E da sociedade



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A GLOBALIZAÇÃO DA ECONOMIA

E DA SOCIEDADE:

FORDISMO E PÓS-FORDISMO

NO SETOR AGROALIMENTAR1


Alessandro Bonanno

Departamento de Sociologia

Universidade Sam Houston

INTRODUÇÃO

O tema da globalização da economia e da sociedade está sendo tratado, atualmente, na maioria dos debates na área das ciências sociais. Nesse contexto, o ponto nodal das discussões é representado pela proposição que indica que os atuais arranjos globais são afetados pela transição do regime de acumulação do período Fordista, em sua contra-parte Pós-Fordista.

A Sociologia da Agricultura e da Alimentação tem sido uma das áreas onde este tema tem fluído através de abundantes estudos empíricos e teóricos. Assim, o objetivo deste trabalho é realçar alguns dos aspectos desta questão. A estratégia adotada é a de ilustrar algumas das características básicas do sistema global, do Fordismo e do pós-Fordismo, e depois contrastá-las com algumas interpretações alternativas, produzidas recente-mente por eminentes estudiosos dessa área.

O segundo objetivo é o de clarear alguns dos conceitos freqüentemente adotados nessa discussão. É importante obser-var como os estudiosos de diferentes áreas empregam cons-truções teóricas de maneiras divergentes. A questão aqui é que a Globalização, Fordismo e pós-Fordismo têm sido usados de forma rígida e mecanicista. O status de tipo ideal desses processos tem sido traduzido para dimensões reais, as quais facilmente descartam comparações empíricas. Além do que, concomitantemente, são geradas confusões no debate sobre globalização. Neste caso, refiro-me aos argumentos sobre a glo-balização cultural e aos argumentos que destacam a emergência de um novo padrão socio-econômico. Enquanto a maioria invo-ca o dogma da globalização cultural como uma tendência ho-mogeneizante da nova era, os debates no campo socio-econô-mico enfatizam a flexibilidade e a heterogeneidade neste novo modelo. O presente trabalho focaliza esse segundo aspecto.

O estudo começa com uma interpretação do Fordismo, ilustrando as dimensões política, econômica e cultural da crise. Contrariamente às análises estruturalistas (McMichael, 1996 a; Lipietz, 1992), as ênfases são colocadas sobre os grupos sociais que operam tanto internacional como domesticamente, no senti-do de alterar o padrão de acumulação vigente desde o período pós-guerra. Posteriormente, o texto introduz o conceito de pós-Fordismo global (Bonanno e Constance, 1996), destacando o fa-to de que os aspectos sociais do pós-Fordismo são possíveis em função da emergência das relações sociais globais. Sob essa perspectiva, um erro freqüente da relação dialética entre o local e o global é destacado, através do uso do conceito de hiper-mobilidade de capitais. Diversas características do pós-For-dismo global são realçadas para analisar as relações entre a polí-tica e a economia. Afirma-se que a desarticulação da unidade anterior entre as duas esferas criou problemas para o desen-volvimento econômico e para a democracia. O estudo é com-cluído com uma revisão das polêmicas sobre a transição do Fordismo para o pós-Fordismo e as conseqüências que as inter-pretações recentes deste fenômeno tiveram sobre a Sociologia da Agricultura e da Alimentação. Atenção particular é dada às construções estruturais sobre a emergência da globalização, des-tacando-se os argumentos que refutam a doutrina do fim do For-

dismo e as análises que propõem atenção especial às dimensões micro da globalização.


A CRISE DO FORDISMO E A EMERGÊNCIA

DO PÓS-FORDISMO GLOBAL

O FORDISMO
No mundo ocidental avançado, as estratégias do período pós-guerra que se basearam na intervenção do Estado susten-taram um crescimento constante e um balanceamento entre a produção e o consumo de massa, enquanto as empresas geraram um nível elevado de produtividade ao aperfeiçoarem ampla-mente as estratégias “Tayloristas” instituídas. Os administra-dores aumentaram substancialmente seus controles técnicos, através de uma centralização e racionalização adicional do pro-cesso de trabalho. Enquanto esta estratégia agudizava a dis-tinção entre os trabalhadores da produção, da área técnica e da área gerencial, a força de trabalho foi pacificada pelos fre-qüentes aumentos dos salários, pela segurança no emprego, pelas oportunidades de crescimento e pela expansão do bem-estar social (Harvey, 1990; Lipietz, 1992).

O capitalismo Fordista combinou empresas com alta racionalização, centralização e integração vertical com sindica-tos nacionais e com uma substancial expansão do Estado, além disso, usava-se a elevada especialização e mecanização da pro-dução, a burocratização das empresas, o planejamento extensivo e o controle burocrático de “cima para baixo”. “Fordismo Alto” é o termo que define o capitalismo do pós-guerra, ou do tipo maduro e hiperracionalizado de Fordismo (Antonio e Bonanno, 1996). Ele tinha uma força de trabalho segmentada, uma ampla e complexa organização do corpo profissional, gerencial e técnico e meios de comunicação, informação, transporte e com-trole extremamente sofisticados. Apesar da existência de dife-renças significativas entre os setores econômicos e as regiões geográficas, o processo centralizado nos altos níveis de inter-venção do Estado e na inclusão de grupos de trabalho subor-dinados na administração da sociedade, foram as características principais deste período. O “Alto Estado Fordista” adotou polí-ticas Keynesianas avançadas no âmbito do controle fiscal muito abrangentes e de regulação dos planos socioeconômicos, na saúde, na educação e na área do bem-estar social.

Este sistema aumentou a inclusão das pessoas margi-nalizadas, elevou substancialmente o salário e, em termos das democracias sociais, ampliou significativamente a participação do trabalho. Tanto nos EUA quanto na Europa os sindicatos conseguiram envolver porcentagens significativas de trabalha-dores, aumentando consideravelmente o conjunto de benefícios, incluindo-se os salários (Chandler, 1977; Aglietta, 1979; Gordon, Edwards e Reich, 1982; Harrison e Bluestone, 1988; Lieptz, 1987 e 1992). De maneira geral, o “Alto Fordismo” co-ordenou a produção, o consumo de massa, a acumulação cons-tante e aumentou a legitimidade, gerando crescimento econô-mico e uma abundância sem precedentes. O acordo tácito entre capital e trabalho transferiu o controle da produção para a área gerencial mas, ao mesmo tempo, aumentou o papel do trabalho no discurso político, nos planejamentos e no âmbito da legisla-ção do trabalho. A classe média teve um crescimento substan-cial, elevando também seu padrão de vida. Sob o regime do “Alto Fordismo” os direitos civis, políticos e sociais foram expandidos e a legislação regulatória foi ampliada. Opor-tunidades iguais avançaram, embora os estratos inferiores tenham sido pouco beneficiados. Além disso, as desigualdades acentuadas entre os trabalhadores dos setores primários e secun-dários, entre aqueles da produção e os profissionais, entre raças, grupos étnicos e sexo foram os aspectos mais visíveis do novo padrão de racionalização e de burocratização.

O Fordismo funcionou em níveis próximos ao ótimo, da metade da década de 50 até o final da década de 60. Entretanto, no começo dos anos 70 já estava enfraquecendo e expondo sé-rias contradições (Harvey, 1990; Aglietta, 1979). Nas socie-dades ocidentais avançadas, o crescimento dos novos movimen-tos sociais, o protesto dos estudantes e as atividades contracul-turais começaram a erodir a estabilidade do Fordismo. A crise econômica acelerou a desestabilização do “Alto Fordismo”. O aumento da competitividade nos mercados internacionais (resul-tante da recuperação total da Europa e da Ásia devido aos estra-gos provocados pela Segunda Guerra Mundial); insuficiência de investimento de capital em novas tecnologias e estagnação or-ganizacional, o fracasso do desenvolvimento da política indus-trial, o aumento dos custos do bem-estar social e outros fatores, impuseram ao capitalismo do pós-guerra uma fase de desace-leração. A crise do petróleo, a severa recessão de 1973, o fim do acordo de Bretton Woods e a estagflação significaram uma de-composição possível dos Estados Unidos enquanto centro multinacional capitalista. Harrison e Bluestone (1988) referem-se a este período como o início da “volta em U” (U-turn) do ca-pitalismo mundial, caracterizado por baixos salários, pelo trabalho em tempo parcial e pela desintegração do acordo capital-trabalho do pós-guerra. No final da década de 70, o Thatcherismo e o Reaganismo impuseram uma mudança decisi-va nas políticas de inflação baixa e desemprego elevado (Strobel, 1993; Harrison e Bluestone, 1988; Bowles e Gintis, 1982). A característica básica do Fordismo coordenado pelo Estado começou a ser vista como uma fonte de atenuamento da rigidez.



A elevada competição global e as crises políticas e eco-nômicas mencionadas, trouxeram novas estratégias dirigidas para a redução da inflação, através de um crescimento mais lento, da redução do poder das organizações trabalhistas, da aceitação de níveis mais elevados de desemprego e dos cortes nos salários sociais (Aglietta, 1979; Akard, 1992; Gordon, Edwards e Reich, 1982; Harrison e Bluestone, 1988; Lipietz, 1992; Strobel, 1993). As políticas de intervenção do Estado que, no início, tinham sido consideradas o “carro-chefe” do cres-cimento do pós-guerra passaram, agora, a ser tratadas como as causas da retração econômica. Os críticos sustentavam que os acordos capital-trabalho produziram uma compressão nas taxas de lucro que afetaram o capitalismo e que uma parte substancial do complexo institucional e ideológico do “Alto Fordismo” precisava ser desarticulado (Akar, 1992; Lipietz, 1992; Harvey, 1990). Mais importante ainda: muitas das políticas Fordistas que foram empregadas para expandir as oportunidades e os direitos, tiveram suas estratégias iniciais dirigidas para aumentar a liberdade dos proprietários, com desvantagens para os trabalhadores assalariados e estratos subalternos, além de alocar poder e riqueza aos estratos superiores (Harvey, 1990).

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