DR. aquiles de almeida



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A GESTÃO MILTON MARINHO MARTINS NA ESCOLA MUNICIPAL DE PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS “DR. AQUILES DE ALMEIDA”

José Wilson Sanches Campos - UNIVERSIDADE DE SOROCABA - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Orientador: Luiz Carlos Barreira
Sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Carlos Barreira, como parte de um projeto que pretendia fazer pesquisas preliminares sobre as primeiras instituições de ensino sorocabanas; mestrandos da Universidade de Sorocaba foram a campo. Nas primeiras análises, nos deparamos com a escassez de materiais históricos preservados. A história da educação em Sorocaba, apresenta lacunas importantes, o que por si, já é razão bastante e suficiente para este e futuros trabalhos de pesquisa. Desde então, vem sendo efetivada a formação de um banco de dados para subsidiar futuros trabalhos na área da pesquisa escolar em nossa cidade e região. Um dos tijolos dessa construção é a história da escola municipal conhecida como Aquiles de Almeida.

A Escola Municipal de Primeiro e Segundo Graus “Dr. Aquiles de Almeida” é parte importante da história educacional e cívica dos bairros do Além Ponte, Vila Hortência, Barcelona, Vila Assis, entre outros da região em que foi instalada e da própria Sorocaba. O termo, cívica, foi aplicado por que o diretor Milton Marinho Martins promovia regularmente as datas cívicas e também as tradicionais em grandes festas folclóricas. Existem paralelos relevantes entre essas suas práticas tradicionais e as relações sociais que acabou por desenvolver. O senhor Milton Marinho Martins, ex-diretor da instituição, foi um afamado servidor público, e sua história se confundiu com a própria origem e personalidade da escola por muitos anos. Não é lugar-comum dizer que ele foi por muitos anos - e para alguns ainda é - a alma, o símbolo vivo do Aquiles, diminutivo pelo qual a E.M.P.S.G. Dr. Aquiles de Almeida ficou conhecida na cidade. Fazer uma análise das relações sociais que este diretor de escola construiu, e da sua influência sobre os alunos e funcionários de sua administração, interessa aos estudiosos de gestão escolar, psicologia, sociologia e demais pesquisadores que pretendam trabalhar com representações sociais no campo do ensino. Um ponto importante levantado neste trabalho, é o fato de antigamente o diretor exercer uma função pedagógica na escola e isso era determinante para o bom andamento dos trabalhos escolares e infelizmente hoje o diretor foi transformado em um estafeta da burocracia do Estado. Quanto à função pedagógica, esta é atualmente exercida por coordenadores, que, apesar do preparo pedagógico, normalmente não são dotados do mesmo poder simbólico, sendo, portanto, menos eficazes em questões que envolvam poder e disciplina, principalmente se considerarmos que o poder deriva de uma relação simbólica entre as partes envolvidas no cotidiano escolar. Algumas escolas sabiamente ainda reservam a figura do diretor em uma posição de autonomia e respeito; por mais preconceitos que a palavra respeito possa gerar em “dias de liberdade” como estes, ainda assim, esse respeito é o cimento das relações hierarquizadas, sendo o sentimento que leva alguém a tratar outrem ou alguma coisa com grande atenção, profunda deferência; consideração, reverência. O poder simbólico

é um poder que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce, um crédito com que ele o credita, uma fides, uma auctoritas, que ele lhe confia pondo nele a sua confiança. É um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito crê que ele existe. (BOURDIEU 2001, p.188)

A escola do Seu Milton era uma instituição de excelência e muito bem conceituada na cidade. Essa é a premissa de que partimos, mas antes de qualquer coisa, foi necessário comprovar que a escola possuía mesmo essa boa fama na coletividade e que o diretor Milton era uma figura decisiva na história dessa instituição escolar.

É importante informar que fui aluno desse ginásio, designação que corresponde atualmente ao segundo ciclo do Ensino Fundamental; na época sentia medo do “Seu Milton”, o que não diminuía minha adoração pela escola. As entrevistas com outros alunos me fizeram ver que não estava sozinho. Para muitos de nós, havia uma onipresença e grande poder emanentes da figura dele, o diretor. Não consigo me recordar de um dia de aula sem a impressão de ele estar lá em sua sala, observando. Assim como na proposta de Bentham para o seu panóptico; o olhar do Seu Milton era suficiente, mesmo que não lhes víssemos os olhos, para inibir revoltas ou traquinagens. É obvio que tais impressões foram recolhidas da infância, e esta, infelizmente, já vai longe, mas é notável que os ex-alunos entrevistados também tenham passado por sensações semelhantes e que tenham desenvolvido opiniões tão parelhas às minhas.

Por quê a presença do “Seu Milton” é sentida no imaginário dos ex-alunos até os dias de hoje de forma tão marcante? Tínhamos medo dele, porém, sua administração da escola é considerada, inclusive pelos alunos mais rebeldes, como impecável. Sua gestão foi autoritária ou com autoridade? O imaginário sobre a sua autoridade é que importa. Autoridade, segundo Friedrich, é “acrescentar sabedoria à vontade, razão à força e ao desejo”.

Ainda quanto a questão da autoridade:

Existem, em resumo, situações de poder que se diferenciam de outras pelo fato de aquele que exerce o poder ter a capacidade para elaborar o que preferir por raciocinar o que parecia racional para aqueles que o seguem, se o tempo e outras circunstâncias o permitirem. Tal raciocínio envolve, geralmente, os valores e as crenças. Bem como os interesses do grupo dentro do qual o poder é exercido. O detentor do poder compartilha com seus seguidores, total ou parcialmente, esses valores e crenças, podendo, assim, o que faz muitas vezes, explicar a seus seguidores as razões de ter agido de um certo modo. Trata-se de uma situação comum na política. (FRIEDRICH, 1974).


Autoridade e autoritarismo não se confundem quando tomadas nessa perspectiva também apontada por Paulo Freire pra si e para qualquer professor, e válida também para uma direção escolar.

É o meu bom senso que me adverte de que exercer a minha autoridade de professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, estabelecendo tarefas, cobrando a produção individual e coletiva do grupo não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever (FREIRE,1996 pág. 68).

Não falamos nunca em um líder totalitário como os que nos apresenta Hannah Arendt em seu livro: As origens do totalitarismo (ARENDT, 1997). Quando se refere à autoridade de um líder totalitário, cruel e irracional, como foi Hitler, Mussolini e outros tantos, mas a lideres com autoridade, com escorreita capacidade em expor as razões pelas quais as suas escolhas devem ser acolhidas pelos seus liderados.

A celebridade da escola era significativa e abrangia a região, estando firmemente inculcada no ideário popular e na senda do imaginário social, dialogamos com Ansart, para quem, o imaginário é o “Conjunto de sistemas de representações através dos quais as sociedades se autodesignam, fixam simbolicamente suas normas e seus valores” (ANSART, 1978). Os alunos, funcionários e a comunidade, criaram uma visão sobre a escola e sobre o seu diretor e essa visão retroalimentou outras e assim por diante, formou-se assim um cabedal de crenças que denotavam valores daquela comunidade e daquele tempo.

Podemos ressaltar a importância dos sentimentos dos ex-alunos em relação ao diretor, expressos em suas entrevistas, assim como Teves os discute, colocando que o imaginário social surge e se legitima hegemonicamente por força do grupo que a ele dá o respaldo de sua crença. (TEVES, 1992).

No que tange ao ideário popular ou imaginário popular

A imaginação social, além de fator regulador e estabilizador, também é a faculdade que permite que os modos de sociabilidade existentes não sejam considerados definitivos e como os únicos possíveis, e que possam ser concebidos outros modelos e outras fórmulas. (BACZKO, 1985, p. 403.)

Nosso objeto de pesquisa gira no entorno de uma instituição escolar e temos que entender que a própria visão do que seria uma unidade escolar vem mudando. Temos sempre que manter em mente que a unidade escolar não pode ser entendida como apenas mais um prédio público, uma extensão do lar como se preconizou por tanto tempo, e também não é só um espaço no qual as relações são apenas de caráter profissional

O estabelecimento de ensino, entendido durante muito tempo como uma unidade administrativa que prolongava a administração, passou a ser encarado como uma organização social, inserida num contexto local singular, com identidade e cultura próprias, produzindo modos de funcionamento e resultados diferenciados. A acção dos professores deixa de ser perspectivada como uma resultante simples e linear das decisões e das políticas estabelecidas a nível nacional ou regional. O estabelecimento de ensino constitui uma realidade organizacional que funciona como um «filtro» mediador entre a administração e os professores. (CANÁRIO, 1978)

Como já foi dito, grande parte da história dessa escola não foi recolhida, e muito menos no campo das relações sociais e do imaginário, portanto, para fazer emergir essa história, alguns documentos, precisam ser “construídos” e o método de produção escolhido para “criação” dessas fontes foi o da História Oral. Aproveitando a experiência gerada por dois grandes centros de excelência, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas, criado em 1973 e do CEHU, Centro de Estudos Rurais e Urbanos da USP. O manual de Verena Alberti intitulado: História Oral: a experiência do CPDOC, publicado pela Editora da Fundação Getúlio Vargas. (ALBERTI, 1989) que trouxeram uma visão clara do que seria a criação dos tais documentos a partir de depoimentos. A escolha do processo de História Oral, mais que um instrumento foi uma opção metodológica, pois permite recolher impressões tanto objetivas quanto subjetivas dos entrevistados. Contribuiria para a formação de um repositório da história da E. M. P. G. “Dr. Aquiles de Almeida”, e ainda, através dessa técnica, seria possível aprofundar a análise da interferência do diretor na formação do imaginário social de uma instituição de ensino, a partir do estudo de seu estilo administrativo e do seu comprometimento pessoal com a escola.

Tratar de autoridade é um assunto delicado e difícil. São muitas as armadilhas pois é fácil e comum confundir assuntos como: poder, legitimidade do poder, totalitarismo e autoritarismo, isso apenas para citar alguns, com a autoridade no sentido em que ela deveria sempre possuir e que explicitamos neste trabalho. Seria um erro terminar sem antes deixar claro que não podemos analisar relações sociais desvinculadas de seu tempo e especificidades locais. Os tempos são outros, como se costuma dizer, mas o ser humano em síntese é o mesmo. Algumas relações simbólicas em sua estrutura também não mudam muito e se o exemplo não servir de regra serve ao menos de exemplo. Veja

Um pai sensato substituirá gradualmente o simples comando por persuasão, isto é, procurará desenvolver a autoridade dando razões. Elaborando suas instruções, substitui a sujeição pela compreensão. Responderá às perguntas "Por que?" e "Para quê?" da melhor maneira que puder. Contudo, por vezes, tem de voltar ao seu poder, respondendo "Porque eu disse!" A situação poderá não permitir uma explicação demorada, por falta de tempo. Assim, a autoridade e o poder entrelaçam-se. A autoridade reside no fato de que a criança ganhará gradualmente um discerni­mento do significado das ordens e das regras dos pais; torna-se "socializada". Esse processo repete-se na escola e na sociedade mais ampla. Todo esse discernimento vai proporcionando gradualmente — ou deveria proporcionar — a participação da pessoa que se está formando. Ela ajuda, por assim dizer, a formar essas regras e a fazer que também sejam suas. Assim, a disciplina é substituída por autodisciplina. (FRIEDRICH, 1974 p. 64).

Este trabalho não pretende ser uma apologia a autoridade, deseja apenas mostrar que a figura do diretor, quando cingida de autoridade, é fundamental ao bom andamento de uma unidade escolar. Também intenta expor a história da E.M.P.S.G. Dr. Aquiles de Almeida construída a partir do método de História Oral.
Referências Bibliográficas

ALBERTI, Verena. História oral: a experiência do Cpdoc. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1989.

ANSART, Pierre, Ideologia, conflito e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Trad., São Paulo: Cia. das Letras, 1997

BACZKO, Bronislaw. Imaginação social. In: Enciclopédia Einaldi, s. 1. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Editora Portuguesa, 1985.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 4ª ed. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2001.

CANÁRIO, Rui. Gestão da escola: como elaborar o plano de formação?, Cadernos de Organização e Gestão Escolar. Monografias, Instituto de Inovação Educacional. 1998

FRIEDRICH, Carl. Tradição e autoridade em ciência política. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo : Paz e Terra, 1996.

TEVES, Nilda. O imaginário na configuração da realidade social. In Tevês, Nilda (org) Imaginário e educação. Rio de Janeiro Gryphus, 1992.





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