite Suja simplesmente porque estava sem trabalho e, segundo suas próprias palavras, todo mundo havia esquecido de que ele era, igualmente, ator. A peça estreou para meia dúzia de pessoas (relata o seu site), mas foi descoberta, dessa vez, por Cacilda Becker – e o autor, como ele mesmo diz, entrou na moda.
As raízes de Dois Perdidos Numa Noite Suja remontam ao teatro do absurdo de Jean-Paul Sartre, que, a partir de Huis Clos (1944), influenciou outros dramaturgos no mundo todo, como o grande Samuel Beckett, cuja obra-prima, Esperando Godot, foi escrita nessa fase.
São obras cujo leitmotiv, ou tema recorrente, abordam a decadência, a solidão, a crueldade, conforme nos conta Ilka Marinho Zanotto, organizadora da mais recente compilação de textos para teatro de Plínio Marcos. Também: a tortura mútua, a falta de sentido e a miséria. Que, aliás, foram bem exploradas na versão cinematográfica de Joffily e Halm, apesar das críticas colocadas.
Se em 1966, a origem de todo conflito era a migração, da cidade pequena para a grande, em 2003, era a imigração, de um país pobre (ou em desenvolvimento) para um país rico do primeiro mundo. Se em 1966, Tonho e Paco viviam de “biscate”, em 2003 já armavam golpes, matavam e eram até encarcerados. Se, ainda, em 1966, Paco vivia “chapado paca”, em 2003, aparecia viciado em crack. E, se em 1966, a grande “jogada” era abordar e assaltar um casal de namorados, em 2003 era torturar e possivelmente matar um homossexual em Nova York.
É irônico porque, apesar de todo o choque, todo o escândalo e toda a censura que se abateram sobre Plínio Marcos e seu teatro original, a comparação, quase 40 anos depois, mostra como perdemos – ainda mais – a inocência e a ingenuidade.
E por mais que se discorde do tratamento conferido a Dois Perdidos Numa Noite Suja por José Joffily e Paulo Halm (que uma revista semanal chamou de “vacuidade típica de reality show”), o DVD já vale por introduzir o espectador no inquietante universo de Plínio Marcos, que, antes de falecer em 1999, se autoproclamava, como muita propriedade, “repórter de um tempo mau”.
Julio Daio Borges é editor do DigestivoCultural.com


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