Dossiê Bem-Viver Iser Assessoria 2011 Sumário



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Dossiê Bem-Viver

Iser Assessoria

2011
Sumário

-

‘Viver Bem’. Uma concepção diferente de vida 1

Ativistas querem desvincular conceitos de bem-viver e padrão de consumo 2

Bolívia. 25 postulados para entender o ‘Viver Bem’ 3

Fernando Huanacuni - ''Nosso modelo não é comunista, mas comunitário'' 6

Isabel Rauber - Bolívia. Uma opção civilizatória com rosto indígena 9

Fórum Indígena discutirá mineração, mudança climática e Bom Viver 12

Revista IHU On-Line nº 340 13

Sumak Kawsay, Suma Qamana, Teko Pora. O Bem-Viver 13

Pablo Dávalos - Sumak Kawsay: uma forma alternativa de resistência e mobilização 13

Katu Arkonada - Descolonização e Viver Bem são intrinsecamente ligados 17

Quinto Regazzoni - A relação entre o Reino pregado por Jesus e o conceito de Vida Boa dos povos indígenas 19

Simón Yampara - O bem-viver como perspectiva ecobiótica e cosmogônica 22

Esperanza Martínez - Nem melhor, nem bem: viver em plenitude 24

Tatiana Roa Avendaño - O desafio de retomar os mitos e reencantar o mundo a partir do Sumak Kawsay 26

Davi Kopenawa - Bem-Viver: um aprendizado para a humanidade 29

Fabio Mura - À PROCURA DO “BOM VIVER” - Território, tradição de conhecimento e ecologia doméstica entre os Kaiowa 30



Textos e artigos publicados ou repercutidos por www.unisinos.br/ihu/

‘Viver Bem’. Uma concepção diferente de vida


[da Conjuntura da Semana Boletim IHU 29.09.10] Na luta contra a destruição do planeta e no debate sobre como preservar o que resta, redescobrimos os povos indígenas. Hoje realizamos dezenas de campanhas – como as analisadas aqui – para motivar as pessoas a consumirem menos e colocarem menos pressão sobre os recursos naturais. Os povos indígenas não precisam nada disso. Os povos indígenas nos ensinam que o conceito de sustentabilidade está vinculado a outra lógica, ao não crescimento, ao respeito e preservação da biodiversidade.

Nos últimos anos, diversos países latino-americanos, como Equador e Bolívia, vem incorporando nas suas constituições, o conceito do bem-viver, que nas línguas dos povos originários soa como Sumak Kawsay (quíchua), Suma Qamaña (aimará), Teko Porã (guarani). Para alguns sociólogos e pesquisadores temos aí uma das grandes novidades no início do século XXI.

Redescobre-se agora um conceito milenar: O ‘Viver Bem’. “A expressão Viver Bem, própria dos povos indígenas da Bolívia, significa, em primeiro lugar ‘viver bem entre nós’. Trata-se de uma convivência comunitária intercultural e sem assimetrias de poder (...) É um modo de viver sendo e sentindo-se parte da comunidade, com sua proteção e em harmonia com a natureza (...) diferenciando-se do ‘viver melhor’ ocidental, que é individualista e que se faz geralmente a expensas dos outros e, além disso, em contraponto à natureza”, escreve Isabel Rauber, pensadora latino-americana, estudiosa dos processos de construção do poder popular em indo-afro-latinoamérica.

De acordo com David Choquehuanca, o Viver Bem é um processo que está apenas começando e que pouco a pouco irá se massificando:  “Para os que pertencem à cultura da vida, o mais importante não é o dinheiro nem o ouro, nem o ser humano, porque ele está em último lugar. O mais importante são os rios, o ar, as montanhas, as estrelas, as formigas, as borboletas (...) O ser humano está em último lugar, para nós o mais importante é a vida”.



Fernando Huanacuni, uma das principais referências intelectuais dos aymara na Bolívia, sustenta que a base do processo de mudança no país está na retomada de culturas originárias. “Quando falamos de comunidade, não falamos só de humanos. Comunidade é tudo: animais, plantas, pedras”, diz ele.

O indígena não critica apenas o utilitarismo do capitalismo, mas critica também o utilitarismo do marxismo: “O marxista quer, tem somente um pensamento material. Nós preferimos não explorar porque é importante para o equilíbrio da vida. Mas o marxista não pensa assim. Para mudar o sentido de um rio, o marxista vai colocar tratores e pronto. O indígena vai dizer ‘não, calma, espera, vamos pedir permissão para os nossos ancestrais e vejamos se é bom’. O marxista vai dizer ‘claro que é bom, aqui vamos produzir’. Ele não vê importância no espiritual, não o sente. Por isso ainda não está entendendo”. O “nosso modelo não é comunista, mas comunitário'', diz ele.

O líder yanomami Davi Kopenawa diz que “o homem branco está enlouquecido com a terra, sempre quer tirar mais e mais para que a cidade cresça. Só pensa no solo: petróleo, ouro, minerais, estradas, carros, trens".  Interpela o líder indígena: “Vocês falam em resgate: cortaram a floresta e, agora, para resgatar é difícil e já está tarde. Tem de resgatar antes de destruir. O homem da cidade não gosta da natureza, dos animais, das árvores. Ele só gosta de derrubar e fazer plantação de capim. Quem come capim? O boi. O homem branco é capitalista, pensa só no dinheiro e em derrubar as árvores, matar animais”, diz ele.

O Bem-Viver nos convida a “sair da dicotomia entre ser humano e natureza”, diz Katu Arkonada, pesquisador e analista do Centro de Estudos Aplicados aos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – Ceadesc, da Bolívia. Ou seja: “despertar para uma consciência de que somos filhos da Mãe Terra, da Pachamama, e tomar consciência de que somos parte dela, de que dela viemos e com ela nos complementamos”. É um estilo de vida que nos ensina “não a viver melhor, mas sim a viver bem com menos”, resume.




Ativistas querem desvincular conceitos de bem-viver e padrão de consumo


[29/1/2010] No terceiro dia de Fórum, uma heterogênea mesa discutiu o “Bem-viver”. As falas foram taxativas. Para a construção de um outro modelo de sociedade, a noção de bem-viver deve deixar de se basear no padrão de consumo, passando a tomar como referência a capacidade de felicidade, solidariedade e coletivismo. “No conceito clássico de bem-viver, não importa se somos felizes, se temos famílias desestruturadas, nada disso. Temos que construir outro modelo, de civilização e sonhos”, disse a sulafricana Mercia Andrews, da Trust for Community Outreach and Education (TCOE).

A reportagem é de Leandro Uchoas e publicada pelo jornal Brasil de Fato, 29-01-2010.

Uma frase de Ana Maria Prestes, da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (OCLAE), resume a dimensão desse debate no décimo aniversário do evento. “A inclusão desse tema no Fórum Social Mundial é, por si só, uma demonstração do exito do Fórum. Em 2001 e 2002, talvez não fosse possível falar disso. Agora, o tema amadureceu. O Fórum tem essa capacidade de resgatar temas milenares que haviam sido subjugados”, disse.

Na opinião de Zraih Abderkadel, do Fórum das Alternativas do Marrocos, já estaríamos em uma nova fase nesse processo. O conjunto de governos progressistas e de esquerda teriam projetado um conjunto de alternativas e modelos para conformar um projeto de enfrentamento ao de consumo. Nesse sentido, o equatoriano Segundo Churuchumbi, da Ecuarunari, ressaltou a importância de que essa construção seja coletiva, e parta das próprias mobilizações do Fórum.

O italiano Marco Deriu, da Universidade de Parma, preferiu exemplificar com números a falência do modelo estruturado no consumo. Segundo ele, a humanidade consome anualmente 60 bilhões de toneladas de recursos naturais. Estariamos consumindo 30% a mais do volume que a terra é capaz de regenerar. Teríamos uma espécie de “dívida ambiental”. “Muita gente usa o conceito de 'desenvolvimento sustentável'. Acho isso uma forma de fazer as mesmas coisas de sempre com uma tinturinha verde. É preciso que a mudança seja radical. Uma reorientação completa da política ambiental e do desenvolvimento”, afirmou.

Chamou a atenção os resultados de uma pesquisa realizada pela equipe de Mercia na África do Sul. Os dados foram coletados na cidade natal da ativista, onde muitos vestigios do apartheid permaneceriam presentes. Perguntava-se o que as pessoas queriam, o que era necessário mudar em suas vidas. 68% afirmaram que queriam terra. E a grande maioria deles não queria muito. Apenas de 1 a 5 hectares. Entre as mulheres, o pedido majoritário foi por paz. A pesquisa comprovaria que, em meio a sociedade civil, nem sempre flui o ideário de consumo desenfreado.




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