Dulce Campos Dantas a metáfora paterna Centro de Estudos Freudianos do Recife – 1980 SÚmula



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Dulce Campos Dantas
A metáfora paterna

Centro de Estudos Freudianos do Recife – 1980




SÚMULA

Através de um relato clínico acompanhando uma criança em dezesseis sessões de psicanálise resolvi apresentar a experiência em que pude avaliar a força da presença paterna na vida dos filhos, a sua função estruturante.

Os sintomas das mães das crianças são significantes a serem trabalhados como fenômenos que se processam em cadeia e que não serão esgotados.

Tomada como ponto nodal do simbólico, a palavra é o principal instrumento do trabalho psicanalítico, desprendendo o analisante do imaginário que o aprisiona.


Na experiência de psicanálise com crianças, além da palavra, utilizamos instrumentos que estão mais ao seu alcance do ponto de vista da expressão do mundo: o desenho, a pintura, a modelagem, as encenações. Essas atividades são acolhidas no seu aspecto simbólico, significantes a serem traduzidos pelo analisante para além da realidade que pareçam representar. A fala dos pais torna-se parte do discurso analítico, com toda a sua história, das experiências que a criança sabe, mas não está capaz de verbalizar.

A realidade externa é acolhida nos relatos dos analisantes como um dado secundário, suporte do imaginário apontando para o simbólico. O desejo, escondendo-se por trás das demandas, dos pedidos sempre enganosos, oculta a fenda, a falta. Encontro faltoso, desejo sempre perseguido, nunca verbalizado como tal.

Há momentos, em análise de criança, que são tênues os limites entre um ato analítico e um ato pedagógico. Experiência que foi tentada no passado por Anna Freud e que está revigorada no presente por Maud Mannoni, Françoise Dolto, Robert e Rosine Lefort, além de outros.

As ligações entre a pedagogia e a psicanálise de crianças foi advertida por Freud ao chamar a atenção para as peculiaridades da psicanálise num momento em que o sujeito ainda não se encontra estruturado, mas estruturando-se, e as influências externas decorrentes do relacionamento entre os pais importam decisivamente nos resultados da experiência analítica.




A FALA É DA MÃE

... O que o filho pede a mãe, para além da necessidade que nele se articula é uma resposta que lhe estruture a relação com a presença-ausencia da mãe, com o desejo dela. É desde desejo que ele depende na verdade, ou seja, do inconsciente da mãe. Mas disso ele nem desconfia: não sabe que ela sofreu a mesma divisão...” (5, 87).


É a mãe de Tiago que telefona, por sugestão da diretora do colégio: seu filho de seis anos não consegue desligar-se dela para entrar em sala de aula. Fica a choramingar e a chorar pelo pátio da escola, sempre em direção ao portão por onde a mãe se foi.

As preocupações faladas pela mãe: Tiago não vai conseguir estudar, não vai aprender a ler.

Eu me indago: por que essa recusa de Tiago a participar das atividades escolares, preferindo perambular e chorar? Que deseja?

Além disso: a leitura conduz a um nível mais elaborado da comunicação simbólica...

Lembro-me daquele brinquedo, do tipo esconde-esconde em que a criança procura controlar essa situação ameaçadora, desligar-se da mãe. Freud nos fala da situação prazerosa, repetitiva das crianças no fort - da. ( 2, XVIII, 17). No caso de Tiago, a repetição está conotada apenas de sofrimento.

- E que diz o pai de Tiago?


Mantém-se ausente de todas essas bobagens. É com a mãe de Tiago que a escola se entende. É apenas a sua mãe que me procura para uma orientação, uma ajuda. O pai figura apenas como pagante.

Outros sintomas referidos pela mãe: Tiago perdeu o controle da urina aos quatro anos de idade, quando já o havia conseguido. Fica como que urinando à prestação, aos poucos. Como se poderia dizer na linguagem popular: mijando-se de medo?

Medos... de desligar-se da mãe, de que alguma coisa ruim lhes aconteça. Lembrei-me das histórias e dos contos de fadas que circulam na literatura infantil. Dos contos de Grimm, João e Maria procurando assegurar-se do caminho do retorno. Chapeuzinho Vermelho: o lobo devorando, comendo, matando. Pensei também, nos medos das mães, transmitindo-se aos filhos, medos relacionados a experiências passadas ou ao drama edipiano (2), não satisfatoriamente integrados. Experiências ameaçadoras com as babás, repercutindo negativamente no emocional das crianças (2, VII, 123).
Prossigo na escuta para compreender melhor o que se passa na situação familiar de Tiago.

Tiago é primogênito e tem dois irmãos. Um de cinco e outro de dois anos. Entre esses dois últimos a mãe tivera dois abortos de gestação avançada. O caçula também foi prematuro de seis meses (a crise atual de Tiago aos seis anos), sobreviveu à custa de muitos cuidados. Foi exatamente a partir do nascimento do caçula que retornou a enurese de Tiago.

Inquietação e gagueira são outros sintomas referidos pela mãe de Tiago.

Os medos imaginários do menino encontram reforço na vida real. Inquieto em permanente expectativa. Gagueira, tropeçando aqui e acolá nas palavras. Entre os escombros... Precocemente marcado pela morte de dois irmãos, ameaçado pela morte do irmão caçula, Tiago vê-se obrigado a partilhar com os sobreviventes, os cuidados de sua mãe que, por algum tempo lhe pertencera. Dado de realidade a perturbar suas tranqüilas fantasias de exclusividade. Sua Majestade, o bebê vê-se destronado.


Por motivo da separação dos seus pais, o senhor Tiago, aos seis meses de idade, passou a ser criado pela avó, até aos doze anos quando esta morreu. Retornou à mãe, não conseguindo se integrar nos afetos maternos da mesma maneira como acontecera aos quatro irmãos – estes com muito mais segurança afetiva, os preferidos. Nunca recebeu cuidados paternos. A mãe de Tiaguinho, como era chamado o nosso analisante, voltara a estudar na universidade contrariando a vontade do pai, seu marido. Os pais do menino estavam em desacordo quanto à procura de um atendimento psicológico ou psicanalítico para o caso. Enquanto a mãe se empenhava, juntamente com a diretora do colégio, para que eu acompanhasse Tiago, seu pai discordava, aquiescendo apenas a custear o tratamento.

Tudo isso me foi dito pela mãe da criança em entrevista previamente marcada por telefone. Concordei em atender, sem a participação do pai, de quem eu receberia somente o pagamento.

Acertamos duas sessões semanais e iniciamos o trabalho analítico.

- II -


ESTRUTURAÇÃO DA SITUAÇÃO ANALÍTICA

Subjacente a essas dificuldades de Tiago relatadas por sua mãe.

... percebemos que a dificuldade da infância reside no fato de que, num curto espaço de tempo, a criança tem de assimilar os resultados de uma evolução cultural que se estende por milhares de anos, incluindo-se aí a aquisição do controle de seus instintos e a adaptação à sociedade... Muitas coisas devem ser impostas à criança...” (2, XVI, 180).

A despeito das reservas à psicanálise com crianças, Freud já se manifestara assegurando-nos resultados duradouros e advertindo-nos para adaptações que este trabalho deveria sofrer quando usado nas situações infantis.

... A psicanálise junto a crianças deve ser diferente do modo como é usada com adultos. De vez que ainda não possuem Super-ego o método da associação livre não tem muita razão de ser e a transferência (porquanto os pais reais ainda estão em evidência) desempenha papel diferente. As resistências internas contra as quais lutamos no caso dos adultos, são na sua maior parte substituídas nas crianças pelas dificuldades externas...” (2, XVI, 181).

Ao iniciar o trabalho psicanalítico, passa-me uma indagação: a entrada de outra mãe – a analista – duas não batam – a mãe de Tiago e a diretora do colégio? E agora, eu. Ou será a busca de um terceiro recalcante, que está sendo feita através de mim como ajuda para Tiago ultrapassar essa fase de ligação excessiva com a mãe? Para fazer eu com ele as leituras que tanto teme, estimulá-lo na experiência do desligamento, experimentando novos contatos através da palavra. Trabalhar os sintomas como significantes...

Pela literatura psicanalítica vemos o efeito perturbador que teve para Leonardo da Vinci o fato de haver sido privado da influência paterna até os cinco anos, entregue aos carinhos sedutores de sua mãe que talvez o tivesse como único consolo (2, XI, 119).

Pensando sobre a situação familiar, otimista, reporto-me a Freud:


... Os casos de maiores êxitos são aqueles em que as dificuldades são externas, provenientes do relacionamento entre os pais, embora tais dificuldades façam parte da situação infantil...” (2, XVI, 188).

Dado o alto nível de ansiedade de Tiago com relação a ficar sozinho comigo, permito a presença de sua mãe na sessão. Agarrado a ela fisicamente, Tiago escuta o que lhe digo: sua mãe está preocupada porque você não quer ir para o colégio e porque você vive assustado. Quem sabe, você pode falar aqui sobre o que está lhe dando medo. Você pode também desenhar, pintar, modelar e me falar das coisas que você estiver fazendo. Sua fisionomia vai se tranqüilizando quando lhe asseguro a presença da sua mãe até que ele possa dispensá-la.

Ofereço-lhe material de desenho, pintura, modelagem. Aceita a massa e começa a manipulá-la. Calado, de vez em quando me olha. – Que vê em mim? Falo com sua mãe, os possíveis receios de Tiago, dirigindo-me também a ele, em linguagem simples, clara, de modo que me faça compreender e partilhar da intrerlocução.


  • você tem medo que eu lhe tome de sua mãe...




  • você tem medo que alguém coma, devore ou mate a sua mãe e a você...

Lembrei-me das histórias de João e Maria, de Chapeuzinho Vermelho e de tantas outras relacionadas ao drama edipiano (1).


Do pai comendo a mãe, tomando-a para si em possível complô com os irmãozinhos.
Tiago me olha, atento ao que digo, recusa-se a desenhar e a pintar. Não fala.
Somente na sexta sessão, accede a ficar enquanto sua mãe o aguarda na sala de espera.

- III -



A FALA DE TIAGO

Sozinho comigo, pela primeira vez, Tiago modela um boneco. Lembrei-me das observações da Vasse:

... a criança revela, ao modelar o boneco... faz o seu corpo inscrever-se na relação do sujeito ao Outro, ao mesmo tempo que representa a sua definitiva separação dela. Tal situação possibilita a leitura analítica no campo da transferência... (6,86).

Reflito: em que medida o pai de Tiago estaria assumindo esse papel... e Tiago identificando-se com ele quando, somente as mulheres – mãe, avó paterna, diretora, analista – decidem sobre os destinos do menino? Ou ele estaria representando sua “definitiva” separação da mãe?



Ao modelar o boneco, Tiago indaga:

- aqui só vem gente pequena?
Espero e digo:

- aqui também vem gente grande como o seu pai.

Pessoas grandes às vezes tem medos como você, ficam preocupadas e precisam falar sobre os seus medos, sobre essas coisas. Você poderá falar também o que você sonha, o que você pensa quando está na escola, em qualquer lugar, quando sua mãe sai.

O gesto de separar-se da mãe é simbólico do desligamento. Um movimento de dentro para fora, com menos ansiedade, acompanhado de uma produção. Evidencia-se o nível simbólico desse momento de Tiago comigo.

... A palavra que manifesta o desejo do sujeito e que se encontra aprisionada no sintoma, nasce da articulação da lembrança à promessa: relaciona-se com a lembrança daquilo que aconteceu antes, segundo o desejo do Outro e que deve acontecer depois, segundo o desejo do sujeito...” (5, 89).

Tiago me ouve com atenção. Mesmo sem acrescentar nada à sua curta fala, imagino que nele se dê o desfilar de lembranças ligadas a eventos passados, a perdas vividas ou escutadas, a ameaças de abandono. Mijando-se de medo, urinando à prestação”.

Na sessão seguinte – sétima sessão – Tiago entra e fica sozinho comigo, usando a massa de modelar, sem nada dizer. Modelo também coisas sem forma acompanhando-o na atividade. Falo-lhe das minhas férias, coincidindo com as do colégio. Espero que me diga alguma coisa. Permanece em silêncio. Ao entregá-lo à mãe, informo-lhe da minha ausência fazendo - os participantes da situação.

Após o intervalo de um mês, Tiago retorna com a postura anterior: ligado à mãe, exigindo a presença dela durante a sessão. Os mesmos medos, as mesmas expectativas, a mesma ansiedade. Na décima quinta sessão, sua mãe me comunica, na presença dele, pois nada se faz excluindo-o, a decisão do pai de Tiago de não mais custear meu trabalho e da disponibilidade da avó paterna em assumir o pagamento.


Percebi que algo se passava na vida familiar e que estava repercutindo de algum modo na situação analítica. Limitei-me a escutar o que ela me disse em poucas palavras. Ela parecia esperar uma reação minha. Preferi dar-me tempo para elaborar minha posição.

Na sessão seguinte – décima sexta sessão – resolvi me comunicar por telefone com o senhor Tiago antes da hora marcada com o menino. Não nos conhecíamos.

- IV -
A PALAVRA DO PAI

... É no nome do pai que se deve reconhecer o suporte da função simbólica que, desde a orla dos tempos históricos identifica sua pessoa à figura da lei...” (3, fr. 278 port. 143).

Ao situar a importância da função paterna na passagem da ordem da natureza à ordem da cultura, Lacan sublinha as confusões prejudiciais que engendram esse conhecimento. (3, fr. 278 port. 143).

Antes de me comunicar com o senhor. Tiago, me indaguei: - Até que ponto é o pai de Tiago que se nega ou se omite de participar da vida do filho nessas circunstâncias especiais – escola e análise? Ou seria que a mãe do menino dificultava ou impedia a entrada de um terceiro,o pai enquanto diferente dela, na vida do filho? – Nesta segunda hipótese, não estaria Tiago realizando o desejo da mãe, na posição de seu falo, fundido e confundido com ela, impedido de aceitar e de elaborar a presença de um outro, para se distinguir na sua relação com ela?

Ora, a posição de Tiago em relação à mãe como seu falo é uma posição que tem de ser interditada pela ação paterna. A interdição ao objeto de satisfação do desejo da mãe vai possibilitar a Tiago sua emergência como sujeito barrado. Como acentua Lacan, a significação do falo deve evocar-se no imaginário do sujeito pela metáfora paterna. A elisão de S’ representada pela sua barra ( $’) é a condição do êxito da metáfora. (3, fr. 557, esp. 242)
... É preciso que esse Um - pai venha a esse lugar onde o sujeito não pode chamá-lo antes. Para isto basta que esse Um-pai se situe em posição terceira, em alguma relação que tenha por base a parelha imaginária a-a’, isto é, eu-objeto ou ideal-realidade...” (e, fr. 577. Esp. 262).
... Problemática edipiana na qual a intervenção da lei e do nome, referidos ao Nome-do-Pai permite a saída do fascínio da cena primitiva...” (5, 129).

Essas reflexões facilitam meu posicionamento diante do senhor Tiago. Eu não o conhecia. Comecei pelo telefone por me identificar como a psicanalista de Tiago, convidando-o a vir falar sobre o seu filho. Por telefone falei-lhe da importância da sua participação mais efetiva no nosso trabalho. A despeito de todas as facilidades de horário em que me dispus a recebê-lo, apresentava sempre uma dificuldade de atender às minhas solicitações até que terminou por dizer que não concordava com o tratamento e não mais pagaria as sessões. Reconheci a significação daquele ato e decidi atender ao desejo paterno suspendendo as sessões de análise. Salientei a importância da sua função de pai na vida do menino, admitindo que pudesse ele encontrar outras formas de ajudar Tiago a superar as dificuldades.

Recordando Lacan eu pensava: alguém na posição terceira deveria proceder à barragem daquela relação de Tiago com a mãe. Quem sabe eu, analista, portadora da palavra do pai, teria que fazer algo – a castração simbólica encontrava assim um espaço como função estruturante do sujeito. A palavra do pai, embora frustradora também para mim, porém indispensável estava dada naquela situação particular.

Aproveitei a sessão que se faria a seguir, décima sexta sessão, para transmitir a Tiago, em presença de sua mãe, que nossas sessões estavam suspensas. Para mim se fazia claro, mesmo participando como coatora do palco onde relações agressivas, competitivas e erotizadas se desenrolavam, que era o momento do corte, da barra, de algum corte, de algum barra que iria repercutir na estruturação do menino como sujeito. Até então Tiago tentava realizar os desejos da mãe, quem sabe, de permanecer ligado a ela ou, quem sabe, aos desejos e temores do pai. Era necessário interditar aquela relação gratificante... Haveria espaço para Tiago figurar como desejante.


- V -


A PALAVRA FINAL

Atendi-os, na décima sexta sessão como de costume: Tiago e sua mãe, juntos. Comecei a falar numa linguagem, particularmente dirigida a ele..


Falei com seu pai pelo telefone. Ele não concorda que você continue a vir aqui. Por isso hoje será sua última sessão.
Fazia umas três sessões que Tiago não modelava e ficava mais agarrado à mãe. À medida que eu ia prosseguindo em minha comunicação, Tiago ia se afastando da mãe, dirigindo-se à mesa onde se encontrava a massa de modelar. Começou a modelar um boneco, falando-me:.
- ...E eu vou ficar grande como meu pai?
- Seu pai já foi pequeno como você. Ele fazia o que seus pais decidiam: sua avó, seu avô. Agora que ele é um homem, ele é quem decide as coisas. Quando você for do tamanho dele, você decidirá o que achar melhor.Dando-se conta de que a mãe chorava, perguntou:
- Por que ela está chorando?
- Porque ela acha que você deve continuar a vir. Mas seu pai não concorda. Ele é quem decide, quem paga. Certamente ele vai encontrar outra maneira de lhe ajudar nos seus medos de ir à escola e outros que você não falou aqui. E eu concordo com a decisão dele.

Mais uma vez Tiago modelara um boneco. Possivelmente um nível mais avançado de elaboração do seu desligamento da mãe. O boneco como símbolo... O uso da palavra, dirigindo-se a mim, querendo compreender a função do seu pai na sua vida. Desejando ser como ele, um dia.

Um nível mais estruturado do simbólico na atitude e na fala de Tiago. Neste momento em que, através de mim, instituía-se a lei do pai, com a palavra “não”, possibilitando a Tiago a saída do relacionamento dual.

Reportando-me à sessão em que Tiago me perguntara se aqui só vinha gente pequena, eu pensava comigo: Tiago tem o nome do pai, atende pelo diminutivo no meio familiar: Tiaguinho. Lembrei-me de uma experiência relatada em Totem e Tabu:

... Meu pai é galo. Agora eu sou um frango. Quando for maior ficarei galo. ...” (2, XIII, 169)

Imaginei as culpas de Tiago ligadas a esse desejo de ser o pai, de ser como o pai, de vir a substituí-lo. Culpas relacionadas ao “ideal - do - ego”, ao super-ego, atemorizando-o, impedindo-o de alcançar um nível mais avançado no seu relacionamento familiar, mantendo-o em um nível regressivo – enurese, ciúme excessivo do irmão, recusa de estudar, agarrado à saia da mãe...

... Quem deseja a própria mãe na infância não poderá evitar o desejo de substituir o pai e de identificar-se com ele na imaginação e depois constituir como tarefa de sua vida obter ascensão sobre ele...” (2, XI, 110).
... Antes de ser uma relação de objeto, o desejo da Mãe é uma relação com o Outro como o Lugar de onde procede a linguagem – é com essa única condição que uma teoria psicanalítica merece tal nome e se distingue de tudo aquilo que, de outro modo,não passará nunca de doutrina psicológica...” (4, 71).
... A análise da relação com a Mãe não consiste pois, em desenterrar a história de um amor reprimido. Ao contrário, o que fica da relação edipiana é a ternura à Mãe, desembaraçada de seus componentes sexuais. Analisar essa relação consiste, como sempre, em dar à luz a um fantasma, em por em relevo os significantes que sustentam no sujeito as identificações constitutivas de um ideal de eu regressivo...” (4, 75-76).

Inconformada com a decisão de suspender os atendimentos, a mãe de Tiago pediu para manter a próxima hora marcada, enquanto ela tentaria convencer o marido da necessidade de continuarmos o trabalho. Na referida sessão, ela me apresentou uma carta da diretora do colégio dirigida ao senhor Tiago, comunicando a decisão de não mais receber o aluno sem que o mesmo se submetesse ao tratamento indicado.


Com um ar vitorioso a mãe encontrara mais uma forma de pressão para impor os seus pontos de vista. Percebi mais claramente que se tratava mesmo de um complot” de mulheres – a mãe, a diretora, a avó e eu – num movimento de manter excluído o pai das decisões da vida do menino. Procurei mostrar à mãe de Tiago minhas posições, salientando os pontos que eu havia destacado: Tiago precisava sentir a presença do pai na sua vida, efetivamente a forma de desligar-se da mãe pelo surgimento de uma ação interditora. Eu desejava que ela percebesse minha atitude compatível com um ato importante para o amadurecimento de Tiago. Seria uma ocasião talvez ímpar – a percepção de função paterna interditora, naquele momento significativo da vida da criança. Eu desejava que minha atitude fosse percebida como de fato o era – em beneficio de Tiago. De outro modo, o emocional do menino ficaria comprometido.

E assim encerramos a nossa tarefa:

... É freqüente observar-se como as mães frustradas nas suas relações afetivas substituem o marido pelo filho, privando este de parte da sua masculinidade...” (2, XI, 105).
- VI-
DO ATO ANALÍTICO

Alguns meses depois, encontrei-me casualmente com o pai de Tiago na casa de amigos comuns. Eu não o conhecia. Ao me ser apresentado, identificou-me. Muito espontaneamente, aquele homem alto, forte fisicamente, dirigiu-se a mim:


: “Eu tinha muita vontade de conhecer a senhora para lhe dizer que eu estava com a razão. Sou o pai de Tiago”.
E continuou:“Olha, eu entrei com Tiago para valer. Imaginando que minha mulher não o levaria mais ao colégio, resolvi assumir o encargo. Fiquei desapontado por não conseguir que Tiago entrasse na sala de aula. Desesperado, sem conseguir nenhum resultado com a minha autoridade e nem com a minha força física, decidi levá-lo para o meu escritório dizendo-lhe que, se não queria estudar iria entregar cartas, pacotes, iria trabalhar comigo... Minha mulher talvez tivesse razão: iriam expulsá-lo do colégio. E eu tinha que enfrentar a situação. Pois a senhora saiba: no dia seguinte, Tiago começou a freqüentar o colégio tranqüilamente, levado por mim, sem resistência e hoje é um bom aluno”.
E concluiu:

-Psicanálise e psicologia não valem nada mesmo.
- Realmente, o senhor tem razão. O que Tiago necessitava era de pai e não de outra pessoa. Que bom!
O senhor. Tiago estava muito excitado. Entusiasmado. Telefonou para a esposa convidando-a a vir encontrar-se conosco na casa desses amigos onde estávamos. Ela veio. Ele repetia os seus relatos, os seus sucessos. E me fazia participante da sua alegria, imaginando que estava me agredindo ou me desafiando. Foi um momento emocionante e muito agradável para mim. A análise tinha permitido a simbolização da ação do pai até então inexistente.
Fiquei pensando na experiência analítica que não havia terminado

quando eu julgara. Sem que eu a programasse, ela continuou fecunda, como se vê.

Tomara sentido a palavra de Freud colocada em nível de significante,

a respeito do término da análise. De modo que podemos no caso afirmar que nem sempre


... Uma análise termina quando analista e analisante deixam de encontrar-se para a sessão analítica...”

Não foi o tempo cronológico que fez a questão. Há coisas que se passam sem que sejam percebidas... , continuam em elaboração, não sei por quanto tempo e que se ligam a novos elos da cadeia, interminavelmente... (2, XXIII, 250).

Um ano depois desse encontro com o pai de Tiago, a mãe do menino

retornou ao meu consultório, buscando atendimento para ela - as relações conjugais não andavam bem... Ligeiramente me falou que Tiago estava muito produtivo na escola e sem qualquer problema. Embora tenha falado bastante das suas dificuldades, ela não apareceu mais.

- Teria sido ela a analisante desde o início?
... São muitas as famílias que vivem em estado de simbiose mórbida. Sem uma psicanálise do membro indutor dominante não se pode modificar a neurose familiar...” (4, 31).

A influência dos pais que se exerce por fenômenos de tipo telepatia aludidos por Freud e por Lacan, explica a coincidência de experiências, chegando à comunicação em pensamentos e em ações entre analistas e analisantes, entre pais e filhos. (3, fr. 265. Esp. 85). Uma espécie de comunicação inconsciente em cadeia, incluindo o “acting out”.


“... A experiência psicanalítica nos mostra que o menino está informado em forma total e inconsciente e que se vê induzido a assumir o papel dinâmico complementar regulador como uma espécie de homeostase da dinâmica familiar pai - mãe - filho...” (4, 12).

Do que depreendo da leitura da nossa experiência: como sempre

ocorre em casos de crianças, a mãe de Tiago estava envolvida e era coatora desse palco.

Com toda a sua história , repetindo-se e manifestando-se através da nova família, revivendo com Tiago dificuldades semelhantes não satisfatoriamente integradas.

Comigo, apesar de mim e graças a mim. Pausa... Novo palco... Mudam as máscaras. A voz permanece.


OBRAS CONSULTADAS

1) BETTHELHEIM, Bruno -Psicanálise dos Contos de Fadas, Editora Paz e Terra,

Rio 1978.
2) FREUD, Sigmund Obras Completas, Ed. Standard Brasileira, Imago,

Rio 1969.


3) LACAN, Jacques -Écrits, Ed. Seuil, Paris, 1966.

Escritos 1, Siglo Veintuno Editores,

México – Argentina – Espanha, 1971.

Escritos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1978.


4) MANNONI, Maud - La Primera Entrevista con el psicoanalista,

Gedisa, 1978.


5) SAFOUAN, Moustapha -Estruturalismo e psicanálise, Cultrix são Paulo.
6) VASSE, Denis -O Úmbrio e a Voz, Ed. Loyola, São Paulo – 1977.



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