Drama Urbano Marcelo Alves



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Encontro29.07.2016
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Drama Urbano
Marcelo Alves

Prefácio

Qual é a graça na vida rotineira que as pessoas levam? Não acontece nada de fantástico, nada de mágico, não existem príncipes ou fadas, muito menos galinha dos ovos de ouro. Só existe a inexorável correria, as obrigações das quais não se pode escapar. Então qual seria a graça contar a história de uma pessoa comum? Estaria meu conto fadado à desgraça se não tiver algum fato místico, ou algo completamente maçante que o valha?

Assumo qualquer risco que me seja imposto, ao escrever sobre uma história banal. Criarei um personagem, um verdadeiro herói; mas ele não terá super-poderes, antes tivesse; mas não devo trilhar esse abstrato caminho. Ele será irremediavelmente comum. Poderia se chamar João ou José, porém por qualquer outro motivo que é, de fato, irrelevante se chamará Alexi Fonseca e terá 21 anos, não que esta idade seja importante, poderia ser mudada, mas o fato de ser novo, apenas chamará mais atenção para o seu caso. A ação deve se desenrolar em São Paulo, no ano de 1995, exceto as digressões.

Não que algum desses dados tenha qualquer importância para minha narrativa, nome, data, local, tudo isto me é indiferente. Pois o que realmente me chama a atenção é o seu caráter, seus atos, seus pensamentos, os quais multiplicam meu personagem, tornam-no tristemente real, inquietante, cotidiano. Seu conflito interior testa o ser humano, avalia até onde vale manter a dignidade, isso se de algum modo justifica-se perdê-la.

Devo deixar de rodeios e não me prolongar, a história por si só deve explicar-se, porém caro leitor, peço que não fique comovido, nem altere sua postura. Porque os fatos que se desenrolarão nessa narrativa, embora melancólicos e funestos, são a mais concreta tradução da realidade. Pessoas comuns devem reconhecer sua luta na de meu herói, compreenderão seu sofrimento, pois ela não escolhe raça ou época, multiplica-se na vastidão de histórias, que existem no mundo, repete-se diversas vezes com inúmeras outras criaturas. Todavia mesmo assim questionarão, com total razão, a honradez de seus atos.

Conclusão de um preso

Depois de ter passado algumas semanas nessa cadeia, percebi que um preso não tem nada para fazer. Meu dia se reduz a acordar, e esperar pela hora do almoço, tomar o ‘‘banho de sol’’, aguardar a luz solar se esvair e, então, janto e durmo. Assim deverão ser todos os meus dias, ininterruptamente, até o meu julgamento.

Por isso, passo grande parte do meu tempo entregue a devaneios e nostalgias. Penso na minha mulher, Luíza, que ficou desamparada do lado de fora, dependendo do seu pai para cuidar do meu filho Luca de 5 anos e da pequena Gabi, que fará seu primeiro aniversário daqui a alguns dias. Lembrar da minha família reconforta-me a alma e dá-me forças, mas realmente martiriza-me o peito imaginar que possam estar passando por quaisquer dificuldades.

A cela na qual passo meus dias é tão pequena quanto a sala de minha casa. A diferença é que meu ‘‘novo lar’’ é sujo e lânguido e não inspira a mesma alegria que minha casa, a qual está sempre animada pelo gostoso choro da Gabi e pelas correrias de Luca, que fica indescritivelmente feliz quando ganha um novo carrinho. Só os pais sabem como é bom proporcionar alegria aos filhos, como reconforta o espírito ver o sorriso de felicidade de uma criança.

Por hora, chega de nostalgias. De tanto pensar na causa de estar aqui preso, cheguei à conclusão de que a culpa é dos contrastes; isso porque não considero meu roubo como sendo a verdadeira causa. Calma, calma, explico-me.

Imagino que o fato de eu estar aqui enjaulado, seja o resultado de um mundo desigual, uma vez que o ato que me trouxe a este lugar foi praticado apenas por desespero, levado às últimas conseqüências. Além do mais, se um rico tivesse roubado, não teria sido preso, como eu fui. Visto que acionaria seus advogados e estes usariam toda a sorte de recursos para provar a inocência de seu cliente. E por que um burguês furtaria algo de alguém? Dizem que existe uma doença frescurenta de abastados, que os faz ter um desejo incontrolável de roubar algo, não acredito; porém mesmo que seja verdade, não se aplicaria a este caso.

Este evento foi produto, mesmo que indiretamente, de uma sociedade impassível fronte às carências alheias. Fruto da miséria, da necessidade, da fome, de um injusto sistema que privilegia os mais poderosos, em detrimento dos mais fracos. É a lei do Darwinismo Social e não há como fugir disso, como eu tentei. Deve-se reunir forças para lutar contra, para encarar, para continuar a dura batalha do dia-a-dia, mesmo que surjam imprevistos, que te façam fraquejar e apelar para caminhos mais fáceis e o meio do qual vim são cheios desses caminhos. Aprendi isso a duras perdas.
O fato em si

Estava escaldante o dia em São Paulo. O ambiente pesado e irritante. Automóveis passavam apressados, seus motoristas praguejando uns contra os outros. Nas calçadas, transeuntes andavam por todos os lados, tinham feições preocupadas, visivelmente incomodados pelo sol. Quando alguém está imerso na correria paulistana, não percebe, mas essas pessoas parecem formigas indo, mecanicamente, de um lado para o outro, muitas vezes sem saber o motivo. Eu caminhava nervosamente entre todas essas pessoas, era hora do almoço e as ruas estavam, portanto, lotadas. Meu destino, o Banco, tinha filas que continuavam do lado de fora. Desse jeito seria impossível, resolvi aguardar.

Sentei-me num banco do outro lado da avenida, minha cabeça doía, meu estômago resmungava, fome! Enquanto esperava, minha consciência ainda tentava convencer-me da ilegalidade do ato que iria cometer. No entanto não havia como voltar atrás. Estava decidido!?...

Já tinha se passado quase uma hora desde que tinha me sentado a esperar, o Banco esvasiara-se. Resolvi entrar, senti meu coração disparar, batia tanto, que quase perdi o rumo. Minhas mãos suavam, pernas tremiam, o insuportável calor se desfez quando entrei e senti a gélida brisa do ar condicionado tocar minha nuca.

Dirigi-me ao único segurança do local, como se fosse pedir uma informação, então rapidamente saquei a arma e forcei contra a sua barriga.

- ‘‘Me leve’’ até o caixa! Palhaço! E não faça nenhuma gracinha! Ou te encho ‘‘dos pipoco’’!!

Pensei que a ação ia ser rápida, ia pegar o dinheiro e sair correndo, porém, quando a mulher do caixa me disse que não tinha como pegar qualquer valor sem a autorização do gerente, percebi que estava enganado.

- Como??!! Um banco não tem míseros três mil reais?!?!

- Senhor!! Não é questão do dinheiro!! Não posso acessar o sistema sem a autorização do gerente!

- Então vá chamá-lo! Rápido!! E sem gracinha!!!

- Ele não está aqui no momento. Foi a uma reunião! Mas não tarda a chegar. Por favor, acalme-se senhor!

Foi neste momento em que ouvi o barulho das sirenes, corri para fechar a porta, ao voltar dei um tapa na mulher do caixa.

- Por que você chamou a polícia!!! Eu só queria a maldita ‘‘grana e ia’’ embora!!!!!

Entre dores e lágrimas, ela grunhiu algo parecido com:

- ‘‘Mais’’, não fui euuuuuu!!!!!!!

Os guardas rapidamente cercaram o Banco, eram muitos e apontavam suas armas na minha direção. Ordenaram que eu soltasse os reféns e posteriormente me entregasse. Havia me esquecido das pessoas que estavam no local antes de eu entrar, a maioria logo percebeu e saiu correndo, porém ainda ficaram cinco pessoas, além dos empregados do Banco. Duas mulheres e um homem, além de uma velhinha segurando a mão de um menino, que deveria ser seu neto. Em todos os rostos notei o pavor com que me olhavam, como se eu fosse algum tipo de animal assassino, o que levando em conta a atual situação, não estava muito distante de ser verdade.

Todos deviam, assim como eu, ter família pais, irmãos, filhos. A senhora idosa poderia até ser a minha mãe, como o garoto, meu filho. O homem, que devia estava atrasado para voltar para o trabalho, talvez tenha deixado em casa, preocupados, esposa e filhos. As mulheres, mesmo nunca tendo se visto antes, agora se abraçavam, choravam e tentavam mutuamente se consolar. Visto que pareciam muito abaladas, fui perguntar-lhes se precisavam de algo.

- Por favor!!! Não nos machuque senhor!!! Pode pegar meu relógio e minha aliança!!!! Falou uma delas.

Deparado àquela situação, cercado por policiais e colocando em risco a vida de outras pessoas, tudo por causa de três mil reais. Senti verdadeiro desprezo por mim mesmo, sentei-me no chão, tão sujo quanto minha alma, e comecei a chorar. A que ponto o desespero me fez chegar, assaltar, algo que apenas as mais abjetas pessoas fazem.

Percebendo minha desatenção, os militares invadiram o local, não ofereci qualquer resistência, deixei que eles me dominassem e me algemassem. Fui arrastado até o camburão da viatura e ao sair do Banco, voltei a sentir a quente atmosfera externa, dessa vez mais pesada, mais acusadora. Ladrão! Ladrão! Ladrão!...

Mais tarde, fiquei sabendo que o sargento que chefiara a equipe tática, classificou, como amadora, minha tentativa de roubo. E não podia ser diferente, nunca tinha pegado numa arma aquela estava inclusive descarregada, fui um pai de família batalhador, lutava para dar sempre o melhor para minha esposa e meus filhos.
Intromissão do Autor
Desculpem-me por ter interrompido a narração, mas preciso fazer uma pequena asserção:

Vilão? Por que herói? O autor enlouqueceu quando tomou um ladrão por herói? Bom, reconheço a vileza do ato de meu personagem, mas antes de começar a sua defesa, inicio contando parte de sua vida. Dessa forma, devo voltar um ano na história. E depois, para narrar sua adolescência, voltarei alguns outros.

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Parque do Ibirapuera


São momentos como estes que tornam feliz a vida de um homem. Fim-de-semana lindo! O sol resplandecente tem um brilho animador hoje! Os pássaros orquestram a trilha sonora, que convida para um passeio. Vim com a família toda para o Ibirapuera, neste momento estou sentado sob a agradável sombra de uma árvore, com a cabeça sobre as delicadas coxas de minha mulher, que afaga meus cabelos com suas delicadas mãos.

O ambiente se tornou mais melodioso agora. A sinfonia dos pássaros se confunde com os gritinhos alegres de Luca, que brinca e corre pela grama. Como satisfaz um pai ver o largo e vivaz sorriso estampado na face de um filho. Em breve, saberia que Luíza estava grávida de Gabi, sempre a achei mais linda assim. O resplendor do dia deixou-a fascinante, a magia de seus celestiais olhos verdes enfeitiça-me e deslumbra-me totalmente. Agradavam-me sua alva e macia pele branca. Seus ondulantes cabelos castanhos cintilavam, em contraste com a iluminação.

Sinto-me como que em êxtase, totalmente maravilhado, os problemas sumiram-se da minha cabeça, diluíram-se na beleza do lugar. As oblíquas luzes solares refletem-se no lago, que fica com sua superfície dourada e cristalina. Aspiro o doce sabor exalado pelas folhas de carvalho, misturado a inúmeros outros odores indiferenciáveis da natureza, os quais são carregados pela suave brisa desta terna primavera.

O equilíbrio e a harmonia da natureza inspiram os amores, acalmam o espírito e têm incomparável poder revitalizador. Aproveitei o clima para brincar com meu filho: subimos nos mais altos Ipês do parque, em busca das mais coloridas e perfumadas flores, que embelezariam as ondas de Luíza. Jogamos bola, corremos atrás de esquilos e lambuzamo-nos com os mais doces sorvetes. Foi um sacrifício convencê-lo a não pular no lago.

A vida pode ser tão simples!

Tento prolongar a tarde o máximo possível, mas o sol já tomou uma cor escarlate, e começa a escurecer rapidamente. Luca sai quase que... não, literalmente arrastado, esperneia, grita, protesta, mas acaba cedendo. Por dentro, também esperneio, grito e protesto, o dia já se foi e não sei quando tamanha felicidade se repetirá. ‘‘Se repetiria’’? Prefiro deixar a resposta no ar, por hora, sei apenas que tenho de acordar cedo amanhã, minha árdua semana começa no domingo.

Rotina
Acordo precisamente às cinco da madrugada. Com o céu ainda escuro, faço quase que maquinalmente os rotineiros gestos: comer o pequeno café-da-manhã, cuidadosamente preparado por Luíza; tomo banho para desanuviar a visão e preparar para um longo e cansativo dia. Quando saio, os primeiros fios de sol pulam, tímidos, as nuvens. A cidade acorda paulatina e silenciosamente. Daqui a pouco, o caos, o trânsito e o barulho convencionais começaram a incomodar-me.

Deixo minha casa tão cedo porque preciso pegar dois ônibus para chegar ao trabalho, em uma indústria, são duas horas de viagem. Meu trabalho é totalmente manual, fico cerca de dez horas de pé, apenas mudando caixas de uma esteira à outra. Não exige qualquer tipo de qualificação profissional, experiência ou prática. Qualquer um pode fazer. Esse é o problema!

O pouco que recebo, basta para pagar o aluguel, luz, água e outras contas essenciais, além de uma pequena compra mensal. Boa parte desse dinheiro é gasta em passagens e em meu deslocamento à empresa. Faço muitas horas extras, para dar algum lazer à minha família e esforço-me, juntando uma poupança para os estudos de Luca.

Entro todo dia exatamente às 8 horas. Todavia, hoje uma aglomeração de empregados impede a entrada. Junto-me à massa que reclama e esbraveja:

- Que injustiça! Que Injustiça!

Os mais exasperados gritam:

- Imbecis! Há pais de família aqui! Vocês não sabem o que fazem!

Começo a preocupar-me. Pergunto a um dos meus colegas de trabalho o que está acontecendo:

- Fomos todos demitidos! Fomos todos demitidos!

Dizia ele como se não acreditasse. Ouvi ainda meus chefes anunciarem que seriam pagos três meses de seguro desemprego e que seríamos indicados a outras fábricas.

Saí de perto da manifestação totalmente atordoado: que diria agora à minha mulher e meu filho. Precisava arranjar outro emprego o quanto antes. Mas o tempo não estava bom para ninguém: funcionários eram sumariamente demitidos em todos os lugares. E recebiam como explicação, que era corte de despesas. Nos poucos lugares onde se abriam vagas, avolumavam-se enormes filas de desempregados, a concorrência estava grande.

Andei passos imprecisos pelas ruas da cidade de São Paulo, já desacostumado a ficar um domingo sem trabalhar. Não sabia para onde ir, como contar o acontecido à minha mulher. O que fazer? O que será de Luíza e Luca? Resolvi sentar no banco de uma pracinha, sob a sombra de uma árvore, que atenuava o forte calor, afinal devia ser meio-dia.

Impossibilitada, turva, fraca. Assim, minha cabeça tomava o simples ato de pensar como inexecutável. Resolvi apenas observar: a vida na cidade continuava. Impassíveis à minha desgraça, as pessoas passavam por mim como se não me vissem, como se eu não estivesse ali. Com uma alma amargurada, um futuro incerto, sem saber o que fazer... Bocas a alimentar.

Senti a brisa perfurar minha razão. Olhei para uma idosa, que jogava milho aos pombos. Tinha as roupas sujas enegrecidas e rasgadas, o cabelo empastado e a pele crestada. Nossos olhares cruzaram-se e li no seu inquisidor olhar de bruxa perversa, as seguintes palavras:

E agora Alexi?

--

Após ensaiar muito as palavras, resolvi voltar para casa. Quando desci do ônibus e caminhei até a rua onde moro, diminui a velocidade, meus pés se enroscavam, negavam-se a obedecer meu comando. Enfim, a passos trôpegos, cheguei à frente de casa. O portão estava destrancado, apoiei-me nele e fiquei mirando o chão, senti o peso da minha revelação avolumar-se sobre meus ombros. Segurei as lágrimas. Tirei da minha face a feição de fracassado, substituí-la por uma de forte, de esperança, que embora fossem falsas, preocupariam menos Luíza.



Aspirei o conhecido ar da sala de casa, com um sabor do perfume de flores campestres de Luíza. Ao fechar a porta, ouvi seus gritinhos vindos do nosso quarto. Corri até lá, ela radiava alegria, seu rosto estava maravilhoso. Não chegou a estranhar, eu estar em casa tão cedo, segurou meu braço e sentou-me na cama.

- Estou grávida de novo!!!!!!


Contrastes
Por mais que me esforce, meu caro leitor, não conseguiria imaginar como ficara a mente de meu personagem. Tamanha antagonia de idéias. O mundo sumira sob seus pés, nem sequer lembrara mais da notícia que tinha a dar. Ficara inerte, alheio à realidade. Fitava os olhos verdes de sua mulher, mais uma vez enfeitiçado, porém dessa vez não pelo seu encanto ou pela lembrança do mar que eles inspiravam, mas pela situação, pela felicidade, pela tristeza. As lágrimas que seus olhos vertiam, dividiam seus inefáveis sentimentos, ao mesmo tempo em que os confundiam. Pingos de enternecimento cintilavam sobre sua face, afinal um filho tem poder superior a tudo. Capaz de rejubilar a mais taciturna alma, de vencer o mais melancólico sentimento.

Esperança

Senti o frêmito subir minha espinha, quando disse a Luíza que tinha sido inesperadamente demitido. Ela abraçou-me e disse:

- Teremos um filho, por enquanto é apenas isso que importa. Ele nos dará forças para continuar a batalhar nossa vida, trará prosperidade, esperança e felicidade. Levante a cabeça, curta a notícia e amanhã saia bem cedo, pois você há de encontrar um emprego melhor que o último.

Resolvi seguir seu conselho. Quando Luca chegou da escola, reuni minha família no pequeno quintal. Encostado à parede caiada, com Luca ao meu colo e abraçado a Luíza, todos contemplavam o pôr-do-sol, olhando com esperança o horizonte do nosso futuro...
Luta
Acaba de raiar a diáfana aurora, nestes doces céus paulistanos. Desperto cheio de ânimo para ir à luta. Novo emprego, novos ares, novas esperanças, nova vida... Novo filho!!!!

Num ritmo frenético, pulo da cama antes de Luíza, acordo-a aos solavancos e sigo para o quarto de Luca. Abro a porta e vejo a penumbra e o ambiente calmo e silencioso. Acendo a luz amarelada e digo:

- Acorda filhão, que o sol já nasceu e inicia-se um belo dia em nossas vidas.

Novamente recebo murmúrios desanimados de sono. Mas consigo, aos poucos, contagiar a casa toda. Preparo o café-da-manhã para todos e logo a seguir procuro no armário a minha melhor roupa, para mostrar uma boa aparência aos empregadores.

Saio de casa antes de todos, Luíza nem tinha vestido o uniforme de Luca para levá-lo à escola. A rua demonstra-se totalmente leve, cálida e alegre, os pássaros cantam mais alto, as flores desabrocham mais coloridas e fragrantes, o sol brilha mais forte. Meu entusiasmo contagia a natureza, o sorriso estica minha face, vou arrumar um currículo e buscar trabalho. Hoje é o meu dia!!!
Currículo
Ensino Médio Incompleto

3 Anos de experiência em um almoxarifado

Muita correria, consegui fazer muitas cópias do meu currículo. Além disso, marquei uma entrevista de emprego para o meio-dia de hoje, ou seja, daqui a duas horas. Agora... Imagina a fila de espera. A vaga é para carregador de caminhão, estou muito confiante. Não obstante a demora, não perco meu entusiasmo, tudo vai correr bem.

- Alexi Fonseca!!

Chegou minha vez.

Bom dia!! Sou Alexi, tenho 20 anos, quer...

- Seu currículo, por favor.

- Claro!! Aqui está!!

- Próximo!!!

- Mas por quê??!!! O senhor mal me entrevistou!

- Você não tem ensino médio completo... Próximo!!!


Mas que pancada na cabeça!!! Que ingrato. Eu tenho experiência. E.... Para quê eu necessito do estudo, para encher de caixas um caminhão??? Bom, sem desânimo. Já devem ser duas horas, ainda não comi nada, onde deve ter uma barraca de cachorro-quente?

Segunda Entrevista


Outro dia já se vai esvaindo-se, ontem só consegui aquela entrevista, porém marquei uma para hoje, precisamente às cinco horas. Repositor de estoque, salário razoável, boas condições de trabalho, um emprego até que legal. Outra vez muita espera, mas chega a minha vez :

Alexi Fonseca!!!

- Boa tarde! Como vai o senhor?

- Currículo, por favor.

- Sinto muito. Mas com esse nível de escolaridade, você não poderá ser admitido. Tenha uma boa tarde. Próximo!!!

Nível de quê?? Foi tão rápido que eu nem entendi. Isso que dá não ter ouvido mamãe, que Deus a tenha, quando ela me mandava estudar...


Anos de Escola; Luíza

4 anos antes

Ares da adolescência, nenhuma responsabilidade ou obrigação. Tenho desesseis anos e só quero curtir. Mesmo tendo levado uma suspensão de uma semana ontem, por ter quebrado a janela a pedradas, vim para escola hoje, só de pirraça.

Eu sempre fui endemoniado, se tiver algum recorde de advertências da coordenadora, com certeza já o quebrei. Não há nada que eu não destruí, tomadas, vidros, carteiras, ventiladores e ultimamente até olhos. Perdi as contas de quantas aulas eu já matei, aliás, se for para contar, o melhor é contar a quantas aulas eu assisti. E eu garanto, não vão encher-se duas mãos.

Porém, esse foi um dia especial, pois conheci o amor da minha vida. Até entrei na suja e maltratada sala de aula.

Estava sentado sobre um muro, conversando inutilidades com amigos, quando a vi: passando com seu ar augusto, seus cabelos castanhos, esvoaçados pelo vento, a altivez comparada a de uma rainha. Aquele momento foi um verdadeiro divisor de águas na minha vida; mudou minha personalidade, meu caráter, minhas amizades e meu destino. Não andaria com as más companhias de outrora, renunciaria aos colegas traficantes, que ofereciam dinheiro fácil repassando a droga, renunciaria aos batedores de carteira, que andavam pelo centro de São Paulo procurando alguém desatento, absorto em suas preocupações. Confesso que saíra muitas vezes ‘‘à caça’’com eles e, fortuitamente, assaltara alguma desamparada velhinha, em busca de alguns trocados.

Realmente, eu já assaltara! Todavia, todos os meus atos passados desmoronaram quando nossos olhares cruzaram-se. A magia de seus cristalinos olhos verdes enfeitiçou-me pela primeira vez. O tempo esfacelara-se, as pessoas sumiram-se, era como se tudo à minha volta resumisse-se nela, na sua beleza intocada, na sua aura celestial.

Como um bêbado, pus-me a seguir seu aroma de jasmim, alheio a tudo, incomunicável, contemplativo, apaixonado. Ela entrou na sala que devia ser a minha, fui junto, mas não tive a audácia de aproximar-me; delicada como uma boneca, sentou-se na primeira carteira, eu tropecei e caí em uma das últimas.

Reconheci o professor que entrara na sala, lecionava Biologia. Não o identifiquei por ser um fã assíduo da sua aula, mas porque lhe ameaçara no ano passado para que ele não me reprovasse. Ela mantinha a cabeça erguida, com um semblante de interesse, totalmente envolvida à aula. Eu fixava o olhar nela, como se a um pequeno descuido meu, ela desaparecesse para sempre.

Em meio à contemplação, captei alguns pequenos pedaços da voz do professor. Este falava em algo parecido com mitose divisão celular, e algumas outras palavras que pareciam estar em inglês, nunca vi professor ensinar em outra língua, nem poderia ver.

O tempo voava, os alunos conversavam e inquietavam-se, voltavam a tagarelar e emudeciam outra vez; os professores alternavam-se e as aulas seguiam-se, no entanto nada disso importava-me senão sua pele alva, sua voz melodiosa, seus lábios rubros, seus olhos verdes que lembravam o mar.

Os anjos cantavam felizes adágios em minha cabeça, porém esta inércia foi abruptamente interrompida pelo agudo soar do sinal, todos corriam para fora da sala. Aguardei-a arrumar seus livros, apenas para ela passar ao meu lado e eu sentir o seu doce perfume bucólico.
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Vi-a andar por um corredor mal iluminado, que levava à recepção da escola. Carregava um livro em suas mãos, não suportei mais aquela paixão avassaladora; furtivamente, aproximei-me segurei levemente seu delicado braço, mergulhei em seus olhos, e senti a ternura do toque de seus lábios. Ela inicialmente ofereceu alguma resistência, porém entregou-se à magia do momento, cedeu à paixão intensa e sincera do beijo. Em êxtase, minhas pernas tremeram, meus olhos encheram-se de água... O nosso amor fora selado por aquele beijo, fadado às asas da eternidade, com uma força destruidora, incontrolável... Enfim, Amor!

A partir daí, tudo aconteceu muito rapidamente, víamo-nos com uma freqüência inacreditável. Nas curtas horas de separação, nossos pensamentos eram suprimidos pela angústia da saudade, que apertava o coração e transformava os segundos em um tempo infindável. A minha vida e a de Luíza pararam, estagnaram-se, voltaram-se para o gozo de um único sentimento, o maior de toda a vida, capaz de terminar guerras, mudar as mais austeras personalidades, fazer desabrochar a flor da felicidade nos corações antes abandonados e infrutíferos.

Nas horas em que estávamos juntos, praticávamos todas as carícias suprimidas quando afastados. Beijávamo-nos loucamente, tentando eternizar o tempo que agora corria feito louco. Nossa paixão não conheceu limites, transpôs as fronteiras entre o claro e o escuro, o céu e o mar, a lua e o sol. Insano, doentio, irreprimível, desvairado, alucinado, esses foram os nossos modos de desfrutar da doce psicose de amar.

O incontrolável ardor, alheio à realidade, aos deveres, ao presente e ao futuro, durou alguns meses. Até que os sinais que definitivamente mudariam o nosso rumo na estrada da vida revelaram-se devastadores. E como um furacão que tudo arrasta, tragou-nos de volta para a ríspida verdade da existência, tirou-nos do aconchego fantasioso do mundo perfeito que habitávamos.

Sinais
Indisposição, enjôo, vômito, esses sintomas preocuparam os pais de Luíza, que a arrastaram, contrariada, ao hospital. O diagnóstico do médico foi corroborado pelo exame. Gravidez!! Seus pais enlouqueceram: a filha única, criada com tanto carinho e esmero, grávida aos 15 anos. Luíza contou-lhes que o pai era Alexi, um aluno da mesma sala que ela, pobre, por quem se apaixonara. Contudo, eles ignoraram os sentimentos da moça, angustiavam-se apenas pela situação de Luíza, uma jovem esforçada, sonhadora, que via nos estudos uma forma de ascender na vida e proporcionar maior conforto para sua família.

Agora, viam as aspirações da filha destruídas, sua vida fadada a um bebê, uma criança inexperiente cuidando de um bebê, sua adolescência desmoronada, um casamento com um suburbano irresponsável que também não tinha de onde provir o sustento da esposa e do filho.

Luíza, ao contrário deles, estava alegre e radiante, a despeito de seus sonhos. Correra à minha casa para me contar, dividir sua imensa felicidade. Subitamente, senti meu corpo ser percorrido de ponta a ponta por uma sensação de júbilo indescritível, meus olhos transbordavam-se em lágrimas de enternecimento. Corri até ela, tomei-a em meus braços e beijei-a como que em agradecimento pelo filho, que vinha para selar nosso amor, para estreitar à eternidade os laços inquebrantáveis que nos uniam.
Luca
Casamo-nos e contra a vontade dos pais de Luíza, ela foi morar comigo e com minha mãe, Maria Lúcia. Meu pai Antônio Fonseca divorciara-se dela há muito tempo e fora morar com outra. Maria Lúcia mantinha a casa com a pequena pensão que recebia e com esporádicos trabalhos como costureira. Dessa forma, Luíza, grávida, tornar-se-ia outra despesa para casa, de modo que precisei sair da escola para trabalhar no almoxarifado de uma fábrica.

Por causa dos ordenados reduzidos, empenhava-me no emprego, cumpria horas-extras e fazia uns ‘‘bicos’’, para juntar algum dinheiro a mais no fim do mês, todo ele poupado para os posteriores gastos com o bebê. Luíza até que tentara ir à escola, porém desistira, por causa de escárnios, chacotas e de seu frágil estado de saúde, que exigia cada vez mais repouso, à medida que seus enjôos intensificavam-se.

Assim, o tempo foi passando, Luca nascera, e trouxera com ele uma responsabilidade, que apesar de imaginável, agora era concreta, dura, irrevogável. Nós, como pais adolescentes, fomos obrigados a amadurecer, encarar os fatos, responder pelos própios erros, alimentar uma frágil criança, ninada por uma mãe, que desesperada, teve de ser auxiliada pela sogra para dar banhos em Luca.
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A vida de Alexi passou a ser realmente árdua, sofrida e desgastante. Ele acordava cedo e trabalhava praticamente a semana inteira, descansado sábados e domingos alternados. Com muito suor, sustentou a casa e sua família. Esforçava-se para garantir uma boa condição de vida para eles, matriculou Luca em uma escolinha particular, comprava remédios para a mãe doente e presenteava sua mulher com rosas, todos meses.

A vida conjugal e suas dificuldades uniram mais o casal, os problemas passados despertavam e renovavam a paixão, as indispensáveis brigas, ou melhor, simples desentendimentos, tornavam cada reconciliação mais prazerosa e amorosa.

Os dois ficaram inseparáveis, como se desaprendessem a viver sós; ambos tomavam por suas as dores do outro, as alegrias de um refletiam-se no sorriso do outro, as lágrimas eram compartilhadas e enxugadas, o amor prevalece, reconforta e se fortalece nas horas de aperto.

Fim da digressão

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Busca por Emprego


Já faz uma semana que procuro emprego e até agora nada. Tentei inúmeras entrevistas e enfrentei infindáveis filas, na espera por uma vaga. O que encontro é um sucessível e interminável eco de fracassos. A maior parte deles culpa da minha falta de escolaridade, começo a desanimar, prevendo um futuro negro para minha família se a situação não mudar depressa. As despesas e o seguro durariam alguns curtos meses e quando findo esse magro dinheiro...

Volto para casa à noite, o crepúsculo violáceo, se assoma nos céus que cobrem São Paulo. Dentro desse apertado ônibus, observo rostos desconhecidos, cansados após um longo dia de trabalho, sorte deles! Uma brisa fria entra pela janela aberta e alivia o calor. Do lado de fora, passam imagens, borrões indefinidos de cores que se misturam eternamente, de acordo com a velocidade do ônibus.

Recosto minha cabeça ao vidro, deixo-me levar pela fadiga, lentamente adormeço...

Um sonho, uma visão, uma aflição


A névoa cobre a cidade nesse dia frio, suas brumas cintilam tocadas pelas adejantes luzes da aurora. Sente-se levemente a garoa bater na pele e suas gotículas brilham e dançam acompanhando o vento. Acabei de despertar, pego o leite na soleira e rapidamente entro em casa, pois o frio já me arrepiava a espinha.

Ao chegar à cozinha, largo a leiteira na mesa e chamo Luca para comer. Luíza prepara no forno torradas, feitas do pão muitas vezes amanhecido. Sua barriga de seis meses está grande e redonda, carrega uma vida que em breve me chamará de papai e pedirá doces.

Quando Luca senta-se à mesa, acompanho-o e sirvo-me de um pouco de café quente, ao encher a xícara, sinto o tépido cheiro da cafeína e vapor tocando de leve o meu rosto. O ambiente era cálido e acolhedor, típico dos dias frios.

Luíza serve à mesa uma torrada para cada um com um último resquício de manteiga.

- Alexi, nossa despensa está vazia, não tenho mais nada para preparar.

Calado, como o meu pequeno pedaço. E, como uma lança cravada no orgulho, no coração, ouço as melancólicas palavras de Luca:

- Papai, ‘‘tô’’ com fome... Papai, ‘‘tô’’ com fome... Papai, ‘‘tô’’ com fome...

Verdade assustadora


Desperto subitamente, com uma angústia presa no peito, meu coração dispara, minhas mãos, gélidas, suam. Chega o meu ponto, desço do ônibus e minha inércia era tamanha que nem reparo na chuva torrencial que caía ferozmente. Meus pés chafurdam nas imundas águas, tropegamente, sigo em direção ao lar.

No entanto, um desespero destrói meus pensamentos. Deparado ao sonho, isto é, pesadelo, sou invadido por um sentimento de impotência, de frustração, de medo realmente. Receio não poder alimentar a família, ser incapaz de cuidar da casa, permitir que a necessidade assole minha vida. O orgulho, que sempre tive por manter esposa e filho sem quaisquer necessidades ou carências, agora definha, encolhe-se como uma criança sozinha, sentada com as mãos entre os joelhos em um quarto escuro, clamando pela mãe.

Escorre a chuva pelo meu corpo, fustiga minha face, escorre e leva consigo minha tranqüilidade. Com um imenso torpor e totalmente inebriado pelas possíveis conjunturas vindouras, percorro as ermas ruas e chego a casa. Luíza preocupada enrola-me em uma toalha, o algodão macio e quente ao tocar a pele. Assim, seco e totalmente acolhido e aconchegado vou dormir. Em busca de conforto, pouso a cabeça sobre os seios de minha mulher e como na infância, volto a ter medo do escuro, dos pesadelos.

Situação econômica

Depois daquele sonho que tive, enquanto cabeceava de cansaço no duro assento do ônibus, tomei a situação de um modo diferente. Já sem aquela animação ufanista de outrora, vejo agora com aflição, dor e ansiedade. Percebo a realidade, por mais cruel que ela possa ser. Necessito de um emprego o quanto antes, pois daqui a alguns meses o dinheiro guardado no banco terá acabado e o sofrimento irá pairar sobre nossas cabeças.

Saio às avenidas sabendo da dificuldade de se arranjar um emprego. Não só para mim, pois embora o país viva um momento de recuperação, a instabilidade e a fraqueza não permitiram que o mercado usufruísse das melhoras. Dessa forma, quem leva a pior são as pessoas que estão desempregadas, que ficam sem nenhuma garantia ou amparo.

Mesmo assim, não devo desistir e reúno forças para encarar mais um dia incerto. Gastarei todas as minhas energias andando até anoitecer, buscando uma vaga seja ela do que for. Devo ser persistente e inflexível.
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Compreendeste leitor porque chamo meu comum personagem de herói? Não o construído no computador, com imagens 3d; ou o inventado pelas férteis mentes dos ficcionistas. Mas o natural, a alegoria do cidadão brasileiro, o homem calejado, sofrido, batalhador, tenaz.

A pura verdade de um povo, que antes da alvorada despertar os céus, já está sonolento, cansado, martirizado, indo para o trabalho. Homens e mulheres inabaláveis, obstinados, que insistententemente vão em busca de condições melhores de vida. Não ambicionam enriquecer, empilhar inutilmente fortunas, ostentar bens; tencionam apenas dar um presente para os filhos no natal ou no aniversário, ver sua felicidade; pagar escolas capazes de proporcionar um ensino qualificado. Agradar a terna mulher, que espera aflita a volta do marido, enquanto este se arrisca nas perigosas e violentas ruas.

Assim é o meu herói, ao menos até este momento. Pois à medida que a despensa vai esvaziando-se, a sua casa fica cada vez mais pusilânime, o ambiente cada vez mais pesado, mais acusador. Embora Luíza o apóie e diga que estará sempre ao seu lado, Alexi sente frustrado o seu objetivo como pai de família. Chegando lentamente ao desespero, à loucura, causados pelo medo e pela dor, pela corrosão inexorável do martírio, assombrando sua alma.
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Cinco Meses Depois

Visão de Luíza
Termino de preparar o almoço, daqui a pouco Alexi deverá estar em casa, pois hoje não saiu para entregar currículos, teve de ir renegociar algumas dívidas. O dinheiro que tínhamos vai acabando-se antes do que esperávamos, devido a contas, compras e o aluguel. Há alguns meses que não o pagamos, para termos luz e água em casa. Nosso telefone foi cortado e a escola de Luca já tem atrasos acumulados. No início da gravidez consegui ajudá-lo um pouco com as despesas da casa costurando e fazendo doces para vender. Porém, com sete meses não consigo mais, visto que os enjôos tornaram-se freqüentes e meu marido pede tenazmente que eu não me esforce.

As consultas periódicas de pré-natal ficaram escassas, mas tenho alguma experiência, afinal já tive um filho, o Luca, amor de minha vida, razão da minha existência, o fato mais feliz que aconteceu comigo. Necessitei abandonar família, escola e sonhos por sua causa, todavia não me arrependo de forma alguma. Já que seus passos desequilibrados, sua risada, suas primeiras palavras, o brilho de seus olhos, preencheram por completo qualquer espaço que ocasionalmente possa ter ficado no meu peito.

Quanto a Alexi, reconheço totalmente a importância da sua peregrinação, isso porque o amor aumenta nos momentos mais difíceis. Vejo a determinação estampada em sua face e, muitas vezes, à noite, sinto-o aconchegar-se em meu peito como um bebê à procura de carinho. Animo-lhe com todas as minhas forças, não o desamparo um só minuto.

No entanto, reparei como às vezes ele inquieta-se em casa, entrega-se, como, timidamente, baixa o olhar e não me olha nos olhos; como anda exânime e indolente pela casa, com um ar vago e sem a mesma força inquebrantável de antes.

Nascimento de Gabi

Hoje minha filha nasceu. Em uma manhã exuberante, levei Luísa às pressas a um hospital, ela já reclamava de muitas dores e pediu que eu a levasse para a maternidade.

Chegando lá, foi direto para a sala de operação e senti novamente o martírio da espera, que parece intermitente, nessas horas o tempo pára, inúmeros pensamentos, muitos incoerentes, passam rapidamente pela cabeça. Imaginava se não haveria nenhuma complicação no parto, se o bebê nasceria perfeito e com saúde.

Assim, pus-me a andar em torno de uma mesinha de mogno, roendo as unhas, eu olhava para a imaculada e alvíssima sala de espera, que como em todos os hospitais, tem um aspecto frio e estranho. Sentei-me no sofá, levantei e tornei a sentar-me.

Impaciente, fui à janela observar a passagem dos carros, que dessa altura ficavam tão pequenos e indiferenciáveis como as pessoas, que andavam de um lado para o outro, mas àquela altura eram iguais, tanto pela cor, quanto pelas roupas, riqueza, aparência e idéias. Enfim, a semelhança é conquistada pela distância, pois conhecer as pessoas de perto revela o quão mesquinhas e díspares elas são.

Nesse momento de intensas divagações, de um tom filosófico quase inútil, ouvi um som, que hoje, da cadeia, sinto muitas saudades. O estridente e agudo choro de Gabi inundou a sala de espera com toda a sua jovialidade, saúde e força.

Aguçou-se em mim o desejo de contemplar a sua face, a face de minha filha. Alguns instantes depois, uma enfermeira apareceu e chamou-me para ver o bebê. Segui o caminho que ela me apontou e cheguei ao lugar onde todos os pais ficam parecendo bobos, babando por seus filhos.

Pelo vidro a enfermeira mostrou-me Gabi, tinha os lindos olhos verdes da mãe, sua aparência bondosa e alegre. Mechia as gorduchas perninhas no ar e juro que, quando seu olhar cruzou-se ao meu, soltou um sorriso e a sua carinha redonda e rechonchuda ficou ainda mais angelical.


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Quando Luísa voltou para casa com o bebê em seus braços, restaurou a alegria de uma casa que andava com ares cada vez mais soturnos. Todos acordavam cedo, aos choros de Gabi, e eu saía para procurar emprego com o ânimo revitalizado.

No entanto, com o passar do tempo, tudo voltou a ser como antes. As crescentes dívidas sufocavam-me, tiravam o brilho dos meus olhos. Durante todo esse tempo consegui empregos efêmeros, que ajudaram, por algum tempo, a manter as despesas. Porém, desanimei de uma vez por todas quando perdi a vaga de lixeiro por causa da minha falta de estudo. Até pensei em terminar o ensino médio, mas nesse tempo quem sustentaria a casa?

Saí da entrevista e vi-me na rua, sem emprego, quase sem dinheiro, sem perspectivas e cheio de contas a pagar. Caminhei pelas lúgubres ruas da cidade de São Paulo, seu aspecto parecia-me mais acinzentado, seu chão mais sujo, seu ar mais contaminado e seu barulho mais irritante.

Largado à solitude, cruzei inúmeras avenidas, passei por imensos e incólumes edifícios, vi pessoas com a expressão desanimada e outras felizes. Vi ricos, pobres, mendigos. Os abastados passavam indiferentes a tudo, sem qualquer comiseração pelo sujo indigente, que sofre abandonado pela sociedade. Estes tétricos seres definham em sua miséria, somente esperando pela morte, tendo em vista que não ambicionavam mais nada da vida, pois haviam esquecido o que é a felicidade. Os pobres eram os que tinham as feições cansadas, que mencionei anteriormente, pois existiam para isso: cansarem-se para satisfazer a mais-valia dos ricos.

Com toda essa confusão de idéias na cabeça, entrei quase inconscientemente em um bar, sentei-me a uma mesa e ouvi o chamado que mudou a minha vida e talvez, hoje não estaria preso se não entrasse naquele lúgubre lugar.
Velhas ‘’Amizades’’
- Alexi!!!

- Alexi!!!!! Não está me reconhecendo? O João, da escola.

- Cara, quanto tempo. Como você tá? Fiquei sabendo que casou, teve um filho.

O João era um dos meus antigos parceiros de assalto, saímos muitas vezes a fim de nos divertimos sem nenhuma responsabilidade e com muita bebida.

- Casei sim e tive dois filhos, a menor nasceu há um mês.

- Pô!! Parabéns cara!! Deve estar muito feliz.

- Nem tanto.

- Que foi?

- Tô sem grana, desempregado há quase um ano.

- A coisa tá feia?

- Tá

- Se você tivé afim. Eu tenho um daqueles ‘‘serviçinhos’’ de antigamente pra a gente fazer.



- Meu, nem dá. Tenho família agora.

- Pode crê.

- Eu precisava mesmo é de uma grana emprestada. Uns três mil para quitar umas dívidas aí.

- Beleza, eu conheço o cara certo pra te emprestar o dinheiro. Um parceiro meu que é ‘‘responsa’’.

- Não é furada?

- Pela nossa velha amizade, você acha que eu ia te meter numa idéia errada. Fica frio.

- Pra quando você consegue o dinheiro?

- Amanhã mesmo.

- Perfeito! Nem sei como te agradecer.

- Fica me ‘‘deveno’’ uma.

Erro
Todo mundo sabe que dinheiro não cai do céu e pessoas que o emprestam cobram muito caro depois. Exceto eu. Desesperado, resolvi aceitar o empréstimo sem medir as conseqüências, sem pensar de quem eu tinha recebido o dinheiro e como pagaria a quantia depois.

No momento, só pensei em ir pagar o aluguel, atrasado há muito tempo, a escola de Luca, contas da casa e comprar umas roupinhas novas para Gabi.

Quando Luísa soube, ficou imediatamente preocupada, mas eu a consolei, dizendo que tinha reencontrado um amigo e que não iria ter problema algum, logo arranjaria um emprego e quitaria a dívida.

Doce ilusão. Passadas duas semanas, recebi a primeira cobrança na porta da minha casa. João veio alertar-me, dizer que o agiota, de quem ele tinha feito o empréstimo, queria ser pago em duas semanas, ao menos uma parte.

Corri a diversos bancos para pedir outros empréstimos, no entanto, eu estava como inadimplente em todos eles. Intensifiquei a minha busca por emprego, candidatando-me às mais baixas ocupações, esforcei-me ao máximo e consegui apenas um trabalho informal e temporário de boneco de anúncio. Vestia aqueles macacões gigantes de animaizinhos e saía pela loja levando chutes de crianças.

Ganhava cinqüenta reais por dia, em duas semanas paguei apenas quinhentos reais, então fui demitido.

E retornei a entregar currículos.

Em casa a situação tinha ficado um pouco melhor. A mulher, de quem eu loco o imóvel, recebeu alguns meses de aluguel atrasado e parou de me incomodar. As constantes ligações da diretora da escola de Luca cessaram e a despensa ficou mais cheia e diversa.

Porém, convivo com as ameaças do agiota, que vive me atormentando, atrás do resto do seu dinheiro.
Ida à praça

Desempregado, cheguei ao fim de mais outra semana, caminhei exaustivamente pelas ruas paulistanas, mas consegui apenas marcar algumas entrevistas.

Para aliviar o clima de tensão, chamei Luíza para sairmos com as crianças. Não fazia calor, a temperatura estava amena e a rua, atraente. O sol escondia-se atrás das alvas nuvens que se avolumavam no azulado céu outonal. Portanto, não havia desculpa, a Gabi não teria nenhum problema com o calor.

Luíza aceitou, pois estava se cansando de ficar em casa, fazendo suas tarefas rotineiras. Fomos a uma pequena praça perto de casa, Gabi estava no carrinho que fora de Luca e animava-se muito com o ambiente novo. Olhava as grandes e altivas árvores que cercavam o lugar e sob elas caia uma serena sobra, que deixava doce o ar da praça.

Minha mulher tirou-a do carrinho e segurou-a no colo. Gabi gesticulava os pequenos braços e balbuciava sons incompreensíveis, tentando falar. O pequeno bebê crescera e estava com cinco meses, tinha uma tiara rosa na cabeça, que segurava seus lindos cachos dourados.

Luca brincava no balanço e eu sentei-me em um banco observando-os. Ficava um pouco distante de onde eles estavam, coloquei as mãos sob o queixo, como se segurasse a cabeça e mantive-me lá inerte, raciocinando.

Quando, subitamente, um sujeito que eu nunca tinha visto antes se sentou ao meu lado e puxou conversa:

- Lindo dia, não?

- Com certeza, respondi.

- Que belas crianças, são seus filhos?

- São sim, interpelei rispidamente.

- Algum deles já se machucou seriamente alguma vez?

- Quem é você?

Levantando-se e indo embora o sujeito me disse:

- Seria uma pena se crianças tão bonitas se machucassem por causa de uma dívida do pai. Você não acha?

E foi-se.


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Permaneci o resto do dia absorto e ensimesmado. Porém, quando retornamos para casa, Luísa questionou-me porque eu estava tão quieto.

- Apenas estou cansado, meu amor. Respondi.

- Preciso dormir.

E assim terminou-se o dia.

À beira da loucura

No outro dia, comi pouco, mal falei com Luísa e saí rapidamente para não me atrasar na entrevista. Passada a espera, entrei na sala e obtive a mesma resposta, que tantas outras vezes recebi.

- Você não está apto para a vaga, pois não completou o Ensino Médio.

Descontrolei-me, levantei a voz, agarrei nos ombros da secretária e gritei:

- Não agüento mais essa maldita história de ‘‘não completou o ensino médio’’! Escute-me, tenho bocas a sustentar e necessito urgentemente do emprego!

- Não posso fazer nada senhor, apenas cumpro ordens.

- Mentira, vocês guardam vagas para parentes e amigos! Pensam que eu não sei disso! Enganam as pessoas colocando placas de ‘‘admite-se’’, mas as vagas já estam todas previamente completadas.

- Senhor! Você está me machucando! Vou ser obrigada a chamar a segurança.

- Pode deixar que eu saio sozinho, não vou me rebaixar e trabalhar em e uma empresa que usa deste sistema sujo para contratar as pessoas.

E com lágrimas nos olhos, saí.
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Esfriava, o sol ia-se embora e apenas o seu brilho aparecia detrás das montanhas. As luzes brigavam e perdiam o lugar para as trevas. O calor vespertino abandonava os ares paulistanos. Caminhava para casa, quando ouvi João chamar-me.

- Senta aqui Alexi, precisamos conversar.

Ao vê-lo, senti o sangue pulsar nas minhas veias e subir-me à cabeça. Parti para cima dele, mas ele afastou-se e disse que tinha algo serio para me dizer.

- Fala logo, seu canalha!

- Canalha, arrumei a grana pra você e é assim que me trata.

- O cara ameaçou a minha família, seu imbecil!

- Claro se você não pagou ele.

- Vou te matar.

- Calma, calma. Se você não está conseguindo a grana... Eu tenho um serviçinho fácil aí pra você fazer. É moleza e vai dar muito dinheiro.

- Fala o que é.

- Uns camaradas meus estão, faz tempo, de olho em um Banco. Me disseram que tem só um segurança.

- A arma eu posso te arrumar.

- E aí? Topa?
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Meu herói, totalmente intimidado pela ameaça do agiota e temendo pela segurança de sua família, aceitou o ‘‘serviçinho’’ e os fatos subseqüentes já foram relatados: ele tenta o assalto, mas é preso.

Dessa forma, termino de narrar a sua história. Mas não acabarei o conto sem antes levantar uma outra questão: seu ato foi correto? É culpável assaltar para alimentar sua casa, defender seu filho.

Tentando responder estes questionamentos, volto à cela, para acompanhar o sofrimento de Alexi antes do julgamento e o desfecho, com a sua pena.
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Retorno à cela


Foi exatamente assim que aconteceu. Desvairado, eu roubei a um Banco para tentar quitar uma dívida. E agora estou aqui. Trancafiado neste cubículo, longe da minha família, sem poder acompanhar o crescimento de Gabi, seus passinhos, suas palavrinhas.

Realmente, é do que eu mais sinto falta, da Luíza e dos meus filhos. Preocupo-me com os seus destinos, sem mim por perto. Imagino que até deva ser melhor para eles não ter um pai fracassado e assaltante por perto. Pois, agora estão protegidos na casa dos pais de Luíza, que liquidaram minha dívida para poderem viver em paz.

Sinto falta também da liberdade. De andar na rua recebendo a brisa em meu rosto, que alivia o calor e enche a vida de esperança. Ver pessoas, sentir a benevolência do sol, a austeridade da lua, admirar estrelas! Que saudade de poder deitar na relva macia e verdejante e devanear intermitentemente sem nenhum problema. Existir sem pensar em nada e, por fim, contemplar as estrelas, aqueles infinitos pontos de claridade que permeiam a escuridão eterna do universo. Elas são como pontos de bondade entre a indolência áspera do mundo; promessa de justiça e igualdade entre um mar de pobres desesperados; a força capaz de reerguer os fracos e oprimidos.

Não agüento mais tanta nostalgia. Porém a um preso resta apenas o maldito saudosismo. Assim, relembrando os acontecimentos bons do passado, vou esperando pelo meu julgamento, que acontecerá daqui a alguns dias.

Encosto-me na fria parede da minha alcova e, triste, observo pela ‘‘janelinha’’ a vida externa, as ruas cheias de gente e de carros.

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Ao rever a minha história, mudo a conclusão inicial que dei. Culpei erroneamente a sociedade pelo meu crime. É a atitude normal do ser humano, pensar que a responsabilidade sempre é de outrem e nunca sua.

No entanto, quando eu estava livre, com dívidas e temeroso pelas ameaças, senti o peso da escolha, do livre-arbítrio e angustiei-me. A dúvida e a pressão corroeram a minha moral e os meus valores. Fiquei entregue à loucura, ao desespero e ao medo. Não soube agir racionalmente.

Foi culpa apenas da minha fraqueza diante da decisão mais difícil e mais óbvia da minha vida. Falha minha, apenas minha...


O julgamento
Levaram-me cedo da cela. Deram-me roupas trazidas por Luíza e encaminharam-me, algemado, para o apertado carro de polícia que me levaria ao prédio onde seria julgado pelo meu crime. O automóvel seguiu por conhecidas ruas, revi lugares e pessoas e pensei em como a vida continuara, sem mim. Em como eu era descartável e inútil, salvo a minha família, ninguém chorara por mim, nem sentira a minha falta.

Ao chegar à fachada do edifício, fui levado por dois policiais até a sala do julgamento. Percorri corredores frios e mal iluminados, retardando os passos, como que para adiar a sentença, que eu já previa. Na porta, hesitei um pouco e em seguida entrei, a sala não era tão grande, mas deviam estar cerca de trinta pessoas lá dentro.

Andando para o meu lugar, percebi o peso da atmosfera do lugar. O ar estava pesado e cortante, mesmo com todas as janelas abertas, o oxigênio não chegava aos meus pulmões. Deparei-me com os rostos desconhecidos dos jurados, reparei que suas feições me acusavam, o mesmo acontecia com todos os olhares que vi.

Aspirei o duro ar, com um leve cheiro de mogno e procurei por Luísa. Encontrei-a sentada em uma das cadeiras com Luca ao seu lado e ao vê-los acenar para mim, confesso que tive que segurar as lágrimas e esforcei-me para dar um sorrisinho.



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Serei bem enxuto e conciso nessa parte, estimado leitor. Deste modo suprimirei todos os detalhes maçantes e inúteis do julgamento e concentrar-me-ei (que estranha essa mesóclise), mudarei: e me concentrarei nas falas do promotor e do advogado de defesa. Emitindo apenas a idéia principal de cada pronunciamento.

Promotor


Tomou a fala o homem que me acusaria. Foi chamado pelo Juiz da seção e dirigiu-se à frente da sala para tomar a palavra.

- Temos hoje um caso de assalto, com reféns, a um banco, do qual Alexi Fonseca será julgado. Porem, o fato representa bem mais do isso, jurados, pois demonstra a fraqueza de um pai de família que apelou para o roubo para sustentar a sua família. O que exemplifica a falta de caráter do réu, que não teve a decência de lutar contra a dificuldade financeira.

Viu-se desempregado e, sofregamente, pôs-se a buscar emprego, logo enfastiado da busca, retomou os maus caminhos que sempre estiveram presente na sua vida, fez um empréstimo que sabia não ter como pagar e ficou em dívida com um agiota. À primeira proposta que o fez o agiota para assaltar um Banco, o réu não pensou duas vezes antes de aceitar, pois era a saída mais fácil para a sua situação. Já era familiarizado com o furto, visto que crescera em um ambiente propício para o desenvolvimento de maus homens, cercado de ladrões, traficantes e seqüestradores. Então, foi de ao meio-dia à frente do Banco e esperou até que o mesmo tivesse menos pessoas dentro para entrar e tomar a quantia de três mil reais. Inicialmente, aproximou-se do segurança e rendeu-o com uma arma, que certamente dispararia se tivesse balas, e depois, dirigiu-se à mulher que cuidava do caixa. Friamente, ele ameaçou a todo o momento vários reféns, entre os quais, havia mulheres uma idosa e uma criança. E sem se importar com isso, tentava apressar a mulher para que ela lhe entregasse rapidamente o dinheiro. Mas a polícia rapidamente chegou ao lugar e, vendo-se cercado e sem possibilidades de fuga, o réu se rendeu, certamente para diminuir a sua pena. Alexi é um típico exemplo de mau-caráter da nossa sociedade, uma pessoa que não soube lidar com as dificuldades da vida e apresenta um perigo para a cidade.

Por isso, deve ser preso para limpar as ruas da sujeira, de um indivíduo que tem a crueldade de apontar uma arma para uma criança e para uma velha! Jurados pensem na segurança de seus avós e de seus filhos antes de pronunciar a sua sentença, imaginem os seus familiares cruzando com este ser todos os dias, pensem, pensem.


Exaltado, o promotor acabou a sua fala, que teve um forte efeito negativo sobre mim e sobre meu caso. Tocou no cerne da minha personalidade, interpretando-a equivocadamente e dando uma má impressão sobre mim ao júri. Resta-me que o meu advoga tenha talento suficiente para mudar essa visão.

Advogado de defesa


Foi dada a palavra ao meu advogado que iniciou perguntando-me:

- Alexi, o que você sentiu durante o assalto?

- Foi um sentimento muito ruim, a imagem dos reféns me olhando com desprezo fez com que eu me odiasse pela maldade do ato que eu estava cometendo. Já naquele momento arrependera-me profundamente do que tinha feito.

- Percebeste júri, como a personalidade de meu cliente fora mal interpretada pelo promotor. Alexi não é o animal que ele afirmou ser, nem o ladrão frio e calculista que aponta um revolver a uma idosa. Ele é um cidadão que foi testado pela vida. O destino tirara-lhe o emprego e dera-lhe uma filha. Atormentou-o ver a família amada passar necessidade, então ele esforçou-se para empregar-se andou dias a fio pelas ruas paulistas, quase suplicando por um trabalho. Sua árdua jornada mostra a paixão que sente por sua esposa e filhos. Um bom sentimento que apenas um cidadão de caráter pode demonstrar sinceramente. Seu ato foi causado por esse forte sentimento de amor, pois não agüentou ver a despensa vazia, não poder oferecer um presente ao seu filho, ou à sua mulher. O sofrimento mudo deles massacrava-lhe o orgulho, destruíra-lhe o coração e, inebriado pela tristeza, ele aceitou sem pensar o empréstimo duvidoso. Assim, ele foi deparado a um monstro criado por ele, seu filho fora ameaçado.

Então ele enlouqueceu e, como se a sanidade tivesse lhe abandonado o corpo, aceitou a proposta do agiota e foi assaltar o Banco. Porém temendo ter de machucar alguém tirou todas as balas do revólver e esperou pelo momento que o lugar estivesse mais vazio. Uma vez lá dentro, rapidamente rendeu o segurança, antes que a sua consciência voltasse e ele fosse embora. Todavia, ao ver as lágrimas das mulheres e o medo estampado na face da criança, a crua verdade foi-lhe atirada à cara e tomou-se conta da crueldade do que estava fazendo. Imaginando como era desgraçado e perverso, não pode mais sustentar seu corpo e caíra no chão, culpando-se pela sua imoralidade, pela sua vileza e desumanidade.

O roubo só foi cometido porque a atormentação tirou-lhe a capacidade de pensar. O sargento que cuidou do caso disse que Alexi não sabia como prosseguir, o que mostra o quão desconfortável meu cliente estava naquela situação. Jurados, não cometam um erro ao julgar meu cliente, ponham-se no lugar dele e perguntem-se até que ponto iriam para defender suas famílias, questionem-se se seriam capazes de roubar para manter vivo um filho, para não sofrer a perda do bem mais importante do mundo, que dinheiro nenhum consegue restituir: a felicidade que a presença do filho causa no pai.


Epílogo

Após o julgamento, seus participantes saíram da sala com diferentes pensamentos: Alexi e sua família, tristes pela condenação, seu advogado, feliz, por ter conseguido uma pena branda, o júri pensativo e o juiz, faminto, imaginava um grande lanche.

E, assim, as suas vidas continuaram. Alexi não viu o aniversário de um ano de Gabi, porém sua mulher e seus filhos não deixaram de amá-lo, as crianças oravam todos os dias, pedindo a Deus que seu papai voltasse logo. Luíza foi mantida pelos pais, e com sua ajuda conseguiu concluir seus estudos e faz faculdade de psicologia.

Assim foi e assim será. Indiferentemente. Histórias são contadas. Outras não. Heróis são cultuados. Outros não. Sonhos imaginados são vividos. Outros não. E há, ainda, os sonhos que nunca serão sequer sonhados ou vividos.

Mesmo assim, a vida persiste. Pessoas comuns persistem. Passam despercebidas. Suas histórias. Seus sonhos. Seus sacrifícios. Suas mortes. Suas vidas. Suas derrotas. Nenhuma vitória. Vitória por fim.

Vidas tristes, vidas felizes. Cruzam-se vivem, convivem e, por fim passam. O que fica são os atos, as palavras, os amores e a memória. Mas o mais importante, aquilo que realmente vale são os sentimentos, ser amado por alguém, amar outrem; alguém sentir sua falta e chorar suas lágrimas.

Assim, Alexi e sua família foram felizes. Mantiveram, mutuamente e ininterruptamente, o amor e o afeto. Não o falso, o comprado, o demonstrado exteriormente. Mas o verdadeiro, o intrínseco. O amor que supera as misérias da vida, que perpetua o motivo da existência, que dá forças, supera barreiras.

Finalmente, já que o tom filosófico chega a ser quase piegas, termino com uma metáfora que espero resumir o conto e trazer sua essência:



A vida é um rio, as pessoas são suas águas, elas nascem fracas, ínfimas, rolam sobre a terra, esbarram em pedras, em árvores; mas, se permanecerem unidas no seu inexorável caminho até o oceano, continuarão a correr, tornar-se-ão fortes e imbatíveis. Enfim, se há obstáculos, tormentas e quedas livres, em seu percurso; é importante lembrar que há também a sombra das majestosas árvores, o canto dos pássaros, a lealdade dos peixes, o brilho do sol, a fugaz alegria da lua e, por fim, as carícias da moça doce que navega em suas águas.


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