Domingos calixto dos santos fernando nery dos santos



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DOMINGOS CALIXTO DOS SANTOS

FERNANDO NERY DOS SANTOS

GISÉLIA SANTOS SOUZA

MARIA LÚCIA DE OLIVEIRA ASSIS



Da história para a História

em Iracema de José de Alencar

IPIAÚ - BAHIA

Agosto / 2005

DOMINGOS CALIXTO DOS SANTOS

FERNANDO NERY DOS SANTOS

GISÉLIA SANTOS SOUZA

MARIA LÚCIA DE OLIVEIRA ASSIS

Da história para a História

em Iracema de José de Alencar

Artigo elaborado para a Disciplina Literatura Brasileira I, sob orientação do Professor Otávio Assis, do Curso de Letras, da Universidade do Estado da Bahia, V Semestre, para aquisição de nota do III momento.


IPIAÚ - BAHIA

Agosto / 2005



INTRODUÇÃO
O Romantismo brasileiro, considerado por vários historiadores como o verdadeiro início de uma literatura nacional, traz como uma de suas características o nacionalismo romântico, o qual se manifesta na exaltação da natureza pátria, no retorno ao passado histórico e na criação do herói nacional, no caso brasileiro, o índio, donde a denominação indianista.
Nesse contexto destaca-se José de Alencar, consolidador do romance na literatura brasileira, um ficcionista que trilhou todos os caminhos da prosa romântica, popularizando-se no gênero indianista com as obras: O Guarani, Iracema e Ubirajara.
Considerado como um dos mais belos romances da literatura romântica, Iracema é visto por Machado de Assis como “um poema em prosa”. Esse romance, foi baseado numa lenda, do período de formação do Ceará, o nativo brasileiro – nesse caso, a índia – aparecendo desta maneira em seu primeiro contato com o branco colonizador.
Iracema é uma personagem indígena, que pela força do amor se alia ao branco, simbolizando, assim a miscigenação, a mistura de raças originando-se desta forma, o brasileiro. A poesia, neste romance fala da natureza, baseada em informações de alguns cronistas e pela união do poeta-romancista, recapitulando as relações contraditórias entre: o amor / crueldade; vínculo / violência entre colonizador e colônia. O romance de Iracema com Martim, nesse contexto, entende-se como conversa do autor com seus contemporâneos; uma reivindicação poética em nome da natureza e como memória do doloroso nascimento do novo homem no Novo Mundo. Moacir, filho de Martim e de Iracema, trazendo no seu nome o significado “filho do sofrimento”, sobrevive, mas o preço é a vida da própria mãe, entretanto este deve crescer à imagem e semelhança do pai.
Nesta obra, é preciso uma leitura atenta e cuidadosa, ultrapassando o limite da história para escrever no texto da História – não a que lhe serve de argumento, mas outra, a da cultura. No decurso deste século, outros brasis se materializaram na literatura a partir de Alencar. Mas, com olhos despidos de romantismo, somos outro tipo de leitores, para quem o interesse pelo romance tem outras motivações: a história de amor foi tragada pelo tempo (“tudo passa sobre a terra”), enquanto o discurso pede passagem para debater a questão da nacionalidade. Esta é uma razão suficiente para recuperar a leitura da obra e desalienar nossa visão de mundo – a arte oferece permanentemente uma face à atualização, onde se recoloca e nos recoloca diante da realidade.


Da história para a História

em Iracema de José de Alencar
O Romantismo definiu-se como escola literária nas letras universais a partir dos últimos 25 anos do século XVIII e se estendeu até meados do século XIX. Segundo Nicola (1993), o Romantismo inicia-se no Brasil em 1836, quando Gonçalves de Magalhães pública, na França, a “Niterói – revista brasiliense” e lança, no mesmo ano, um livro de poesias românticas intitulado, “Suspiros poéticos e saudades”. Portanto, os novos conceitos românticos são introduzidos no Brasil em pleno período regencial, ainda sob o impacto da abdicação de D. Pedro I, quando a jovem nação, politicamente independente desde 1822, desperta um sentimento de nacionalismo, busca-se o passado histórico, exalta-se a natureza pátria, ou seja, vive-se uma necessidade de auto-afirmação. O romance romântico integrou-se a esse projeto nacionalista do Romantismo, esforçando-se por tematizar a realidade brasileira. Com isso, desenvolveram-se algumas tendências principais: o romance de costumes, o romance regionalista, o romance histórico e o romance indianista, sempre dedicado a investigar e interpretar as origens e características da chamada nacionalidade brasileira, tendo como principais autores desse período Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de Almeida, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay e Franklin Távora.
Mas, foi o trabalho de José de Alencar que consolidou o romance na literatura brasileira. Considerado como uma das maiores figuras literárias do Brasil, Alencar “é um polígrafo de alto valor, de erudição superior do seu tempo. Dramaturgo comediógrafo, orador, crítico, escritor, político e poeta” (TERSARIOL, 1996) Foi o mais aprimorado dos paisagistas, o mais hábil narrador, o pioneiro que deu à prosa no Brasil um valor artístico de brilhante estilo, dotado de muita capacidade de trabalho escreveu muitíssimo apesar das lutas políticas e campanhas de imprensa. Alencar viveu apenas 48 anos, de 1829 a 1877, e deixou uma vasta obra na qual se salientam além de quase duas dezenas de romances e várias peças de teatro. Costuma-se dividir seus romances em quatro grupos, de acordo com os temas abordados: a) Romance Urbano, como Lucíola e Senhora; b) Romance Regionalista, como o Gaúcho e o Sertanejo; c) Romance Histórico, como o Guarani e As Minas de Prata; d) Romance Indianista, como Iracema e Ubirajara.
O indianismo, de que Alencar foi o maior representante, no romance, ao lado de Gonçalves Dias, na poesia, foi de fato uma conseqüência da preocupação de afirmação nacionalista que caracterizou o romantismo brasileiro podendo ser a grande capacidade deste, avaliada por um pormenor: foi ele quem inventou ou popularizou a maior parte dos nomes de pessoas, de origem tupi-guarani, usados até hoje.
Em 1860, Alencar viaja para o Ceará, a fim de pleitear a sua eleição para deputado, voltando vitorioso trazendo além do diploma, a “semente” de Iracema, que começou a germinar as margens de Mecejana, cujo nome quer dizer: “o que abandona”. Ele havia abandonado a terra natal, transpusera a “serra que ainda azula no horizonte” e, agora, no reencontro da paisagem, reconquistava os mistérios da infância, com índios e imagens de outrora. Iracema nasceu em 1865 em outra viagem ao Ceará, em campanha política, num Brasil do século XIX, em que se atropelam a independência, regências, um Império incipiente às voltas com escravidão e abolicionistas, heranças culturais desenraizadas que disputam à primazia de uma pequeníssima elite econômica, também dividida entre a origem portuguesa e o interesse no Brasil. Isto ao lado de uma elite cultural que “não tem passado” e espera o porvir para se tornar nação. Em meio a tudo isso, a busca de uma identidade nacional, obsessão comum dos povos, agravada aqui pela dispersão social e confrontação de etnias. Neste romance, entretanto, o romancista não deixa dúvidas. Moacir é o mestiço que vem dar começo a uma geração orgulhosa da avó de sangue do índio (nasce, então, o primeiro cearense). Reside aí a importância de Iracema, justamente no aparecimento do romance como expressão ideológica das nacionalidades, na construção de uma identidade.
Em Iracema, José de Alencar construiu uma perfeita alegoria do processo de colonização do Brasil e de toda a América pelos invasores portugueses e europeus em geral, sendo “o nome de Iracema um anagrama da palavra América e que o de Martim pode ser aproximado de Marte, nome do Deus da guerra romano” (INFANTE, 2001). Este livro, subtitulado lenda do Ceará, conta a triste história de amor entre a índia tabajara Iracema, a virgem dos lábios de mel e Martim, primeiro colonizador do Ceará. Além disso, como resume Machado de Assis, o assunto do livro é também a história da fundação do Ceará e o ódio de duas nações inimigas (Tabajara e Pitiguaras). Os Pitiguaras habitavam o litoral cearense e eram amigos dos portugueses. Os Tabajaras viviam no interior e eram aliados dos franceses. Para Alencar, o índio, era a possibilidade de despertar no povo brasileiro recém-independente, o amor pela pátria (nacionalismo ufanista). Quanto à linguagem utilizada, o autor apropria-se de termos indígenas, o que revela uma linguagem autenticamente nacional, reflexo de uma lusofobia que invadiu o Brasil na época do romantismo. Durante a narrativa, Iracema é representada como símbolo da terra brasileira virgem e exótica que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira sendo, mais rápida que a ema selvagem. Iracema é muito mais que uma mulher não anda, flutua, tendo toda a natureza rendendo-lhe homenagem: da acácia silvestre aos pássaros, como o sabiá e a ará. A heroína é o próprio espírito harmonioso da floresta virgem. O narrador deixa clara a ruptura desta harmoniosa relação ao apresentar o surgimento de Martim, o guerreiro do mar que chega para perturbar esta harmonia, “rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta”. A vista de Iracema perturba-se, impossibilitada de decifrar a aparição do ser desconhecido, neste momento o autor retrata o processo de estranhamento e fascínio mútuo ocorrido no encontro dos dois povos, que ao se conhecerem não imaginam as trágicas conseqüências para os povos indígenas. O encontro de Iracema com o branco Martim, representa uma cena tipicamente “medieval” retomada pelo romantismo. Nela, a jovem índia passa a incorporar a imagem da “mulher anjo”: uma mulher que ao dizer – “Bem vindo seja o estrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema” – torna-se um símbolo do que ocorre em todos os romances indianistas de Alencar; a conciliação romântica entre colonizadores e colonizados, entre brancos e índios.
Iracema se apaixona por Martim e a realização desse amor lhe acarreta muitos sacrifícios, por este amor trai o “segredo da jurema”, isto é, trai o seu compromisso de “virgem vestal” (sacerdotisa, filha de chefe da tribo) para se entregar ao estrangeiro. Ao possuir Iracema, Martim está inconsciente, completamente seduzido e inebriado. Esse gesto irá provocar a destruição da virgem, assim como a invasão dos portugueses veio a destruir a cultura nativa. Iracema revela a Martim que ela agora é sua esposa e deve acompanhá-lo indo morar com ele no litoral, onde são felizes por algum tempo. Assim, o enredo romântico, a história de um amor sofrido e difícil que acaba fazendo com que Iracema, bastante debilitada, morra de tristeza, (não por ter abandonado seu povo, mas por perceber que Martim, por mais que a amasse, jamais se esqueceria do mundo de onde veio – a Europa), recobre, esconde, as contradições do processo civilizatório, fundindo o branco e o índio através do nascimento do filho de Iracema e Martim, Moacir – nome indígena correspondente ao nome hebraico Benoni, que também significa “o filho da dor”. Este é o nome dado por Raquel, mulher do patriarca bíblico Jacó, ao seu último filho. Raquel morre depois de dar a luz. Mas, Jacó muda o nome do menino para Benjamim. Os filhos de Jacó dão origem às tribos que formarão a nação Israel, assim como o filho de Iracema representa o início de uma nação.
Muito louvável a idéia de Alencar em exaltar a natureza pátria, bem como o destaque dado ao índio como herói nacional e principalmente de escrever um romance tão lindo e emocionante como Iracema, no qual de forma poética retrata os primeiros contatos entre o índio e o branco. Porém, apesar de Alencar considerar o encontro entre o nativo e o europeu como sendo um “casamento” com troca de favores, onde um oferecia a natureza virgem, o solo esplendido e o outro a sua cultura, sabe-se que este não aconteceu, sendo mais adequado denominá-lo como “um golpe do baú” já que o único beneficiado foi o europeu. E o que chama de encontro foi praticamente uma “trombada”, da qual os indígenas jamais puderam se recuperar. O etnocentrismo do europeu fez com que este visse o índio como “selvagem” e “atrasado”, considerando-se “superior” e “civilizado”, por isso impôs aos nativos uma dominação cultural, os quais só tiveram a perder, sua gente foi quase toda destruída e de sua cultura sobreviveram poucos elementos, assim, para eles a colonização foi essencialmente um processo de dor e exploração. De alguma forma Alencar retrata esta realidade em sua ficção, no momento em que Iracema – o nativo – morre de dor e tristeza causada pela ausência de seu esposo Martim – o europeu.
Apesar de ter sido escrito a mais de um século, a poesia de Iracema ainda fascina o leitor com sua emotiva história de amor, devendo ser prestigiada por todos e principalmente trabalhado nas escolas, pois neste romance o autor aborda com sabedoria a importância do índio na formação do povo brasileiro. Já que este vem sendo desvalorizado no decorrer da história e encontra-se atualmente discriminado, tendo seus direitos humanos completamente desrespeitados pela sociedade, inclusive não sendo considerado como “cidadão” pela Constituição Brasileira. Daí a urgente necessidade de resgatar os valores daqueles que um dia foram os donos desta terra. Acredita-se que muitas gerações ainda se encantarão com o amor de Iracema e Martim, personagens tão imortais quanto seu criador José de Alencar.
Agora que os anos vão passando sobre o óbito do escritor, é justo perpetuá-lo, pela mão do nosso ilustre estatuário nacional. Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar esta palavra melancólica: “A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema". "Tudo passa sobre a terra”. Senhores, a filosofia do livro não podia ser outra, mas a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra”.

(Machado de Assis, 1962)

REFERÊNCIAS
BRASIL, Assis. História Crítica da Literatura Brasileira. O Modernismo. Rio de Janeiro, Pallas, Brasília: INL, 1976.
BRUNO, Haroldo. Novos Estudos de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980.
INFANTE, Ulisses. Curso de Literatura da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 2001.
MAGALHÃES, Álvaro. Enciclopédia Brasileira Globo. 14. ed. Porto Alegre: Globo, 1975
NICOLA, José de. Língua, Literatura & Redação. O romantismo no Brasil – prosa. Ed. ver. e ampl. – São Paulo: Scipione, 1998. p. 76.
OLIVEIROS, Litrento. Apresentação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Forense – Universitária, 1978.
PROENÇA, Cavalcanti M. José de Alencar na literatura brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A. 1972.
ROMERO, Silvio. História da Literatura Brasileira. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1980.
TERSARIOL, Alpheu. Literatura e interpretação de textos. Rio Grande do Sul: EDELBA, 1996.
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