E a igreja se fez povo



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III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

TÍTULO DO TRABALHO: “E A IGREJA SE FEZ POVO”. JUAZEIRO: A IGREJA POPULAR E A QUESTÃO DA TERRA.

MARGARETE PEREIRA DA SILVA/MESTRANDA UFBA

e-mail: jhpq@uol.com.br


Por muito tempo afirmou-se o caráter conservador da Igreja Católica e o efeito opiático da religião, entretanto, nas últimas décadas o papel desempenhado pela Igreja na América Latina tem levantado a discussão acerca do conservadorismo inerente à instituição. A realidade latino-americana exigiu um maior comprometimento da hierarquia eclesial e uma mudança na prática pastoral. A convergência de fatores externos e internos à Igreja, na conjuntura das décadas de 1960 e 1970, condicionaram o surgimento e a consolidação de uma nova Teologia. Fundamentada no reconhecimento da necessidade de intervenção do homem na transformação da sua história e na busca pela libertação a nova Teologia significou uma nova formulação da relação fé e política.

A expressão prática desta nova Teologia, denominada Teologia da Libertação, será a Igreja Popular. A Igreja Popular guiada por uma maior aproximação com o laicato, reconhecerá e valorizará os elementos da cultura popular, herança do MEB (Movimento de Educação de Base), além de colocar nas mãos dos indivíduos a responsabilidade das transformações históricas. A Igreja Popular significará uma Igreja da libertação em oposição a Igreja tradicional.

Setores da hierarquia eclesial envolvidos em trabalhos pastorais populares, em períodos anteriores, terão este mesmo entendimento e comporão o grupo progressista do episcopado. A importância deste grupo foi a de se colocar ao lado das lutas populares e pelos direitos humanos durante o regime militar, uma vez que, a Igreja tornou-se a interlocutora entre sociedade e o Estado.

No município de Juazeiro (Ba) tivemos uma experiência de participação da Igreja junto à população local que revelou a “opção preferencial pelos pobres” e a opção por uma Igreja libertadora. Tratou-se da instalação da usina hidrelétrica de Sobradinho que ao deslocar 72.000 pessoas gerou um grave problema social por não ter havido planejamento prévio para a reintegração dos deslocados.

Em julho de 1971, o Ministério das Minas e Energia decidiu sobre a construção da barragem na divisa dos municípios de Juazeiro e Casanova por ser considerada uma área economicamente inexpressiva e das mais pobres do país. Entretanto, devemos considerar que todo espaço é historicamente construído sendo resultado das relações sociais, políticas e econômicas aí estabelecidas. A região do São Francisco constituiu-se pelo latifúndio, pelo poder das oligarquias locais, o “Coronel” e pela população submetida ao poder local. À época da instalação da barragem “o pode político local controlava mais de 70% das terras agricultáveis da área, determinava a sua ocupação por pequenos produtores mediante antigos laços de dominação”.

A primeira manifestação da Igreja sobre o projeto veio através do padre irlandês João Mayers da Paróquia de Pilão Arcado, embora, um estudo do CEAS – Centro de Estudos e Ação Social – apresenta-se os problemas que a instalação da barragem poderia ocasionar. O bispo da Diocese de Juazeiro à época, Dom Thomas Murphy, refutou o estudo, afirmando, que não era um problema da Igreja. Havia a crença de que a presença de um investimento como aquele trouxesse desenvolvimento para a região.

A postura de não comprometimento da Igreja com o problema, a fragilidade da população pela falta de organização, a concordância das principais famílias e políticos locais e a transformação da área de Sobradinho em área de segurança nacional retardaram o enfrentamento político.

A mudança ocorrerá com a chegada do novo bispo à região. Dom José Rodrigues de Souza assumiu a Dioceses de Juazeiro, em 1975, quando já haviam iniciado os problemas decorrentes da instalação da barragem. Segundo o bispo muitas pessoas acreditaram que ele traria a solução de seus problemas. A sua atitude foi de buscar construir uma consciência de que só se consegue alguma coisa através da organização em comunidades e da luta coletiva. Percorrer este caminho seria uma forma de se chegar da teoria à prática da libertação.

A presença do novo bispo levou a uma reação ao modo autoritário de como vinha ocorrendo a pressão sobre a população local para se efetivar a desocupação da área. A Igreja – que de início havia acreditado na obra como portadora de desenvolvimento para a região – é levada à ruptura da aliança política secular com as oligarquias locais. Colocava-se ao lado dos atingidos pela obra e contra a CHESF e o Estado.

A Hidroservice, empresa de Consultoria contratada pela CHESF, já em 1972 indicava como problema à transferência da população rural. Após realizar um levantamento sócio-econômico da área identificava extrema miséria e resistência à mudança. As alternativas apresentadas (aderir ao Projeto de Colonização da Serra do Ramalho, a “operação caatingueiro” que era a retirada das famílias para a caatinga ou a emigração para outros estados) não foram suficientes para influir na decisão da população em deixar a área. A decisão que prevaleceu foi a de se fixar na borda do lago.

As indenizações, iniciadas em 1973, intensificadas a partir de 1975, e dadas por concluídas em 1979, constituiu-se em outro problema, pois, foram indenizadas apenas as propriedades comprovadas por título legal e as benfeitorias.

Em junho de 1975, foi promovida pela Diocese de Juazeiro a primeira reunião conjunta de autoridades locais, vigários e religiosos, representantes do poder estadual, e representantes da CHESF para denunciar os problemas e debater soluções.

A pressão da Igreja e dos Sindicatos e a repercussão negativa de Sobradinho na opinião pública nacional e internacional levaram, em 1978, a ELETROBRAS a elaborar o Programa de Desenvolvimento do Reservatório de Sobradinho (PDRS). A crítica feita pela Diocese, pela CPT e pelo Pólo Sindical, ao PDRS, foi à exclusão dos trabalhadores na discussão e elaboração do programa. Em junho de 1978 a Diocese de Juazeiro apresentou um documento “Posição da Diocese de Juazeiro diante do Projeto Sobradinho”, entre os aspectos abordados o documento fazia referência à questão da terra, colocando como prioridades: a terra, a regularização fundiária e a reforma agrária.

Em 1977, na reunião do Vale do São Francisco, realizada em Carnaíba, os bispos presentes de Juazeiro, de Bonfim e de Petrolina após analisarem a situação da região sentiram a necessidade da criação de um organismo para auxiliar o “povo na sua luta”. Assim foi criada em Juazeiro a CPT (Comissão Pastoral da Terra) com o objetivo de dar apoio à população deslocada da área da instalação da barragem. A CPT foi responsável pelo trabalho de organização da população deslocada, realizou um levantamento das famílias desalojadas e seus bens para em conjunto reivindicar uma reavaliação das indenizações; e, para reivindicar junto a CHESF infra-estrutura nas novas cidades criadas com o deslocamento; também atuou, o seu corpo jurídico, em casos de grilagem. A metodologia de trabalho da CPT foi sempre de “despertar a corresponsabilidade para transformar a situação de opressão em que vivem”.

O trabalho da CPT é articulado a Diocese de Juazeiro que engloba cinco dos sete municípios atingidos pela barragem: Sento Sé, Casa Nova, Remanso, Pilão Arcado e Juazeiro (deste, foi desmembrado e criado em 1989, o município de Sobradinho) e mais os municípios de Curaçá e Campo Alegre de Lourdes.

O trabalho desenvolvido pela CPT e a atuação do bispo Dom José Rodrigues foram relevantes no incentivo e apoio ao trabalho pastoral e na organização da população atingida pela barragem. A ação da Igreja partia das necessidades das comunidades, estimulando a discussão e reflexão até a busca de soluções, como a organização dos movimentos reivindicatórios. Durante o período de 1979 e 1981 foram realizadas, na área, 500 reuniões em comunidades, desde reuniões e assembléias de representantes, reuniões específicas, assembléias de trabalhadores, etc.

Em 1982, o governo da Bahia assumiu a atuação na região do lago através de um convênio firmado com a CHESF. A CAR (Coordenação de Ação Regional, atualmente denominada, Cia. de Desenvolvimento e Ação Regional, mantida a sigla), órgão do SEPLANTEC elaborou o Programa Especial de Desenvolvimento da Região do Lago de Sobradinho que se propunha integrar as comunidades camponesas na sua implantação, através do ‘planejamento participativo’. O Programa baseava-se numa ação conjunta entre técnicos e comunidade, diagnosticando, avaliando e hierarquizando os problemas da localidade com o objetivo de estabelecer uma ordem de solução possível. No entanto, os limites institucionais interferiram na proposta metodológica do Programa. A falta de definições, a falta de verbas, uma vez que, não existia um cronograma financeiro, sendo as verbas negociadas anualmente comprometeram o atendimento às reivindicações básicas da população.

A base do Programa foi às associações de pequenos produtores. A maioria dos associados eram pequenos produtores, não excluindo comerciantes, assalariados agrícolas permanentes ou temporários, trabalhadores de construção ou barrageiros, trabalhadores migrantes.

O projeto ligado à pesca deu início às atividades do Programa. Os técnicos ao travarem contato com a comunidade com o objetivo de esclarecer as propostas do projeto tomavam conhecimento que aquele grupo já tinha informações através do trabalho da CPT. A Igreja mantinha-se na sua tarefa de esclarecimento e de conscientização da comunidade local para o enfrentamento dos problemas advindos com a instalação da barragem e mesmo problemas decorrentes de estruturas seculares e arcaicas que ratificavam as desigualdades e injustiças sociais na região.

Se por um lado, a Igreja encarava as associações como meio de aquisição de direitos; por outro, entendia que funcionavam como instrumento de cooptação do Estado de lideranças e do movimento organizado dos trabalhadores, e também como uma forma de enfraquecer a influência da Igreja junto às comunidades.

Durante todo este período o grande confronto foi contra a CHESF, ou seja, o governo federal, até porque, a Diocese nunca se manifestou contra a obra, e sim, contra a inexistência de um planejamento para atender a população deslocada. O embate de Dom José Rodrigues ocorreu com o engenheiro responsável pela obra João Paulo Maranhão. Em correspondência João Paulo acusará o bispo de estar procurando promoção social e estar fugindo às suas obrigações como Pastor, visto que a missão da Igreja é evangelizar.

Segundo declaração do bispo Dom José Rodrigues problemas com o poder estadual ocorreram quando da divulgação da cartilha política produzida pela Diocese em 1981, onde o governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, afirmou através dos meios de comunicação, ser a cartilha uma “inspiração do demônio”. Em reação, a Comissão Central do Movimento de Solidariedade da Diocese de Juazeiro entregou na Casa Civil do governador um abaixo-assinado contendo 25.139 assinaturas, coletadas nas Dioceses de Juazeiro e Bonfim, em apoio ao trabalho de Evangelização e Libertação desenvolvido pelo bispo de Juazeiro em sua Diocese, inclusive, o trabalho de Educação Política.

Também o presidente do Senado, Jarbas Passarinho, foi à tribuna discursar contra, segundo ele, a infiltração socialista na Igreja. Acusando a Igreja de afastar-se da sua ação evangelizadora, nomeou membros da hierarquia que estariam estimulando a “guerra santa” anticapitalista.

“O Bispo de Juazeiro é comunista” amanheceu pichada a casa episcopal, a catedral e outras casas e muros da cidade. A adoção de idéias socialistas sempre foi um das críticas dos opositores da Igreja Popular. A Igreja Popular é acusada de utilizar categorias marxistas em sua análise da realidade e seus opositores alegam que os intelectuais da libertação identificam os pobres com o proletariado de Marx. Dom José assim declarou: “sempre achei interessante como a classe dominante define para nós o que devem significar palavras como agitação, subversão, violência, luta de classes, paz e reconciliação. Um exemplo: se um especulador rouba a terra de um pobre agricultor, então isso é um ‘trato’, um ‘negócio’. Se o agricultor se defende, então isso é ‘violência’. O domínio de poucos sobre um povo inteiro é chamado ‘paz social’, mas se você quer esclarecer esse domínio para o povo dizem que é ‘iniciar a luta de classes”.

Outro elemento combatido pelos opositores da Teologia da Libertação e da Igreja Popular é a formação das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). A transformação pela qual passou a Igreja no Brasil favoreceu a uma aproximação com as classes populares. Esta aproximação traduziu-se numa maior aceitação das práticas do Catolicismo Popular permitindo-se alteração na liturgia e uma maior participação do leigo. As CEBs, no Brasil, representaram essa possibilidade de aproximação da Igreja aos fiéis, uma vez, que apresentam como elemento fundamental a fé inserida no mundo vivido e a co-responsabilidade destes para a construção de uma sociedade mais justa embasada na fé.

Na sua visita a Roma, em 1990, Dom José chamava a atenção para o distanciamento do povo nas celebrações em magníficas basílicas e ressaltava, que esta falta de proximidade com a comunidade implicava na falta de compreensão das modificações feitas na liturgia romana aqui no Brasil. Mas, mesmo assim, a cúria romana acredita que a sua tarefa, afirma Dom José “é uniformizar todas as dioceses do mundo. A falta de sintonia entre Roma e a Igreja brasileira faz com que o relacionamento seja dominado “por sentimentos de suspeita e desconfiança”. Ao fazer tais comentários Dom José Rodrigues refere-se ao movimento neoconservador que se desenvolveu e desenvolve no seio da Igreja contra os progressistas e o seu envolvimento com a política.

O envolvimento da Igreja, ou melhor, de setores da Igreja com questões sociais é a marca que define a Igreja Popular. Neste caso, Dom José Rodrigues é um dos legítimos representantes da Igreja Popular. Ele afirma que a Diocese de Juazeiro tem uma ação preferencial junto aos pobres e marginalizados, onde quer que eles estejam, na cidade ou no campo. A dedicação aos pobres exige uma mudança da posição social, isto implicou em algumas evidências de rejeição. Em suas palavras: “a elite de Juazeiro nunca me aceitou”. No período que estamos tratando Dom José Rodrigues recebeu ameaça de morte, teve sua casa invadida, sofreu uma campanha difamatória e foi acusado de incentivar a “chacina do Salitre”.



Hoje ao completar 25 anos à frente da Diocese de Juazeiro muitos membros da Igreja local reconhecem o papel decisivo que ele teve no avanço das relações naquela região. O apoio dado aos agentes pastorais e leigos foi fundamental para a mudança da prática pastoral. Muitos agentes pastorais que atuaram na Diocese eram provenientes de outras regiões do país, religiosos ou leigos, entenderam na prática que era necessário um trabalho de Igreja libertadora. Algumas vitórias, muitas derrotas, entretanto, um longo aprendizado de cidadania. Esta talvez seja a verdadeira vitória, o entendimento que muitos, católicos ou não, adquiriram das suas possibilidades de lutas por seus direitos. Aos 50 anos de sacerdócio o testemunho que Dom José Rodrigues deixa é “eu continuo defendendo e acreditando na Teologia da Libertação”.



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