E. H. Carr 20 Anos de Crise – Uma introdução ao estudo das Relações Internacionais 1919 – 1939



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Universidade Federal de Uberlândia

Instituto de Economia

Graduação em Relações Internais

Docente: Professora Marrielle Maia Ferreira

Discente: Maria Eduarda Borges Lima

E.H. Carr

20 Anos de Crise – Uma introdução ao estudo das Relações Internacionais 1919 – 1939

Resenha – Capítulos 1,3,4,5,6

Uberlândia – Abril de 2015

CARR, Edward Hallett. 20 Anos de Crise 1919 – 1939: uma introdução ao estudo das relações internacionais. Brasília, DF, editora Universidade de Brasília, 2ª edição, setembro, 2001.305p.


Edward Hallett “Ted” Carr (28 de junho de 1892 – 3 de novembro de 1982), nasceu em Londres e era filho de Francis Parker e Jesse Hallet Carr. Tinha como herói político David Lloyd George. Carr foi um jornalista, historiador e estudioso e teórico das relações internacionais britânico de esquerda. Estudou em Merchant Taylos’ School e posteriormente na Universidade de Cambridge. Iniciou sua carreira como diplomata, ingressando no Ministério das Relações Exteriores britânico em 1916 e o deixando somente em 1936 para seguir a carreira acadêmica. Ficou conhecido primeiramente como um intelectual por seus estudos sobre a história da União Soviética e também por suas obras sobre as relações internacionais. Um de seus livros mais famosos são What is History? de 1962 e 20 Anos de Crise 1919 – 1939, Uma Introdução ao Estudo das Relações Internacionais, produto de analise desta resenha.

A obra 20 Anos de Crise foi publicada em 1939 e foi uma das primeiras obras sobre a ciência das Relações Internacionais publicada. De acordo com o autor, a obra foi escrita “Com o objetivo deliberado de contrariar o notório e perigoso defeito de quase todo o pensamento [...] dos países de língua inglesa sobre a política internacional de 1919 a 1939 – A quase total negligencia ao fator do poder”. A obra em si é a “mais contundente crítica ao liberal-idealismos das relações internacionais”. O livro é constituído por quatro partes mais a conclusão.

No primeiro capítulo, Carr fala sobre como os estudos da política internacional eram, até o fim da primeira guerra mundial, assuntos que interessavam apenas a profissionais engajados, como diplomatas e intelectuais. Depois de 1914, com a guerra atingindo diretamente a todos, houve uma conscientização mais ampla e continua dos problemas internacionais e um receio de haver outros conflitos em razão da má condução das relações internacionais, surgindo uma demanda a criação de uma ciência da política internacional. Assim, para Carr, os estudos mais profundos das relações internacionais surgiram de uma demanda popular. O autor ressalta que a Ciência Política Internacional surgiu assim como as outras ciências, criada para atender aos interesses humanos e atingir um objetivo, passando por uma fase “imatura” da utopia até se mostrar ineficiente e ser corrompida pelo realismo. Destaca também a importância dessa fase utópica no nascimento de uma nova ciência, de uma nova pesquisa. Segundo Carr, o estudo do objetivo e de meios de atingi-lo somente se inicia após a paixão pelos projetos do objetivo desmoronar para dar lugar a racionalidade cientifica. “Há um estágio em que o realismo é o corretivo necessário da exuberância da utopia, assim como em outros períodos a utopia foi invocada para contra-atacar a esterilidade do realismo” (CARR, 1981, pág. 14). (CARR, 2001, págs. 3 a 14)

Neste primeiro capitulo, Carr escreve argumentos bons e fortes – comprovando-os com exemplos históricos e até mesmo de parte cientifica – sobre como as ciências em gerais surgem e da importância da utopia para se chegar a fase realista. Concordo com o autor a visão de que as duas visões juntas (utópica e realista) são essências para a formação de uma nova ciência ou teoria. O homem só estuda aquilo que se tem interesse e/ou necessidade. Naquele momento da história, houve a necessidade e um interesse popular de um estudo mais aprofundado sobre a política internacional, nascendo assim uma nova ciência social.

No terceiro capitulo, Carr destaca a importância que a opinião pública teve após o fim da Primeira Guerra Mundial. O autor cita como o pensamento político utópico surgiu para dar lugar ao pensamento místico medieval, com uma ética universal e sistema político universal baseado na autoridade divina, que vinha sendo destruído. O homem passa a ser capaz de julgar a sua própria ética e moral, a racionalidade humana ganha força, impulsionando também a uma racionalidade humana política, a uma opinião própria da população sobre coisas que antes não eram cabíveis. (CARR, 2001, pág. 33)

Para alguns teóricos, como Bentham, com a racionalidade humana é legitima e de bom senso, dando força a opinião pública que fundamentou a democracia. Para ele, como a opinião pública era a da maioria e era racional, seria então eterna e sempre certa. A ideia da força do pensamento popular foi muito difundida no século XIX, e voltou a ter força em 1914 no campo da política internacional como resultado de uma busca por fundamentos de paz e segurança. Porém, é também neste período que a utopia da política internacional começa a encontrar suas primeiras barreiras, pois o desenvolvimento era incoerente com os seus modelos. A opinião pública, apesar de estar em um momento de destaque, era então uma visão utópica, por não se mostrar eficaz naquilo que pretendia. Esse fato pode ser observado principalmente na Liga das Nações, onde nos acordos as sanções para aqueles países que os desrespeitassem eram descartadas, pois acreditava-se que se a população quisesse a paz, a paz então prevaleceria. Não deve padronizar tratamentos para países tão distintos uns dos outros em vários aspectos. Começa então a haver um conflito entre a teoria e a pratica. O “benthanismo”, a opinião pública, não era por si só capaz de manter a paz. É daí que surge a necessidade de se observar os fatos para encontrar meios de atingir o objetivo da ciência política internacional – manter a paz. O realismo vai dando lugar a utopia. (CARR, 2001, págs. 33 a 55)

A visão de Carr de que a confiar apenas na opinião pública era uma visão utópica, ineficaz e fora da realidade, foi comprovado no mesmo ano em que o livro foi publicado, com o estouro da Segunda Guerra Mundial. O autor teve uma visão certeira do que estava ocorrendo na época e das possíveis consequências disso. A Liga das Nações, a criação de uma instituição internacional livre de sanções mais ‘poderosas’, como sanções econômicas, confiante na opinião pública internacional, não foi por si só capaz de manter a paz mundial e uma das piores guerras da história ocorre pouco tempo depois de sua criação.

No quarto capítulo, o autor fala sobre a harmonia de interesses. Para ele, a ética conduzida pela racionalidade humana conduziu a identificação do interesse individual com o interesse coletivo. Por muito tempo, a harmonia de interesse foi base para a moral. O indivíduo era levado a acreditar que o interesse da comunidade era o seu próprio interesse. A harmonia de interesses era muito forte na economia liberal, “laissez-faire”, afinal o interesse do produtor era o interesse da nação, que era a expansão, assim como no âmbito da economia internacional, onde o interesse da nação seria o interesse de todas as nações e também, é claro, na política internacional, ainda acreditava-se na harmonia de interesses nesse campo, mesmo a Primeira Guerra Mundial tendo mostrado que os interesses dos países divergem em muitos aspectos. Porém, essa ideia era extremamente desfavorável aos países fracos. Ela confundiu-se com o darwinismo político para explicar que os mais aptos promoviam o bem internacional, logo, também para si próprio. Os realistas criticam fortemente a harmonia de interesses. Para eles, era apenas uma forma de grupos privilegiados de se manterem no poder. (CARR, 2001, págs. 57 a 83)

Em síntese, o capitulo 4 traz argumentos que sustenta a queda e a falha do pensamento utópico. Mostra como a harmonia de interesses é falha para compreender as relações internacionais. Carr se mostra contra essa perspectiva e deixa aparecer uma inclinação para a doutrina realista.

No capítulo 5, Carr pretende fazer uma critica ao realismo, porem se mostra ainda mais inclinável a essa doutrina e por fim critica mais a utopia do que o realismo. O realismo surge na Ciência Política Internacional como reação a utopia já em declínio e descredito quanto ao pensamento político. Carr cita vários filósofos políticos para dar características ao realismo. Para Maquiavel, o realismo prende-se a analise descritiva, é determinista. Segundo Carr, o determinismo confere uma rigidez na origem, na causa dos fatos, porém ao mesmo tempo concede relativismo as circunstâncias e ao pensamento, consequentemente.

Para os realistas, a ética vem da política. O pensamento é intencional formulado para atingir um objetivo ou adaptar o pensamento a política que se deseja seguir. Carr fala novamente sobre como a utopia está entrando em declínio. O sistema internacional já não se curvava a opinião pública. A utopia de Bentham cegou os teóricos de política internacional e os estadistas, e posteriormente se mostrou falha, sendo incapaz de manter a paz, mostrando sua insuficiência para a condução da política internacional, pois é inadequado a realidade. (CARR, 2001, págs. 85 a 115)

No sexto capítulo, Carr dá argumentos sobre como o realismo sozinho também não é auto suficiente para se entender a política. Assim como a utopia, possui limitações. O realismo puro, rígido por seu determinismo, impossibilita projeções necessárias a continuidade do pensamento e da ciência. Ele aceita a história, não contestando-a, fazendo com que não haja avanço no pensamento. Essa estagnação conduziria e uma ideia inaceitável de que a humanidade e a política, o pensamento e a história são imutáveis, mesmo que haja influencia racional humana em seu meio. Portanto, é necessário que por vezes a visão utópica se misture com a visão realista para dar continuidade histórica. Carr então conclui que são essas duas doutrinas, utopia e realismo, que formam a política. “A política é composta de dois elementos – utopia e realidade – pertencentes a dois planos diferentes que jamais se encontram.” (CARR, 2001, pág. 123) (CARR, 2001, págs. 117 a 125)

Nesse capitulo, Carr volta ao seu argumento inicial de que a fase utópica em uma nova pesquisa é necessária para impulsiona-la, para depois dar lugar ao realismo. Comprova ao longo da obra como essas duas visões devem andar juntas para formar a política, sustentando seus argumentos para essa teoria no ultimo capitulo analisado.

Em uma visão geral, Carr escreve uma obra de difícil compreensão, que exige atenção, dando claras explicações e fortes argumentos para suas opiniões. Apesar de tentar se manter imparcial durante os textos, o autor apresenta uma forte inclinação a doutrina realista, em detrimento da utopia e todos os pensamentos que seguiam essa doutrina, como a opinião pública e a harmonia de interesses. “O real significado da atual crise internacional é o colapso de toda a estrutura utópica, baseada no conceito da harmonia de interesses.” (CARR, 2001, pág. 83). Apesar disso, defende a ideia de que as duas doutrinas separas não são suficientes para a Ciência Política Internacional. Apenas juntas é que formam política e podem analisar as relações internacionais.



Referências bibliográficas
AGUIAR, Dayanne; ESPÍNDOLA, Fábio; LINS, Helena; MACIEL, Carlos; SILVA, Flaviano; SILVEIRA, Arthur. Resenha: E.H. Carr – 20 anos de crise. Universidade Federal de Pernambuco. Novembro de 2010. Disponível em: . Acesso em: 11 de abr de 2015.
CARR, Edward Hallett. 20 Anos de Crise 1919 – 1939: uma introdução ao estudo das relações internacionais. Brasília, DF, editora Universidade de Brasília, 2ª edição, setembro, 2001.305p.
Spartacus Educational. E. H. Carr. Spartacus Educational, Historians, 2015. Disponível em: < http://spartacus-educational.com/JcarrEH.htm >. Acesso em: 11 de abr de 2015.
Wikipédia. Edward Hallett Carr. 27 de junho de 2014. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Hallett_Carr >. Acesso em: 11 de abr de 2015.

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