Dom Pedro II no Baixo São Francisco (considerações em torno de uma viagem)



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Dom Pedro II

no Baixo São Francisco

(considerações em torno de uma viagem)

(outubro de 1859)

L. F. R. Soutelo


Introdução

O rio São Francisco, desde o período colonial, tem sido objeto de observação sobre os mais variados ângulos. Resultou disto uma extensa bibliografia que se encontra à disposição de estudiosos e pesquisadores que tomem o rio como campo de seu estudo.


Entre os vários relatos, destaco aquele que Dom Pedro II registrou em seu diário de viagem, quando em outubro de 1859 viajou pelo rio, desde a sua foz até a cachoeira de Paulo Afonso.

A motivação da viagem

A subida do rio faz parte da viagem às chamadas províncias do norte da Corte até a Paraíba, desenvolvida entre outubro de 1859 e fevereiro do ano seguinte. Desde o final da década anterior, a idéia fora estimulada pela Princesa D. Francisca, a Mana Chica, como ele a chamava, e pelo Visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo de Varnhagen, que viam na viagem imperial uma oportunidade para estreitarem-se os laços que deviam unir os súditos do norte, notadamente os de Pernambuco, muitos dos quais divididos pela Revolução Praieira, à monarquia.

Permita-me V.M.I. lembrar-lhe outra vez, cá de longe, quanto é urgente acudir, com a Sua Augusta Presença, às Províncias do Norte. Político seria até passar-se para ali com o Governo e as Câmaras, ao menos por um ano. As coisas vão-se figurando muito mal e nada pode já acudir a certas tendências senão a Presença Augusta de V. M. Imperial1.
Em 1854, voltava o diplomata e historiador a escrever ao monarca para propor uma viagem ao norte do País.

Interessa-se S.A.I. [D. Francisca, Princesa de Joinville], como é de crer, mt.o em tudo quanto respeita a V.M.I.; conheci que não aprova o pensamento de uma viagem de V.M.I. à Europa; bem que por outro lado, diz que votou pela conv.a de uma visita de V.M.I. às nossas Prov.as do Norte, e q tem insistido por ela escrevendo a V.M.I. mais de uma vez a tal resp.o . Estas e outras particularid.es sobre que recaia a conversação, provam bast. quanto pensa em V.M.I. Sua Augusta Irmã2.

Aliás, em 1857, a Princesa de Joinville lamentava a falta de entusiasmo do seu irmão pelo mundanismo, pelo exercício da parte ornamental da monarquia e o que isto representava para o regime.

Pobre mano Pedro, elle tem bem precisão de hum amigo ao pé delle como o Senhor. Tudo vai mal na Casa. As dividas comessão e dizem já serem grandes, isto por falta de ordem. O mano não dá mais bailes, nem Saraus, não viaja mais. Tudo isto he de um efeito pessimo [...] e temo q. lhes faça mal ao prestígio que os nossos compatriotas ainda garantão pela monarquia. Se elle nos foge estamos perdidos sem duvida nenhuma3.

Ademais, a D. Pedro II não devia ser desconhecida essa importância da sua presença junto aos súditos. Em 1845, ele colhera pela primeira vez os resultados da viagem às províncias do sul: Rio Grande do Sul, após a vitória das tropas imperiais em face dos Farroupilhas, Santa Catarina e São Paulo, e mais tarde (1847) a algumas cidades e vilas da Província do Rio de Janeiro.
Esses resultados não foram apenas no plano político, mas também no campo pessoal. No retorno à Corte, em abril de 1846, o ministro da Áustria, Rechberg, evidenciava a boa impressão causada pelo jovem Imperador de 21 anos:

(...) Sua Majestade cresceu consideravelmente e ganhou aplomb que parece indicar um caráter firme e decidido4.

As viagens imperiais, obviamente, tinham um sentido político.

Era preciso que o imperador fosse visto por todo canto, prestigiando assim as localidades mais distantes. A presença de d. Pedro II em outras cidades e províncias era mesmo necessária até para que a monarquia se fortalecesse e preservasse a unidade nacional5.

O reforço das ligações entre o monarca e a sociedade local dá-se também com a concessão de títulos nobiliárquicos, condecorações e outras honrarias.

O quadro de Sergipe é o seguinte:




Província de Sergipe

Agraciados após a visita imperial


1860




TÍTULOS/CONDECORAÇÕES



QUANTIDADE






Barões6


03

Comendadores7


36

Oficiais8


30

Cavaleiros9


43

Cônegos Honorários da Capela Imperial


02




Fonte: Correio Sergipense, março de 1860

As condições objetivas da vida nacional, como as revoltas internas e a guerra contra Rosas, entre outros fatores, fizeram com que as viagens pelo interior do Império fossem adiadas para uma oportunidade mais propícia. Esta oportunidade dar-se-ia entre 1859 e 1860. Agora o Império estava em paz, não havendo qualquer acontecimento que impedisse o monarca de visitar seus domínios, buscando reforçar as ligações entre a monarquia e seus súditos.

Para melhor conhecer as províncias do meu Império, cujos melhoramentos morais e materiais são o alvo de meus constantes desejos, e dos esforços do meu governo, decidi visitar as que ficam ao norte do Rio de Janeiro, sentindo que a estreiteza do tempo que medeia entre as sessões legislativas me obriguem a percorrer somente as províncias do Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, reservando a visita das outras para mais tarde10.

As observações feitas pelo Imperador em sua “longa” viagem, de cinco meses, estão no diário que organizou a partir dos apontamentos que escreveu.


Este diário e muitos outros, de viagem ou não, encontram-se entre os documentos do Arquivo da Casa Imperial. Levados para a França, após o 15 de novembro de 1889, foram organizados no Castelo d’ Eu pelo historiador Alberto Rangel. Nos anos trinta, toda documentação foi doada ao Museu Imperial pelo Príncipe D. Pedro, do Grão-Pará, primogênito da Princesa Isabel.
Esses diários foram usados parcialmente por muitos poucos historiadores, como Mary W. Williams, Heitor Lyra, Alcindo Sodré, Hélio Vianna, Pedro Calmon, Francisco Marques dos Santos, Rodolfo Garcia. Integralmente foram publicados os diários das viagens à Bahia11, com notas de Lourenço Luiz Lacombe12, Pernambuco, anotado por Guilherme Auler13, ao Alto Nilo (viagem de 1871/1872), ao Paraná (1880) e a Minas Gerais (1881).

A Revista do Instituto Histórico e Geográfico (no. 26), a Revista de Aracaju (no. 7) e Sergipe e seus monumentos, de José Anderson Nascimento, reproduzem os apontamentos do Imperador sobre a sua estada entre nós. Não constituem na realidade um diário propriamente dito, pois Dom Pedro II nunca o escreveu. São simples notas.

É verdade que, salvo o Diário de 1862, todos os outros são mais cadernetas de apontamentos, que diários propriamente. Pretenderia o imperador passá-los a limpo mais tarde? quem sabe?! O fato é que se tratam de notas soltas e apressadas, escritas em cima da perna, numa caligrafia difícil – enigmática muitas vezes, de um homem apressado e cheio de ocupações.

Ademais

A caligrafia de Pedro II não prima pela nitidez do traço. A frase mesmo, nem sempre é perfeita; a expressão é, muitas vezes, repetida; a palavra truncada. São, aliás, como já disse, simples notas apressadas de um chefe de Estado, tomadas ao correr da viagem. Sua leitura, em certos trechos, demanda paciência e, em outros casos, um verdadeiro trabalho de criptógrafo14.

A viagem à cachoeira de Paulo Afonso está no diário da visita à Bahia, esta desenvolvida em três etapas distintas. A primeira vai de 06 de 12 de outubro, quando parte para Paulo Afonso. A segunda corresponde ao período de 26 de outubro, quando retorna da excursão pelo São Francisco, a 19 de novembro, data da partida para Pernambuco. A última inicia-se em 21 de janeiro de 1860, quando deixa Sergipe e começa a viagem de volta para a Corte, visitando Valença, na Bahia, e a província do Espírito Santo.



A preparação da viagem

No prefácio com que introduziu o diário do Imperador, Lourenço Luiz Lacombe dá conta da preparação da viagem, como a escolha dos integrantes da comitiva imperial (dentre outros, o camarista do Imperador, o mordomo em viagem, o guarda-roupa, a veador, a dama-de-honra e a açafata da Imperatriz, o médico da Imperial Câmara, o capelão, além dos criados e do Ministro do Império) ou a requisição de barracas ao Ministério da Guerra para servirem de abrigo aos viajantes na excursão à cachoeira de Paulo Afonso.


Preocupam-se também com a recomendação de que, na ausência do imperador, os ministros de estado expediriam os atos em nome do monarca, ao qual seriam remetidos aqueles outros que, “segundo as leis e os estilos, dependem da minha imperial assinatura” ou, ainda, com a autorização acreditando o mordomo em viagem para “nas diversas tesourarias por onde S.S.M.M. têm de passar, a receber delas as quantias de que foi necessitando a casa itinerante” dando “em troco letras sacadas sobre mim, em minha qualidade, letras que serão descontadas pela mensalidade da dotação imperial··”.

Entretanto uma recomendação do Imperador era expressa: não deviam ser realizadas despesas extraordinárias à custa dos governos locais.


Que é muito provável que S. M. visite as povoações mais notaveis da Provincia, e que como seus habitantes podem querer fazer gastos extraordinarios para solenizar tão honrosa visita, S. Exa. previne que com quanto S.M. O Imperador aprecie decididamente todas estas demonstrações, será muito do Imperial agrado, que os donativos com que conjurem concorrer para este fim possam ser aplicados em beneficio das localidades que o mesmo Augusto Senhor visitar15.

Mas nem sempre as recomendações imperiais eram atendidas e os gastos, feitos pelos governos locais e mesmo por particulares, aconteciam. Alguns desnecessários, outro com utilidade geral. É o caso, por exemplo, da ponte de madeira construída em Aracaju para a visita de Dom Pedro II e que desde então se agregou à cidade, servindo à população16, a tal ponto que, guardadas as devidas proporções, podemos dizer que ela está para a capital sergipana como o elevador Lacerda para Salvador ou a torre Eiffel para Paris.


Era necessário estabelecer roteiros de viagem
Consultado, o Presidente Manuel da Cunha Galvão opina sobre o melhor roteiro para a viagem do monarca, ao subir o rio.
Quanto a viagem de S. M. O Imperador ao Penedo e Cachoeira de Paulo Affonso, é do meu dever levar ao conhecimento de V. Exa. que no mesmo dia em que recebi o Aviso a que tenho a honra de responder, convoquei em Palacio todos os chefes de Repartição e pessoas gradas desta Capital para consultar sobre o melhor itinerario para a viagem de S.M. O Imperador desde a Bahia até a Cachoeira de Paulo Affonso, e que pelas informações minuciosas que obtive e pude colher que o itinerario mais conveniente e apropriado era o seguinte: Da Bahia ao Penedo, de Penedo a Propriá, de Propriá a Traipu, de Traipu a Piranhas viesse embarcado, e de Piranhas e Paulo Affonso por terra pelo territorio da Provincia das Alagoas.

Destas localidades a única que pertence a Provincia de Sergipe é Propriá, onde eu julgo que S.M. O Imperador deve repousar, e para que possa ter lugar a recepção, acabo de dar as precisas ordens incumbido este honroso trabalho a uma Comissão das pessoas mais importantes do lugar17.

Sugeria, ainda, o Presidente da Província que o Imperador, no retorno de Paulo Afonso, se hospedasse em Vila Nova (atual Neópolis), podendo ficar na casa do Barão da Cotinguiba18, nas proximidades da vila.


O viajante

O Imperador, que visita os seus domínios do norte, não é mais o rapazinho de vinte anos que estivera, em 1845, na província de São Pedro do Rio Grande do Sul. É um homem de trinta e quatro anos, em pleno vigor físico, casado há 16 anos, pai de duas filhas, pois os dois herdeiros varões - os Príncipes Dom Afonso e Dom Pedro Afonso, morreram pequenos. Nesta altura da vida, encontrara aquela de quem se pode dizer que foi o amor de sua vida: D. Luísa Margarida de Portugal, condessa de Barral, preceptora das princesas d. Isabel e d. Leopoldina.


Estava à frente do governo há exatos dezenove anos. Enfrentara as revoltas internas no Rio Grande do Sul, em São Paulo, em Minas Gerais e em Pernambuco, além de uma guerra externa, contra Rosas. Agora o Império, não obstante as suas contradições internas, estava sob a égide paz. Libertando-se do círculo áulico, do qual Aureliano Coutinho e Paulo Barbosa da Silva eram as mais expressivas figuras, firmara a sua autoridade, exercendo um controle mais estrito sobre o governo, o chamado “poder pessoal”, e a política nacional.


O roteiro da viagem

A partida da esquadrilha imperial19 se verificou a 1º de outubro de 189, sob entusiasmadas manifestações da população do Rio de Janeiro, embora retardada porque o Imperador desejava esperar notícias vindas do Prata, trazidas pelo valor “Princesa de Joinville”. A 6 do mesmo mês, chegava o casal imperial à cidade de Salvador, que Dom Pedro II deixou a 11, para visitar a cachoeira de Paulo Afonso e as localidades alagoanas e sergipanas do Baixo São Francisco (Propriá, Neópolis e Curral de Pedras, além da ilha de São Pedro), retornando a seu ponto de partida a 26, logo saindo para um giro pelo Recôncavo e outras cidades da Bahia, até 18 de novembro. A 19, seguiam Dom Pedro II e D. Teresa Cristina para Pernambuco, indo em visita, entre 24 e 30 de dezembro, à Paraíba de onde partiram para Maceió. A visita a Alagoas se prolongaria até 10 de janeiro de 1860. A 11, estavam os monarcas em Aracaju, desembarcando na ponte que, mais tarde, chamariam “ponte do Imperador”.


A permanência imperial em Sergipe prolongou-se até 20 de janeiro, visitando Aracaju (com uma esticada até a Barra dos Coqueiros), São Cristóvão, Maruim, Laranjeiras, Itaporanga d’ Ajuda (na passagem para o engenho Escurial) e Estância. Daí seguiram para Valença, na Bahia. A 26 estavam Dom Pedro II e D. Teresa Cristina em Vitória, dando início à estada no Espírito Santo, visitando não apenas a capital mas também algumas cidades e vilas do interior, encontrando-se em Guarapari com o arquiduque Ferdinando Maximiliano20, irmão do imperador Francisco José da Áustria e seu primo em primeiro grau, que viajava pela América do Sul a bordo da fragata “Elisabeth”, da marinha austríaca.
A 10 de fevereiro iniciava-se a viagem de volta ao Rio de Janeiro, aonde chegaram no dia seguinte, encerrando uma viagem de mais de quatro meses.


A passagem pelo São Francisco

Ainda a 11 de outubro de 1859 não se sabia em Aracaju a data do início da excursão imperial pelo rio São Francisco. No tarde deste dia, a notícia chegou ao conhecimento do Presidente da Província, Manuel da Cunha Galvão. Viera numa carta particular que um amigo lhe dirigira de Salvador. Trouxera-a o vapor “Valéria de Sinimbu”, da Companhia Baiana.


Em dois dias, o Imperador estaria em Penedo.
Disposto a partir para o São Francisco no dia seguinte, às 5 horas da manhã, passou o Presidente a diligenciar providências para desincumbir-se da missão de receber o monarca, convocando ao palácio os chefes das principais repartições da Província e determinando a abertura de muitas delas e da alfândega até tarde da noite, a fim expedirem-se os necessários documentos para o despacho do navio.
Na madrugada seguinte, o “Valéria de Sinimbu” vencia a linha entre o rio e o mar, levando o Presidente Cunha Galvão, seu secretário e um oficial da Secretaria, o Chefe de Polícia, Ângelo da Silva Ramos, o Capitão-do-Porto, José Moreira Guerra, os Comandantes da Companhia Fixa e do Corpo de Polícia, além da banda de música do Corpo Policial da Província. Na esteira do vapor seguiam a catraia “Piauipitinga” e o vapor a reboque da Associação Sergipense, os quais, contando com práticos, deveriam balizar a entrada da barra, sob a orientação do capitão-do-porto.
Transposta a barra do São Francisco, às quatro horas da tarde, seguiu o vapor para Vila Nova (hoje Neópolis) onde atracou, ao largo, às sete e meia da noite. Na altura de Brejo Grande, encontraram-se os navios que conduziam os governantes das duas Províncias. Por determinação do Presidente de Alagoas, Souza Dantas, em honra do de Sergipe salvou “o vapor de guerra que o conduzia, fazendo subir as vergas toda a tripulação do mesmo vapor; e prorrompendo em vivas os mais entusiásticos a S.M. o Imperador, o que tudo era acompanhado de harmoniosos sons da música marcial que se achava a bordo, a qual durante estas demonstrações de favor e regozijo tocava o hino nacional·”
Recebido pelas autoridades locais, instalou-se Cunha Galvão em casa que lhe aprontara o Presidente da Câmara, Tomás Pinheiro de Souza Costa, e começou a diligenciar providências para o recebimento do Imperador em Vila Nova e em Propriá. Requisita o “Valéria de Sinimbu” para conduzi-lo, no dia seguinte, até a barra, ao encontro da flotilha imperial, e determina a partida do capitão Manuel Agostinho da Silva Moreira para Propriá, com um ofício para o Juiz de Direito da Comarca, Hugolino Ayres de Freitas Albuquerque, presidente da comissão naquela cidade, orientando-o quanto a iniciativas a adotar.
Com o emissário, foram enviados adornos para a casa, onde se hospedaria o monarca, criados para o serviço, armamentos e alguns soldados.
Enquanto isto, desde o final da manhã daquele mesmo dia, 12 de outubro, o Imperador estava no mar. Embarcara pouco antes do meio dia no Arsenal de Marinha.
[...] Da Bahia à foz do S. Francisco são 210 milhas, e andando 7 milhas estaremos lá perto das 6 horas da tarde21.
Na tarde do dia 13, ele ainda anota:
“3 e 21’ – Avistam-se vapores pela proa a 10 milhas. 4 e 40’. Agora é que se avistam os vapores por detrás de uma ponta de areia da barra do S. Francisco. 5 e 34’ passamos o cordão; o espetáculo foi belo e o Iguatemi, da estação de Pernambuco, salvou ao atravessarmos o cordão, acompanha-nos com um vapor pequeno22 e o Itajaí; o Pirajá está dentro todo embandeirado23.

Era o primeiro contato do Imperador com o rio e seu universo. Como ele próprio afirma, “o espetáculo foi belo”. Ao cair da tarde, no crepúsculo, os navios embandeirados, as tripulações nas vergas, os canhões troando, as bandas de música executando o hino e o vapor Apa passando, entre eles, com o Imperador com seus quase dois metros de altura, em posição de destaque.


Ali, na barra do São Francisco, desenrolava-se uma cena do cerimonial naval brasileiro. Ali não estava um homem qualquer, mas o monarca, em visita a seus súditos, ao qual se prestavam as honras de praxe.
Fundeado o “Apa”, “com 7 braças de fundo”, logo começaram a chegar autoridades, como o Deputado Mendonça Castelo Branco, de Alagoas, antes mesmo do Presidente Manoel Pinto de Souza Dantas, o capitão-do-porto de Aracaju, o Presidente de Sergipe, Cunha Galvão, e seus acompanhantes, a oficialidade do “Iguatemi”, enfim um mundo personalidades que se encontravam ali para tributar homenagem ao monarca.
Antes de retirarem-se os Presidentes das duas Províncias, que se sentaram à mesa imperial durante o chá, receberam a recomendação de encontrarem-se a postos às 5 horas da manhã, pois Dom Pedro II pretendia sair cedo para a visita à primeira povoação: Piassabuçu.
Iniciava-se nesta noite a visita imperial ao São Francisco. Ela se estenderia até o dia 24, quando ele deixa Penedo e embarca de volta à Bahia, depois de percorrer as principais localidades das duas províncias, ainda que a base de apoio tivesse ficado do lado de Alagoas. A partir dele era mais fácil atingir-se a cachoeira de Paulo Afonso.
Em toda a viagem, para a qual o Imperador se preparara lendo “Viagem às Cachoeiras de Paulo Afonso”, de José Vieira de Carvalho e Silva24 , ele teve uma companhia inseparável: uma cópia do mapa de Halfeld, feita por Boulanger.25

O roteiro no São Francisco

O roteiro da viagem obedece, com toda certeza, à própria geografia da região, servindo-se Dom Pedro II de navios (“Apa” e “Pirajá”), até onde a profundidade do rio permitia a navegação, de uma galeota, a partir do ponto onde os vapores não podiam subir o rio, e cavalos.


Visita, na ida, Penedo (dias 14 e 15), Vila Nova (dia 15), Propriá, Porto Real do Colégio e São Brás (dia 16), Curral de Pedras, atual Gararu, e Pão de Açúcar (dia 17), Piranhas (dia 18), a partir de onde se inicia a viagem por terra para chegar a Paulo Afonso. Ainda assim, a última fase da viagem é feita em etapas. Tendo dormido na fazenda dos Olhos d' Água, no dia seguinte (dia 19) vai ao Talhado e ao Salgado e, finalmente, a Paulo Afonso, cujas cachoeiras foram visitadas no amanhecer do dia 20.
No alvorecer do dia 21 de outubro, a comitiva iniciava a viagem de retorno, vencida em etapas, as mesmas da ida, mas visitando ainda outros lugares, com paradas em Entremontes, na ilha de São Pedro (onde se dá o encontro com os índios Xocó e o Frei Doroteu), Limoeiro, Lagoa Funda, Barra do Panema, dentre outras, chegando a Penedo na manhã do dia 24 de outubro, de onde partiu na tarde do mesmo dia, depois do Imperador ter recusado a permanecer mais tempo na cidade, para participar do baile que a Câmara Municipal pretendia lhe oferecer.

Visitei todas as povoações de alguma importância do rio de S. Francisco, ou antes, quase todas as povoações que margeiam o rio, e assim evitei quaisquer conseqüências de rivalidade que já se iam criando entre elas26.

Chegando ao Pontal da Barra, no final da tarde, o “Apa” lança âncoras. É que o vice-almirante Marques Lisboa, à vista do vento muito forte, soprava de L.S.E. e depois de N.E. havendo já 2 horas de vazante27, decidiu somente transpor a barra na manhã do dia seguinte.
E, finalmente, na manhã do dia 26, a esquadrilha entrava na Baía de Todos os Santos, indo fundear ao largo, na altura do cais do Arsenal.

Os cerimoniais

O sentido de estado, de governo e poder está indissoluvelmente ligado ao sentido de cerimonial. Nas monarquias este sentido é muito mais presente, podendo-se dizer que é intrínseco a elas. No Brasil, o regime monárquico não fugiu à regra, tantos são os símbolos, as cerimônias introduzidas, inicialmente, pela corte portuguesa e, de modo especial, por Dom Pedro I na época da Independência.


Aliás, esta é a definição do termo cerimonial:
a seqüência introduzida pelo uso e pela vontade das pessoas autorizadas, das diferentes partes de uma cerimônia política, religiosa, judiciária ou mesmo privada28.
Nas monarquias, mesmo nas parlamentares, é o monarca o foco das atenções, o centro de onde se colocam todos os princípios de protocolo e cerimonial. Na Inglaterra, por exemplo, a definição da precedência parte do monarca, passando pelo seu consorte, pelos filhos homens, pelo Arcebispo de Cantuária, pelo Lorde Grão Chanceler, pelo Arcebispo de York (representantes da coroa). Somente depois vem o Primeiro-Ministro.
Símbolo vivo do Estado e da nação, o Império termina por encarnar-se em sua pessoa, refletindo em certa medida, a natureza dupla da Constituição, expressa na doutrina do quarto poder, o poder moderador.

Dessa forma, o segundo imperador dos brasileiros reapropriava-se das fórmulas tradicionais da realeza européia. Essa imitação não era uma falsa cópia. Ao contrário, fundava-se inteiramente no direito. Prolongada na América graças a esse príncipe, a monarquia reproduziu em sua dimensão mágico-simbólica os mesmos esquemas da Europa. A idéia da realeza como sustentáculo da autoridade e da ordem era muito forte. Por outro lado, a centralização política do Estado imperial favorecia essa imagem centrada na pessoa do monarca representando a nação, ou seja, a nação era vista e sentida através de seu soberano, que focalizava sobre si todos os olhares, atualizando atitudes mentais bem-definidas29.

As viagens do Imperador, em qualquer dos quadrantes do país, faziam parte da formação da imagem da monarquia. Quem viajava não era o homem, mas o símbolo do Império. E, por esta razão, elas eram cercadas durante todo o tempo (antes, durante e depois) por cerimônias.
Registram os jornais da época que, nesta viagem, na véspera da partida para o norte, Dom Pedro II e D. Teresa Cristina receberam os cumprimentos das altas autoridades do governo, funcionários públicos e pessoas gradas da Corte. No dia seguinte novas cerimônias têm lugar: autoridades e todo o corpo diplomático, com o ministro de Portugal, conde de Tomar, à frente, na função de decano, comparecem ao Arsenal de Marinha para as despedidas.
Mas as cerimônias não se restringem aos cumprimentos. Embarcados os soberanos cercados de todo o séquito (Ministro do Império, camarista, guarda-roupa do Imperador, mordomo em viagem, médico da Imperial Câmara, veador e dama de honra da Imperatriz) e partido o “Apa”, comboiado pelos navios de guerra “Amazonas”, “Paraense” e “Belmonte”, seguem-no até fora da barra o “Paraíba”, o “D. Pedro” e o “Concórdia”, da marinha espanhola, com a marujada nas vergas.
[...] e o espetáculo se juntavam as salvas das fortalezas, as continências militares e o agitar dos lenços da assistência popular nas amuradas dos cais e alto dos morros30.
Na chegada às cidades e povoações visitadas outras cerimônias tinham lugar: recebimento pelas autoridades locais, entrega da chave da cidade31, ósculo ao Crucificado, ida à igreja matriz sob o pálio, Te-Deum, alocuções, beija-mão, etc. A Guarda Nacional, em alas, as irmandades mais importantes, o povo formavam o decor para o cerimonial.

S. Majestade Imperial saltou em uma ponte decentemente preparada, sendo recebido pela Câmara Municipal com suas vestes próprias, cujo Presidente lhe fez entrega de uma chave de prata presa em um laço de fita verde.

Junto a ponte achavam-se colocadas em alas não só as Irmandades do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora do Rosário precedidas do Clero, mas também os membros da comissão que S. Ex. o Sr. Presidente da província havia antecipadamente nomeado, a saber: o Juiz de Direito Hugolino Ayres de Freitas Albuquerque, Comendador Antônio José da Silva Travassos, Dr. Juiz Municipal de Vila Nova Gonçalo Vieira de Carvalho Melo, Vigário de Propriá Manoel Joaquim Nunes, Presidente da Câmara Municipal de Propriá Padre Manuel de Albuquerque Silva Ramalho, o da de Vila Nova, Tenente-Coronel Tomás Pinheiro de Souza Costa, e o Delegado Germano de Freitas.

Uma guarda de honra se achava postada sob o Comando do Capitão de primeira linha Manuel Agostinho da Silva Moreira. Além desta guarda formou-se em duas alas o Batalhão da Guarda Nacional da Vila em número de 196 pessoas que estenderam-se desde o porto até a Igreja Matriz, sob o comando de seu distinto Comandante Tenente-Coronel Medeiros Chaves.

[...] Continuou S. M. Imperial em direção à Matriz, onde assistiu à celebração de um Te Deum que lhe foi oferecido, e em que oficiaram o Rev. Vigário da Freguesia, o da Vila, e o Rev. Manuel Francisco de Carvalho, sendo composto o coro dos Reverendos Fr. José da Piedade, Fr. Simplício da Santíssima Trindade e Fr. José de S. Jerônimo32.
O próprio traje de Dom Pedro II era cuidadosamente escolhido e ligava-se à formação da idéia do símbolo da nação. Ao desembarcar em Penedo, ele trajava a segunda farda de almirante33.

(...) casaca preta com dragonas douradas, calça branca de listras também a ouro, faixa azul34 sobre o colete branco, contrastando admiravelmente. O peito cintilava de medalhas35.

Entretanto, logo ele adotaria um traje mais adequado à viagem:

(...) sobrecasaca de pano preto abotoada, calça de yanzu, chapéu de palha coberto de pano de linho, luvas amarelas e botas de couro branco36.

Todos estes “cerimoniais” obedeciam a regras estabelecidas em cada uma das províncias visitadas, baixadas pelos seus presidentes, das quais conheço duas orientações: as da Bahia e de Sergipe.
As partidas, também, eram solenizadas e, na chegada à Corte, novas cerimônias repetiam-se.
Com d. Pedro II viajavam também os rituais monárquicos e alguns cerimoniais: disposições para a partida do imperador e ser séquito, os programas municipais para a chegada do soberano a diferentes cidades, as recepções grandiloqüentes em seu retorno à corte; nestas, os moradores eram instruídos a iluminar a frente de suas casas e orná-las com tapeçarias, ao mesmo tempo em que as ruas pelas quais passasse o cortejo imperial deveriam ser areadas e juncadas de folhas e flores. Se o cenário variava: o script era o mesmo: precisão e pompa37.
Ao retornarem ao Rio de Janeiro, em fevereiro de 1860, foram recebidos com recepção entusiástica que “nunca mais poderá riscar-se da memória dos Fluminenses38. Navios engalanados, salvas das fortalezas, desembarque no Arsenal de Marinha, na companhia das filhas, que os foram encontrar, cumprimentos do corpo diplomático, cortejo, sob o pálio, até a Capela Imperial, entre alas de soldados, arcos de triunfo, foguetório, recebimento, na entrada do templo, pelo Bispo Capelão-Mor e pelo Cabido, Te Deum e iluminação da cidade à noite.
Uma estampa, provavelmente feita a partir de uma tela, inserida no Anuário do Museu Imperial (no. 11) mostra o desembarque do Imperador após a visita ao norte, justamente no momento em que o préstito dirige-se para a Capela Imperial. É muito clara: o cortejo desfila com os dignitários com seus fardões bordados a ouro à frente, o casal imperial (Dom Pedro II, com banda de uma condecoração sobre o peito, sobrepuja a todos), sob o pálio, cujas varas são levadas por cortesãos39. Seguem-no soldados. À direita e ao fundo a tropa está formada com os comandantes das companhias prestando continência, com as espadas desembainhadas, a bandeira abatida. À esquerda “populares” aclamam os soberanos. Nas janelas do prédio do Arsenal aparecem pessoas. Ao fundo, no mar, vêem-se vários navios.
Esta é uma cena do cerimonial imperial para o desembarque de Suas Majestades.

Tudo fazia parte do enquadramento da monarquia. Era a forma dela mostrar-se, simbolizar o país.



A impressão do Imperador na visão dos sãofranciscanos

Não existem registros escritos sobre a visão que os sãofranciscanos tiveram daquele homem de quase dois metros de altura, de “voz delgada, quase feminina” que o “tom seguro, e a rapidez da dicção corrigiam40, no pleno vigor de seus trinta e quatro anos, que deixava seu palácio no Rio de Janeiro e vinha até o São Francisco. Provavelmente, se uma tal pergunta fosse feita, em especial entre os mais velhos, nenhuma resposta poder-se-ia obter. Viria da geração daqueles cujos avós viram o Imperador. Hoje nada conseguiremos.

Com toda certeza, a visita imperial atraiu para a região um grande número de pessoas. Vieram pessoas de todos os lugares compreendidos na região do Baixo São Francisco.


O próprio Dom Pedro II diz que apareceram pessoas de até vinte léguas de distância. A curiosidade era natural. Não era sempre que se podia ter a oportunidade de ver um rei, cuja figura mexia com a cabeça e a imaginação dos sãofranciscanos. Muitos viam-no como um deus.

Por toda a margem do Rio onde existiam habitantes, à proporção que a galeota ia sendo vista retiniam os vivas a S. M. o Imperador, e as demonstrações de regozijo partiam de todos os lados.



Notou-se até que em alguns pontos à margem do Rio muitas pessoas de ambos os sexos se prostravam de joelhos ao avistarem S. M. o Imperador41.

São do diário imperial umas poucas impressões dos ribeirinhos.


A primeira delas é de curiosidade senão pelo homem, mas pelo “navio” em que ele viajava e por sua pretensa riqueza.

(...) O Jacobina42 disse-me que em Traipu as pessoas que foram ver o vapor pediam para lhes mostrarem os cavalos, que puxavam o barco, admiraram a sua grandeza, e os pratos de prata com comida, que da escotilha, queriam a porfia ver na câmara43.

Ao chegar ao Salgado, mais de oito horas da noite, foi obrigado a fixar em exposição por muito tempo, dando beija-mão44, “porque todos gritavam – queremos vê-lo – traze luz – acende o facheiro45.
Uma terceira referência é colhida no retorno da viagem a Paulo Afonso, ao visitar a escola de meninos na vila da Lagoa Comprida.

Receberam com entusiasmo muito cordial, e gritando um - Viva o Imperador q. não heide mais vê-lo – outro replicou – porque não, já sabe o caminho46.



O diário

A importância do diário, escrito durante a visita, reside nas várias observações que o Imperador vai fazendo, com os olhos de um curioso, mas nem por isto desprovido de qualquer sentido. Suas notas têm o valor de um testemunho, representativo de uma fase da vida das comunidades do São Francisco.

(...) S. M., da mesma forma porque havia principiado sua viagem desde que tocou ao Rio de S. Francisco, passou a colocar-se na caixa da roda do vapor tendo diante de si a planta do mesmo Rio, e respectivos relatórios, e a seu lado os dous Presidentes supraditos47.

Quis conservar-me sobre a caixa para examinar o mapa de Halfeld em que opus alguns sinais, que em parte mostram a variação do canal, mas tendo cessado a chuva tornou-se a manhã muito quente, e além disto ficava-me junto a máquina e a chaminé, o que me obrigou a vir para a tolda donde sempre fui observando os acidentes do rio e suas margens em confrontação ao mapa tanto quanto podia48.

As anotações versam sobre os mais variados temas: pessoas, lugares, fauna, flora, construções, etc., constituindo informações significativas para estudiosos dos mais diversos matizes.

O diário


revela, mais uma vez, não só o homem de conhecimentos gerais, observando tudo o que vê, com olhos eruditos, como chefe de Estado, atento às causas de interesse coletivo, descendendo aos menores detalhes49.

Ainda na noite de sua chegada, anota que conversara com o Presidente de Alagoas sobre a navegação no São Francisco, assunto que volta a observar quando se refere à rocha de “grés” (arenito) existente em Penedo (utilizada na pavimentação de ruas e calças).

(...) pode ser utilizado noutras obras, tornando-se ramo de comércio, mas esta gente nem ainda cuidou de regularizar a navegação do Rio de S. Francisco50.


Não esquece de referir-se a um dos meios de transporte mais comum da região, a canoa de tolda, com a câmara coberta de cerrada pindoba à proa, observando até numas vigias dos lados para a entrada do ar51 , ou ainda a tipos humanos ou a hábitos das pessoas que viu.

As mulheres aqui fumam quase todas cigarro, charuto ou cachimbo, vendo cachimbar, que chamam aqui beber cachimbo, a uma de 90 anos ou mais talvez52.


As mulheres em grande número têm feições regulares e andam sem corpinho de vestido, amarrando-o algumas a roda da cintura, ficando as mangas pendentes, tendo quase todas camisas com crivo53.
Apareceram-me bastantes descendentes dos índios de raça já bastante cruzadas, trazendo alguns cocares de penas com seus arcos e frechas [...]54
Encontrei 3 beatas, tendo já visto uma em Paulo Afonso a qual me disseram ter-se tornado beata por conselho de Fr. Doroteu, e ser de família conhecida. [Vestem-se] de preto com cordão branco na cintura e fazem promessa de castidade55.

O meio físico é referido constantemente não apenas para identificar rochas, acidentes geográficos, aspectos da formação geológica das duas margens e leito rochoso do rio, a partir do Bonito, ao sol que torra pão-de-ló56 , aos prejuízos das tapagens do rios, as culturas agrícolas que viu, mas também para registrar aspectos da fauna e da flora. Xiquexique, macambira, o cacto, o cardo (conhecido como coroa ou cabeça-de-frade), a baunilha, o cipó canana ou fosfórico, a piaçava, o caroá (usado para arreios) e suas utilidades, alguns utilizados para a alimentação dos homens e dos animais.

(...) com uma [espécie de cardo redondo ] mais ou menos saída e vermelha, rente ao chão, que chamam coroa, ou cabeça de frade; o gado procura com jeito, por causa dos espinhos que são terríveis, arrancar a coroa ou abri-lo por outra parte a fim de matar a sede com a água que ele contém57.
Entre outros, peixes, como a piranha, répteis, pássaros como os socós, os xexéus são relacionados, muitas vezes com detalhes.

Acabo de ver uma piranha de que tirei uma cópia. Tem 12 dentes em cima e outros tantos em baixo, se não me enganei na conta, e estes últimos maiores, sendo todos muito agudos e de base larga; as escamas parecem dourados em muitos pontos, hei de vê-la de dia58.


Ao longo do texto, preocupa-se Dom Pedro II em deixar informações sobre as fábricas de beneficiar arroz e algodão, para a produção de óleo de mamona, visitadas em Penedo, sobre as principais edificações encontradas nas localidades pelas quais passou ou mesmo sobre a presença de determinados gêneros alimentícios encontrados na região.
Não se esquiva ele em opinar acerca de algumas pessoas que conheceu ou sobre as quais ouviu falar.

[...] Trabalhava o júri, tendo sempre vindo o juiz de direito, Hugolino de Freitas e Albuquerque59, que precisou de minha insinuação para fazer uma viagem de rio de 5 léguas a fim de presidir a um júri, que tem de julgar um só processo. Contudo passa por bom magistrado, alegando que sofre, e o clima lhe é desfavorável60.


[...] e com efeito, aí anda solta, perto de Vila Nova, a filha do barão de Cotinguiba61, que assassinou, e já foi condenada pelo júri, pendendo da apelação, o ano passado, estando o mandatário na cadeia de Penedo, e vivendo ela no Brejo com o amante seu co-réu62.
[...] Disseram-me há pouco que o capitão Antônio Joaquim [?], acusado de mais de um assassinato, acompanhou-nos como guia no passeio de Pão de Açúcar, e o promotor guardava-se para instaurar-lhe processo depois da minha visita63.
[...] Algumas mulheres pediram-me para não sair de lá o vigário encomendado, Fr. Doroteu, e os mesmos índios dizem que ele é mau diretor, porém bom vigário, por ser muito religioso64.

Ressalta, entre as inúmeras pessoas que conheceu, a figura de Manuel José Gomes Calaça. Por ser “conhecedor do sertão até Juazeiro, e dos Cariris novos65 serviu de guia à excursão até a cachoeira de Paulo Afonso, tendo inclusive hospedado o Imperador em sua fazenda do Talhado. A partir daí, as informações que o Calaça presta a Dom Pedro II informações sobre aspectos variados da área visitada ou mesmo da região dos Cariris onde as mulheres embarrigavam na estação do piqui.

Contudo o sr. Calaça apanha a água da chuva, e é bem boa a que nos dá para beber assim como tem uma casinha bem arranjada e limpinha para estas alturas, cujas paredes ele mesmo pintou, não tendo posto vidraças nas janelas por conselho econômico da mulher. [...] fugiu para aqui onde cuida do seu milho, arroz, feijão etc., da sua vaquinha e cabrinha, e enfim vive mais sossegado da bolsa[...]66

Um tipo de anotação está presente em todo o diário: o das visitas às escolas, timbrando o monarca em registrar o nome do professor, o número de matriculados e sua freqüência, os livros encontrados e o desempenho dos alunos argüidos.


Em Neópolis
Visitei a escola de meninos, cujo professor tinha vindo para Penedo por causa da festa, constando que a esta escola somente concorrem 7 ou 8 meninos. A casa é imprópria. Fui depois à das meninas onde se achavam presentes 22 alunas, informando a professora, que parece muito moça, e é mulher de um velho major reformado de linha, Leandro, ( e talvez por isso trouxesse capela de virgem) que são 26 as matriculadas. Algumas delas leram e uma delas de 4 irmãs, da família Costa, todas de cara viva, fez uma conta de dividir com prontidão e certeza lendo menos mal67.

Não seria muito diferente a situação das escolas em Propriá:

Visitei a aula de meninos com 80 de matrícula e 60 de freqüência, tendo uma pedra como em aula de matemática, apesar do aluno, que já era apresentado como estando em proporções, parece ignorar os princípios de aritmética relativos aos quebrados. Também não leram bem e o professor julgo-o pouco apto. Depois vi a de meninas; 99 na matrícula e 69 de freqüência, parecendo-me a professora sofrível, apesar do vestido de seda enfeitado. A aula de latim tem 5 alunos de matrícula e 3 de freqüência. O professor parece-me muito medíocre e a aula é inteiramente inútil68.

Finalmente as notas atinentes a Curral de Pedra:

Fui ver a aula de meninos com 8 matriculados e 5 estão presente. O que o mestre deu por mais adiantado dos presentes, e único que já lia, estava atrasado na leitura e em contas, apesar de bastante tempo de estudo em diversas aulas como a que eu visitei. O professor disse-me que sabia latim, por eu lho perguntar, vendo um dos tomos da Eneida sobre a mesa. Observo falta de uniformidade nos livros que se lêem nas aulas69.
A visão da cachoeira
A chegada do Imperador à cachoeira de Paulo Afonso, objetivo da viagem, deu-se no alvorecer do dia 20 de outubro, tendo ele saído de madrugada da fazenda do major Calaça no Talhado.

Na distância de menos de légua é que se ouviu o ruído da cachoeira. Logo que me apeei comecei a vê-la, e só voltei para casa podendo torcer a roupa do corpo molhada por causa do exercício. Depois das 10. É belíssimo o ponto de que se descobrem 7 cachoeiras que se reúnem na grande que não se pode descobrir daí, e algumas grandes fervendo a água em caixão de encontro à montanha que parece querer subir por ela acima; o arco-íris produzido pela poeira da água completava esta cena majestosa. Dizem que a névoa de água vê-se na distância de léguas, do lado de Água Branca; mas não o creio, apesar do Jequiá asseverá-lo, e só perto da cachoeira é que borrifa, quando constava que a meia légua da cachoeira já se sentia o chuvisco.

Tentar descrever a cachoeira em poucas páginas, seria impossível, e sinto que o tempo só me permitisse tirar esboços muito imperfeitos [...]70.

Depois de ter explorado a região, inclusive descendo à furna dos morcegos, e passado a noite num barracão coberto de sapé, especialmente construído para abrigá-lo e a sua comitiva, o Imperador iniciou a viagem de retorno.


Ao finalizar a sua excursão pelo São Francisco, voltava o Imperador, ao menos, com uma visão do universo do rio da unidade nacional, no seu baixo curso.
E seria esta visão imperial do rio e de sua potencialidade que nos anos 70 do século XIX determinaria a construção de uma estrada-de-ferro que, partindo de Piranhas, passaria ao largo da cachoeira de Paulo Afonso, numa tentativa de ligar as várias povoações que margeiam o São Francisco, no sentido foz/nascentes.

(agosto de 2000/novembro de 2006)

1 Carta de junho de 1852. In: Cartas de Varnhagen a Dom Pedro II e outros escritos, Anuário do Museu Imperial, v. 9, Petrópolis, 1948, p. 170.


2 Carta de 05 de fevereiro de 1854. In: Cartas citadas, p. 179.


3 Carta da Princesa de Joinville a Paulo Barbosa da Silva, de 24 de junho de 1857. In.: PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado, 3ª ed., São Paulo: Livraria Martins Editora, 1959, p. 122

4 Ofício do Ministro da Áustria, de 27 de abril de 1846. In: LYRA, Heitor. História de Dom Pedro II (1825- 1889) , v. 1, Ascensão (1825-1870), Belo Horizonte / São Paulo, Livraria Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1977, p. 147.


5 SCHWARZ, Lilian Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 357.

6 Itaporanga (Domingos Dias Coelho e Melo), Propriá (José da Trindade Prado) e Japaratuba (Gonçalo de Faro Rollemberg)


7 Sendo 30 da Ordem da Rosa e 6 da Ordem de Cristo


8 Todos da Ordem da Rosa


9 Todos da Ordem da Rosa

10 Fala do Trono no encerramento da 3ª sessão legislativa da 10ª legislatura da Assembléia Geral Legislativa, em 11 de setembro de 1859. In: Falas do Trono, Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p. 327.


11 As anotações da viagem à Bahia interrompem-se no dia 07 de novembro, embora ele permaneça em território baiano até 19 do mesmo mês.


12 Em 2005, as editoras Bom Tempo e a Letras & Expressões, do Rio de Janeiro, reeditou o diário da viagem à Bahia, sob o título de “Viagens pelo Brasil”.


13Ao comentar as anotações do Imperador, publicadas em separata pelo Arquivo Público de Pernambuco, Guilherme Auler introduziu mudanças no texto, desvirtuando o pensamento do autor.

14 LACOMBE, Lourenço Luiz. In: Pedro II (Dom). Diário da Viagem ao Norte do Brasil, Salvador: Livraria Progresso Editora / Universidade da Bahia, 1959, p. 8 e 10.

15 APES: G1235 – Ofício do Presidente da Província de Sergipe ao Ministro do Império, datado de 15 de setembro de 1859.


16 Ver MEDINA, Ana Maria Fonseca. A Ponte do Imperador, Aracaju: Gráfica J. Andrade, 1999.

17 APES: G1235. Ofício citado.


18 Bento de Melo Pereira.

19 Formavam a esquadrilha os vapores Apa e Amazonas, a corveta Paraense e a canhoneira Belmonte, sob o comando do vice-almirante Joaquim Marques Lisboa, futuro barão de Tamandaré.


20 É o mesmo que foi Imperador do México entre 1864 e 1867, sendo fuzilado em Querétaro. Era filho do arquiduque Francisco Carlos e de Sofia da Baviera. Seu pai era irmão, além do imperador da Áustria, das imperatrizes D. Leopoldina, do Brasil, e Maria Luísa, segunda mulher de Napoleão. Assim, Maximiliano, Dom Pedro II e Napoleão II (duque de Reichstadt) eram primos entre si.

21 Pedro II (Dom). Diário citado, p.95.


22 É o vapor a reboque da Associação Sergipense.


23 Pedro II ( Dom). Diário citado, p. 96

24 Ver a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo XXII.


25 O “Atlas e Relatório do Rio de S. Francisco desde a Cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico”, de autoria de Henrique Guilherme Fernandes Halfeld, sairia no ano da visita imperial.

26 Pedro II (Dom). Diário citado, p. 136.


27 Pedro II (Dom). Diário citado, p. 137.


28 Nouveau Larousse Illustré. In: SPEERS, Nelson. Cerimonial para Relações Públicas, São Paulo: Hexágono Editora, 1984, p. 26.


29 RIBEIRO, Maria Eurydice de Barros. Os símbolos do poder: cerimônias e imagens do Estado monárquico no Brasil, Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1995, p. 103.


30 SODRÉ, Alcindo. Visitas dos Imperadores à Bahia, Anuário do Museu Imperial, no. 11, p. 122.


31 A praxe da entrega da chave é antiga, datando da época que as cidades eram muradas, e simboliza, simultaneamente, boas-vindas e confiança no visitante.


32 Viagem Imperial, p. 161-162.


33 Este traje mudava para a primeira farda de almirante quando o imperador desembarcava nas capitais das províncias.


34 Banda da Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul (grã-cruz).


35 DUARTE, Abelardo. Dom Pedro II e D. Teresa Cristina nas Alagoas. Maceió: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, 1975, p. 43.


36 Viagem Imperial / ou / Narração dos Preparativos, Festejos e Felicitações / que tiverão logar / NA PROVÍNCIA DA BAHIA / por occasião da visita / que a mesma fizerão / SS. MM. II. / em Outubro e Novembro do corrente anno, Salvador: Tip. e Livraria de Epiphanio, 1859. In: PEDRO II (Dom) .Diário citado, p. 239.


37 SCHWARZ, Lilian Moritz. Obra citada, p. 358.


38 Diário de Pernambuco, de 6 de março de 1860, In: GOUVEA, Fernando da Cruz. O Imperador Itinerante, Recife: Secretaria da Educação e Cultura, 1978, p. 96.


39As pessoas que deviam segurar as varas do pálio eram previamente escolhidas, como se pode constatar na “Relação das pessoas nomeadas para pegarem nas varas do Pallio debaixo do qual SS. MM. hão de transitar desde o lugar de seu desembarque no Arsenal de Marinha até a Capella Imperial, a qual relação se refere o Aviso desta data” . É datada de 19 de janeiro de 1860 e assinada por Fausto Augusto de Aguiar, da Secretaria de Estado dos Negócios do Império (In: SCHWARZ, Lilian Moritz. Obra citada, p. 214).


40 AZEREDO, Carlos Magalhães de. Dom Pedro II – traços de sua fisionomia moral, Rio de Janeiro: Álvaro Pinto, Editor (Anuário do Brasil), 1923, p. 14.


41 Viagem Imperial, p. 159.


42 O mordomo em viagem.


43 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 116.


44 Este hábito da corte portuguesa, sinal de vassalagem e respeito, Dom Pedro II manteve até 1872, quando voltou da primeira viagem à Europa. Supresso então, voltaria já no final do regime monárquico, assim mesmo para os íntimos.


45 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 125.


46 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 135.


47 Viagem Imperial, p. 159.


48 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 99.


49 SODRÉ, Alcindo. Visita de D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso, Anuário do Museu Imperial, no.10, 1949, p. 86.


50 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 101.


51 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 101.


52 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 128.


53 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 129.


54 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 111.


55 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 133.


56 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 119.


57 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 123.


58 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 102.


59 Era Juiz de Direito da Comarca de Propriá, à qual pertencia Curral de Pedras (atual Gararu). Por designação do Presidente Cunha Galvão presidira a comissão de recepção em Propriá.


60 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 114.


61 No final da viagem, o Imperador voltará a referir-se a ela, dizendo: “A filha do Cotinguiba já ficou na cadeia do Penedo, tendo a diligência sido feita com toda a habilidade e a diligência pelo chefe de polícia de Sergipe, Ângelo Ramos, e mais autoridades da província. A ré estava no Brejo Grande, na fazenda do Bom Gosto, pertencente ao irmão, comandante superior da Guarda Nacional do município, tendo se prendido outro criminoso na mesma ocasião em terras do mesmo proprietário. O ministro oficiou ao presidente das Alagoas para que dê as providências necessárias para que ela não fuja da cadeia, em cuja sala livre se acha”. [PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 137].


62 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 115.


63 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 133-134.


64 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 133.


65 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 120.


66 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 123.


67 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 107.


68PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 108.



69 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 115.



70 PEDRO II (Dom). Diário citado, p. 126.



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