Dom quixote das criançAS: uma análise comparativa do clássico e da adaptaçÃo lobatiana1



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DOM QUIXOTE DAS CRIANÇAS: UMA ANÁLISE COMPARATIVA DO CLÁSSICO E DA ADAPTAÇÃO LOBATIANA1

Izaura Cabral2

Flávia Brocchetto Ramos3
A produção da literatura infantil deve estar apoiada em princípios da recepção, que considera o tipo de leitor a ser atingido, ou seja, a criança, por isso exige um afastamento do narrador da condição de adulto para se aproximar da visão de mundo do infante. Nessa busca da comunicação com a criança se realizam as adaptações, cujo propósito é diminuir a situação de inferioridade dos pequenos em relação ao meio circundante.

O texto adaptado deve possibilitar ao leitor a compreensão do universo proposto, a identificação com o seu mundo, ele deve encontrar no livro alguns elementos de seu horizonte de expectativa, como o reconhecimento de natureza imaginária, do tipo de personagens, apresentação e desenvolvimento do conflito, a representação do tempo e do espaço, de acordo com o modo como a criança apreende o universo e o seu lugar enquanto narrador e sujeito histórico. Levando em consideração os aspectos apresentados, verificaremos em que medida tais elementos estão presentes no texto lobatiano, pois este trabalho tem como propósito verificar os processos adaptativas sofridos por Dom Quixote, de Cervantes, para se transformar numa narrativa atraente ao leitor infantil e que valorize o caráter emancipatório que deve reger a produção destinada a esse público.

A história da literatura infantil é bem recente. Segundo Regina Zilberman, ela “praticamente inexistia antes do século XVIII4”, porque seria um “gênero incompreensível sem a presença de seu destinatário, a literatura infantil não pôde surgir antes da infância”5. Nessa época, a criança praticamente não possuía valor algum do ponto de vista dos adultos.

Na sociedade antiga, não havia a “infância”: nenhum espaço separado do “mundo adulto”. As crianças trabalhavam e viviam junto com os adultos, testemunhavam os processos naturais da existência (nascimento, doença, morte), participavam junto deles da vida pública (política), nas festas, guerras, audiências, execuções, etc., tendo assim seu lugar assegurado nas tradições culturais comuns: na narração de histórias, nos cantos, nos jogos.6

Para a autora, emerge a literatura no âmbito pedagógico, a fim de consolidar no século XVIII, a ascensão da burguesia européia ao poder, a qual modifica as convenções acerca da estrutura familiar. A partir dessa mudança, a família torna-se uniforme, mais voltada para a preservação dos elos familiares. Dentro desse novo cenário, a criança passa a receber o tratamento de indivíduo especial, em processo de formação:

é a ascensão da ideologia burguesa a partir do século 18 que modifica esta situação: provendo a distinção entre o setor privado e a vida pública, entre o mundo dos negócios e a família, provoca uma compartimentação na existência do indivíduo, tanto no âmbito horizontal, opondo casa e trabalho, como no vertical, separando a infância da idade adulta e relegando aquela à condição de etapa preparatória aos compromissos futuros. Provendo a necessidade de formação pessoal e tipo profissionalizante, cognitivo e ético, a pedagogia encontra um lugar destacado no contexto da configuração e transmissão da ideologia burguesa.7

Nascida nesse contexto histórico, a produção literária é caracterizada em função da especificação do seu leitor: a criança. Além disso, outra característica particular desse gênero é a formação de seu acervo que, em seus primórdios, se originou de material já existente como a adaptação de clássicos e de textos folclóricos como lendas, contos de fadas, que se caracterizam como textos literários infantis à medida que incorporam elementos típicos dos contos de fadas, tais como a presença do maravilhoso e a peculiaridade de apresentar um universo em miniatura; a vinculação estrutural com os contos de fadas faz com que a literatura infantil sofra o mesmo processo de evolução ocorrido com essa expressão literária. Também se evidencia a preocupação do adulto com a criança.8

Em razão dessa última característica, o gênero apresenta uma única visão, a do adulto, uma vez que este é o responsável pela sua produção e circulação e a criança é apenas o receptor, o que torna a literatura infantil assimétrica. No entanto, para diminuir essa desigualdade aplica-se pressupostos da adaptação. Assim, é necessário que o adulto, com uma visão de mundo totalmente diferente da criança, um conhecimento lingüístico mais amplo, se coloque na posição desta, de ser humano em formação, cheio de fantasias e com pouca experiência de vida, desejoso de alimentar seus sonhos, à procura de algo para se identificar, significativo para a fase da vida em que se encontra.

Em busca desse encantamento da criança pelo livro e da necessidade de colocá-la frente a novos conhecimentos, culturas diferentes que contribuam para sua formação, Lobato adaptou vários clássicos para as crianças brasileiras, entre eles Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Para tornar a obra, publicada entre os anos de 1605 e 1615, na Espanha, acessível para os pequenos leitores brasileiros foram necessárias várias modificações no texto, deixando-o assim correspondente ao interesse e grau de compreensão do novo público.

Algumas modificações são necessárias para deixar um texto feito para os adultos atraente aos pequenos: “adaptar para los niños un libro que no les estaba destinado significa someterlo a una cantidad de modificaciones – por lo general, cortes y cercenamientos - [...]9. Podemos dizer que Lobato enxugou a narrativa, retirando muitos elementos desnecessários ao entendimento do leitor mirim.

Na adaptação de uma obra clássica adulta para um leitor infantil, a maior preocupação deve ser a diminuição da assimetria. O autor deve utilizar-se de diversos meios para conseguir suprimir a distância existente entre o adulto, que produz o livro, e a criança, o leitor a ser atingido. Zilberman aponta a adaptação de assunto, forma, estilo e meio (ver modo de citar ano e p).

1 O assunto


Na adaptação do assunto, Zilberman, a partir de Göte Klimberg, sugere que se considere “[...] que a compreensão de mundo do recebedor, assim como suas vivências, são limitadas, [por isso] o escritor obriga-se a uma restrição no tratamento de certos temas, idéias ou problemas”.10

Para Gilberto Defina, “o assunto seria o título interno da obra de ficção. A idéia substancial do romance, sob o qual irão rodar o argumento e o tema, e, com eles, todo o fato narrativo ampliado dos mesmos, com seus demais elementos”11. Ainda conforme ele, “o assunto é a realidade objetiva da obra literária, e que se transformará em objeto da criação artística”.12

Em Cervantes, o assunto centra-se em um fidalgo castelhano que “perde a lucidez em razão da leitura assídua de romances de cavalaria e decide virar cavaleiro andante e sair pelo mundo em companhia de seu escudeiro”. Em Lobato, a narrativa prioriza “os serões de leitura em que Dona Benta conta ao pessoal do Sítio a saga do cavaleiro andante”. Nesta obra, o clássico é traduzido para as crianças, nas palavras da avó, D. Benta, que seleciona, de uma forma bem sucedida, as partes que devem ou não ser contadas para as personagens do sítio e, conseqüentemente, aos leitores da obra. Na adaptação, há omissão de vários trechos, que, pela opção do narrador, não apareceram na adaptação:


  1. o capítulo XIII conta o enterro do pastor Crisóstomo e o fato de ser a pastora Marcela sua homicida;

  2. o capítulo XV trata da desgraçada aventura com que se deparou Dom Quixote ao topar com uns desalmados iangüeses, que eram muitos e, covardemente, malharam o nosso herói e seu fiel escudeiro;

  3. o capítulo II, da segunda parte da obra, mostra a notável pendência que Sancho Pança teve com a sobrinha e a ama de Dom Quixote;

  4. o capítulo V, da segunda parte da obra, apresenta a prática que houve entre Sancho e sua mulher, Teresa Pança.

Em relação ao capítulo XIII, o narrador prefere não transmitir às crianças um episódio que trate de morte e assassinato em que a homicida é uma mulher; no XV, a covardia dos iangüeses não deve servir como exemplo para os pequenos leitores; no II da segunda parte, o diálogo das personagens é baseado em expressões do tipo “monstrengo”, “ó ama de Satanás”, “o tresvariado”, “más ilhas te afoguem”, “saco de maldades”, “costal de malícias”, em que termos chulos seriam exemplo de comportamento indesejado, como também no capítulo V da segunda parte da obra, quando Sancho destrata sua mulher: “Vem cá besta e mulher de Barrabás”, “[...] que tens algum demônio metido no corpo”, “vem cá mentecapta e ignorante”.

Monteiro Lobato não encontrou dificuldades em adaptar os assuntos tratados no clássico, uma vez que a obra já apresentava características que tornavam a leitura atraente às crianças, como a fusão do real com o fantástico. Embora a obra de Cervantes “se desenvolva em torno do contraponto entre o real e o imaginário, o livro possui episódios em que os dois planos se confundem e em que o imaginário se torna, enfim, a própria realidade, [...]”.13 A confusão pode ser percebida no episódio em que Dom Quixote resolveu virar cavaleiro andante e foi ver o cavalo que tinha:

Foi-se logo a ver o seu rocim; e dado tivesse mais quartos que um real, e mais tachas que o próprio cavalo de Gonela, que tantum pellis et ossa fuit14 , pareceu-lhe que nem o Bucéfalo de Alexandre nem o Babieca do Cid tinham que ver com ele.15

Em Lobato, o cavalo de Dom Quixote é mencionado como um igual aos mais famosos do mundo:

[...]. Era um pobre cavalo, desses que por aqui chamamos matungo, e velho até não poder mais. Ossos só. Mas a imaginação desvairada de Dom Quixote via tudo ao contrário da realidade. Olhou para o feixe de ossos sem ver osso nenhum – viu um maravilhoso cavalo, igual aos mais famosos do mundo, [...].16

Ainda, no episódio mais célebre da obra, Dom Quixote se arremete contra os moinhos de vento, à sua frente, convencido de que são gigantes, conforme narração de Dona Benta em Lobato “[...]. Enristou a lança e atacou o moinho mais próximo, espetando o ferro numa das asas[...]”. Em Cervantes, os imaginários gigantes derrotam o herói, uma vez que o que derrota é a sua insistência em confundir o real com o imaginado:

[...] encomendando-se de todo coração à sua Senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que em tamanho transe o socorresse, bem coberto de sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora.[...]17

Para Zilberman, “[...] é muitas vezes, condição do sucesso do livro a presença de um conteúdo doutrinário que estimule o leitor do ponto de vista comportamental e conduza-o à aceitação de valores que colaborem na sua integração ao meio social”.18

Desse ponto de vista, Cervantes já nos traz exemplos de luta por valores e ideais, “investe-se dos ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça, e prepara-se para sair pelo mundo, em luta por tais valores”.19 Tanto em Lobato, quanto em Cervantes, Dom Quixote queria, como um bom cavaleiro andante, ver a justiça sendo feita, como no episódio em que defendeu o guardador de ovelhas que apanhava de seu patrão. No clássico, ele promete procurar o patrão do menino em qualquer lugar para fazê-lo cumprir o juramento:

- Dos defumados vos dispenso eu – disse Dom Quixote; - dai-lhe os reales, sejam como forem, e sou contente; e olhai lá se o cumpris, segundo jurastes; quando não, pelo mesmo juramento vos rejuro eu que voltarei a buscar-vos e catigar-vos, e que de força vos hei de achar, ainda que vos escondais mais fundo que uma lagartixa; e se quereis saber quem isto vos intima, para ficardes mais deveras obrigado a cumprir, sabeis que sou o valoroso Dom Quixote de La Mancha, o desfazedor de agravos e sem razões. [...]20

Em Dom Quixote das crianças, o herói se apresenta como o defensor dos inocentes:

- Não será assim André – observou dom Quixote – Farei este cavaleiro jurar o cumprimento da promessa e lhe concederei que vá até sua casa contigo. Respondo pelo pagamento. E fica tu sabendo que sou Dom Quixote de La Mancha, um cavaleiro andante que corre o mundo em defesa dos inocentes.21

O herói, nas duas obras, é um exemplo de humanidade que sonha e busca o que acredita:

[...], Dom Quixote tem sido o herói por excelência, - paradoxalmente o mais fraco e o mais forte. Sua figura esquálida e comovente continua a ecoar, bem viva, em cada ser humano que, instintivamente, se entrega à luta por sua auto-realização ou por seu Ideal. As Dulcinéias, os Sanchos Panças, “os moinhos de vento” continuarão existindo, enquanto existir idealismo nos seres humanos e estes se entregarem à luta, sem desfalecimentos, que é preciso travar com o mundo, onde cada um deve encontrar o seu ‘lugar ao sol.22

Em relação ao humor, salienta-se que a criança, como já foi dito antes, é atraída, particularmente, por histórias bem humoradas e a saga do cavaleiro andante está repleta de passagens cômicas, o que a torna relevante para a criança, como na passagem referente à alimentação do herói:

Pratinho para boa risota era vê-lo comer; porque, como tinha posta a celada e a viseira alçada, não podia meter nada para a boca por suas próprias mãos; e por isso uma daquelas senhoras o ajudava em tal serviço. Agora o dar-lhe de beber é que não foi possível, nem jamais o seria, se o vendeiro não furara os nós de uma cana, e, metendo-lhe na boca uma das extremidades dela, lhe não vazasse pela outra o vinho.23

Em se tratando da adaptação, Lajolo afirma que nesse “[...] Quixote versão Lobato, o sentido, muitas vezes, se reveste de ironia, [...]”24 , como na adequação da passagem acima em que o herói, entalado em sua armadura, não consegue comer nem beber e Emília o compara a um pinto doente: “ Já vi Tia Nastácia encher assim o papo dum pinto doente – observou Emília. – Mas esse pinto não era andante – não tinha viseira”.25 Conforme Lajolo, Emília ajuda a reforçar a ironia presente em Cervantes:

Com a intervenção de Emília, a ironia de Cervantes ganha uma impensada dimensão: se a figura de um cavaleiro andante enlatado já apresenta considerável (e hilariante...) rebaixamento de imagem da cavalaria, sua comparação com o pinto doente, num prosaico terreno, por assim dizer tropicaliza a ironia, apontando uma das rotas pela qual pode perfazer-se o trânsito dos clássicos de uma cultura para outra, de um tempo para outro, de uma audiência para outra.26

Ao reforçar a ironia nas histórias de cavalaria andante, Lobato mantém o tema proposto por Cervantes, contado sob a visão da avó Dona Benta.

No fechamento das narrativas, muitas vezes as histórias acaba com a frase “E viveram felizes para sempre...” Na obra lobatiana, esse aspecto fica evidente quando Emília, no final da história de Dom Quixote, não aceita a morte do herói, ele não pode ter um triste fim. Para ela, Dom Quixote era imortal, pois “[...] nos contos de fadas, a morte não passa de um atalho para a ressurreição [...]”.27 A imortalidade é dada por Dona Benta, ao adaptar a história, porque para a criança é mais fácil entender que o herói não morreu, ela acredita em um final feliz: “- Morreu nada! – dizia ela. – Como morreu se Dom Quixote é imortal?28

O livro direcionado ao leitor infantil pode e deve dispor dos mais variados temas e assuntos, cabendo, então, ao autor atentar para a capacidade de compreensão do receptor, uma vez que o mesmo se encontra em um processo de amadurecimento, o que não significa ter uma visão reduzida e preconceituosa, mas uma postura de respeito ao ritmo da criança, dando-lhe a oportunidade, através da leitura, de compreender o contexto social em que está inserida por meio de um espaço aberto para a reflexão crítica da sociedade. Na adaptação, Lobato aproxima o clássico do pequeno leitor através da restrição no tratamento de algumas questões, como a morte vista como um final de vida, a prostituição, a covardia e a reprovação de modelos de comportamentos indesejados.

2 A forma


Na adaptação da forma, percebemos “um desenvolvimento linear e personagens que motivem uma identificação; além disso, são prescindíveis os flash-backs ou as interrupções do andamento para a introdução de conceitos ou ensinamentos morais”.29 Em Cervantes, a presença de trechos, como enredos secundários e textos poéticos, faz com que a narrativa se torne lenta e cheia de interrupções. Já em Lobato, a maioria desses trechos é suprimida, dando assim linearidade à narrativa:

a) enredos secundários que desviem a atenção do leitor do eixo da ação principal são retirados da narrativa lobatiana. Esses episódios são desnecessários para a compreensão do leitor, já que ele conta às crianças somente a parte aventuresca da obra de Cervantes: “a novela do impertinente curioso”, “o discurso que fez Dom Quixote sobre as armas e as letras”, “a história do cativo” e histórias de amor, que se desenrolam ao lado do amor cavalheiresco do herói por sua amada, Dulcinéia Del Toboso.

b) poesias que estão enxertadas à narrativa principal: Lobato recupera três estrofes para salientar, primeiro, o amor de Dom Quixote pela poesia: “os versos que Dom Quixote improvisa às castelãs”, segundo, o gosto em ler poesias “depois de tomar uma sova dos mercadores o cavaleiro relembra alguns versos das histórias lidas” e, terceiro, até mesmo na morte, em seu túmulo, a poesia estaria presente, através de “os versos compostos pelo bacharel Carrasco para o túmulo de Quixote”.

Sobre a identificação do infante com os personagens é válido lembrar como deve se apresentar o heroísmo: “[...] ser mais atraente para a criança, que se identifique com ele em todas as suas lutas. Devido à identificação, a criança imagina que sofre com o herói em suas provas e tribulações e triunfa com ele, quando a virtude sai vitoriosa”.30

As crianças fantasiam, sonham, acreditam em seus ideais e vêem no cavaleiro andante um personagem, com o qual podem se identificar, pois para ele não importa quão absurdo, irreal e distante estejam seus objetivos. As crianças do Sítio, que representam a infância brasileira, ao se identificarem com o heroísmo de Dom Quixote, sofrem com ele, torcem e se divertem com suas trapalhadas. Lobato consegue diminuir, assim, a assimetria inerente à literatura infantil. Emília chega a sonhar que toma partido nas aventuras do nosso cavaleiro.

Dom Quixote parou sua jornada para defender um menino, chamado André, que apanhava de seu patrão, o herói fez o malvado prometer nunca mais surrar o pequeno, porém após o cavaleiro da triste figura virar as costas, aplicou no pobre uma sova ainda maior. Emília indignou-se tanto que chegou a sonhar que fazia justiça como o nosso herói: “Ah, vocês nem calculam a sova que dei no tal malvado patrão de André! Ele apareceu por aqui, com aquela cara lavada de sem-vergonha”.31

Aqui, Emília se identifica com Dom Quixote em defesa da criança injustiçada, que estava apanhando do adulto. Porém, no clássico, esse episódio não apresenta a personagem como menino, mas sim como um rapaz de uns quinze anos:

Aos primeiros passos que deu no bosque, viu uma égua presa a uma azinheira, e atado a outra um rapazito nu da cinta para cima, e de seus quinze anos; era o que se lastimava, e não sem causa, porque o estava com uma correia açoitando um lavrador de estatura alentada.32

Lobato transformou o rapaz em um menino, para que as crianças pudessem se identificar mais facilmente com a personagem:

Disse e cravou as esporas nos ossos de Rocinante. Num ápice estava no ponto donde vinham os gritos. Quê vê lá? Um menino, assim um pouco maior que Pedrinho, amarrado a um tronco de árvore a receber uma tremenda sova de correia.33

A apresentação do texto, através dos personagens e do enredo, visa aos interesses do leitor, considerando o seu nível de compreensão, para que a forma selecionada atinja as suas expectativas recepcionais. No caso da adaptação para um leitor infantil, a forma como também outros elementos contribuem para a diminuição da assimetria, principalmente, no que se refere à presença da personagem criança como protagonista da história, quando o pequeno leitor pode se identificar como os personagens, quebrando o monopólio do discurso adulto.

3 O estilo


No processo de adaptação de um clássico para a criança, o estilo estará mais próximo do entendimento do pequeno leitor, já que o infante se encontra em um processo crescente de aquisição da linguagem, e a organização lingüística do texto interferirá na produção do sentido da leitura. Então “o vocabulário e a formulação sintática não costumam exceder o domínio cognitivo do leitor. Por isso, a preferência dos escritores é por um tipo de redação que coincida com as particularidades do estilo infantil”.34 Nesse tipo de texto, as estruturas sintáticas rebuscadas são deixadas de lado e dá-se preferência a:

1) elos frasais e frases mais curtas, uma vez que Lobato busca constantemente evitar o uso de frases longas, já que estas estruturas não são compatíveis com a compreensão de seu leitor, desobrigando-o assim a raciocínios lógicos mais complexos. Já Cervantes utiliza-se sempre de frases mais extensas e detalhadas:

Com boa sombra foi dos cabreiros recolhido o nosso cavaleiro. Sancho acomodou, o melhor que pôde, a Rocinante e ao jumento, e deixou-se ir atrás do cheiro que despendiam de si certos tassalhos de cabra que estavam numa cladeira a ferver ao lume.35

Em Lobato, a simplificação das frases é uma meta alcançada, o período acima é apresentado pelo autor de uma forma mais simples, preferindo a voz ativa, apenas se referindo como foram acolhidos herói e escudeiro, deixando de lado os detalhes da acolhida: “Os guardadores de cabras receberam cortesmente o grande herói e o seu pançudo escudeiro - e também ao Rocinante e ao burro.”36

2) poucas frases subordinadas, porque na literatura infantil a coordenação é mais aparente. Cabe a Lobato adaptar a obra de Cervantes, rica em subordinação, com períodos longos, muito complexos para o leitor iniciante:

E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua Senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora. Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.37

O período descrito acima apresenta rodeios, pormenores, advérbios e frases subordinadas, o que torna a leitura do período um tanto cansativa, necessitando que o seu leitor tenha um nível de compreensão mais amplo, para acompanhar a idéia global sem perder o interesse pela leitura e chegar ao final do trecho, sem lembrar do que leu no início. Já Lobato apresenta menos subordinações e um discurso mais simples e acessível ao entendimento do pequeno leitor:

Estava já perto. Enristou a lança e atacou o moinho mais próximo, espetando o ferro numa das asas – e o que sucedeu foi algo espantoso. A asa em movimento colheu cavaleiro e cavalo e os arremessou para longe em pandarecos.38

3) utilização mínima da voz passiva: os verbos, em sua maioria, apresentam-se na voz ativa. Lobato mantém a preferência pela voz ativa, já que esta dá movimento ao texto, em virtude das ações praticadas pelas personagens, tornando assim o texto mais relevante para o infante, que gosta de atividade e precisa se identificar com o que lê “O Visconde trouxe...” ( p. 138) “- Engasgou!” (p. 144) “Mas faltava uma coisa.” (p. 148)

4) utilização pequena de atributos mais complexos: o texto de Cervantes é rico em adjetivos, muitas descrições, como vemos na passagem de um episódio em uma venda que Dom Quixote imaginou ser um castelo:

[...] e como ao nosso aventureiro tudo quanto pensava, via, ou imaginava, lhe parecia real, e conforme ao que tinha lido, logo que viu a locanda se lhe representou ser um castelo com suas quatro torres, e coruchéus feitos de luzente prata, sem lhe faltar ponte levadiça, e cava profunda, e mais acessórios que me semelhantes castelos se debuxam.39

Na adaptação, ocorre a supressão de atributos mais complexos, com uma descrição mais simplificada, chegando, assim, próximo ao entendimento do leitor mirim “[...] mas para uma imaginação sempre em fogo aquilo se afigurou imponentíssimo castelo com torres, ameias, ponte levadiça e o mais dos castelos famosos”.40



5) utilização mínima do discurso indireto: a narrativa infantil enfatiza o discurso direto, transformando períodos que em Cervantes são apresentados sob a forma indireta: “Perguntou-lhe se trazia dinheiros. Respondeu-lhe Dom Quixote que não tinha prata porque nunca tinha lido nas histórias dos cavaleiros andantes que nenhum os tivesse trazido.41” Em Lobato, a mesma conversa é revelada através do discurso direto: “Mas antes disso: V. Sa. traz dinheiro?” “– Dinheiro! – exclamou Dom Quixote. – Jamais li em meus livros que os cavaleiros andantes andassem munidos de vil metal”.42

Por ser a comunicação oral entre duas ou mais pessoas o modo mais próximo de interação, o estilo direto é um “dos processos narrativos que dão mais objetividade às personagens e situações; pois é o que mais se aproxima da vida real”.43, proporciona uma maior identificação da criança com o texto, uma vez que esta “[...] é uma das técnicas mais ricas para a caracterização das personagens. O adaptador possibilita-lhes a revelação direta “ao leitor, eliminando a mediação do narrador”.44 Segundo Coelho, o discurso direto “pode ser assinalado tipograficamente por signos gráficos de pontuação: travessão, aspas, dois pontos, parênteses”.45 Tais sinais orientam o infante na mudança de voz discursiva.

O discurso direto é predominante na narrativa lobatiana porque se trata de uma história, na qual todos participam, algumas vezes, conversando sobre os episódios que Dona Benta conta; outras, manifestando sua opinião sobre as ações dos personagens ou ainda tirando suas dúvidas, etc. Esse recurso revela a diversidade de vozes no texto, o dinamismo importante na relação livroXleitor infantil, já que a criança é dinâmica e tem muitas dúvidas em relação ao mundo que começa a desvendar. Narizinho, ansiosa em saber o desenrolar da história, questiona:

(Arrume a formatação)“– E o menino foi? – indagou Narizinho, danada com a brutalidade do homem.

“–Ir, como? o coitadinho estava que nem podia consigo e Dom Quixote já havia dobrado a curva da estrada, [...]”

Essas estruturas sintáticas presentes na literatura infantil são próprias da linguagem oral, simples e puras, pois “[...] quanto mais simples e bela a entonação da linguagem, mais a criança apreciará a leitura [...]”.46 A associação literatura infantil e oralidade vem desde a antiguidade e ainda hoje se mantém essa tendência, quando os primeiros escritos para as crianças se originaram de histórias que viviam oralmente entre o povo.

Segundo Ricardo Azevedo47, é válido levantar certos pontos comuns entre literatura e cultura popular, já que vestígios das mais antigas tradições costumam impregnar muitas das manifestações culturais inventadas pelo povo, como certas características típicas do discurso oral. Referimo-nos à forma como ele é utilizado nas culturas sem escrita: os chamados índices de oralidade. Vamos aos principais, elencados aqui:

1) a tendência a sempre procurar adaptar-se à platéia através do vocabulário familiar e cotidiano, as fórmulas verbais, lugares comuns e clichês;

2) a sedução da platéia, através de recursos teatrais como o tom exagerado, o uso de redundâncias, o tom de confidência, ditados, trocadilhos, aliterações, rimas e refrões;

3) a concisão, evitando-se os períodos longos, os conceitos e imagens abstratas, orações subordinadas e a voz passiva. Segundo o autor, tais elementos, “como estes últimos, os formais – elementos, note-se, reunidos aqui de forma bastante sintética e resumida – podem ser encontrados em narrativas míticas assim como em contos maravilhosos”.

Em relação ao primeiro item, identifica-se a adequação feita por Dona Benta para contar às crianças a história do clássico de forma mais simples e ligada ao cotidiano deles, valorizando o entendimento do público. Em relação ao item 2 salienta-se o tom de confidência, familiar, com linguagem figurada usado pela voz da avó. Em relação a 3, a renovação do texto ao ser destituído por Lobato de períodos longos, priorizando a voz ativa.

Assim, conforme Sandroni48, um dos aspectos que evidenciam o nível de criação artística lobatiana diz respeito à linguagem, cujo registro é predominantemente coloquial, na qual se nota a busca da fala brasileira. Nessa busca por uma linguagem mais nacional, o escritor procurava despir seu estilo de toda “a literatura” no sentido da retórica tradicional, a criatividade é marcada pelo humor e aponta no sentido da modernização que preconiza. Em Dom Quixote das crianças, podemos notar inúmeros procedimentos lingüísticos em relação ao uso da derivação sufixal, criando novos verbos como (embezerrou, p. 167), no sentido de se acalmou voltou ao normal, substantivos (chatura, p. 141, comedoria, p. 222), adjetivos (unhudo, p. 286). Seus neologismos abrangem também os superlativos absolutos e sintéticos e os graus aumentativo e diminutivo, através de sufixos intensivos, como são exemplos: “enormíssimos”, “pesadíssimos”, “magríssimos”, “velhíssima”, “valentíssimo”, “crudelíssimo”, “achatadinho”, “buraquinhos”, “sabuguinhos”, “pontinhas”, “asneirinha”, “escondidinho”.

Recurso enriquecedor da obra destinada ao infante é a linguagem figurada. O uso das onomatopéias, por Lobato, é outro aspecto do seu estilo que deve ser considerado, já que é mais um recurso para dar vida ao texto e aproximar, através da imitação de sons, mais o leitor a obra através do reconhecimento, porque a partir da experiência vivida, ele encontrará um maior sentido na leitura, como no episódio da queda do clássico da estante “Brolorotachabum! – despencou lá de cima,[...]”49, episódio em que o menino apanhava do patrão e Dom Quixote tentou defendê-lo “Mas o patrão não queria saber de nada, e lepte! Lepte!”.50 “- Disse e nhoque! agarrou o menino,[...]”51, episódio da imaginação de Emília, em que Quindim surrou o patrão malvado “[...] E o Quindim em cima fuqt fuqt, espetando-o com o chifre”.52

A narrativa lobatiana, como já falamos, apresenta uma variedade de figuras de linguagem. No desenrolar do texto, encontramos, além das onomatopéias, o uso de metáforas, como quando Visconde, ao se referir à escada que segurava, afirma: “[...] Estou aqui agarrado nos pés da bicha como uma verdadeira raiz de árvore.[...]53” Também o Visconde quando o livro caiu em cima dele foi considerado um bolo de massa: “– Parece um bolo de massa que a gente senta em cima [...]”.54 Ainda Dona Benta, contando como o tropeiro, não fez caso da interpelação de Dom Quixote que para ela pareceu uma trovoada: “O labrego não fez caso da trovoada, [...]55” E Narizinho ao se referir à gordura de Sancho: “[...] – Esse Sancho, aqui nos desenhos, parece um chouriço”.56

Em seu primeiro contato com o clássico, Emília nos dá uma sugestão da simplicidade que deve permear a literatura infantil.“- Saavedra! – exclamou. Para que estes dois aa aqui, se um só faz o mesmo efeito? – e procurando um lápis, riscou o segundo a [...]”.57

Quando Dona Benta começou a ler a história de Dom Quixote na versão de Cervantes, traduzida por Castilho, as crianças não entenderam nada e Emília se negou a escutá-la porque tinha outras coisas mais interessantes para fazer, como brincar com o Quindim, aquela leitura não era atraente, vocabulário muito diferente o conhecido por ela, frases extensas e enfadonhas, e ela, como era muito curiosa, gostava de ação e aquela leitura com certeza seria uma pasmaceira.

Emília representa todas as crianças que, face à leitura de um clássico, fugiriam, uma vez que elas não encontram nada de significativo. A criança “deveria ganhar com a experiência da literatura: acesso ao significado mais profundo e àquilo que é significativo para ela neste estágio de desenvolvimento”.58 Dona Benta decide, então, contar com suas próprias palavras as aventuras do nosso cavaleiro andante. Explica para as crianças que hoje nós falamos de uma forma mais simples, que a maneira como o clássico foi escrito é mais rica, mais interpolada. Quando a leitora começa a explicar, Emília já contesta que lá vem a avó com palavras difíceis, porém Dona Benta ensina que essa “interpolação” era uma das características da escrita de Cervantes, combinação de várias orações na mesma frase. Para esclarecer, ele cita o episódio dos galeotes algemados: “[...] tamanha foi a revolta, que os guardas, já para terem mãos nos galeotes, que se estavam soltando, já para se avirem com Dom Quixote que os acometia a eles, não puderam fazer coisa que proveitosa lhes fosse”.59 Lobato nos ensina que é preciso falar de fatos que estão longe dos pequenos mas na linguagem da criança.

Emília, que nada gostou da narrativa, reforça como é o tipo de leitura que a criança gosta:“ – Eu gosto dos períodos simples, que a gente engole e entende sem o menor esforço. Esses assim até dão dor de cabeça”.60 Então a avó mostra como ficaria o trecho do clássico em uma linguagem mais simplificada: “Tamanha foi a revolta dos galeotes que os guardas nada puderam fazer diante daquele duplo embaraço: os prisioneiros a se soltarem das algemas e Dom Quixote a atacá-los com a espada”.61 O receptor infantil é considerado e a narrativa sofre adequação e função dos pequenos.

A seqüência narrativa é a todo instante interrompida. Dona Benta usa expressões do texto original e as crianças não compreendem. Monteiro Lobato utiliza o recurso do diálogo elucidativo para ir familiarizando o leitor com caracteres próprios da linguagem mais culta, preparando-o para ser um apreciador da literatura clássica.

Na adaptação do estilo, a obra Dom Quixote das crianças sofre alterações, principalmente no que se refere à transformação do estilo clássico da tradução portuguesa, para um estilo que destaca a oralidade, prioriza linguagem nacional, mais simples, visando ao leitor infantil, que por estar em processo de aquisição de linguagem precisa estar em contato com um texto adequado ao seu nível de conhecimento, mas que, ao mesmo tempo, o conduza ao recebimento de novas informações lingüísticas.

4 O meio


Na adaptação da literatura infantil, para atingir os fins a que se propõe, o autor não deve descuidar da feição material, não só pela leitura que ficará mais agradável, como também pela riqueza de formatos e impressão que podem transformar a obra em uma atração à parte e mais fácil de manusear. Não esquecendo que “[...] a presença de ilustrações e tipos gráficos graúdos, assim como a escolha de um determinado formato e tamanho, enfim o aspecto externo do livro, são condições de atração das obras”.62

O Dom Quixote das crianças é dividido em 24 capítulos, com letras em tipos mais redondos e graúdos, cada capítulo da edição apresenta, no início, uma ilustração do que logo será contado. Essas ilustrações servem para que o leitor compreenda melhor e se identifique com os personagens, pois não há nada “que se marque tão profundamente na alma da criança como as imagens gráficas63” Também salienta-se a importância da ilustração como fonte de imaginação para a criança que, a partir dela, cria e fantasia a leitura. Na narração de Lobato, o encantamento de Emília pelo livro de Cervantes é descrito pelo autor salientando o gosto das crianças por ilustrações que podem levá-las a levantar hipóteses como e por que tais desenhos são como são, ou estão naquele local:


[...] Que beleza! Estava cheio de enormes gravuras dum tal Gustave Doré, sujeito que sabia desenhar muito bem. A primeira gravura representava um homem magro e alto, sentado numa cadeira que mais parecia trono, com um livro na mão e a espada erguida na outra. Em redor, pelo chão e pelo ar, havia de tudo: dragões, cavaleiros, damas, curingas e até ratinhos. Emília examinou minuciosamente a gravura, pensando lá consigo que se aqueles ratinhos estavam ali era porque Doré se esquecera de desenhar um gato.64
A presença da ilustração em Lobato é problemática, porque, ao ser um recurso de embelezamento da obra, deve o produtor do livro utilizar-se disso, apresentando para a criança uma obra extremamente colorida, com desenhos também coloridos. O livro infantil em sua edição de estudo apresenta ilustrações, como se todas as personagens tivessem um semblante de criança, são desenhos em preto e branco sem nenhum atrativo visual.

A adaptação, mesmo não tendo a ilustração ideal, colorida, criativa, consegue aproximar a criança da obra, através de outras características que lhe são peculiares, uma vez que o livro destinado ao adulto apresenta características que tornam muitas vezes inacessível a leitura pelos pequenos. Sobre essas dificuldades, relembramos as peripécias que o pessoal do sítio aprontou para ter acesso ao clássico. Primeiro: a engenharia que foi tirá-lo da prateleira, segundo: ele acabou caindo em cima de Visconde e achatando-o completamente, terceiro: o livro era grande demais e Pedrinho teve que fazer uma armação de tábuas que servisse de suporte para que assim Dona Benta pudesse lê-lo.

Frente à capacidade do texto original, Dona Benta interfere e torna o clássico acessível aos pequenos que se deparam com um exemplar colorido, não tanto quanto poderia ser, já que no seu interior apresenta ilustrações em preto e branco, mais leve, mais fácil de ser manuseado, com um menor número de páginas, especialmente preparado para eles.

Dom Quixote das crianças, assim como o original, é construído a partir de encaixes narrativos ligados à ação principal, uma vez que são duas histórias que caminham intercaladas: o dia-a-dia no Sítio e os fatos da narrativa de Cervantes contados pela avó. No clássico, o autor também enxertou à narrativa principal outros conflitos. O fio narrativo que nos conta a história se interrompe com freqüência para outras seqüências, outros protagonistas, outros espaços, outras linguagens, relatos distantes e poesias. Na adaptação, esses encaixes, em sua maioria, foram suprimidos para dar maior linearidade à narrativa infantil, ficando somente aqueles indispensáveis à compreensão da saga do herói.

O lugar do livro na vida das personagens das duas obras é destacado, é fornecedor de fantasia, cultura, entretenimento, faz o desenrolar das ações, acompanha-os até mesmo em seus sonhos. A leitura faz que muitas vezes os personagens percam o senso de realismo e confundam totalmente ficção e vida real.

Em razão de a criança estar em um processo de formação, muitas vezes em um primeiro contato com um clássico, ela pode se apavorar com a leitura, já que esta pode ser cansativa e sem nenhuma significação. Por isso cabe ao adulto, como condutor da criança no caminho pelo gosto da leitura, conduzi-la a um contato com uma obra adaptada à sua visão de mundo, ao seu conhecimento, à sua fase de vida, para que ela venha quando adulto, se interessar pela leitura dos originais que conheceu como forma adaptada, não ficando constrangido com esse tipo de leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AZEVEDO, Ricardo. Elos entre a cultura popular e a literatura. Mimeo.

BARSA, Enciclopédia Britannica. São Paulo: Brasil Publicações. v.12., 1998..

BETTELHEIM, A psicanálise dos contos de fadas.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha.

COELHO, Nelly. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. 4. ed. São Paulo: Ática, 1991.

DEFINA, Gilberto. Teoria e prática de análise literária. São Paulo: Pioneira, 1975.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo.São Paulo: Ática, 1993.

LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das crianças.

SANDRONI, Laura. De Lobato a Bojunga. Rio de Janeiro: Agir, 1987, p. 56, passim

SORIANO, 1995.



ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 10. ed. São Paulo: Global, 1998,

1 Síntese da monografia apresentada no curso de Letras Português/espanhol na UNISC

2 Acadêmica do Curso de Letras Português-espanhol, UNISC.

3 Prof. Dr. na Universidade de Santa Cruz do Sul.

4 ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 10. ed. São Paulo: Global, 1998, p. 43.

5 Ibidem, p. 43.

6 Ibidem, p. 44.

7 Ibidem, p. 44.

8 Ibidem, p. 48-49, passim.

9 SORIANO, 1995, p. 35.

10 ZILBERMAN, p. 50.

11 DEFINA, Gilberto. Teoria e prática de análise literária. São Paulo: Pioneira, 1975, p. 75.

12 Ibidem, p. 76.

13 BARSA, Enciclopédia Britannica. São Paulo: Brasil Publicações. v.12., 1998, p. 172.

14 CERVANTES, nota do autor: frase da comédia de Plauto, Aululária. “Só pele e ossos foi”.

15 CERVANTES, p. 31.

16 LOBATO, p. 147.

17 CERVANTES, p. 55.

18 ZILBERMAN, p. 50.

19 BARSA, p. 171.

20 CERVANTES, p. 41.

21 LOBATO, p. 158.

22 COELHO, Nelly. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. 4. ed. São Paulo: Ática, 1991, p.78-79, grifos do autor.

23 CERVANTES, p. 36.

24 LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo.São Paulo: Ática, 1993, p. 99, grifos do autor.

25 LOBATO, p. 152.

26 LAJOLO, p. 99, grifos do autor.

27 JESUALDO A literatura infantil. São Paulo: Cultrix, 1993, p. 46.

28LOBATO, p. 305.

29 ZILBERMAN, p. 51.

30 BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 16

31


 LOBATO, p. 169.

32 CERVANTES, p. 40, grifos nossos.

33 LOBATO, p. 158, grifos nossos.

34 Ibidem, p. 51.

35 CERVANTES, p. 65.

36 LOBATO, p. 186.

37 CERVANTES, p. 55.

38


 LOBATO, p. 171.

39 CERVANTES, p. 33.

40 LOBATO, p. 150.

41 CERVANTES, p. 37.

42 LOBATO, p. 153.

43 COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil, p. 80.

44 Ibidem, p. 80.

45 Ibidem, p. 80.

46 JESUALDO, p. 39.

47 AZEVEDO, Ricardo. Elos entre a cultura popular e a literatura. Mimeo

48 SANDRONI, Laura. De Lobato a Bojunga. Rio de Janeiro: Agir, 1987, p. 56, passim

49 LOBATO, p.139

50 Ibidem, p. 158

51 Ibidem, p. 159.

52 Ibidem, p. 170.

53 Ibidem, p. 138.

54 Ibidem, p. 139.

55 Ibidem, p. 154.

56 Ibidem, p. 173.

57 LOBATO, p.140.

58 BETTELHEIM, p. 13.

59LOBATO, p. 298.

60 Ibidem, p. 298.

61 Ibidem, p. 298.

62 Ibidem, p. 52.

63 JESUALDO, p. 201.

64 LOBATO, p. 140.


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