Dossier Técnico Pedagógico



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Dossier Técnico Pedagógico

Projecto: 005295/2008/22

Área de Formação: 481.Ciências Informáticas

Referencial de Formação: 481039.Técnico de Informática

Nível de Formação: 3

Modalidade de Formação: EFA – NS

Local de Formação: Reguengos de Monsaraz


Data

Fevereiro 2009

Título do Documento

Foi assim que me contaram

Técnico(a) Formação

Rita Bibes

Foi assim que me contaram a história.

Bruxelas, muitos anos antes do 25 de Abril, tempo de exílio para alguns milhares de portugueses.

Era véspera de natal e fazia frio. Não só o frio próprio dos países do Norte da Europa, mas sobretudo o frio que faz dentro dos exilados, tão igual ao que se sente no fundo de uma igreja muito antiga.

Ele estava sozinho no alto daquele jardim onde se chega por um caminho em caracol, a fumar um cigarro que se adivinhava mais nostálgico que pensativo, sentado no último banco de uma fiada de três, dispostos em meia lua, quase em frente do caminho por onde chegam, no Verão, os velhos em busca de alguma réstia de sol e as mães de louras criancinhas.

Não era tarde, mas como a noite caía cedo, o entardecer ia adiantado e por isso mesmo ele ficou ainda mais curioso quando avistou alguém que começava a subir. Primeiro era um vulto sem forma, lá em baixo e ao longe. Depois perdeu-o de vista na primeira curva do caracol, em seguida tornou a vê-lo, figura ainda indistinta que a segunda volta do caracol engoliu e por fim descobriu-lhe as feições, já na pequena rampa final.

É uma mulher! A surpresa dela quando o vê, ali sentado e sozinho, ainda é maior do que a dele. O vapor da respiração sai-lhe pela boca e quase lhe esconde os olhos que semicerrou para avaliar a situação. Dar meia-volta e descer? Fazer como se nada fosse? Ela hesita uma fracção de segundo e opta por sentar-se no banco mais afastado, deixando entre os dois o banco do meio e vazio.

De vez em quando lançam uma olhadela intrigada um ao outro, pelo canto do olho, enquanto aconchegam o cachecol com as mãos enluvadas, à medida que a névoa fria sobe lá da cidade, onde as primeiras luzes amarelas e fixas dos candeeiros públicos começam a responder timidamente ao piscar das iluminações de Natal.

Ela tira um maço de cigarros do bolso, procura o isqueiro ou os fósforos nos bolsos do casacão, não encontra, tira uma luva e procura nos das calças e, em desespero de causa, levanta-se e aproxima-se dele:

- “Est-ce que vous avez du feu, s’il vous plaît?” – O francês é um pouco arrastado mas correcto, os olhos escuros e o olhar indefinido, entre o casual e o intrigado.

O português levanta-se tira a luva e tenta acender um fósforo que se parte, talvez por nervosismo, talvez por causa do frio e ambos riem. Ele pergunta-lhe se está à espera de alguém. Ela responde que não, de todo, e tenta adivinhar de onde lhe vem aquele ligeiro sotaque, que árabe não é, embora ele seja demasiado moreno e flamengo. E mais longe não vão no caminho da curiosidade, porque isso não se fazia naqueles tempos de múltiplos exilados das ditaduras que cobriam praticamente todos os países do mundo onde se falava português ou espanhol.

Sentam-se no mesmo banco, conversam sobre tudo e sobre nada e acabam por concordar que, de facto, não está lá muito calor. Levantam-se de comum acordo, descem o caminho lado a lado e tomam consciência do enorme vazio que ganhou as ruas de Bruxelas. Nem um peão, só alguns raros automóveis e o clarão amarelo dos lampiões esparso no nevoeiro agora cerrado, entrecortado pelo halo esbatido e quente de muitas janelas iluminadas.

- Bem, tem que se jantar… - Não é certo qual dos dois disse isto, era uma evidência, nem qual respondeu que ia jantar sozinho, o que também nada tinha de invulgar naqueles tempos de solidão imposta, que não escolhida. Acabaram num pequeno restaurante árabe, únicos clientes por detrás de umas cortinas axadrezadas de vermelho e branco, à luz de uma vela enterrada no gargalo de uma garrafa, como então era moda nos restaurantes populares ou para estudantes.

Quando a meia-noite chegou e o patrão lhes trouxe a última – “mas mesmo a última!” – caneca de vinho, ela debruçou-se sobre a mesa, olhou-o nos olhos, pegou-lhe na mão e pediu: - “Dis avec moi, dans ma langue: Avé Maria, cheia de graça…”.

Foi assim que me contaram. Não sei se é verdade, se não é só uma história de Natal, mas foi assim que me contaram.
José Manuel Barata-Feyo,

in revista XIS, 22-12-2001




  1. Nesta crónica é narrada uma história.

    1. O primeiro e o último parágrafos fazem parte da história?

Poderiam ser suprimidos sem que a história ficasse incompleta? Qual é a função destes dois parágrafos?
2. Observe os protagonistas da história.

2.1 Como são identificados ao longo da narrativa?

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2.2 O que possuem em comum essas duas personagens?

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2.3 Descreva as circunstâncias em que se conheceram.

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2.4 Em que momento é revelada a nacionalidade da personagem feminina? Como?

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3. Identifique quais são as características de uma crónica presentes nesta que acabou de ler.

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