Dura Travessia: a importância da música popular na mobilização pelas Diretas Já e na comoção pela morte de Tancredo Neves



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Dura Travessia: a importância da música popular na mobilização pelas Diretas Já e na comoção pela morte de Tancredo Neves

Graziela Valadares Gomes de Mello Vianna1

Resumo:

O objetivo do presente artigo é perceber a importância da música e do artista popular na mobilização da população pelas eleições diretas para a presidência da República em 1984 e como a música popular pode ser considerada uma forma de representação da comoção em Minas Gerais no momento da morte de Tancredo Neves.Para tanto, foi realizada uma pesquisa nos arquivos de duas emissoras locais de rádio, Rádio Itatiaia e Rádio Inconfidência, que se destacaram na cobertura em Minas da campanha Diretas Já e da doença e morte de Tancredo Neves, além de entrevistas com os radialistas, publicitários e compositores populares atuantes em tais momentos. Os resultados da pesquisa nas emissoras e das entrevistas será confrontado com uma análise contextualizada da letra de canções que podem ser consideradas significativas para a mobilização popular no período analisado e que foram destacadas pelos entrevistados.


Palavras-chave: mobilização popular, música popular, rádio, história do Brasil.

Considera-se aqui a música um tipo de produção simbólica contextualizada, ou seja, que carrega traços de contextos culturais, políticos e econômicos da sociedade em que foi produzida, já que, concordando com Astréia Soares, socióloga que pesquisou o nacionalismo na música popular,

a possibilidade da música revelar correlações entre as esferas artística e social vem da associação a outras linguagens (poética,cinematográfica,teatral e televisiva). Ela é marcada pela constante utilização de recursos como arranjos e ritmos, os quais de tanto serem ouvidos em situações objetivas, já têm sua audição condicionada por essas situações,podendo apontar para um sentido extramusical reconhecível.(...) O sentido, neste caso, vem de fora,do público que,ao compartilhar relações similares vai construindo uma espécie de index da experiência auditiva (2002, p.16).

Este "sentido extramusical reconhecível" possibilita a associação da música a elementos da vida cotidiana ou a elementos da identidade coletiva da qual o indivíduo faz parte. Quando esta música é utilizada em campanhas políticas, pode-se contribuir para a identificação da existência de uma vontade popular pertencente a esta identidade coletiva, pois, ainda de acordo com Soares,"a canção constrói e, quando compreendida, dá a conhecer questões essenciais,tais como nossa identidade coletiva, nossa soberania,a alegria, a dor,o amor".(idem:11) A música popular, ao ser utilizada em tais campanhas, seria capaz de evidenciar a vontade popular e ao, mesmo tempo, mobilizar a população a fim de concretizá-la.


O recorte deste artigo é um período quando a efetiva participação popular é percebida no momento de luta pela redemocratização do país e quando o povo vai às ruas demonstrar a sua comoção pela morte de Tancredo Neves. Para tanto, será realizada uma análise destas canções significativas na época tanto pela performance ao vivo nos comícios com a participação de artistas populares, quanto pela veiculação nas emissoras de rádio.
Afinação: campanha das Diretas Já e mobilização popular
A campanha em 1984 pela aprovação da emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para Presidente da República, teve como característica principal a manifestação popular nas ruas das principais cidades brasileiras do país. De acordo com Alberto Tosi Rodrigues, cientista político cuja dissertação de Mestrado trata da mobilização popular e conflito político na Campanha das Diretas Já,

janeiro de 1984 trouxe consigo novos espaços de confrontação política. Os comícios e manifestações de massa se constituíram, de fato, como grandes momentos para a emergência societal do conflito. Estabeleceu-se um quadro político em que os vértices fundamentais passaram a ser a sorte da Emenda Dante de Oliveira (em tramitação na Câmara) e as possibilidades da campanha em crescimento nas ruas, sendo que este último aspecto passava a significar uma substancial ampliação das arenas de jogo e dos recursos disponíveis à ação.(2003, p.39)

Grandes comícios passaram a ser realizados em todo o país nas cidades de Olinda, Porto Alegre, Curitiba, Camboriú, Rio Claro, Bauru, Salvador, Campinas, Vitória, São Paulo (com a presença de 250.000 pessoas), João Pessoa, Santos, Maceió, Teresina, São Luís, Macapá, Belém, Rio de Janeiro, Recife, Manaus, Osasco, Rio Branco, Cuiabá e Belo Horizonte.(Rodrigues, 2003).
O impacto de tais atos públicos se fazia sentir tanto nas bases do governo quanto nos setores moderados dos partidos de oposição, que pretendiam uma solução negociada com o governo militar. Tancredo Neves se posicionava neste setor moderado do PMDB e, às vésperas da data marcada para o comício em Belo Horizonte, enfrentava o problema da necessidade de se mostrar em sintonia com a vontade popular e, ao mesmo tempo não se indispor com os representantes do regime militar favoráveis a uma negociação em relação à sucessão presidencial. Portanto,

desde logo, todo o problema para Tancredo e seu grupo era o de procurar obter a configuração de uma arena de jogo sobre a qual os recursos adquiridos pela participação na campanha ganhassem eficácia na negociação com o regime . E mais: que o impacto da mobilização sobre o sistema político fosse forte o bastante para desestruturar as estratégias governistas de continuísmo puro e simples, mas não tão forte a ponto de romper com os mecanismos institucionais - vale dizer, indiretos - da sucessão.(idem, p.49)

Diante deste quadro político, o próprio Tancredo Neves presidiu a comissão suprapartidária organizadora do "comício monstro" de Belo Horizonte que contou com a participação de 300 mil mineiros reunidos na praça Rio Branco, conhecida como Praça da Rodoviária, e pela extensão de um quilômetro de uma das principais avenidas de Belo Horizonte, a avenida Afonso Pena. Ainda de acordo com Rodrigues, o próprio governador se encarregou de cuidar para que a população não sofresse nenhuma forma de repressão, mas por outro lado, para que não acontecesse nenhuma expressão de radicalismo.
No palanque, vários artistas populares se misturavam a líderes políticos nacionais e a representantes locais e regionais.1 Em uma descrição de tal acontecimento feita por Dante de Oliveira e Domingos Leonelli (2004), destaca-se que

um dos pontos altos foi quando o público cantou, junto com Simone, a música Pra dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Chico Buarque também foi muito aplaudido na sua improvisação de Vai levando: Mesmo com todo emblema, todo problema, todo sistema, toda Ipanema, a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando as Diretas.(...) Mas o ápice foi mesmo o momento em que Fafá de Belém cantou o Hino da Independência , acompanhada pela multidão. Papéis picados choveram dos prédios vizinhos e um espetáculo de fogos de artifício iluminou aquele início de noite, como se anunciasse que as Diretas estavam chegando. (2004,p.419)



A partir de descrições como esta, pode-se perceber a presença da música popular brasileira nos comícios. Músicas estas que são cantadas juntamente com os Hinos oficiais, como se fossem também, tais como estes, hinos à liberdade e ao Brasil. A voz que canta a música popular é a mesma que canta o Hino oficial. O dono desta voz era o artista popular acompanhado pelas multidões que participavam de comícios como o de Belo Horizonte, brasileiros que, apesar de "todo o problema" e contra o "todo sistema" político , vão levando a vida e o movimento pelas Diretas adiante. As músicas populares cantadas nestes eventos passaram também a fazer parte da programação de emissoras de rádio que apoiavam a campanha.
Apesar de alguns veículos de comunicação negligenciarem a cobertura de um movimento que já tomara conta das ruas das principais cidades do país - como tornou-se notório no caso do comício da Sé em São Paulo, quando a Rede Globo veiculou apenas alguns segundos de imagens da manifestações , como se fizessem parte das comemorações de aniversário da cidade - vários veículos fizeram a cobertura dos eventos e até mesmo convocavam a população a participar. Em Minas Gerais, este apoio pode ser percebido nos principais veículos de comunicação locais, já que o Governador do Estado se posicionava a favor do movimento, apesar de ser um oposicionista moderado. Desta forma, o apoio `a Campanha pelas Diretas já foi encampado inclusive por uma emissora de rádio estatal , a rádio Inconfidência FM, que tinha uma proposta inovadora para uma época em que a música internacional já ocupava a maior parte da programação das emissoras de rádio: a emissora só tocava música popular brasileira. De acordo com entrevista concedida por seu então coordenador Claudinê Albertini, foi colocada nas ruas uma grande equipe para a cobertura da campanha e chamadas eram feitas durante a programação anunciando as manifestações populares. O diretor artístico da emissora Fernando Brant e seu assessor Gonzaguinha (Gonzaga Jr.), compositores populares, eram presenças freqüentes nos palanques dos comícios, suas músicas eram sempre entoadas nos mesmos e tocadas nas emissoras. Podemos dizer então que as músicas populares migraram com facilidade dos comícios para as emissoras de rádio.
Algumas músicas executadas nos comícios e nas emissoras de rádio eram utilizadas como verdadeiros hinos, capazes de mobilizar a população a partir de uma vontade popular pré-existente de redemocratização do país.Alguns exemplos destas músicas foram citados pelos radialistas, publicitários e compositores entrevistados tais como Menestrel das Alagoas, Vai Passar, Virada, Travessia, Coração Civil, Pra não dizer que não falei das flores, O Bêbado e o Equilibrista, dentre outras. Algumas músicas, por sua vez, compostas durante o período da campanha Diretas já, podem ser consideradas como crônicas daquele período e descrevem aquele momento de efervescência política, como por exemplo, a música Pelas Tabelas de Chico Buarque. Já Coração de Estudante tornou-se representativa do momento da morte de Tancredo Neves, conforme confirmado por todos os entrevistados.
O som das Diretas Já : Música e mobilização popular
Citada pelos entrevistados como uma das canções que contribuíram para a mobilização popular, Menestrel das Alagoas, música de Fernando Brant e Milton Nascimento em homenagem a Teotônio Vilela, um dos idealizadores da campanha Diretas Já apresenta uma letra que descreve o político que se rebelava contra o regime autoritário militar, tentando redescobrir, sem medir as conseqüências de seu posicionamento político, um Brasil democrático e livre.
Quem é esse saltimbanco

Falando em rebelião

Como quem fala de amores

Para a moça do portão?


De quem é essa ira santa

Essa saúde civil

Que tocando a ferida

Redescobre o Brasil?


Por meio da homenagem em forma de música popular, Teotônio Vilela era lembrado, após sua morte, nas inúmeras manifestações populares nas principais cidades brasileiras. Como por exemplo, no comício no centro do Rio de Janeiro no dia 10 de abril de 1984 que reuniu por volta de um milhão e cem mil pessoas, onde "pouco antes do início dos discursos das principais lideranças políticas, Fafá de Belém emocionou a multidão ao cantar o 'Menestrel das Alagoas', composição de Milton Nascimento e Fernando Brant, em mais uma homenagem a Teotônio Vilela."( Rodrigues, 2003,p.75). A letra fala em rebelião, o que pode representar a vontade de mudanças, não só de Teotônio, mas de todo o povo brasileiro, que também carrega uma “ira santa” saudável, ou melhor, cheia de "saúde civil" que provoca o regime militar ao sair às ruas em uma festa cívica, redescobrindo a alegria de ser cidadão brasileiro e demonstrando a vontade de instaurar novamente a democracia no país. Tal festa cívica popular é anunciada também por meio da música Vai Passar de Chico Buarque de Hollanda:
Vai passar

Nessa avenida um samba popular

Cada paralelepípedo

Da velha cidade

Essa noite vai

Se arrepiar.(…)

Meu Deus, vem olhar

Vem ver de perto uma cidade a cantar

A evolução da liberdade

Até o dia clarear


Ainda na letra da mesma canção, a alegria da festa popular de uma cidade que canta a evolução da liberdade é contraposta à “página infeliz da nossa história”, o que pode ser considerado como uma alusão ao regime militar e conseqüências de suas ações para a pátria:

Num tempo

Página infeliz da nossa história

Passagem desbotada na memória

Das nossas novas gerações

Dormia


A nossa pátria mãe tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações
Esta “página infeliz” deve ser virada, pois afinal os brasileiros “um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval" ou poderia se chamar campanha Diretas Já, como confirma o compositor ao descrever o início da composição desta música: “Comecei a ter a idéia musical e algumas pinceladas do que eu queria como letra. Foi na época daquela euforia das diretas”. (BUARQUE DE HOLLANDA, 1989). Esta euforia era predominante tanto na festa cívica dos comícios quanto na festa popular do Carnaval daquele ano de 1984, quando a campanha Diretas Já foi incorporada às letras dos sambas e marchinhas carnavalescas:

As Diretas transformaram-se no tema central da festa mais popular do país. Nunca um tema político ocupou tanto espaço no carnaval. O brasileiro aproveitou a visibilidade concedida por Momo para expressar seu desejo de votar para presidente, fazendo uso de paródias, alegorias e muito bom humor. Nem o peso da crise econômica que se abatera nos últimos dois anos foi suficiente para esmorecer os ânimos e a esperança no voto direto(LEONELLI; OLIVEIRA,2004,p.437)


Outra música bastante executada nesta época, Virada, apesar de ter sido composta por Noca da Portela alguns anos antes (no ano de 1978) também refletia esta vontade popular de mudanças, de virar o jogo político, porém desta vez se sugere uma mudança conseguida por meio da luta e não da festa popular, como se pode perceber em um trecho da letra:

vamos lá rapaziada,

tá na hora da virada,

vamos dar o troco,

Vamos botar lenha nesse fogo,

vamos virar esse jogo que é jogo de carta marcada,

o nosso time não está no degredo,

vamos à luta sem medo

que é hora do tudo ou nada.
Da mesma forma, a canção Pra não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré composta em 1968 e bastante executada nos comícios pode ser considerada uma convocação à mobilização popular e à luta política:

Caminhando e cantando

e seguindo a canção.

Somos todos iguais, braços dados ou não.

Vem , vamos embora que esperar não é saber.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


Em contraposição à luta, alguns compositores sonham com a alegria da liberdade, como se fosse uma utopia a ser realizada em um futuro próximo, como se pode perceber na canção Coração Civil de Milton Nascimento e Fernando Brant
Quero a alegria muita gente feliz

Quero que a justiça reine em meu país

Quero a liberdade, quero o vinho e o pão (...)

Quero nossa cidade sempre ensolarada

Os meninos e o povo no poder, eu quero ver (...)

Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?

Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter

Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida

Eu vou viver bem melhor

Doido pra ver o meu sonho teimoso

um dia se realizar.
Porém , em Travessia estes mesmos compositores refletem que o caminho a ser percorrido para a liberdade é "de pedra", árduo e os sonhos e a utopia só serão concretizados por meio de ações concretas ("já não sonho, hoje faço"):

Já não sonho, hoje faço

Com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas

Já não quero parar

Meu caminho é de pedra

Como posso sonhar?

Sonho feito de brisa

Vento vem terminar
Por outro lado, a incerteza sobre o futuro do país - se o sofrimento causado pela truculência do regime militar estaria no fim, se este "caminho de pedra" seria trilhado com sucesso, mas deveria de qualquer forma ser trilhado, pois o "show de todo artista tem que continuar" - era representada na campanha Diretas Já pela música de João Bosco e Aldir Blanc, O Bêbado e o Equilibrista em 1979, "um dos carros-chefes da campanha das Diretas" (LEONELLI; OLIVEIRA,2004,p.489)
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Percebe-se assim que as canções citadas acima executadas nos comícios e nas emissoras de rádio podem ser consideradas como expressões da vontade popular ao apresentarem letras que refletem esta vontade. Nos comícios, os artistas emocionavam a população presente cantando tais canções, transformando-as em verdadeiros hinos à liberdade e à redemocratização.Nas emissoras de rádio, tais canções eram associadas às manifestações populares, não deixando assim esmorecer a mobilização popular.




O som da história: música como representação de um período histórico
Às vésperas da votação da emenda Dante de Oliveira na Câmara dos Deputados as manifestações populares continuavam tomando conta das ruas das principais cidades do país. No dia 16 de abril de 1984, um milhão e quinhentas mil pessoas participaram então de um comício no Anhangabaú em São Paulo. Entre o comício e o dia 25 - data marcada para a votação da emenda - as manifestações não se calaram nem mesmo em Brasília, onde foram proibidas pelas Medidas de Emergência decretadas pelo Presidente João Figueiredo:
Nas principais cidades do país, a população atendia ao chamamento do Comitê Pró-Diretas e promovia seu 'barulhaço'. Em São Paulo houve baterias de fogos e concentração na escadaria da Catedral da Sé, além de passeata com frigideiras e panelas na avenida Paulista. No Rio houve passeatas em Copacabana e concentração em frente ao Palácio Guanabara. Manifestações semelhantes reproduziram-se em Porto Alegre, Belo Horizonte e capitais do Nordeste. Também em Brasília, a cidade sitiada pela Emergência, já a partir do final da tarde os manifestantes foram à rua.(RODRIGUES,2003, p.92)

Este momento histórico é retratado de forma explícita na canção Pelas Tabelas de Chico Buarque de Hollanda composta naquele ano, onde é confrontado o movimento popular é contraposto à vida amorosa particular do personagem da canção:


Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela

Eu achei que era ela puxando um cordão

Dão oito horas e danço de blusa amarela

Minha cabeça talvez faça as pazes assim

Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas

Eu pensei que era ela voltando pra mim.


Assim como em Vai Passar, do mesmo compositor, a manifestação em prol das Diretas Já se confunde com a festa popular do Carnaval, mas trata-se de forma específica este momento que antecede a votação da Emenda Dante de Oliveira, quando a população vai às ruas bater panelas nos chamados "barulhaços" e acompanha a votação em placares ou "pelas tabelas" espalhadas em várias cidades("Quando eu vi a galera aplaudindo de pé as tabelas"). Em uma passeata deste período, realizada nas ruas do centro do Rio de Janeiro, "ao som de um trio elétrico e dois carros com alto-falantes, a festiva multidão cantava versões de músicas de Carnaval, que criticavam a política econômica e gritava palavras de ordem: 'Voto direto derruba Delfim Netto'. Ou ainda : 'o povo está a fim da cabeça do Delfim' ". (LEONELLI; OLIVEIRA, 2004, p.461). Tal clamor popular também está presente nesta canção:

Quando vi um bocado de gente descendo as favelas

Eu achei que era o povo que vinha pedir

A cabeça de um homem que olhava as favelas

Em um artigo da historiadora Heloísa Starling, a autora faz uma análise desta contraposição da esfera privada e da esfera pública nesta canção de Chico Buarque e conclui que

Talvez o Brasil de Chico seja isso: um dos poucos países do mundo onde uma canção ainda se apodera dos esboços de construção do mundo público para experimentar outras maneiras de pensar e de reconstruir os percursos da sociabilidade republicana - mesmo que, nos versos da canção, o desenho desse percurso aconteça apenas de modo indireto, num jogo de passes, pelas tabelas.(2004, p.115)


A vida política do país está presente na canção de Chico assim como formas de sociabilidade por meio das quais o cidadão brasileiro relaciona a sua vida privada com questões pertencentes à esfera pública.Concorda-se aqui com Helena Bomeny que defende que a música "será sempre, no caso do Brasil - país de larga, bem sucedida e reconhecida tradição musical - , reveladora dos instantes de afirmação de nossa identidade como nação, como grupo ou como povo"(2004,p.135) A música serve aqui para descrever tais instantes de afirmação de identidade presentes nas manifestações populares pelas Diretas Já.
Música triste: Derrota da emenda Dante de Oliveira e morte de Tancredo Neves
Apesar de toda a mobilização popular pelas Diretas Já, a emenda Dante de Oliveira não obteve os votos necessários para a sua aprovação no Congresso Nacional. A euforia dera lugar a um sentimento de frustração.

A dor era maior que as grandes manchetes dos jornais.A Folha de S. Paulo, o maior esteio jornalístico da campanha das Diretas Já, estampou o sentimento do país: NAÇÃO FRUSTRADA, acompanhada da devida informação: 'Apesar da maioria de 298 votos, faltaram 22 para aprovar as Diretas.' A frustração foi, realmente, muito profunda. Algo como uma morte, irrecuperável, irrecorrível, impossível de substituir.(LEONELLI;OLIVEIRA, 2004,p.601)

Com a impossibilidade do povo eleger de forma direta o Presidente da República, a atenção agora se voltava para as negociações relacionadas à disputa no Colégio Eleitoral. A oposição representada pelo PMDB escolhe Tancredo Neves para concorrer contra o candidato situacionista do PDS, Paulo Maluf. A sociedade brasileira mais uma vez se mobiliza, mas desta vez a campanha tem outro slogan: no lugar de Diretas Já, nos meios de comunicação a palavra de ordem é: Muda Brasil, Tancredo Já! Apesar das eleições serem indiretas, o povo se manifesta mais uma vez e torce pela vitória de Tancredo em um Colégio Eleitoral já desmoralizado diante da mobilização popular:
a ditadura foi, ao mesmo tempo, derrubada nas ruas pelo povo e sobrevivente na institucionalidade de um Colégio Eleitoral esvaziado, desmoralizado e desmontado politicamente pela própria campanha das Diretas e depois pela campanha de Tancredo Neves. As duas, de alguma forma somadas, tiraram do Colégio Eleitoral a capacidade de decidir autonomamente, frustrando profundamente os deputados, senadores e outros membros que pretendiam fazer valer o peso - provavelmente em ouro - dos seus votos.(idem, p.607)
Esta associação da campanha de Tancredo Neves à campanha pelas Diretas Já pode ser percebida no slogan que incorporou o Já junto a Tancredo. Tancredo passou a representar a derrota da ditadura militar, símbolo da resistência democrática e da soberania da nação.

Desenhava-se no céu do Brasil o fim da ditadura militar e a retomada da democracia e da liberdade usurpadas por 21 anos. A longa caminhada parecia chegar ao fim, e seríamos vitoriosos. Tínhamos saído às ruas com a camisa amarela, os rostos cheios de esperança, cantando as canções que habitavam o coração de todos.(BRANT, Estado de Minas, 12/jan./2005)


Desta forma, pode-se entender a comoção popular diante da sua morte antes mesmo de assumir a Presidência da República. Dante de Oliveira descreve desta forma aquele momento:

a última onda do imenso oceano de caras, bandeiras, esperanças, frustrações, golpes e contragolpes, que se agitou nas ruas do Brasil entre 1983 e 1984, desfez-se, para nós, numa noite de tempestade em Salvador e cheia de estrelas no Pantanal do Mato Grosso, em 21 de abril de 1985. Na tela da TV, Antônio Brito, voz embargada pela emoção, cumpria seu dever de anunciar a morte do presidente Tancredo Neves. Com ele, morria mais uma vez, a esperança da campanha das Diretas, o maior movimento de massas do século XX no Brasil(...) (2004,p.607)


Em Belo Horizonte, as emissoras locais já faziam uma cobertura 24 horas da doença do presidente eleito. Com o anúncio da sua morte, o povo mineiro compareceu em massa ao seu velório no Palácio da Liberdade. A comoção era profunda, tendo acontecido até mesmo tumultos onde pessoas morreram esmagadas nas grades do Palácio tentando prestar uma última homenagem àquele representava a esperança de um país democrático e livre, pois

com Tancredo morria a esperança de uma transição realizada com um mínimo de identificação com a grande luta do povo brasileiro pelas Diretas, ainda que fazendo as inevitáveis concessões às elites. Ele as conhecia bem, sabia negociar e sob o seu suave e delicado, quase feminino, controle, a transição democrática brasileira por certo teria outros resultados. O grande movimento popular , que lhe garantiu não apenas a vitória mas a própria possibilidade de concorrer seriamente no nauseabundo Colégio Eleitoral, daria ao seu governo a força da mudança. (idem,p.609)


Assim como foram destacadas várias canções populares que se tornaram hinos da campanha pelas Diretas Já, pode-se destacar especialmente uma canção que representaria naquele momento a comoção popular diante de mais uma "morte da esperança" com o falecimento de Tancredo Neves: Coração de Estudante de Milton Nascimento e Fernando Brant que foi lembrada por todos os entrevistados desta pesquisa como representativa de tal momento histórico, cuja letra é reproduzida abaixo:

Quero falar de uma coisa,

Adivinha onde ela anda?

Deve estar dentro do peito

Ou caminha pelo ar

Pode estar aqui do lado

Bem mais perto que pensamos

A folha da juventude

É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos

Desviaram seu destino

Seu sorriso de menino

Quantas vezes se escondeu

Mas renova-se a esperança

Nova aurora a cada dia

E há que se cuidar do broto

Pra que a vida nos dê flor e fruto

Coração de estudante

E há que se cuidar da vida

E há que se cuidar do mundo

Tomar conta da amizade

Alegria e muito sonho

Espalhados no caminho

Verdes: planta e sentimento



Folhas, coração, juventude e fé
Enquanto a nação atravessa um momento chamado, conforme já citado anteriormente, de "morte da esperança" por Dante de Oliveira, tal canção, que tornou-se hino da comoção pela morte de quem seria a esperança da redemocratização, sugere que a esperança pode se renovar , apesar de todas as intempéries e todos os acontecimentos negativos. A esperança aqui ao invés de ser considerada morta é comparada à figura da planta viva, que se renova e produz novos frutos. Apesar dos acontecimentos que “ já podaram seus momentos, desviaram seu destino” a república brasileira no período seguinte é verde, nova, assim como a planta e que os brasileiros devem cuidar para que se possa ter “ alegria e muito sonho espalhados no caminho” , de forma que a esperança não morra e o sonho de liberdade se torne real. Apesar do “sorriso de menino” ter se escondido, um novo tempo para o país se prenuncia a cada aurora, quando então o brasileiro pode ter de volta o respeito aos seus direitos de cidadão.
Conclusão
Conforme foi percebido por meio das entrevistas realizadas e da pesquisa bibliográfica, a campanha Diretas Já foi um dos momentos da história do país em que a população se mobilizou e foi às ruas demonstrar qual era vontade da maioria. Mesmo os publicitários atuantes nas campanhas publicitárias do governo de Minas e na campanha Muda Brasil pela candidatura indireta de Tancredo Neves - Almir Salles , diretor da agência de propaganda Setembro Propaganda, Carlos Alenquer e David Paiva, redatores publicitários da mesma agência - revelam que não foi necessária uma campanha publicitária no sentido de mobilizar a população. Consideram que a campanha Diretas Já foi um movimento espontâneo, a partir de uma vontade pré-existente, da qual a música popular seria a sua melhor expressão e os artistas populares, juntamente com as lideranças políticas, os defensores desta vontade.Quando a esperança se esvai com a morte de Tancredo Neves, a música é também a forma de expressão da frustração e da renovação da esperança. Conforme foi discutido neste artigo, as canções podem ser consideradas ao mesmo tempo como reflexo deste momento histórico , como representação da voz do povo que pede mudanças ou como descrição de tal momento, eternizando as conquistas e derrotas do movimento popular.
Desta forma, concorda-se aqui com a argumentação da historiadora Helena Bomeny, segundo a qual "nas notas e partituras musicais, letras e músicas abrem espaços plurais onde a nação é cantada. Um canto que a traz enaltecida, manchada, criticada, reconhecida, ironizada pelos compositores populares, atentos aos movimentos do cotidiano"(2004,p.134).Canto este que eterniza tais momentos importantes da história brasileira. Por meio deste canto, a campanha Diretas Já e a comoção pela morte de Tancredo Neves não serão apenas passagem desbotada na memória das nossas novas gerações. Este canto faz lembrar nos atuais dias escassos de movimentos que mobilizem a população em prol dos seus direitos, que por mais que o caminho seja de pedra para se fazer valer a vontade da nação, a população deve se mobilizar e se fazer ouvir.
Referências bibliográficas
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________. "Vai passar". C.Buarque, F.Hime [Compositores]. In: __. Chico Buarque. Rio de Janeiro: Polygram, p1984. 1CD, faixa 10.
Buarque,C. "Vai levando". C.Buarque, C.Veloso [Compositores]. In: __. Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Philips, p1975. 1CD, faixa 17.
Carvalho, Beth. "Virada". N.Portela, Gilper[Compositores]. In: __. Beth Carvalho na fonte. Rio de Janeiro:RCA Vitor, p1981. 1CD, faixa 01.
Nascimento, Milton. "Coração Civil". M. Nascimento[Compositor]. In: __. Caçador de Mim. São Paulo: Ariola, p1981. 1CD, faixa 09.
_______________. "Coração de Estudante".W.Tiso, M. Nascimento[Compositores]. In: __. Milton Nascimento ao vivo. São Paulo: Barclay/Ariola, p1983. 1CD, faixa 01.
_______________. "Menestrel das Alagoas".F.Brant, M. Nascimento[Compositores]. In: __. Milton Nascimento ao vivo. São Paulo: Barclay/Ariola, p1983. 1CD, faixa 07.
_______________. "Travessia".F.Brant, M. Nascimento[Compositores]. In: __. Milton Nascimento. Rio de Janeiro: Odeon, p1969. 1CD, faixa 10.
Vandré, Geraldo "Pra não dizer que não falei das flores". G.Vandré [Compositor]. In: __. Geraldo Vandré. Rio de Janeiro: RGE, p1994. 1CD, faixa 14.

Entrevistas concedidas à autora
ALBERTINI, Claudinê. Belo Horizonte, 03 mar. 2005.

ALENQUER, Carlos. Belo Horizonte, 16 fev. 2005.

BASTOS, Paulo. Belo Horizonte, 07 mar. 2005.

BRANT, Fernando.Belo Horizonte, 17 fev. 2005.

PAIVA, David. Belo Horizonte, 17 fev. 2005.

SALLES,Almir. Belo Horizonte, 17 fev. 2005.



1 "Às 18h30m, já estavam no palanque armado em frente à Rodoviária quase todos os artistas que vieram do Rio e São Paulo para o comício das diretas como Chico Buarque, Simone, Ísis de Oliveira,Maria Betânia, Raul Cortês, Renata Sorrah, Dênis Carvalho, Maitê Proênça , Marcos Paulo e Toni Ramos, ao lado dos mineiros Milton Nascimento, Fernando Brant, Wagner Tiso, Lô Borges e de Gonzaguinha, agora também residindo em Belo Horizonte(...)Por volta das 21 horas, subiram ao palanque os artistas Belchior e Bruna Lombardi."(Jornal Estado de Minas , 1º caderno, 25 /fev./1984) .


1 Centro Universitário Newton Paiva - professora e coordenadora de grupo de pesquisa de Iniciação Científica./ Instituto J.Andrade - coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda




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