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Tocou-me

Uma história de milagres e poder



Benny Hinn

TOCOU-ME


BENNY HINN
Publicado por Bompastor Editora Ltda.

Av. Liberdade, 902

Liberdade - São Paulo - SP

01502-001 - Brasil

Fone: (11) 3346-2000 Fax: (11) 3346-2027

www.bompastor.com.br

e-mail: editora@bompastor.com.br


Tradução: Valéria Lamim Delgado Fernandes Capa: R. Martins Diagramação: Mareia Fernandes

Publicado originalmente em inglês com o título: He Touched Me Thomas Nelson Publishers

Nashville, Tennessee


As citações bíblicas são da BEC - Bíblia de Estudo em Cores, Versão Revisada, exceto quando especificada outra versão.


Produto: 95536
Impresso no Brasil

Sumário
Sumário

Sobre a Obra

Dedicatória

1. Nuvens de guerra sobre Jaffa

2. Um garoto chamado Toufik

3. Fogo do alto

4. O tumulto

5. Do quiosque às catacumbas

6. Isso terá fim

7. "Ele é tudo o que tenho!"

8. "Posso te conhecera"

9. Eu seria deixado para trás

10. Shekinah!

11. Duas horas da manhã

12. Uma jornada de milagres

13. "Ela vai ser sua esposa!"

14. Um dia de coroação

15. O acidente

16. Uma ordem do céu

17. Potes de geléia e Bíblias

18. A experiência da cruzada

19. A maior dádiva

20. Uma milagrosa profecia se cumpriu

21. Um toque que transforma

Sobre a Obra


Em junho de 1967, enquanto as nuvens de guerra pairavam sobre Israel, a família de Costandi e Clemence Hinn - incluindo o filho de 14 anos, Benny - se amontoava em sua casa na histórica cidade de Jaffa, esperando a explosão das bombas. A Guerra dos Seis Dias foi emocionalmente devastadora para esta família cristã ortodoxa grega de língua árabe, que vivia em um estado judeu. Quando a poeira finalmente baixou, Costandi tomou uma decisão que mudou para sempre o futuro da família Hinn. Essa decisão desencadeou uma série de eventos que culminaria com o filho Benny se transformando em uma figura carismática no cenário mundial.

Aqui, em suas palavras, Benny Hinn compartilha histórias nunca antes contadas, de um garoto tímido e introvertido, que era evitado por seus colegas de escola. Informações confi­denciais, provenientes do diário que ele guardou durante os dias de seu encontro com o Espírito Santo que transformou sua vida. O milagre que aconteceu quando ele embarcou em uma aventura de dois meses pela Europa - deixando a família pela primeira vez. O grande acontecimento que o levou aos palcos do mundo. Histórias verdadeiras que ocorreram nos bas­tidores das cruzadas internacionais, nos programas de televisão e entre os membros da equipe. Seu confronto com críticos e a mídia do país. A incrível experiência de voltar para o Oriente Médio a convite pessoal do governo da Jordânia para realizar uma cruzada de milagres no Palácio da Cultura, em Amã.



Tocou-me é muito mais do que a extraordinária saga de um jovem que entregou totalmente a sua vida ao Espírito de Deus. Você também será tocado - e muito inspirado - à medida que assimilar as valiosas lições que Benny Hinn aprendeu durante seus primeiros vinte e cinco anos de ministério.

Este livro é dedicado ao meu maravilhoso Senhor e Mestre, Jesus, o Santo Filho de Deus, que tem feito grandes coisas.

A Ele pertence toda a glória, agora e para sempre. Eu gostaria de lhe agradecer por meu querido pai, Costandi Hinn, e mãe, Clemence, a quem amo de todo o meu coração.

CAPÍTULO 1

Nuvens de Guerra Sobre Jaffa


"Benny, preciso de sua ajuda", disse meu querido, porém austero pai, Costandi, passando-me uma pá. Havia um tom tenso e apreensivo em sua voz.

Este não era um pedido sem valor de um pai para o filho de 14 anos. Era uma ordem - e eu sabia exatamente por que ele precisava de minha ajuda.

Imediatamente, começamos a cavar uma trincheira funda no jardim de nossa casa na 58 Ibn Rashad, em Jaffa, Israel - a histórica cidade portuária na extremidade sul da moderna cidade de Tel Aviv. "Realmente espero que isto não seja necessário", lamentou meu pai, "mas é melhor estarmos preparados. Quem sabe o que acontecerá? Quem sabe?"

Depois de trabalharmos duro por várias horas debaixo do sol quente do Oriente Médio, a trincheira ficou funda o suficiente. Ela poderia servir de refúgio para toda a família Hinn - além de acomodar alguns vizinhos que precisassem de abrigo. No início daquela mesma semana, no Colégio de Freiras, a escola católica francesa que eu freqüentava, houve um ataque aéreo e nós fomos colocados em um abrigo subterrâneo.

Dentro de nossa casa, minha mãe, Clemente, e minha irmã mais velha, Rose, faziam estoque de comida e de garrafas de água. Elas davam as instruções de última hora aos meus irmãos e irmã mais novos. Para cima e para baixo da rua, as pessoas pintavam os faróis dos carros de preto - e cobriam as janelas de suas casas.

Era a primeira semana de junho de 1967. Noite após noite, nossa família ouvia atentamente a Rádio do Cairo em nossa língua árabe nativa e, por isso, sabíamos que a guerra era iminente. Alguns dias antes, Nasser, o presidente do Egito, havia anunciado que todo o exército egípcio estaria em alerta geral. Em uma passeata bem divulgada, ele mobilizou grandes números de tropas pelas ruas do Cairo a caminho do Sinai. Em alguns quartéis, esta seria a batalha que acabaria com todas as batalhas - ameaçando, de uma vez por todas, esmagar o estado de Israel, que estava com 19 anos, o lançando ao mar.

Nasser estava no auge da popularidade e, ao que parecia, a histeria havia dominado todo o mundo árabe. Jordânia, Síria e Líbano aliaram-se para este confronto histórico, além de contingentes da Arábia Saudita, do Kuwait, do Iraque e da Algéria terem se comprometido a se juntar à briga.

Em Jaffa, as pessoas estavam apavoradas. Israel estava cercado por duzentas e cinqüenta mil tropas árabes - incluindo cem mil soldados egípcios no Sinai. Havia dois mil tanques e mais de setecentos bombardeiros e aviões de combate - um número muito maior que as forças de Israel.

"Por quê?", eu perguntava repetidas vezes. "Por que isto está acontecendo? Por que as pessoas querem lutar?" Eu não entendia.

O ódio e a amargura emocional que, de súbito, vieram à tona em nossa comunidade deixavam-me chocado. Até este momento eu não sabia da animosidade inveterada que existia entre árabes e judeus.

Em nossa casa, as coisas eram diferentes. Sim, nós nos considerávamos palestinos, apesar de nossa casa estar sempre aberta para pessoas de todas as partes. Meu pai trabalhava para o governo de Israel, e nós éramos estimados por nossos amigos próximos que eram muçulmanos, judeus e cristãos. Religiosamente, éramos gregos ortodoxos, mas eu freqüentava uma escola dirigida por freiras católicas.

Agora, com as iminentes nuvens de guerra, estávamos sentindo uma pressão que nos obrigava a tomar partido - e eu não gostava disso. "Oh, se pudéssemos sair deste lugar", eu dizia para meus pais. "Qualquer lugar seria melhor do que este!"


Egípcios, Romanos e Turcos

Jaffa era a única pátria que eu conhecia. Na década de 60, era formada por uma tumultuada comunidade, em sua maioria de árabes, junto ao mar Mediterrâneo, com uma grande, porém conturbada história. Todos os dias eu passava pela Yefet Street a caminho da escola. Yefet é o termo em hebraico para Jafé - o terceiro filho de Noé - a quem foi atribuída a edificação da cidade após o Dilúvio.

Meus irmãos e eu muitas vezes brincamos nas docas onde Jonas embarcou para Társis no navio fadado ao fracasso. A apenas alguns metros de distância fica a casa de Simão, o curtidor, onde Pedro ficou quando o Senhor lhe instruiu para pregar aos gentios.

Jope (Jaffa) era uma cidade cananéia que fazia parte das listas de impostos do faraó Tutmosis no século 15 a.C, mesmo antes de Josué pelejar na Batalha de Jerico. E foi ali que o rei fenício, Hirão de Tiro, descarregou troncos de cedro para o templo do rei Salomão.

Os ventos de guerra não foram bons para com o lugar onde nasci. Jaffa foi invadida, capturada, destruída e reconstruída várias vezes. Simão Vespasiano, os Mamluks, Napoleão e Allenby a reivindicaram. Este porto estratégico foi controlado por fenícios, egípcios, filisteus, romanos, árabes, muçulmanos e turcos. Os ingleses assumiram o controle, em 1922, até ela se tornar parte do novo estado de Israel, em 1948.

Jaffa era - e ainda é - uma mistura racial. Dê uma volta pelo marco da cidade, a Torre do Relógio, construída pelos otomanos em 1901, e você ouvirá conversas entre os nativos em francês, búlgaro, árabe, hebraico e outras línguas.

Durante minha infância, as centenas de milhares de pessoas de Jaffa foram engolfadas pela avassaladora população de Tel Aviv ao norte. Hoje, a metrópole tem o nome oficial de Tel Aviv-Jaffa. Mais de quatrocentos mil têm a área como sua cidade natal.

Os sons, as vistas e os aromas desta cidade nunca se apagaram de minha memória. Ioda vez que viajo para lá, vou direto a uma padaria ao ar livre chamada Said Abou Elafia & Sons, na Yefet Street. Nada mudou neste lugar. Eles ainda fazem sua famosa versão árabe de pizza com ovos assados em um tipo de pão árabe chamado pita. A moda pegou e agora você vê lanchonetes do tipo por todo o Israel. Esta foi a primeira padaria de Jaffa, em 1880, e ainda é dirigida pela mesma família (quatro gerações depois). Senti saudades só de pensar em seus bagels (pães em forma de rosca), nos pães de zaatar (uma deliciosa mistura de condimentos do Oriente Médio assada com azeite de oliva) e nozambushi recheado de queijo ou batata. Oh, eles são maravilhosos!


"O Misericordioso"

Por causa da posição exclusiva de meu pai na comunidade, o povo de Jaffa era como uma família estendida - indepen­dentemente de suas convicções social, étnica, política ou religiosa. A área era um distrito de lei Aviv, e meu pai, Costandi Hinn, pode ser mais bem descrito como uma ligação entre a comunidade e o governo de Israel. Ele era um homem imponente, com 1,87 metro de altura e uma personalidade flexível, porem forte. E ele era perfeito para a tarefa.

A maior parte do tempo de meu pai era investido em cuidar de reclamações entre cidadãos e agências governamentais - além de encontrar emprego para aqueles que estavam necessitados. Ele tinha escritórios em Jaffa e Tel Aviv, contudo parecia haver um fluxo sem fim de pessoas que vinham a nossa casa com pedidos especiais. Ele não as mandava embora.

A natureza que meu pai tinha de se doar não era algo fingido. Era parte de um estimado legado transmitido entre gerações. Logo após a Ia Guerra Mundial, o bisavô de meu pai c sua família - os Costandis - emigraram da Grécia para Alexandria, no Egito. Eles viram um futuro brilhante nos negócios e no comércio. Um de seus filhos (o avô de meu pai) envolveu-se em projetos que visavam prover alimento e roupas para aqueles que estavam na miséria, e as pessoas diziam: "Vamos para El Hanoun" - que, em árabe, significa "o misericordioso" ou "o generoso". Mais tarde, muitos começaram a chamá-lo de "Hinn" - e o nome pegou.

Uma vez que era assim que as pessoas o chamavam, e agora ele estava vivendo em uma cultura árabe, decidiram mudar o seu último nome de Costandi para Hinn. Sou grato por ver que o mesmo espírito de generosidade continua em nossa família até hoje. (Descobri recentemente que alguns de meus parentes que permaneceram no Egito optaram por voltar a ter o nome de família Costandi.)

Mais tarde, um dos filhos da família Hinn (meu avô) mudou-se do Egito para a Palestina e se estabeleceu na próspera comunidade árabe de Jaffa. Ao se casar e ter um filho, ele o chamou de Costandi - em respeito ao nome de família grego.

Ao longo dos anos, minha mãe compartilhou lembranças vagas de seus primeiros anos de vida. Recentemente, em um piscar de olhos, ela contou como conheceu meu pai c se apaixonou por ele.

Embora minha mãe tivesse nascido na Palestina, a família de sua mãe havia emigrado da empobrecida nação da Armênia, no sul da Europa, para Beirute, no Líbano, muitos anos antes. Seu pai, Salem Salameh, era palestino.

Após um típico casamento arranjado, quando minha avó tinha apenas 16 anos, o casal estabeleceu-se em Jaffa - e no meio da prole estava uma adorável filha chamada Clemence.

Meu avô era carpinteiro e também trabalhava como inspetor nos laranjais.


Quebrando a Tradição

Quando jovem, Costandi Hinn viveu cm uma Palestina que era governada pela Grã-Bretanha. Serviu no exército britânico de 1942 a 1944 e, mais tarde, mudou-se para Haifa - cerca de noventa e cinco quilômetros costa acima -, onde trabalhou na alfândega do porto.

Separado de sua família, em uma cidade onde ele era um estranho, sua vida social praticamente estagnou. "Mas eu não conheço ninguém", ele confidenciou ao pai quando eles discutiam a questão de pedir a mão de uma garota em casamento.

Quando Costandi chegou em casa para fazer uma visita, uma de suas tias lhe falou sobre uma bela garota armênia. "Seu nome é Clemence", ela lhe disse. "E sua família também é grega ortodoxa." Aquele fato era extremamente importante.

"Jovem demais para mim", exclamou Costandi, quando ficou sabendo que ela só tinha 14 anos de idade.

No entanto, quando finalmente foi marcado o encontro entre as famílias Hinn e Salameh, meu pai logo mudou de idéia. Ele disse para si mesmo: "Ela é linda. Esta é a garota que será minha esposa".

Não muitos dias depois, ele foi ao restaurante do Sr. Salameh c pediu para conversar em particular com ele. Costandi, muito nervoso, disse: "Senhor, tenho um pedido. Quero algo do senhor".

Por causa do respeito que existia entre as duas famílias, ele respondeu: "Eu lhe darei tudo o que quiser". Ele sorriu c perguntou: "Você quer meus olhos?"

"Não", respondeu Costandi. "Quero sua filha, Clemence."

O Sr. Salameh não hesitou. "Sim", ele respondeu. "Estou muito contente. Se este é o seu desejo, ela será sua."

Logo a notícia do acontecido se espalhou, contudo houve uma grande confusão. "As coisas não são assim!", gritou a avó, agitada. "Por que o pai dele não veio e pediu a mão dela como tem de ser? Um jovem não vai a um restaurante e faz ele mesmo tal pedido!"

De acordo com o costume no Oriente Médio - até o momento - os casamentos devem ser arranjados entre os pais. Por isso, para honrar a tradição, os membros mais velhos da família Hinn fizeram pessoalmente o pedido e logo todos estavam sorrindo.

Costandi comprou um anel de ouro e, orgulhoso, colocou-o no dedo de Clemence. Infelizmente, seus planos para o casamento estavam prestes a ser destruídos por forças que abalariam o alicerce da Palestina.
Separados

Era abril de 1948, e a tensão em Jaffa havia se espalhado pelas ruas. Explodiam-se carros. Lojas eram saqueadas. Franco-atiradores espreitavam-se pelos telhados. Noite após noite, o motim perdia o controle.

Desde 1922, a Palestina havia sido controlada como um mandato britânico, mas, agora, aquilo estava prestes a mudar radicalmente. Foi anunciado que, no dia 15 de maio, os britânicos -junto com as cem mil tropas britânicas que sustentavam uma frágil paz - se retirariam. O novo estado de Israel estava para nascer, oficialmente endossado pela comunidade mundial.

Desde o fim da 2a Guerra Mundial, centenas de milhares de refugiados judeus haviam desembarcado em Jaffa e Haifa, voltando para sua antiga terra natal. O pânico que se espalhou pelo mundo árabe jamais fora visto antes. Só em Jaffa, a população árabe caiu de setenta mil para pouco mais de quatro mil. Famílias abandonaram seus lares e fugiram para o Egito, Jordânia, Síria e Líbano.

A família Salameh tomou seus bens e partiu às pressas para Ramallah, uma cidade um pouco ao norte de Jerusalém. Os Hinns, incertos quanto ao futuro, optaram por permanecer em Jaffa. Clemence e Costandi agora estavam separados por algo que ia além de quilômetros. Havia uma fronteira armada entre eles e era ilegal atravessá-la.

Em 9 de maio de 1948, após um total colapso dos serviços municipais, os líderes restantes de Jaffa deram uma declaração dizendo que a cidade estava como "uma cidade aberta" - uma cidade sem defesa. Não haveria mais combates. A comunidade iria submeter-se às leis judaicas.

Costandi pôde garantir emprego no serviço postal em Jaffa, mas seu coração estava em Ramallah. "Tudo em que eu conseguia pensar era em encontrar uma forma para ver Clemence", disse. Ele passou dias tramando e fazendo planos - determinado a atravessar, de algum modo, aquela fronteira e voltar com a garota a quem tanto amava.

Em 1949, Costandi comunicou à família que estava pegando uma licença para ausentar-se do trabalho e que, discretamente, seguiria para Ramallah. Sem chamar muita atenção, ele viajou à noite para a cidade de Gaza contornando o litoral. Ali, ele conseguiu uma passagem para viajar em um barco com destino para o Egito e, sem ser notado, viajou de ônibus para a Jordânia.

O encontro com Clemence valia o risco, mas a maior barreira ainda estava pela frente. Como ele a levaria legalmente para casa? Quando e como eles se casariam? Quais documentos seriam necessários para legalizar o casamento?

"Seu pai ficou ali por muito tempo", minha mãe disse para mim. "E nós conversamos sobre um modo como poderíamos voltar para Jaffa." Durante este período, Costandi encontrou trabalho na Cruz Vermelha em Amã.

Amal, mãe de Clemence, teve uma idéia. "Por que vocês não fazem dois casamentos? Um aqui em Ramallah, para que vocês tenham os documentos, e outro em Jaffa, para que o casamento seja reconhecido pelos israelenses?"

O plano funcionou e, com grande alívio para o casal, os guardas que ficavam na fronteira acenaram em sinal de aprovação e deixaram Costandi e sua mulher de 16 anos entrarem no país e voltarem para Jaffa.


"Por Favor, Senhor!"

Agora, sob as leis de Israel, a maior indústria de Jaffa no ramo de exportação de frutas cítricas mais uma vez começou a prosperar. As "Laranjas de Jaffa" - grandes e suculentas - tinham (e ainda tem) grande saída em toda a Europa. O termo Jaffa no selo de uma laranja simplesmente significa que ela cresceu cm Israel c foi des­pachada pelo porto de Jaffa. Costandi, que conhecia a maioria das pessoas responsáveis pela empresa, logo foi contratado como inspetor.

Quanto à Clemence, sua vida girava em torno da dedicação ao marido - e à Igreja Ortodoxa Grega. Contudo, havia algo que a afligia profundamente.

Em dezembro de 1952, Clemence estava no Hospital Francês St. Louis, na Yefet Street, prestes a dar à luz seu segundo filho.

Do seu quarto, pela terceira janela do canto deste prédio histórico de 1883, ela fitava as águas de um azul profundo do Mediterrâneo. O mar parecia alcançar o infinito.

Ao longe, ela podia ver um conjunto negro de pedras - as pedras de Andrômeda. Segundo a lenda grega, a virgem Andrômeda foi acorrentada a uma delas quando Perseu desceu voando, montado em seu cavalo alado, matou o monstro marítimo e a resgatou.

Agora, Clemence desejava que alguém descesse c a poupasse de mais um ano de humilhação e desonra. Embora fosse sinceramente religiosa, ela não sabia o que era ter um relacionamento pessoal com o Senhor. Contudo, naquele humilde quarto de hospital, a sua própria maneira, ela fez um acordo com Deus.

Clemence foi até a janela, olhou para o céu c falou do profundo de seu ser: "Deus, só tenho um pedido. Se Tu me deres um menino, eu o entregarei a ti."

Mais uma vez, ela repetiu seu clamor: "Por favor, Senhor. Se tu me deres um menino, eu o entregarei a ti".
"Eu Vi Seis Lírios"

Você precisa entender a cultura do Oriente Médio para que possa imaginar o dilema em que ela estava.

O primeiro filho de Costandi e Clemence foi uma bela menina chamada Rose. Contudo, na tradição ancestral da família Hinn, o primogênito tinha de ser um menino e herdeiro.

Ela podia ouvir as palavras sarcásticas de alguns membros da família Hinn em seus ouvidos. Eles a reprovavam por não ter conseguido gerar um menino. "Afinal", um deles lhe disse, "cada uma de suas cunhadas tiveram meninos". As zombarias e escárnios muitas vezes a faziam chorar. Ela sentia embaraço e vergonha. Naquela noite, em seu leito no hospital, seus olhos estavam molhados quando Clemence pegou no sono.

No dia seguinte, no entanto, seu desejo foi atendido. Na quarta-feira, 3 de dezembro de 1952, às 14 horas, eu nasci.

Quando jovem, minha mãe me falava de um sonho que tivera pouco depois de meu nascimento. Eu achava que o sonho tinha a ver com um buquê de rosas, mas há pouco ela explicou que ele tinha a ver com lírios.

"Vi seis lírios - seis lindos lírios em minha mão", ela disse. "E vi Jesus entrar no meu quarto. Ele se aproximou de mim e pediu um deles. E eu lhe dei um lírio".

Ao acordar, Clemence perguntou para si mesma: Qual o significado deste sonho? O que pode ser?

Por fim, nossa família haveria de ter seis meninos e duas meninas, mas minha mãe nunca se esqueceu do acordo que fez com Deus." Benny", ela disse, "você era o lírio que dei de presente para Jesus".

CAPÍTULO 2
Um Garoto Chamado Toufik
É costume entre as famílias gregas ortodoxas dar um nome ao filho no nascimento e um nome cristão - normalmente o nome de um santo ou sacerdote - quando ele é batizado na igreja. Uma vez que eu era o primeiro filho, levei, com orgulho, o nome do pai de meu pai, Toufik. Quase que no mesmo instante, minhas tias, tios e primos começaram a me chamar de "Tou Tou."

Meu batismo foi realizado na residência do sacerdote grego ortodoxo na região histórica de Jaffa conhecida como a Cidade Velha. Quem celebrou a cerimônia foi Benedictus, um amigo de nossa família que havia se tornado o patriarca de Jerusalém. Ele não só me ungiu com óleo e água - mas me deu o seu nome. Agora era oficial: Eu era Toufik Benedictus Hinn. Mais tarde, eu seria simplesmente chamado de " Benny."

A única casa que eu conhecia em Jaffa era de uma família que havia fugido para a Palestina quando a cidade foi praticamente abandonada durante o massacre de 1948. As pessoas saíram às pressas e, com isso, a propriedade da imponente estrutura de três andares foi dada à Igreja Ortodoxa Grega. Meu pai se encheu de alegria quando o sacerdote local perguntou: "Sr. Hinn, o senhor consideraria a possibilidade de se mudar com sua família para esta casa?" Ocuparíamos apenas o primeiro andar, mas o espaço era amplo.

A localização era maravilhosa. A casa estava situada cm uma ribanceira a apenas dois quarteirões das águas azuis do Mediterrâneo, só a alguns passos do coração da comunidade.

Que lugar movimentado ela se tornou. O último andar do prédio foi dado ao tesoureiro da igreja, o segundo andar passou a ser o Clube Grego Ortodoxo, um lugar de reunião para organizações da igreja, e nossa casa ficava no andar térreo.

O bege impressivo e a estrutura cor-de-ferrugem tinham belas colunas com escadas amplas que levavam ao segundo andar. No pátio havia uma fonte cheia de peixes tropicais. Atrás da casa havia um grande jardim com árvores cítricas floridas, flores e uma passagem que levava à praia.

Na fachada do prédio havia a insígnia do Clube Ortodoxo Grego - uma organização da qual meu pai foi presidente por vários anos.

Nossa casa tinha uma sala espaçosa para a família e dois quartos grandes - um para meus pais e o outro para a família que estava aumentando. Primeiro Rose, depois eu, depois meus irmãos, Chris, Willie, Henrv e Sammy, e outra irmã, Mary. Quando entrei na adolescência, nosso quarto em Jaffa começou a lembrar uma ala de hospital. O oitavo filho, Michael, nasceu mais tarde, no Canadá.

Nos fundos da casa, em um nível elevado, ficava a cozinha. Foi ali que passei grande parte do meu tempo quando criança -ajudando meus pais a prepararem comida. Qual era a minha tarefa preferida? Fazer pita, o pão árabe. Aprendi a misturar a quantidade certa de água, farinha e fermento. Minha mãe costumava se gabar, dizendo: "Benny faz o melhor pão da cidade". Eles até o usavam de vez em quando nas reuniões de ceia em nossa igreja.

"Leve isto. É seu!"

O envolvimento de meu pai no trabalho social ia muito além das horas que passava no escritório. Ele era extremamente generoso para com as pessoas c havia um fluxo constante de pessoas da comunidade que vinham à nossa casa - principalmente aquelas que procuravam trabalho. Parte das responsabilidades de meu pai como elo de ligação entre governo e comunidade era legalizar a papelada dos trabalhadores. Por exemplo, alguém do hospital dizia: "Precisamos de dez trabalhadores imediatamente". Então, meu pai entrevistava os interessados e fazia as seleções.

Na parte de trás do jardim, ele guardava grandes sacos de farinha que constantemente comprava. Quando alguém estava necessitado, meu pai dizia: "Aqui está. Leve esta farinha. É sua!"

Minha mãe, uma excelente cozinheira do Oriente Médio, contribuía com a hospitalidade. "Por que você não fica para comer alguma coisa?", ela perguntava.

Aos sábados e domingos, nossa casa ficava cheia. Usávamos os fornos de uma padaria que ficava a pouco mais de cem metros de nossa casa para assar pães feitos com a massa que preparávamos em casa. Meus irmãos ajudavam-me enquanto colocávamos a massa em grandes vasilhas redondas sobre a cabeça e seguíamos para a padaria todo final de semana. Enquanto eles brincavam, eu ficava sentado ali para ver o pão crescer e os chamar quando estivesse assado.

Nossa mesa de jantar era um retrato de abundância. Havia sempre uma dúzia de pratos - abóbora recheada, arroz enrolado em folhas de uva, comida apimentada e húmus - um purê de grão-de-bico. De sobremesa, havia doces, como o baldava, um folheado delicioso com calda de mel.

Talvez a razão por que como pouca carne hoje seja pelo fato de ela não ter sido servida em grandes porções em nossa casa c, por isso, não desenvolvi um gosto por ela. Mesmo agora, prefiro muito mais pratos feitos com vegetais e arroz.


"Meus Filhos, Minha Riqueza"

Quando falo para as pessoas sobre a generosidade de meu pai, elas dizem: "Oh, devia ser uma alegria estar perto dele."

Para ser sincero, a personalidade de meu pai incutiu o temor de Deus em mim e em meus irmãos e irmãs; não obstante, nós o amamos profundamente.

Quando as visitas iam embora, e somente a nossa família ficava à mesa, comíamos rapidamente c cm silêncio. Não havia discussões da família na hora das refeições e eu não sabia praticamente nada sobre o trabalho de meu pai até chegar à adolescência. Nunca falamos sobre dinheiro, política ou questões importantes.

Um assunto, no entanto, era claramente entendido. Se conversássemos à mesa, estávamos fritos. E se fizéssemos travessuras, ele nos dava uma surra na mesma hora - com uma vara.

Sabíamos que o trabalho de meu pai envolvia muita pressão.

Quando voltava do trabalho, ele sempre tirava uma soneca e o melhor que tínhamos a fazer era não o acordar. Eu ainda me lembro do dia em que uma mulher perturbada veio à procura de meu pai. "Sinto muito, a senhora não pode vê-lo. Ele está dormindo", insistiu um de meus irmãos.

Sem dar atenção, a mulher entrou sem pedir licença, empurrou-nos para o lado e entrou cm seu quarto, acordando-o com uma bengala que tinha nas mãos. Oh, que confusão aquilo causou! Alguns segundos depois, a mulher saiu correndo pela porta da frente - e meu pai saiu atrás dela com a bengala que ela estava usando! Então, a situação se inverteu! Todos estávamos terrivelmente enrascados por termos deixado a mulher entrar na casa.

Mamãe nunca foi a disciplinadora em nossa casa. Não era necessário. Meu pai cuidava de tudo o que fosse necessário - e talvez um pouco mais. Um dia, ele chegou em casa e encontrou Chris c eu brigando. "Chris, venha aqui", exigiu meu pai. Ele pôs os pés sobre os dedos dos pés de meu irmão, olhou-o nos olhos e lhe deu uma bela repreensão. Depois, fez o mesmo comigo.

A despeito de seu jeito rígido, todos disputávamos a atenção de meu pai. O menor gesto de bondade de sua parte era tudo.

Lembro-me de uma vez em que ele fez uma viagem de negócios para o Chipre quando eu tinha quase 6 anos. Ele trouxe uma arma de brinquedo para mim. Ela tinha quase trinta e um centímetros de comprimento e emitia faíscas toda vez que se puxava o gatilho. Dois dias depois, quando meu irmão Chris tirou-a de mim e a quebrou, pensei que nunca mais pararia de chorar. Este não era um brinquedo comum. Era um de meus bens mais valiosos - porque era algo que havia vindo de meu pai.

Por fora, a casca de meu pai era mais dura do que a de uma tartaruga, mas nunca duvidei de seu amor por mim. Raramente ele nos fazia um elogio, mas dizia as coisas mais apaixonadas a nosso respeito para minha mãe - e ela não conseguia guardar segredo.

Certa vez, quando um vizinho disse: "Costandi, você deve se orgulhar de seus filhos", ele respondeu: "Meus filhos são minhas riquezas. Não sou milionário, mas tenho uma família maravilhosa que goza de plena saúde. Sou abençoado."

Minha mãe e meu pai nunca demonstraram abertamente qualquer sinal do afeto que compartilhavam um com o outro. Não consigo me lembrar de uma única vez cm que vi meus pais de mãos dadas. Isso simplesmente não acontecia! Contudo, podíamos sentir a profundidade do amor que tinham um pelo outro.


Hércules, Tarzâ e o Cavaleiro Solitário

Sábado! Oh, mal podíamos esperar o sábado. Tão certo como o sol nasceria, mamãe estaria na cozinha preparando sanduíches e limonada para levarmos para a praia. Embora o mar ficasse muito perto de nossa casa, adorávamos a praia de Bat Yam, um passeio de quarenta e cinco minutos ao sul de Jaffa. Papai sempre ia com a gente - e sempre havia alguns primos que iam junto.

Para nós, não era nada andar aquela distância. íamos a todos os lugares. Meu pai não teve carro durante todo o tempo em que vivemos em Israel - ou ele ia a pé para o trabalho ou tomava um transporte público.

Sempre dependíamos do tempo. As pessoas ficam surpresas em saber que raramente cai uma gota de chuva em Israel dos meses de maio a novembro.

Eu gostava de água, mas não das algazarras e piruetas de alguns de meus irmãos. Preferia ficar a alguns passos de distância da multidão. Algumas pessoas pensavam que eu era do tipo que as evitava. Na verdade, eu não curtia, sobretudo, a idéia de me afogar!

Se houvesse muito vento, soltávamos pipas na praia - correndo o mais rápido possível que as nossas pernas conseguissem.

A tarde, voltávamos apressados para casa, comíamos milho na espiga c subíamos as escadas em direção ao Clube Ortodoxo Grego para assistir aos filmes infantis da semana. O Gordo e o Magro, Hércules, Tarzã. O Cavaleiro Solitário. Era papai quem projetava os filmes e nós assistíamos a todos - em inglês, sem legendas.

Grudado na tela, eu assistia àqueles filmes e sonhava em deixar Israel e me mudar para o Ocidente. "Este sou eu", dizia para mim mesmo. "Lá estou eu!"

Quando brincávamos de caubói e índio no quintal, eu sempre fingia ser norte-americano e me vangloriava das coisas que sabia sobre os Estados Unidos - ainda que elas se limitassem ao que eu vira na tela de televisão.

Como era pequeno para minha idade, os meninos da vizinhança pensavam ter alguém para azucrinar. E claro que eu podia me defender, mas raramente era necessário. Meus irmãos tomavam conta de mim como se fossem águias. Lima vez, quando um menino grego me bateu, meu irmão Chris entrou na briga e começou a espancar o menino com a mão fechada. Terminada a briga, o menino foi levado para o hospital com um braço quebrado. Oh, lá estava Chris com problemas!


Eu Era Evitado

Gostaria de poder dizer que minha infância em Jaffa foi perfeita e sem trauma. Não foi o que aconteceu. Desde os três anos de idade, minha auto-imagem foi tão destruída que eu constantemente tinha vontade de sair correndo e me esconder. A humilhação e a vergonha que eu sentia começaram com um terrível problema de gagueira que aflorou quando me mandaram para a pré-escola. Como dirão meus familiares, eu levava o que parecia ser uma eternidade para completar uma simples sentença.

Minha dicção era tão descontínua que minhas professoras, as queridas freiras católicas, evitavam fazer perguntas para mim em sala — tentando poupar-me de constrangimentos. Nos intervalos, eu era evitado. Os meninos e meninas não queriam conversar comigo porque eu tinha dificuldade para responder. Conseqüentemente, tive poucos amigos.

Quando fiz 5 anos, comecei a me afastar de qualquer pessoa que se aproximasse de mim. Muitas noites, enterrei minha cabeça no travesseiro c chorei ate dormir. Quando as pessoas vinham à nossa casa, eu corria para meu quarto e me arrastava para debaixo da cama, na esperança de que ninguém me encontrasse. Pensava: Se eles me ouvirem, só vão rir de minha gagueira.

Chris, meu irmão mais novo, sabia muito bem de meu problema e passou a ser meu protetor e meu porta-voz. Muitas vezes, quando alguém fazia uma pergunta para mim, Chris respondia antes de eu ter a chance de dizer uma palavra.

As pessoas podem ser cruéis com alguém que tem uma deficiência. Até aquelas que me amavam diziam: "Benny, com seu problema de fala, você provavelmente não será grande coisa na vida." Aquelas palavras, repetidas de tantas formas sutis, ficaram gravadas para sempre em minha jovem mente.

Minha mãe certa vez mandou-me para a casa de uma vizinha para entregar-lhe algo que ela havia pedido. Não faço a menor idéia do que levei, mas nunca me esquecerei do que foi dito. A mulher olhou para mim e começou a rir. Ela observou: "Por que sua mãe mandou alguém que não consegue falar?"

Certa manhã, meu pai pediu-me para ir à casa ao lado para pegar um pouco de alpiste. Eu só tinha 5 anos. Quando cheguei à porta da casa, um homem saiu com o alpiste e disse palavras que me afetaram profundamente. Ele disse: "Por que você parece tão mudo?"

Meu valor próprio já havia sido diminuído, e agora eu estava ouvindo que parecia um "mudo". Deprimido, fui embora pensando: Ele disse que pareço um mudo, então devo ser!

Peter Bahou, o menino que morava na casa ao lado, ficou preocupado com meu problema. Nós nos sentamos na escada da frente e ele me passou um livro. "Benny, eu gostaria que você lesse para mim." Em certos dias minha gagueira estava tão terrível que ele tinha de me acalmar. " Tudo bem", Peter me animava, "você não precisa fazer isso agora. Podemos ler mais tarde."


Padre Henry

Minha educação convencional começou na Escola de Freiras Católicas. Até hoje, posso fechar os olhos c imaginar minha professora do jardim de infância - uma freira francesa alta, magra, de olhos azuis e que usava óculos. Não me lembro de nada específico que ela me ensinou, mas só sei do quanto ela se preocupava. "Você é um jovem muito especial", ela me dizia. "Você é muito especial." Oh, como eu precisava ouvir aquelas palavras.

Em uma recente viagem à Jaffa, pedi ao motorista de nosso furgão que parasse na Yefet Street, em frente ao Colégio de Freiras (Escola de Irmãos), uma instituição católica construída em 1882. Foi a minha escola da primeira série em diante. Havia quatrocentos alunos quando eu a freqüentava - agora passa dos novecentos.

Abri a porta da sala 1 -C, a sala de aula onde passei tantos dias, e pouca coisa havia mudado. "Deixem-me lhes contar algo sobre aquele quadro negro", eu disse aos amigos que me acompanhavam. "Se seu nome fosse escrito aqui, você estava enrascado. Ninguém tinha permissão para conversar com você até seu nome ser apagado". Era uma forma eficaz de castigo. Felizmente, graças à minha natureza calma, meu nome não apareceu na lista.

Para minha alegria, o Padre Henry Helou estava no colégio durante a nossa visita. Ele era um dos professores mais antigos e ainda fazia parte do corpo docente da escola. Depois de nos cumprimentarmos, ele nos disse que assiste aos nossos programas de televisão, que são transmitidos em Israel. "Nunca pensei que Benny seria um pregador", ele disse para aqueles que se juntaram à nossa volta. "Eu costumava dar aula de religião, e a todos os alunos eram feitas perguntas, mas muitas vezes pulei Benny a fim de evitar que ele se sentisse constrangido." E acrescentou: 'Agora, quando o vejo na televisão, digo: Será que é a mesma pessoa? "

Sorrio quando percebo que aprendi a gaguejar em várias línguas. As lições na escola católica eram em francês e hebraico. Falava-se o grego em nossa igreja - e muitas vezes em casa, uma vez que as tradições de meu pai eram gregas. A primeira língua de nossa família, no entanto, era o árabe.

Nas tardes em que havia aula, assim que entrávamos em casa, fazíamos nossa lição. Não havia escolha alguma. Meu pai contratou uma mulher a quem, às gargalhadas, chamávamos de "gestapo" - ela era tanto babá quanto professora particular. Ela olhava por cima de nosso ombro para se certificar de que nossas tarefas estavam perfeitas.

Por fim, quando ela nos dizia que a hora de estudar havia acabado, corríamos para frente da televisão para assistir aos canais do Líbano, do Chipre ou do Egito - na maioria, desenhos ou programas norte-americanos, como a série de faroeste Guusmoke.

Uma noite típica após o jantar era papai nos fundos da casa conversando com amigos, enquanto mamãe se sentava na varanda da frente, pondo em dia as fofocas locais com a mulherada da vizinhança. Meus irmãos e irmãs normalmente assistiam a outro programa de televisão antes das 20 horas, hora em que íamos para a cama.

Em nosso quarto, muitas vezes dormíamos com o nosso rádio sintonizado em músicas do Oriente Médio tocadas em uma estação de rádio egípcia ou jordaniana. Em algumas noites, eu lia um dos livros que via na biblioteca - como a versão em francês de Rin Tin Tin.

A escola começava às 8 horas em ponto, e ficava a uma caminhada de vinte minutos de nossa casa. Alguns dias, a caminhada demorava um pouco mais porque eu parava em um armazém que ficava no caminho para comprar um donut com recheio de creme. Aquilo era uma delícia!
"Não Conte para a Mamãe!"

Eu amava meus irmãos e irmãs, mas eles eram diferentes entre si quanto a água do vinho.

Rose era minha irmã mais velha c eu sempre a admirei, apesar de termos, quando crianças, nossas brigas. Se eu tinha um segredo, ela era a última pessoa a quem o contaria - por saber que ela espalharia a notícia antes de anoitecer.

Christopher, um ano mais novo, era um verdadeiro encrenqueiro. Por mais de uma vez ele chegou em casa com o nariz sangrando, c se gabando: "Eu só estava tentando protegê-lo, Benny."

O senhor que morava no piso superior de nossa casa, Lutfalla Hanna, era generoso comigo, mas não com Chris - e o sentimento era mútuo. Ele costumava estacionar o carro na garagem que ficava nos fundos da casa. E, durante alguns dias em um verão, Chris teve o grande prazer de furar dois pneus do carro dele, fazendo da vida do homem um inferno. Isso de repente parou quando o Sr.

Hanna disse o seguinte para meu pai: "Mantenha o seu filho longe do meu carro, ou não sei o que farei!"

Willie, o próximo da fila, era um de meus irmãos favoritos. Era quieto c tímido; pensava sempre c trabalhava com muito afinco. Em quem eu confiava? Em Willie. Se havia um daqueles momentos em que eu dizia: "Não conte nada disso para mamãe", eu cochichava o incidente com ele.

Depois vinha Henry- talvez ainda mais levado que Chris. As vezes ríamos dele por ser um pouco desajeitado - principalmente no dia em que correu em direção à mesa da Ceia na igreja ortodoxa grega da qual participávamos e armou a maior confusão. Henry também tinha uma imaginação fértil e nos fazia acreditar em histórias estranhas.

Quando crianças, meus irmãos e eu adorávamos assistir a lutas pela televisão - e após as competições, experimentávamos alguns movimentos uns nos outros. Mais uma vez, era Chris quem causava o maior estrago. No entanto, uma vez quebrei o dedo de Henry-e, um dia, o pequeno Willie teve de ser levado para o hospital com um braço quebrado.

Sammy era bebê quando morávamos em Jaffa. Eu ajudava minha mãe a cuidar dele - c, muitas vezes, troquei suas fraldas. Até hoje, ele ainda é "meu maninho."

Mary, minha irmã mais nova, foi a última dos Hinns a nascer em Israel. Sempre houve algo especial nela. Aqueles que estavam presentes quando ela foi batizada na Igreja Ortodoxa Grega ainda falam do brilho que desceu sobre seu rosto.

Minhas tias e tios constantemente se vangloriavam de meus irmãos e irmãs - profetizando um grande sucesso para cada um deles. Eu era o único com quem eles se preocupavam.

O que será de Benny?, eles se perguntavam, pensando em meu problema de dicção.

Esta "língua pesada" seria um fardo que eu sempre carregaria?



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