E o ensino da cultura moral e cívica cristiane Silva Mélo Najla Mehanna Mormul Maria Cristina Gomes Machado Universidade Estadual de Maringá (uem)



Baixar 76.42 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho76.42 Kb.


RUI BARBOSA E A EDUCAÇÃO: AS LIÇÕES DE COISAS E O ENSINO DA CULTURA MORAL E CÍVICA
Cristiane Silva Mélo

Najla Mehanna Mormul

Maria Cristina Gomes Machado

Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Este trabalho discute as idéias educacionais de Rui Barbosa (1849-1923) ao apresentar o debate realizado pelo autor acerca das Lições de Coisas e do ensino da cultura moral e cívica no Parecer-Projeto Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública (1981), elaborado, no ano de 1883, em resposta ao Decreto nº. 7.247, de 19 de abril de 1878, de autoria do ministro Carlos Leôncio de Carvalho (1882), que propunha naquele momento uma reforma na área do ensino primário e secundário do município da corte, cidade do Rio de Janeiro, e do ensino superior em todo o país.

Nesta discussão, busca-se a compreensão da posição de Rui Barbosa à condição de favorável à implantação, nas escolas primárias da capital do Império, das Lições de coisas como método a ser utilizado pelos educadores e do ensino da cultura moral e cívica, visto como importante à formação das crianças para a vida em sociedade. Para tanto, indaga-se sobre o conteúdo, o papel e a utilidade das Lições de Coisas e do ensino da cultura moral e cívica expressos pelo autor em seu Parecer-Projeto na defesa da idéia de serem elementos indispensáveis à constituição do programa escolar do ensino primário elementar público.

O texto encontra-se dividido em duas partes. O primeiro momento remete-se a uma discussão sobre Rui Barbosa e a educação, sendo este autor considerado por muitos estudiosos, como um importante intelectual que contribuiu consideravelmente na definição de significativos projetos da sociedade brasileira ao participar ativamente da política nacional. No segundo, discutem-se os pensamentos de Rui Barbosa sobre a questão das Lições de Coisas e do ensino da cultura moral e cívica na formação dos indivíduos para o meio social.


1. Rui Barbosa e a educação
Rui Barbosa (1849-1923) formou-se em Direito, pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1870. Exerceu diversas atividades profissionais ao longo de sua carreira, sendo advogado, político, parlamentar, jurista, jornalista e, também, durante um curto período, professor de um Curso de Alfabetização de Adultos. Foi candidato à presidência da República em 1909 e 1919, contudo não obteve êxito nessas eleições. Ocupou o cargo de vice-presidente do país no Governo de Deodoro da Fonseca entre o período de Dezembro de 1889 à Agosto de 1890.

Uma vasta quantidade de obras de Rui Barbosa foram publicadas. Ele escreveu livros, artigos jornalísticos, textos de cunho político e jurídico que consistem em valorosos materiais à história do país e à historiografia da educação brasileira. Cabe destacar a importância atribuída às contribuições de Rui Barbosa à escrita da Primeira Constituição Republicana do Brasil (1891) tendo sido o autor um dos maiores articulistas desse texto constitucional.

Rui Barbosa enxergou a educação como um elemento indispensável ao progresso da sociedade brasileira. Discutiu o tema em diversas conferências realizadas no parlamento e em suas campanhas políticas, pois, considerava a educação um assunto de primeira ordem a ser debatido em conjunto com outras questões sociais, a entendia inserida num processo civilizatório necessário a todas as nações que buscavam desenvolvimento industrial e modernização.

A educação também foi um tema debatido pelo autor em diversos artigos publicados em jornais. A imprensa para Rui Barbosa além de informativa possuía um importante caráter formativo, contribuía decisivamente na formação da opinião nacional, nesse sentido, em seus escritos jornalísticos, ele defendeu enfaticamente suas idéias na conquista de adeptos. Colaborou em muitos jornais, promovendo campanhas a diversas causas. Em 1889, no jornal “Diário de Notícias”, Rui Barbosa, por sua vez, hasteou a bandeira da “federalização das províncias”, que acabou por contribuir para com o fortalecimento do ideário republicano no último ano em que vigorou o regime monárquico. O autor foi um destacável defensor da República federativa, não era contra o regime imperial, mas, acreditava que a organização política do país devia seguir uma constituição que não centralizasse o poder, mas que possibilitasse acima de tudo a liberdade, e esta não deveria ser limitada aos ideários de poucos. No Diário de Notícias, ele discutiu, ainda, assuntos relacionado ao ensino público e privado, defendendo a ação do Estado para com a oferta da educação à população brasileira e para o desenvolvimento científico do país. Ele considerou a imprensa um importante órgão educativo, para Rui Barbosa:


[...] [a imprensa] podia contribuir na organização da sociedade ao possuir poder de influenciar cidadãos, tinha papel fundamental na formação da opinião nacional e era um elemento que propiciava a difusão da cultura letrada no país, possibilitando a muitos indivíduos um meio de, em contato com jornais, entrar no mundo da leitura e escrita. Sob esta perspectiva, os veículos de imprensa podiam “educar” a opinião pública, colaborar no desenvolvimento da educação e contribuir para a “civilização” da sociedade. (MACHADO; MELO, 2007, p. 185)
Rui Barbosa considerava a educação necessária ao progresso do país, sendo uma das alavancas ao desenvolvimento industrial na medida em que poderia preparar trabalhadores para as novas relações de trabalho que se desenvolvia com o avanço da industrialização e implantação das condições de trabalho assalariado. Contudo, era somente em conjunto com outras reformas, como a mudança no sistema político, com a passagem do regime imperial ao republicano, e como as mudanças nas relações sociais e de trabalho, como a passagem do trabalho escravo para o livre, que a educação contribuiria com eficácia ao progresso da nação. Discutiu, portanto, mudanças nas relações de trabalho, modernização da sociedade civil, questões polêmicas como o incentivo à industrialização, a abolição, a imigração, a questão eleitoral, a separação da Igreja e do estado, o casamento civil, a secularização dos cemitérios, entre outros (MACHADO, 2002).

A educação em sua concepção era um elemento importante na formação de “eleitores inteligentes”, na preparação de cidadãos conscientes de seus deveres para com a pátria na responsabilidade da garantia do exercício de seus direitos civis, sobretudo do voto, na constituição da cidadania.

Pelos benefícios que a educação podia proporcionar ao país e à população nacional Rui Barbosa destacou ser o Estado o órgão responsável pela oferta de educação a todos os indivíduos. O Estado devia assumir, sobretudo, o ensino público oportunizando à população brasileira o acesso à uma educação de qualidade. Ele defendeu um ensino público, gratuito, obrigatório e laico sem intervenção efetiva de religiões.

Denunciou em diversos momentos o descaso com que muitos ministros tratavam assuntos relacionados ao ensino público do país, responsabilizou os políticos ao afirmar que a educação possuía inúmeros problemas pelo fato de não ser realizada reformas significativas na área de ensino.

Em seu entendimento, muitos eram os governantes que discutiam propostas, porém consideravam de maneira superficial os problemas que o ensino possuía em seus diversos níveis. As mudanças propostas para o ensino geralmente não saiam do papel, e muitas ficavam apenas no discurso, não eram colocadas em prática e isso acorria devido ao fato desses governantes não tomarem consciência da importância da educação na constituição da sociedade brasileira, acabavam por se preocuparem mais com assuntos individuais partidários do que com assuntos de interesse da população a qual servia.
De atestar que a educação é a matriz universal da felicidade humana, qualquer estadista nosso se honraria; mas transportem-se da retórica aos fatos, e verão que a frase não passa de um desses alforismos convencionais, de mero aparato decorativo na eloqüência dos oradores, e simples engodo na boca dos políticos, para armarem às simpatias de opinião, a quem são sempre aceitas as causas nobres, os sentimentos generosos. O de que precisamos, é de homens de estado, que se convençam efetivamente de que a suprema necessidade atual da pátria está na criação do ensino (BARBOSA, IX, I, p. 147-48)
Uma reforma na área do ensino público, era na visão de Rui Barbosa, uma necessidade urgente no final do século XIX, a sociedade passava por significativas transformações, tornando-se a educação um elemento importante na definição de novos rumos. “Quanto à reforma da instrução pública, para mim para nós, democratas, é o germe e a seiva, a base e o fastígio, o alfa e o ômega, o princípio e o fim de tudo.” (BARBOSA, IX, II, p. 41)

A Reforma no ensino era a primeira de muitas mudanças que deveria ocorrer para o desenvolvimento social, ela proporcionaria efeitos positivos à economia do país, uma vez que os indivíduos instruídos poderiam ter ações efetivas conscientes na sociedade, “preparados” contribuíram para com a organização e desenvolvimento das indústrias, em colaboração à produção de produtos nacionais para o consumo interno da população e para exportação a outras nações, na geração da economia nacional e mundial, condição favorável, na visão de Rui Barbosa, à elevação do Brasil aos grupos dos países mais industrializados da época.


O primeiro ponto de partida das boas finanças é o derramamento do ensino, a cultura extensiva e intensiva da mentalidade nacional. A base de todo cálculo financeiro está na produção; e a produção, é, no sentido mais científico, mais real, mais prático da palavra, é, para nos servirmos da expressão de Horace Mann, “obra da inteligência”. Todos abstratamente estão dispostos a render homenagem a esta verdade; mas quase ninguém, neste país, lhe é fiel, ou sequer a compreende. (BARBOSA, IX, I, p. 148)

A educação no século XIX foi, sobretudo, privilégio de poucos. Rui Barbosa destacou, naquele momento, a necessidade da expansão do ensino público, tornando-se necessário que fossem construídos novos prédios escolares. Estes deveriam ser equipados com bons materiais educativos e competentes profissionais do ensino, para a educação de todos os indivíduos independente de suas condições econômicas.

Acreditava que o Estado devia fundar escolas suficientes e obrigar os pais a matricularem os filhos (MACHADO, 2002), pois, muitos não compreendiam ainda a necessidade da instrução na formação social das crianças, era grande no momento a quantidade de pessoas analfabetas, e segundo o autor isto dificultava os indivíduos reconhecerem a ação benéfica da educação à formação para a vida. .

Foi como membro da Comissão de Instrução Pública da Câmara dos Deputados que Rui Barbosa elaborou seus “Pareceres sobre educação”, Reforma do Ensino Secundário e Superior (BARBOSA, 1942), em 1882, e a Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública (BARBOSA, 1981), em 1883, nos quais apresentou enfáticas discussões sobre as instituições educacionais na defesa da idéia da necessidade de realização de mudanças profundas nos níveis de ensino primário, secundário e superior do país.

Nos Pareceres o autor destacou o ensino das ciências como fundamental à formação dos indivíduos, sendo imprescindível ao desenvolvimento econômico do país. Defendeu a necessidade de maiores investimentos do governo na área da educação e para o incentivo do desenvolvimento científico.

Pode-se considerar os Pareceres de Rui Barbosa importantes fontes para a história das instituições escolares no Brasil, por estes apresentarem o debate do autor acerca da organização das instituições escolares voltadas à educação das classes populares, este assunto foi polemicamente bastante discutido no século XIX, época em que as instituições escolares foram concebidas como um ambiente abrangente e acolhedor em que todas as classes encontrar-se-iam se em fraternidade, obtendo as mesmas oportunidades e possibilidades de aprendizagem e sucesso. (MACHADO, 2004)


2. Rui Barbosa: as lições de coisas e o ensino da cultura moral e cívica
Em 1886, foi publicada no Rio de Janeiro a versão de Rui Barbosa sobre a obra de Alison Calkins (1886) intitulada “Primary Object Lesson”. Primeiras Lições de Coisas foi uma das obras de educação mais extensas publicadas por Rui Barbosa. Ele adaptou à linguagem nacional as idéias de Calkins com intuito de propagar o método intuitivo, que concebia como eficaz na formação geral dos indivíduos, sobretudo na preparação para a vida em sociedade.

Rui Barbosa criticou os métodos de ensino existentes, entendendo-os como empecilhos na formação dos alunos, por se caracterizarem como métodos mecânicos que apenas tornava os alunos hábeis decoradores no desenvolvimento de um uma memória “servilizada” a conceitos impostos que, também, em sua concepção não condiziam com preceitos científicos que os indivíduos verdadeiramente deveriam aprender. No Prefácio (BARBOSA, 1886, p. VI) à tradução da obra de Calkins, escreveu:


De feito, o que até hoje se distribui em nossas escolas de primeiras letras, mal merece o nome de ensino. Tudo nelas é mecânico e estéril; a criança, em vez de ser o mais ativo colaborador na sua própria instrução, como exigem os cânones racionais e científicos do ensino elementar, representa o papel de um recipiente passivo de formulas, definições e sentenças, embutidas na infância a poder de meios mais ou menos compressivos. O mestre e o compedio afirmam, o aluno repete com a fidelidade do autômato; e o que hoje aprendeu, sem lhe deixar mossa mais que memória, amanhã desabara, sem vestígios, na inteligência, ou no caráter, da mínima impressão educativa.
Ele defendeu, em seu Parecer-Projeto sobre a Reforma do Ensino Primário, em 1883, veementemente uma reformulação para instrução escolar pautada na adoção de um novo método de ensino, enfatizou o uso dos sentidos para uma boa aprendizagem. Assim, desprezou tudo o que era usado e praticado até então: “Estudai os processos da classe de primeiras letras entre nós, e achareis em espírito e ação o mesmo regímen educativo, contra o qual, há mais de três séculos, se revolta a inteligência humana: o ensino vão, abstrato, morto, de palavras, palavras e só palavras”. (BARBOSA, 1981, p. 199). Rui Barbosa em seu Parecer-Projeto elevou o método intuitivo como o elemento mais formidável de toda a reforma. No momento, em diversos países o método intuitivo era discutido por intelectuais como eficaz na solução dos problemas de ensino, foi visto como um importante recurso didático para um melhor aproveitamento da aprendizagem de conteúdos pelo aluno.
Em meados do século XIX, o método intuitivo é entendido por seus propositores europeus e americanos como um instrumento pedagógico capaz de reverter à ineficiência do ensino escolar, que é assim pontuada: forma alunos com domínio insuficiente de leituras e escrita e com noções de calculo insatisfatórias, principalmente pelo fato de alicerçar a aprendizagem exclusivamente na memória, priorizar a abstração, valorizar a repetição em detrimento da compreensão e impor conteúdos sem exame e discussão”. (VALDEMARIN, 2004 p.103).
“Primeiras Lições de Coisas”, consistia, nos anos finais do Império, em um manual de ensino elementar destinado à utilidade de professores e pais na educação das crianças. Foi uma obra aprovada, por unanimidade, pelo Conselho Superior da Instrução Pública da Bahia e pelo Conselho Diretor da Corte, sendo adotada pelo Governo Imperial para o uso dos educadores nas escolas primárias.

Rui Barbosa dedicou a tradução do livro ao seu pai Dr. João José Barbosa de Oliveira apresentando as palavras “Convosco aprendi a amar e compreender a santa causa do ensino.” (BARBOSA, in: CALKINS, 1886, p. I). As lições de coisas influenciou decisivamente a pedagogia brasileira, repercutiu efeitos à área educacional e a própria atividade de Rui Barbosa, sendo este um dos maiores defensores do método intuitivo no país. Lourenço Filho (1966, p. 86) destaca que as Lições de Coisas:


[...] não representou [...] na obra pedagógica de Rui, acidente passageiro ou esforço disperso. Pelo contrário, nela teve função proeminente, se não fundamental. Na cronologia da produção, é o primeiro mais extenso trabalho de educação, se sua lavra; pela data de publicação, o último. Em todos os anos em que, mais direta e intensamente, teve a sua atenção voltada para as coisas do ensino, a obra assim o acompanhou, assim lhe prendeu o espírito às cogitações não apenas de renovação de quadros e instituições pedagógicas, de programas ou de conteúdo, mas, às da reforma do método.
A obra traduzida por Rui Barbosa veio atender a área educacional brasileira no momento, que se encontrava tomada por ares de renovação. As lições de coisas, apresentada por Calkins, já estava sendo discutida em muitos países como uma significativa obra a ser aderida pelos educadores; a idéia de se traduzir a obra em diversas línguas foi vista como indispensável, sendo necessário propagar o conhecimento sobre método intuitivo à diversas localidades.
O manual de Calkins foi apresentado na Exposição Universal da Filadélfia, realizada em 1876, recomendado por Ferdinand E. Buisson, em seu relatório ao governo francês como a melhor coleção de lições de coisas já elaborada, motivando numerosas traduções, além da língua portuguesa, destacando-se uma versão japonesa em 1877 duas versões para o espanhol em 1872 e1879. (VALDEMARIN, 2004, p.118 grifo nosso).
No Brasil, pregavam-se mudanças no ensino de modo a atender as reformas almejadas pelo governo pelo Decreto nº. 7.247 de 1879. Este regulamento estabeleceu oficialmente pela primeira vez no ensino primário do país as “noções de coisas”, mas é importante frisar que antes deste momento já se percebia nas discussões de alguns intelectuais o assunto “método intuitivo”, debatiam-se questões relacionadas à educação na proposta de mudanças no ensino e renovação educacional.
As lições de coisas, forma pela qual também foi vulgarizado o método intuitivo, forma preconizadas, pela primeira vez na legislação brasileira através da reforma liberal Leôncio de Carvalho, em 1879. No entanto, é importante salientar que o método já havia sido anunciado em algumas iniciativas educacionais, trazendo à tona os intelectuais vinculados a elas e evidenciando o seu papel de destaque no movimento de renovação pedagógica que se instaura no país a partir da década de 1870. A historiografia educacional tem oferecido significativas contribuições acerca dessas iniciativas e desses intelectuais, tanto no âmbito da instrução pública como no da particular, durante a década de 1870. (SCHELBAUER, 2003, p.83)
Destaca Schelbauer (2005) que, na segunda metade do século XIX, o método intuitivo foi concebido como o mais adequado à instrução das classes populares, tendo sido propagado na realidade do Brasil por muitos intelectuais ilustrados, por homens públicos, juristas, reformadores, diretores, professores e proprietários de escolas. O método foi um dos principais elementos da renovação educacional proposta por tais intelectuais sendo debatido em projetos de reforma, em pareceres, em conferências pedagógicas e experiências educacionais vinculadas a ações governamentais e particulares na tentativa de modificarem a realidade da nação pela educação. (SCHELBAUER, 2005). Rui Barbosa recorria ao método intuitivo como o ideal a substituir os métodos de ensino existentes no momento, informava que mudanças nos métodos utilizados por educadores ocorriam em todo o mundo. Citava que diversos países estavam por descartar métodos concebidos como tradicionais na implantação de uma nova metodologia que valorizasse o indivíduo em seu processo de aprendizagem bem como a formação reflexiva do aluno e não somente o desenvolvimento de sua habilidade de memória.
Esses métodos empecivos e funestissimos incorrem hoje na mais geral condenação; e a experiência dos paises modelos indigita as lições de coisas, o ensino pelo aspecto, pela realidade, pela intuição, pelo exercício reflexivo dos sentidos, pelo cultivo complexo das faculdades de observação, como o destinado a suceder triunfantemente aos processos verbalistas, ao absurdo formalismo da escola antiga. (BARBOSA, 1886, p. VII, grifos do autor)

O método intuitivo e Lições de Coisas foi destacado por Rui Barbosa em seu Parecer-Projeto Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública como método a ser adotado pelos educadores nas instituições educativas primárias no ensino de todas as disciplinas. Afirma o autor a urgência de mudanças no sistema de ensino:


Cumpre renovar o método, orgânica, substancial, absolutamente, nas nossas escolas. Ou antes, cumpre criar o método; porquanto o que existe entre nós, usurpou um nome, que só por antífrase lhe assentaria: não é o método de ensinar; é pelo contrario, o método de inabilitar para aprender. A criança, esse belo organismo, animado, inquieto, assimilativo, feliz, com os seus sentidos dilatados pela viveza das impressões como amplas janelas abertas para a natureza, com a sua insaciável curiosidade interior a atraí-la para a observação dos fenômenos que a rodeiam, com o seu instinto investigativo, com a sua irreprimível simpatia pela realidade com a sua espontaneidade poderosa, fecunda, criadora, com a sua capacidade incomparável de sentir a amar “o divino prazer de conhecer”, a criança, nascida assim, sustentada assim pela independência dos primeiros anos, entra para o regime da escola, como flor, que retirassem do ambiente enérgico e luminosos do céu tropical, para experimentar na vida vegetativa da planta os efeitos da privação do sol, do ar livre, de todas as condições essenciais à natureza da pobre criaturinha condenada. (BARBOSA, 1981, p.33-34)
Ele se posicionou a favor do Decreto de Leôncio de Carvalho que propôs a adoção das lições de coisas nas escolas, divergindo apenas em um aspecto: quanto à idéia de implantação das lições de coisas como disciplina. O Decreto previa em seu artigo 4º, que o ensino nas escolas primárias do 1º grau do município da Corte constaria das disciplinas: noções de coisas, instrução moral, instrução religiosa, noções essenciais de gramática, leitura, escrita, princípios elementares de aritmética, sistema legal de pesos e medidas, noções de história e geografia do Brasil, elementos de desenho linear, rudimentos de músicas, com exercício de solfejo e canto, ginástica e costura simples para as meninas (CARVALHO, 1942, p. 276). Rui Barbosa acreditava que as lições de coisas deveria ser tomada como método de ensino e não como disciplina:
Bem procedeu, portanto, o decreto de 19 de abril, introduzindo na escola popular as lições de coisas.

Desacertou, porem, indigitando-as como capítulo singular, distinto, independente entre as matérias do programa. Nada contribuiria mais para inutilizar de todo essa inovação, para a levar a uma degenerescência imediata, do que uma especialização tal, que parte da compreensão imperfeita da natureza deste ensino. A lição de coisas não é um assunto especial no plano de estudos: é um método de estudo; não se circunscreve a uma secção do programa: abrange o programa inteiro; não ocupa, na classe, um lugar separado, como a leitura, a geografia, o cálculo, ou as ciências naturais: é o processo geral, a que se devem subordinar todas as disciplinas professadas na instrução elementar. No pensamento do substitutivo, pois, a lição de coisas não se inscreve no programa; porque constitue o espírito dele; não tem lugar exclusivo no horário: preceitua-se para o ensino de todas as matérias, como o método comum, adaptável e necessário a todas. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 214-215, grifos do autor)


As Lições de Coisas foi enfatizada por Rui Barbosa como o método apropriado ao ensino dos conteúdos escolares, sendo um conjunto de assuntos indispensáveis ao conhecimento do educador para o exercício da profissão docente. Rui Barbosa afirmava que as “lições de coisas” não devia ser concebida como disciplina específica, tratava-se de um significativo fundamento teórico - metodológico no ensino de todas as disciplinas nas diversas áreas do conhecimento. As lições de coisas, portanto, deveria perpassar por todas as disciplinas, por todos os conteúdos, sobretudo, na transmissão dos conteúdos científicos úteis à vida do indivíduo para sociedade.

Era o método que atendia aos anseios humanos de “curiosidade” de aprender. Os métodos existentes até então consistiam em métodos repetitivos, que apresentava um ensino mecânico de conteúdos, não contribuindo na formação reflexiva do indivíduo. Segundo Rui Barbosa, era preciso considerar que ao nascer a criança possuía a habilidade e a capacidade de aprender, a curiosidade era, portanto, algo natural que deveria ser estimulada em benefício ao desenvolvimento da capacidade assimilatória da criança, indivíduo sempre em disposição a assimilar informações novas adicionando-as às conceitos que já possuíam. O educador devia, portanto, “aproveitar” a pré-disposição da criança em aprender, tornar proveitoso o momento de aprendizagem da criança em relação ao conhecimento de assuntos novos, estimulando-a a apreender conteúdos úteis à vida em sociedade oportunizando o contato com conhecimentos científicos.


No caminho que a própria criança costuma seguir, examinando os vários objetos que derredor se lhe deparam, está ensinando a natureza mesma o verdadeiro plano para a realização desse desejável propósito. Aproveite-se o educador dessa sede de saber do menino, e induza-o a exercer os sentidos em cada objeto que sucessivamente se lhe oferecer, vendo apalpando, ouvindo, saboreando, ou cheirando, conforme couber. Esse método por onde a natureza ensina; e o homem ainda não foi dado excede-lo. Pelo emprego das faculdades perceptivas nas realidades que o cercam, junta o menino, de si mesmo, antes de ir a escola, um copioso pecúlio de idéias. (BARBOSA, 1886, p. 4-5)
Rui Barbosa (1886) defendeu ser necessário conhecer primeiramente as condições de aprendizagem das crianças, a natureza da criança, seus modos naturais de desenvolvimento, para que se pudesse agir sobre seu processo de aprendizagem, considerando o fato de ser pelo sentido que a criança conhecia o mundo material. Sobre os princípios das Lições de Coisas e método intuitivo, recorre-se aos apontamentos de Rui Barbosa (1886, p. 1-3, grifos do autor) que destacou:
O Primeiro passo preparatório para a educação de crianças convém que seja estudar a natureza do espírito e sua condição na puerícia, seus modos naturais de desenvolvimento e os processos melhor adaptados a disciplinar-lhe acertadamente as faculdades. Obtidas essas noções, fácil empenho será o afeiçoar de acordo com elas o ensino. Como intróito a essa diligencia preliminar, indicaremos alguns fatos, que lhe sirvam de base.

  1. É pelos sentidos que nos advém o conhecimento do mundo material. Os primeiros objetos onde se exercem as nossas faculdades, são as nossas faculdades, são as coisas e os fenômenos do mundo exterior.

  2. A percepção é a primeira fase da inteligência; e, pois, de ver está que a educação há de começar pela cultura das faculdades perceptivas. Consiste principalmente essa cultura em proporcionar ocasiões e estímulos ao desenvolvimento delas, e fixar as percepções nos espíritos pelos meios representativos, que a palavra nos subministra.

  3. A existência de uma noção no espírito nasce da percepção das semelhanças e diferenças entre os objetos. Os conhecimentos avultam em proporção do talento crescente de discernir as afinidades e dissemelhanças, assim como da capacidade progressiva de associas e classificar as coisas, experiências e fatos que uns com os outros se aparentam.

  4. Todas as faculdades medram, e robustecem a poder de exercício adequado; correndo o risco de se debilitarem, se as sobrecarregamos, ou se as aplicamos a matérias que não estejam naturalmente ao seu alcance.

  5. Algumas das energias mentais são tão ativas e quase tão vigorosas no menino, quanto no homem: tais a sensação, a percepção, a observação, a comparação, a simples retentiva e a imaginação. Outras não chegam ao seu desenvolvimento cabal, antes que a criança toque o período de madureza. Entre estas a razão, a memória filosófica e a generalização.

  6. O mais natural e saudável incentivo para obter, entre crianças, a atenção e a aquisição de conhecimentos, é associar a recreação ao ensino. A curiosidade, ou desejo de saber, e o amor do maravilhoso são grandes princípios atuantes na infância, cuja satisfação traz sempre emoções deleitosas. Possuem as crianças uma nativa avidez de ciência e atividade. Um dos seus prazeres está no acertar. Outro poderoso agente de instrução vem a se a confiança no próprio esforço.

  7. É do bom ensino o inspirar contentamento ‘a infância; e, onde isso não se verifica, algum vício há, seja no modo de expor, seja na própria natureza do assunto, que se escolheu para objeto da lição.

  8. Os hábitos de atenção firme são permanentes mananciais de educação intelectual. Ora, os hábitos adquirem-se pela reiteração do mesmo ato. Mas o grande segredo, para fixar a atenção das crianças, está em aguçar-lhes a curiosidade, e satisfazer-lhes o amor de atividade, em temperar o ensino com associações que o amenizem, e fugir de sobrecarregar-lhes jamais as faculdades, tendo-as por demasiado tempo concentradas no mesmo alvo.

  9. O processo natural de ensinar parte do simples para o complexo; do que se sabe, para o que se ignora; dos fatos, para as causas; das coisas, para os nomes; das idéias, para as palavras; dos princípios, para as regras.”

Para Rui Barbosa (1886), a percepção seria a primeira fase da inteligência, sendo o estímulo a esta percepção o ponto determinante para possíveis desenvolvimentos posteriores que a criança pudesse alcançar. A curiosidade, o desejo de saber, e o amor pelo belo apresentados pela criança, como habilidades naturais, eram grandes princípios que atuavam na infância, as crianças possuíam uma predisposição ao conhecimento da ciência e para atividades, era preciso aguçar suas curiosidades.

O processo natural de ensinar partia do “simples para o complexo”; “do que se sabe para o que se ignora”; “dos fatos, para as causas”; “das coisas, para os nomes; das idéias, para as palavras; dos princípios, para as regras.” (BARBOSA, 1886, p. 3) Os sentidos forneciam ao “espírito” meios de comunicação com o mundo exterior, era por intermédio das sensações pela percepção que o homem possuía o entendimento e o conhecimento de mundo, a percepção levava às concepções (idéias), que a memória retinha. (BARBOSA, 1886, p. 4) O princípio era estudar os objetos, passar dos objetos às palavras, e então ensinar os símbolos representativos, ou os sinais, das coisas. A aprendizagem se dava, sobretudo, pela experiência por meio da intuição dos sentidos. Sobre o método intuitivo Valdemarin (2006, p. 92-93) assegura:
Esse novo método pode ser sintetizado com dois termos - “observar” e “trabalhar” -, segundo os autores, já aceitos por todos. Observar significa progredir da percepção para a idéia, do concreto para o abstrato, dos sentidos para a inteligência, dos dados para o julgamento. Trabalhar implica a adoção de uma descoberta genial creditada a Froebel, que consiste em fazer do ensino e da educação na infância uma oportunidade para a realização de atividades concretas, similares àquelas da vida adulta. Aliando observação e trabalho numa mesma atividade, o método intuitivo pretende direcionar o desenvolvimento da criança de modo que a observação gere o raciocínio e o trabalho prepare o futuro produtor, tornando indissociáveis pensar e construir. (VALDEMARIN, 2006, p. 92-93)

O método intuitivo foi interpretado por Rui Barbosa como o ideal a ser aplicado nas escolas, nesse sentido, ele defendeu, em seu Parecer-Projeto sobre o Ensino Primário, ser necessário que os professores se capacitassem e conscientizassem da importância do método para a aprendizagem das crianças. Deviam conhecer profundamente os fundamentos que acreditava indispensável à oferta de uma de uma boa educação.


Para os professores educados sob o regimen das antigas tradições escolares, é extremamente difícil a prática deste gênero de ensino; porquanto, alem da boa vontade do mestre, “ele requer muita experiência, flexibilidade de espírito e grande senso pedagógico. Não se trata mais de ensinar, e fazer recitar uma lição; trata-se, em relação a cada professor, de combinar ele mesmo o seu programa, segundo as necessidades dos seus alunos, e, depois, de executa-lo por um contínuo dispêndio da sua própria pessoa, por uma justa seleção de meios variados, apelando alternativamente para a imaginação, para o raciocínio, para o juízo, para a memória, para os sentidos, para a reflexão” (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p.210-211)
As lições de coisas para Rui Barbosa, tinha por objetivo cultivar nas crianças suas capacidades perceptivas, assimilando a suas mentes a arte de observar, desenvolvendo a inteligência. O professor deveria estimular a aprendizagem das crianças por meio do sentido, sendo um atuante ativo no processo de aprendizagem do aluno.
Desenvolvendo no aluno a invenção, a liberdade de espírito, a independência do juízo, a prontidão na observação, a exação no apreender, a correção no expor, a lição de coisas, sob a sua direção eurística, sob a sua forma socrática, estimulando vivamente no discípulo a ação e evolução das forças individuais, requer, ao mesmo tempo, no mestre, mais vida, mais tato, mais dutilidade, mais presença de espírito, mais benevolência de ânimo, mais recursos intelectuais, – em suma, um esmerado cultivo da vocação pedagógica.” (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p.213)

Ao professor caberia identificar a habilidade assimilatória do aluno e seu nível de conhecimento sobre os conteúdos escolares para intervir com eficácia no ensinamento de novos conteúdos. Era preciso considerar o processo de desenvolvimento mental do aluno para estabelecer estratégias de ensino que possibilitassem sua aprendizagem. Para tanto, era importante a fundamentação teórica de uma metodologia especializada, no caso, o conhecimento sobre o método intuitivo para o ensino nas escolas.


Senhor da ciência de ensinar ninguém o é, enquanto não haja adquirido perícia tal, que o habilite a averiguar rapidamente, não só o que o menino sabe de qualquer assunto, senão também das noções que possua, quais as que compreendeu claramente, quais as que ficaram indecisas, assim como as medidas que caiba adotar, e sua respectiva ordem, para a justa compreensão do assunto. Cumpre, outrossim, que o mestre seja capaz de discriminar, nos métodos de ensino, pelos seus resultados unicamente, os pontos defeituosos, e engenhar prontamente alvitres, que reparem esses defeitos. (BARBOSA, 1886, p. 12).
As lições de coisas na concepção de Rui Barbosa deveria ser o método a ser adotado no ensino da cultura moral. Para o autor, o ensino da moral era importante no programa escolar visto ser um ensino que proporcionaria a formação humana e social dos indivíduos para a vida em sociedade.
Pela intuição se há de ensinar o desenho como a geografia, o cálculo como a gramática, as ciências da natureza como o uso da palavra. O próprio ensino moral cabe naturalmente a sua esfera. E a memória mesma, cujo cultivo exclusivista era o flagelo dos métodos antigos, a memória mesma encontra nos métodos intuitivos a sua educação normal e completa. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 216).
O ensino da moral era o remédio e prevenção contra as indigências e a criminalidade. Era preciso educar a criança deste o nascimento nos ensinamentos de boas atitudes, modos e regras importantes para o convívio social.
Comece essa educação bem cedo, na casa paterna. Em principiando a se revelar no menino o senso moral, é para logo encaminhá-lo, educando-o. As impressões que mais duram, e mais fundo se enraízam , são essas cuja origem nos esqueceu, e embebemos inconscientemente quando as crianças. Nesse período é suscetível a índole infantil de adquirir forte propensão para o bem. Não há então obstáculos, que aplainar, nem nada que desaprender; as inclinações são suaves e amolgáveis. Descurada, na primeira quadra, a educação moral, avultam grandemente as dificuldades, ficando as tendências infantis com vezo que de si mesmas receberem. (BARBOSA, 1886, p. 591-592)
A educação moral da criança era a primeira de todas as necessidades em sua formação, cabia ao meio social a qual ela pertencia prepará-la para as relações sociais. Nesse sentido, os pais possuíam, assim como os professores, na ação institucionalizada de educar, a qual o Estado tinha responsabilidade, importante papel no desenvolvimento do senso moral das crianças.

“Educar a criança na senda que tem que trilhar” – é não só mandamento de Deus aos pais, mas a primeira imposição da sociedade a progenitores e mestres. Essa educação constitui, demais disso, necessidade capital da própria natureza do menino. Mediante ela pomos ao seu alcance a felicidade; sem ela, não só será incapaz de grandeal-a, senão que acabará por converter-se em estorvo a legítima ventura do próximo. (BARBOSA, 1886, p. 591)


A educação de doutrinas religiosas nas escolas era dispensável na visão de Rui Barbosa, considerava importante o ensinamento de questões morais relacionadas ao conteúdo científico.
Com a introdução, pois, da ciência na escola popular a reforma terá feito o mais eminente serviço à cultura dos sentimentos morais. Para chegar, porem, a resultados sérios, nesta parte da missão que incumbe à aula de primeiras letras, não se confie nada aos compêndios, às fórmulas doutrinais, à memória mecânica. A lei da cultura moral, como a de toda cultura abrangida no domínio escolar, é a atividade, a intuição, a vida. (BARBOSA, 1981, p. 379)
Ele defendia o ensino público essencialmente laico, sem intervenção de religiões, contudo, considerava que alguns ensinamentos religiosos eram importantes na formação do senso moral dos indivíduos, indispensáveis, por exemplo, no desenvolvimento do senso de justiça e de respeito ao próximo, dos cidadãos.

Inspirai às crianças as idéias de Deus como bom pai, Deus autor de todas as coisas; da imortalidade da alma; da consciência; da verdade; da obediência; da assiduidade; do asseio; da ordem. Este ensino há-de ser todo o ponto chão, familiar, desouriçado de frases técnicas, estreme de qualquer formalismo; convindo, sobretudo exemplificai-o em casos e incidentes da vida ordinária. Dessa instrução a chave será “o pai nosso que estais no céu; porque, partindo daí, assumirá para os meninos uma significação real o dever de amor, reverencia e obediência a Deus”. (BARBOSA, 1886, p. 593)


A moral não poderia ser concebida como matéria específica, mas, como a obra de sentimentos e hábitos. Era necessário produzir nas escolas a moralidade, formar o caráter das crianças, fazer com que as crianças possuíssem virtudes. O professor era uma figura extremamente influente no desenvolvimento de bons sentimentos nas escolas. “É, com efeito, profunda convicção nossa que a influência melhoradora, prosperadora, civilizadora da instrução popular depende absolutamente da sua associação contínua, íntima, indissolúvel à substância do cultivo moral”. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 365). Para Rui Barbosa, “Portanto, é de todas as matérias de estudo que deve resultar a ação moralizadora: eis a fórmula de toda a educação eficaz. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 370)”

Era preciso na concepção de Rui Barbosa desenvolver na criança o sentimento de dever, de trabalho, de caridade, as noções de aproveitamento do bem do tempo disponível e do amor à pátria. Desenvolver o senso de justiça e honra de sentimentos universalmente humanos, ou seja, desenvolver bons sentimentos.


Reunindo no seu grêmio os futuros cidadãos de todas as crenças, e protegendo contra as prevenções recíprocas a fé de uns e de outros, incute para sempre na substância dessas almas, na essência dessas naturezas em formação a primeira, a mais humana, a mais útil de todas as qualidades de uma sociedade civilizada: o respeito à consciência alheia, o sentimento da liberdade de pensar, a fraternidade, a caridade, a estima, entre os conflitos de opiniões que nos agitam, mas não nos devem desirmanar, nem deprimir uns aos olhos dos outros. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 371)

Promovida a moral à sua verdadeira dignidade de disciplina geral da escola, a exclusão da moral didática, professada hoje com o seu séqüito inútil de compêndios, teorias e lições de cor, franqueia, pela extensão que desocupa no plano de estudos, campo considerável a novas aplicações. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 388)


O ensino da moral era um instrumento importante na formação do cidadão nacional. A instrução cívica e a moral na concepção de Rui Barbosa eram elementos necessários na formação do sujeito social, na formação dos sentimentos e consciência de deveres nos indivíduos. Deveriam ambas constituir o programa escolar e fundamentar o caráter do cidadão nacional.
São óbvios os laços que vinculam a educação cívica à educação moral, de que, por assim dizer, não é senão uma das faces. [...] Assim a educação patriótica, bebendo intimamente nas fontes morais, vai enlaçar-se, pelas relações mais constantes, com a história, com a geografia, e, na organização do programa, não se pode segregar destes dois estudos. (BARBOSA, 1981, v. X, t. II, p. 384)
O caráter e a ação dos educadores era o eixo de toda a moral. Para Rui Barbosa a boa educação dependia da preparação do mestre, que era a força de toda a educação moral. A moralidade deveria encarar o resultado da ação não da palavra. O exemplo era um elemento forte de formação do senso moral. A cultura moral era resultado da cultura do mestre, da vida escolar, de todo o ensino, e, sobretudo, da cultura científica, da cultura histórica, dos livros de leitura.

O programa de ensino proposto por Rui Barbosa em seu Parecer sobre o Ensino Primário buscava a preparação do indivíduo para a vida completa, a formação do cidadão para a sociedade. Dessa forma, Rui Barbosa defendeu a educação como indispensável às mudanças sociais, vendo no ensino público um elemento indispensável à preparação para a vida, na formação intelectual do indivíduo e na preparação técnica dos trabalhadores para as novas relações de trabalho assalariado.

O cidadão deveria ter sua cidadania estimulada, sobretudo, seu sentimento de amor à pátria e sua consciência de dever na sociedade. Cabia a educação preparar esse indivíduo oportunizando formação por meio de conteúdos de moral e cívica, estimulando a aprendizagem do aluno por meio do método intuitivo.

Referências
BARBOSA, Rui. Reforma do ensino primário e várias instituições complementares da instrução pública. vol. X, t. I ao IV, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981.
________. Reforma do ensino secundário e superior. vol. IX Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1942.
________. Lições de Coisas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1886.
________. Preâmbulo (Primeiras Lições de Coisas). In: CALKINS, N. A. Lições de Coisas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1886.
CALKINS, N. A. Lições de Coisas (Trad. Rui Barbosa). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1886.
CARVALHO, Carlos Leôncio de. Decreto nº 7247 de 19 de Abril de 1879. In: BARBOSA, Rui. Reforma do ensino secundário e superior. vol. IX Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1942. p. 273-303

FILHO, Lourenço. A pedagogia de Rui Barbosa. São Paulo: Melhoramentos de São paulo1966.


MACHADO, Maria Cristina Gomes. Rui Barbosa: pensamento e ação. Campinas: Autores Associados, Rio de Janeiro: Fundação casa de Rui Barbosa, 2002.
_________. Fontes e história das instituições escolares: o projeto educacional de Rui Barbosa no Brasil. In: LOMBARDI, José Claudinei; NASCIMENTO, Maria Isabel Moura. Fontes, História e historiografia da educação. Campinas: Autores Associados, 2004.
MACHADO, Maria Cristina Gomes; MÉLO, Cristiane Silva. Rui Barbosa e a questão do ensino secundário no Diário de Notícias (1889). Revista Acta Scientiarum Human and Social Sciences. v. 29, n. 2. Maringá: 2007.
SCHELBAUER, Analete Regina. O método intuitivo e lições de coisas no Brasil do século XIX. In: STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil. Vol. II – Século XIX, 2005. 132-149
________. A Constituição do Método de Ensino Intuitivo na Província de São Paulo (1870 – 1889). São Paulo, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2003. (Tese de Doutorado).
VALDEMARIN, Vera Teresa. O método intuitivo: os sentidos como janelas e portas que se abrem para um mundo interpretado. SAVIANI, Dermeval; ALMEIDA, Jane Soares de; SOUZA, Rosa Fátima de. VALDEMARIN, Vera Teresa. O legado educacional do século XIX. Campinas: Autores Associados, 2006. p. 85-132
________. Estudando as Lições de Coisas: análise dos fundamentos filosóficos do Método Intuitivo. Campinas, SP: Autores Associados, 2004.


Catálogo: acer histedbr -> jornada -> jornada8 -> txt compl
txt compl -> Saberes psicológicos, psicologia e história da educaçÃo em goiáS
txt compl -> A construçÃo do programa de avaliaçÃo institucional das universidades brasileiras renata de Almeida Vieira uem introdução
txt compl -> I unicamp histedbr fatep
txt compl -> O processo de constituiçÃo e desenvolvimento da educaçÃo no município de são bernardo do campo (1960-2005)
txt compl -> Os documentos oficiais do ministério da educaçÃo para a educaçÃo infantil: aproximaçÕes com o ideário construtivista. Janaina Cassiano Silva. Co-autor
txt compl -> História da educaçÃO: instituiçÕes escolares como objeto de pesquisa
txt compl -> A relação entre trabalho e educação nas obras de Makarenko, Pistrak e Kerschensteiner
txt compl -> InstuiçÕes de ensino e pesquisa e construçÃo da hegemonia: sobre a institucionalizaçÃo das filosofia e das ciências humanas no rio de janeiro e em são paulo pedro Leão da Costa Neto
txt compl -> Milton santos: fundamentos e determinaçÕES
txt compl -> As bases históricas e filosóficas sobre a formaçÃo do ensino superior entre os períodos do império e da república no brasil: breves apontamentos armindo Quillici Neto ufu-facip


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal