E seus leitores (belo horizonte, 1947-1963)



Baixar 89.55 Kb.
Página1/2
Encontro01.08.2016
Tamanho89.55 Kb.
  1   2
UM IMPRESSO PARA MULHERES E SEUS MODOS DE APROPRIAÇÃO:

A REVISTA GRANDE HOTEL E SEUS LEITORES

(BELO HORIZONTE, 1947-1963)
Juliana Ferreira de Melo

GEPHE / FaE / UFMG; Escola Estadual Luiz de Bessa (MG)

ferreirademeloj@gmail.com
Palavras-chave: Revista Grande Hotel – Leitura – Impresso feminino e popular
1. A pesquisa: primeiras cenas

Arquivos da cidade de Belo Horizonte. Procuro revistas, pois nutro um enorme interesse pelos leitores do impresso. A princípio, as crianças são o alvo do meu impulso pelo querer saber como elas liam as revistas que lhes eram destinadas.1 De um lado, editores que buscam determinados leitores mirins; de outro, os leitores “de carne e osso”.

Dividida entre a Hemeroteca do Arquivo Público Mineiro e a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, no trabalho de garimpagem, em busca das fontes que me levariam às crianças imaginadas, leitoras de O Tico-Tico, do Fafasinho e das revistas de super-heróis na primeira metade do século XX, uma descoberta. Na biblioteca, encontro exemplares não dessas revistas para crianças, mas de revistas para mulheres. Por que revistas antigas, para um público feminino, estão arquivadas em uma biblioteca para crianças? Números de Grande Hotel e de Capricho, das décadas de 1940 e de 1970, estão misturados entre os diferentes impressos destinados aos pequenos.

Folheio as revistas para as mulheres. E logo uma surpresa: a maior parte de Grande Hotel e de Capricho é constituída de fotonovelas.2 Lendo rapidamente alguns dos exemplares de Grande Hotel, verifico que se trata de uma revista constituída de fotonovelas e também de seções que ensinam como cozinhar, maneiras de cuidar do corpo, modos para se arranjar um bom marido e um excelente casamento; de colunas em que leitores e leitoras deixavam seus recados, procurando alguém para se corresponder.



Grande Hotel foi a revista que mais me chamou a atenção porque eu tinha ali, nas mãos, os primeiros números dela publicados. Além disso, os homens e as mulheres que, supostamente, enviavam suas cartas para a revista, desejando encontrar uma “moça” ou um “rapaz” para quem escrever, despertaram minha curiosidade. Comecei, então, a me perguntar: que leitores e leitoras são esperadas(os) para essa revista feminina? Que representações se têm deles? Quais seriam as intenções dos editores de Grande Hotel, ao produzir um impresso desse tipo? Por que se imaginava vender muito dessa revista, com esse tipo de formato, com esse tipo de seções e com esses gêneros textuais? Quais seriam os objetivos dos leitores empíricos desses impressos? De que maneira se apropriariam do suporte e dos textos dessa revista?

Para Roger Chartier (1988, p.121), a história ou toda a sociologia da leitura encontra-se envolvida por uma aparente contradição, a qual se relaciona, muito diretamente, com as questões que me surgiram a partir da interação com uma das fontes principais deste trabalho: a revista Grande Hotel. De um lado, temos o suposto “carácter todo-poderoso do texto, e o seu poder de condicionamento sobre o leitor”; de outro, conforme o autor, a leitura como prática autônoma, “a liberdade do leitor, produtor inventivo de sentidos não pretendidos e singulares”. É exatamente essa tensão que se encontra quando se analisa Grande Hotel e se pensa sobre as possíveis leituras que desse impresso se fazem.

Tendo em vista essa tensão, no estudo em andamento, apresentado nestas páginas, tem-se como objetivo investigar a revista Grande Hotel, destinada às mulheres, e a apropriação do impresso por seus leitores e suas leitoras em Belo Horizonte, do início de sua circulação no Brasil, em 1947, até 1963, ano em que a maior parte da revista já era ocupada por fotonovelas. Como fontes para o estudo, utilizo números da revista, publicados no período da investigação, e também depoimentos orais de leitores de Grande Hotel na época. São fontes potenciais para o trabalho, cartas de leitores trocadas entre si, ou aquelas escritas para os responsáveis pela edição da revista; registros dos sujeitos participantes da pesquisa, nos quais eles narram sua experiência de leitura do impresso, tais como notas em diários.

O estudo volta-se, portanto, para a investigação da leitura, a partir tanto do texto impresso, quanto das experiências de leitura de diferentes sujeitos quanto a estas variáveis: gênero, origem social, escolaridade. Deseja-se entender as apropriações que os diferentes leitores faziam de um mesmo impresso, tendo em vista suas práticas de leitura e os usos que faziam da revista, em determinado tempo e espaço, em um contexto no qual se pressupõem modos partilhados do ler.3 A partir das constatações oriundas do desenvolvimento da pesquisa, problematizam-se questões como: é possível dizer que uma pessoa é aquilo que lê? Como os diferentes indivíduos atribuem significado para aquilo que leem? De que modo, em determinadas condições históricas, eles se apropriam de certo tipo de texto? O objeto deste trabalho configura-se, desse modo, a partir de um impresso e das práticas sociais de leitura relacionadas a ele.

Durante a investigação, tem-se analisado a materialidade de Grande Hotel e os textos publicados na revista. Dessa maneira, tem-se reconstruído seus leitores visados, seu Leitor-Modelo,4 assim como se tem procurado identificar, descrever e analisar os dispositivos5 presentes no impresso. Para se chegar às práticas de leitura, depoimentos orais de seus leitores têm sido coletados e analisados, na perspectiva da História Oral6 e da Análise do Discurso.7 Procedendo dessa forma, podemos verificar como os leitores empíricos se apropriavam de Grande Hotel.
2. Procedimentos, métodos da investigação

A princípio, voltar-se para os movimentos do leitor, da leitora na produção de sentidos singulares para os textos com os quais conviveu, de acordo com Chartier (1988, p.121), pode significar “encarar os actos de leitura como uma colecção indefinida de experiências irredutíveis umas às outras”. No entanto, a aposta aqui, assim como é o desígnio “de uma sociologia histórica das práticas de leitura”, é “transformar em tensão operatória aquilo que poderia surgir como uma aporia inultrapassável”. Portanto, neste trabalho de pesquisa, da mesma maneira que a sociologia histórica das práticas de leitura, estou preocupada em identificar, tendo em vista a época, cada meio social, “as modalidades partilhadas do ler”, ligadas às práticas culturais que envolvem uma revista feminina. Segundo o autor, tais modalidades “dão formas e sentidos aos gestos individuais”. Assim, a pesquisa apresentada neste artigo articula-se ao universo mais amplo de estudos da “história das práticas de leitura, entendidas nas suas relações com os objetos impressos [...] e com os textos a que servem de suporte” (CHARTIER, 1988, p.122).

Como se verifica, a fim de investigar a apropriação da revista Grande Hotel por seus diferentes leitores entre 1947 e 1963, tenho desenvolvido uma pesquisa histórica. Embora o foco do estudo esteja sobre as relações que os indivíduos estabeleceram, por meio da leitura, com o impresso, com o suporte dos textos veiculados pela revista e com os próprios textos publicados em Grande Hotel, as lentes da investigação têm sido utilizadas também para analisar outros aspectos relativos ao objeto da pesquisa. Dessa maneira, ora a lente de análise encontra-se sobre os indivíduos, leitores de Grande Hotel, sobre suas práticas de leitura; ora a lente se volta para os lugares em que a revista, destinada ao público feminino, circulava; ora a lente de observação tem como foco o mercado editorial, o cenário social, político, econômico, cultural do período, que favoreceria a circulação de revistas femininas e permitiria sua leitura por mulheres, mas também por homens. Esse procedimento poderá nos permitir conhecer importantes nuanças da história de Grande Hotel e especialmente de seus leitores, de suas leitoras.

Para apreender o universo da leitura de Grande Hotel, tenho analisado a materialidade8 da revista, de seus exemplares, entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1960. De seus componentes, tenho observado elementos tais como: o tamanho da publicação, seu número de páginas, o papel utilizado em sua confecção, o tipo de letra, a organização e a distribuição do texto ao longo da revista, os protocolos de leitura. Analisarei ainda a editora pela qual Grande Hotel era publicada e, se possível, sua tiragem e distribuição. As seções do suporte e o que se pretendia comunicar aos leitores, especialmente às leitoras, por meio dos textos nela publicados também têm recebido atenção. A partir dos anúncios veiculados em suas páginas, tenho delineado o tipo de consumidor que seria o leitor visado pela revista ao longo do período compreendido pela investigação. Esse procedimento permitirá que se verifique também se houve mudanças no perfil desse leitor entre 1947 e 1963. Ainda será alvo de análise: o preço de cada exemplar; as capas; quartas-capas; referências a autores dos textos publicados na revista; as fotonovelas, o número de páginas que ocupavam no impresso, sua forma, seu conteúdo, seus fotogramas, personagens, seus dados técnicos (roteirista, desenhista, autor); quantidade de narrativas de amor publicadas em cada número da revista; denominações dadas, pelos editores, à própria revista; caracteres utilizados nos textos publicados no impresso; presença ou ausência de imagens, além daquelas dos fotogramas que constituem a fotonovela; presença ou ausência de cor na confecção do impresso. Tal como se observa, busca-se apoiar a análise de Grande Hotel numa minuciosa descrição das características materiais da revista, as quais nos oferecerão indicadores de quem era o leitor esperado por seus editores.

Além de trabalhar com os números da revista, para realizar a análise do impresso, tenho recorrido a pesquisadores que já fizeram estudos nessa direção, em que se veem análises de impressos de ampla circulação,9 de impressos para mulheres,10 de revistas femininas que veiculavam as fotonovelas.11 Desse modo, pretendo configurar o Leitor-Modelo para o suporte e para os textos nele publicados. Ao analisar exemplares de Grande Hotel, tenho considerado que seus editores e os autores dos textos veiculados no impresso, ao prever o Leitor-Modelo para a revista, procuraram produzi-la de modo a construir esse leitor, que, para a maior parte da revista, era mesmo uma leitora. Nessa direção, compreendo o Leitor-Modelo como “um conjunto de condições de êxito, textualmente estabelecidas, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu conteúdo potencial” (ECO, 1979, p.45. O destaque em itálico é do autor.). Portanto, tenho analisado a revista Grande Hotel como objeto material e como texto.

Também é objetivo da pesquisa dar forma aos leitores empíricos da revista feminina, considerando sua escolarização, origem social, gênero. Assim, procurarei reconstruir suas práticas de leitura de Grande Hotel, os usos que faziam do suporte e dos textos veiculados por ele, as situações em que liam a revista, como era o acesso ao impresso, os papéis atribuídos à leitura de Grande Hotel. Para tanto, partirei da análise tanto de suas lembranças da relação que estabeleceram com esse material, reconstruídas na ocasião das entrevistas, quanto das cartas que escreveriam para o editorial de Grande Hotel. Há também, como fontes potenciais para apreender os modos de apropriação do impresso pelos leitores, suas impressões de leitura da revista, deixadas em livros,12 registros pessoais, como diários, em cartas trocadas entre si, em jornais da época.


3. A revista Grande Hotel

1947. Começavam a circular no Brasil, mas também na Itália, no mesmo ano, as fotonovelas. No Brasil, o gênero estreou em uma revista para mulheres: Grande Hotel, um impresso de periodicidade semanal, direcionado para o público feminino. Sua temática, as narrativas que a compõem, os assuntos tratados em suas colunas e seções nos permitem afirmar isso.



Grande Hotel sobreviveu no Brasil de 1947 a 1984. Foi um impresso de longa história e bastante consumido. Segundo André Joanilho e Mariângela Joanilho (2008, p.548), a revista “chegou a ter uma tiragem quinzenal de mais de 200 mil exemplares nos anos 60. Após a compra da Vecchi pela Editora Globo, a revista deixou de ser publicada”.

Na constituição da materialidade de Grande Hotel, salta aos olhos a importância das fotonovelas no impresso. A partir de dezembro de 1961, elas passaram a ocupam a maior parte da revista. De origem italiana,13 as primeiras narrativas do gênero teriam aparecido “em março de 1947 na revista Sogno, da Editora Rizzoli, e na revista Bolero, da Editora Mondadori” (SAMPAIO, 2008, p.22). Bolero era assinada, de acordo com Sampaio, por Damiano Damiani, diretor de cinema que se tornaria famoso, nos anos 1960 e 1970, por seus filmes de conteúdo político. Contudo, segundo a pesquisadora, “o chamado ‘magnata das revistas sentimentais’ foi Cino Del Duca, que já era um produtor de cinema consagrado no final dos anos 40”. Mais tarde, ele teria também sucesso como editor por causa das fotonovelas. Para Sampaio, “a Editora Universo, de Milão, e a Editions Mondiales, da França, que publicavam, respectivamente, as revistas Grand Hôtel e Nous Deux”, integravam o grupo Del Duca. Além disso, conforme a autora, Grand Hôtel e Nous Deux seriam “praticamente a mesma revista, diferentes apenas no idioma e em algumas referências locais”.14

No caso da Grande Hotel brasileira, teríamos “uma tradução quase literal da edição francesa”, na perspectiva de Sampaio (2008, p.22). De acordo com a autora, quando as fotonovelas se expandiram, a partir de 1949, para a França, Luxemburgo, Bélgica e, depois, para a América Latina, o norte da África, em Milão, criou-se uma “Cinecittá do foto-romance”. Esse espaço, segundo Sampaio, contaria “com toda a estrutura necessária” para a “produção de fotonovelas”, as quais seriam vendidas para os “países de língua portuguesa, francesa e espanhola”. Para a pesquisadora, as fotonovelas veiculadas, no Brasil, sobretudo por Grande Hotel e Capricho, na sua maior parte, eram “sempre compradas da Itália e da França” (p.65). Na biblioteca infanto-juvenil de Belo Horizonte, pude constatar, no trabalho de identificação das revistas femininas que traziam fotonovelas, que as histórias publicadas em Grande Hotel eram traduções para o português de textos em italiano.
3.1. Grande Hotel e as fotonovelas

Grande Hotel, da Editora Vecchi, a primeira que lançou as fotonovelas no Brasil, em 1947; Capricho, da Editora Abril, cujo início de sua publicação no País data de 1952 e Sétimo Céu, editada pela Bloch, lançada em 1958, foram as principais revistas de fotonovelas brasileiras, de acordo com Sampaio (2008). Desses impressos, Grande Hotel destaca-se como um dos “‘carros-chefe’” da publicação do gênero no Brasil e teve vida longa (SAMPAIO, 2008, p.18-19). Ela foi o mais importante título da Editora Vecchi até a sua falência em 1984.

As fotonovelas vieram da Itália, como se afirmou anteriormente. Eram histórias feitas com fotogramas retirados de filmes. No início, as fotos vinham com as falas das personagens e com as legendas, que descreviam a situação encenada. De acordo com Sampaio (2008, p.19), “as primeiras publicações nesse formato [...] foram cartazes de filmes”. Segundo a autora, “os estúdios usavam fotogramas cortados na edição dos filmes para montar seus cartazes e anúncios publicitários, que traziam um pequeno resumo do filme” (p.19). De acordo com a pesquisadora, esses impressos eram muito disputados pelos fãs. Tamanho “interesse levou à impressão de histórias completas, utilizando os principais fotogramas para resumir os filmes – primeiro os americanos, depois os italianos – em forma de revista, que foi chamada de ‘cine-romance’” (p.19).

Rapidamente, então, segundo Sampaio (2008), passou-se a uma produção específica, na qual as histórias eram criadas ou adaptadas para o impresso. No mesmo estúdio onde se produzia um filme, produziam-se também as fotonovelas. Às vezes, os mesmos profissionais que participavam da produção do filme – atores, técnicos, iluminadores, fotógrafos – eram aproveitados para a produção das fotonovelas. Por isso, nas fotonovelas das décadas de 1950, 1960, encontram-se, com frequência, estrelas do cinema europeu e, sobretudo, italiano. As fotonovelas propiciaram, desse modo, a formação de um novo mercado de trabalho, no qual era possível aproveitar cenários, instalações, praticamente todo o aparato necessário para a produção de um filme.

Para Joanilho e Joanilho, as fotonovelas retomariam “a tradição dos folhetins e romances populares do século XIX” (2008, p.539) por apresentarem a estrutura de sua trama “simplificada” de modo que se aumentassem as possibilidades de leitura. Nesse gênero, teria ocorrido um encontro entre folhetim e cinema, o qual teria seguido “uma tradição da literatura oral popular”. Como nos contos populares, a fotonovela não definiria o lugar em que a trama se desenrola, o que lhe propiciaria “uma dimensão de universalidade, típica dos contos”. Segundo os autores, dificilmente se sabe onde a trama das fotonovelas acontece e, quando esse lugar é marcado, ele aparece como exótico ou idílico,15 “conforme certa ideologia popular”.

Como na cultura popular, encontramos, nas fotonovelas, herói e vilão, mocinho e bandido, personagens de quem se conhecem o caráter e as qualidades. Lá estão: o bem e o mal, o certo e o errado. As narrativas trazem exemplos de personagens que suportam o sofrimento, porque acreditam ter felicidade no futuro. Segundo Joanilho e Joanilho (2008), são personagens que se aproximam de santos. Para os autores, “normalmente a heroína é casta e segue princípios rígidos como honestidade, lealdade, fidelidade, bondade e desprendimento. O mesmo é válido para os heróis, que também deverão possuir a qualidade de serem viris, mas não brutos” (p.541). Para os vilões, exatamente o contrário é traçado nas histórias.16

As fotonovelas, conforme Joanilho e Joanilho (2008, p.531-533), são artefatos da cultura de massa, produzidos em larga escala. Na visão dos autores, caracterizam-se por se constituir como histórias repetitivas e sem qualidade literária, ainda que se valha de romances consagrados para seus roteiros, tais como: o Conde de Monte Cristo, Ana Karênina, O morro dos ventos uivantes, uma vez que as fotonovelas empobreceriam esses romances. Elas seriam, para Joanilho e Joanilho, pastiches; apresentariam “personagens sem profundidade psicológica, happy-ends, conflitos sociais reduzidos a problemas individuais”. As narrativas, de acordo com os autores, trazem “intrigas sentimentais”, nas quais a heroína é quase sempre uma moça “de origem modesta que sonha com um amor cheio de obstáculos e dificuldades”. Porém, para a alegria das leitoras (e dos leitores?), no final, a protagonista sempre realiza o seu objetivo. Além disso, seus personagens seriam sempre estereotipados, “os bons são sempre bons e os maus arrependem-se no final ou sofrem as consequências” de seus atos. Os temas das histórias variam entre problemas afetivos, “sociais, a procura de sucesso numa carreira, a justiça na sociedade, a ascensão social, a marginalidade”.

Exemplos de uma “má literatura” (JOANILHO; JOANILHO, 2008, p.530), as fotonovelas eram veiculadas pelas revistas “populares” femininas. Em uma afirmação como essa, logo se percebem as associações elaboradas a partir da combinação das palavras “má”, “populares”, “femininas”. Estamos diante de duas caracterizações ligadas ao universo do “popular” e ao universo feminino que ganham aí um sentido negativo. “Popular” se relacionaria às camadas mais pobres da população? Estaria, o termo, em oposição ao “erudito”, ao “legítimo”, àquilo que seria, portanto, “melhor”, “superior”? “Feminino” certamente liga-se à mulher... Diante dessas associações, pelo menos duas perguntas nos vêm: Por que produzir um impresso que traria em suas páginas uma “má literatura”, direcionada para um público “popular” e “feminino”? Por que mereceriam as mulheres pobres ler aquilo que existe de “pior”, “inferior” em termos de literatura?

3.2. Uma revista feminina e “popular”

Em recente levantamento bibliográfico,17 cinco trabalhos em que há alguma referência à revista Grande Hotel foram encontrados. Todos eles abordam a maneira como esse impresso e outras revistas tratam o universo feminino.18 Boa parte dos textos tem como foco as fotonovelas que eram publicadas em Grande Hotel e em outras revistas para mulheres, ou tratam os impressos do ponto de vista da publicidade e da propaganda. De acordo com Ivani Abib (2002), uma das autoras dos estudos localizados, do ponto de vista da análise do discurso, essas revistas podem ser classificadas como “populares”.19

Em artigo publicado originalmente na revista Actes de La Recherche en Sciences Sociales, em 1983, Pierre Bourdieu, nesse texto, iniciou sua reflexão sobre a noção de populaire a partir de um verbete de dicionário. Tratado como adjetivo e como substantivo, a depender do contexto, o termo nos é apresentado pelo sociólogo em quatro acepções. Populaire, conforme o dicionário consultado pelo autor, pode designar: 1) aquilo que pertence ao povo, que dele emana; 2) o que é próprio do povo ou lhe é endereçado; 3) o que agrada ao povo, ao maior número possível de pessoas; 4) o povo. Partindo dessas acepções, no caso da pesquisa de que trato aqui, poderíamos construir a hipótese segundo a qual Grande Hotel foi considerada uma revista “popular” não somente porque era destinada ao povo, mas também porque atingia um grande números de leitores.

A princípio, essas acepções para o termo parecem distantes de qualquer julgamento de valor dos objetos, bens e práticas culturais, como também de indivíduos, grupos sociais. Entretanto, o adjetivo “popular” costuma ser muito utilizado para designar e (des)qualificar aquilo que não pertence às camadas mais privilegiadas da população, do ponto de vista cultural, simbólico, mas também econômico, social. Enquanto “popular” se relacionaria com um valor negativo, os termos que designam “as propriedades imputadas aos dominantes representam sempre o valor positivo” (BOURDIEU, 1996, p.18). Desse modo, nos discursos eruditos, entre as elites, em geral, o que é do “povo” não é legítimo e, porque atinge um grande número de pessoas, com frequência, é desqualificado por não ser raro, distintivo. Aliás, se a palavra é “popular” talvez sirva para fazer uma distinção às avessas, distinguindo negativamente o que é “baixo, popular, inferior, para todos” do que é “alto, legítimo, superior, raro” (p.18). Separa-se, assim, o joio do trigo, em termos de bens e práticas culturais, mas também no que se refere às pessoas.

Apesar desse uso da palavra “popular”, empregada geralmente para (des)classificar os outros e para julgar (negativamente) a qualidade de suas práticas, tendo como padrão de referência a cultura legítima, é possível ver o consumo cultural do “povo” como outra produção. Nesse caso, a leitura de um texto, por exemplo, de uma fotonovela, pode escapar da passividade que geralmente lhe é atribuída quando se caracteriza esse tipo de leitura como “popular”. De acordo com Chartier (1988), ler é uma atitude intelectual que permite o desvio, a desconfiança, a resistência. Ela não submete, pois, o leitor “à toda-poderosa mensagem ideológica e/ou estética que supostamente o deve modelar” (p.59). Dessa forma, podemos repensar “a relação entre um público designado popular e os produtos historicamente diversos (livros e imagens, sermões e discursos, canções, fotonovelas ou emissões de televisão) propostos para o seu consumo” (p.60).

Essa demanda se torna ainda mais veemente se consideramos a possibilidade de existência de continuidades entre as culturas. Nesse caso, simplesmente aplicar taxionomias dualistas aos fenômenos do mundo social não contribuem para compreendê-lo. Separar e contrapor “popular” e “legítimo” apaga a diversidade e nos impede de ver os entrecruzamentos na cultura, nas práticas sociais.20 É preciso investigar a produção cultural a fim de que se possa descrever, analisar e compreender o princípio, provavelmente da extrema diversidade, que a gera. Somente a pesquisa pode evidenciar, tal como ocorreu nas investigações realizadas por Pierre Bourdieu, que aquilo que produz as separações, as distinções, os julgamentos, as violências relaciona-se, na verdade, com o reconhecimento e a crença – por vezes, sem conhecimento da cultura legítima,21 mas com a cumplicidade dos sujeitos dominados no interior de um campo de forças sempre em mudança – na superioridade de certos bens culturais e de determinadas práticas, os quais são classificados em uma hierarquia valorativa, engendrada por sujeitos, com diferentes volumes de capitais,22 em um espaço de lutas.


4. Leitores e leitoras de Grande Hotel

Diferentemente dos leitores estudados por Sampaio (2008), os sujeitos participantes da investigação de que trato neste artigo são homens e mulheres com níveis de escolaridade distintos, oriundos(as) de diferentes meios sociais. Conforme a autora, que investigou leitores de fotonovelas a partir de 1967, todos os seus entrevistados declararam pertencer a famílias “simples” (p.124) e, no período da vida, em que leram o gênero textual, tinham “escolaridade adequada à sua faixa etária” (p.124). Sampaio constatou que os leitores de fotonovelas tinham um consumo cultural diversificado. Homens e mulheres liam fotonovelas, mas eram elas quem disponibilizava as revistas para eles. Apesar de não serem aconselháveis para menores de 16 anos, as revistas de fotonovelas eram lidas por jovens com menos de 16 anos de idade. As interdições referentes a esse tipo de leitura relacionavam-se à necessidade de se concentrar nos estudos e também se referiam à moral. Mesmo assim, as fotonovelas eram escolhidas para a leitura porque estavam disponíveis, como também alimentavam o sonho e o prazer dos leitores. Segundo a pesquisadora, apropriando-se das fotonovelas, os sujeitos participantes de sua pesquisa atuavam sobre suas próprias histórias, refletiam, questionavam, construíam suas personalidades, seus corpos, seus hábitos, não por meio de um consumo passivo, “mas incorporando a informação trazida pela leitura em táticas para a transformação de seu próprio universo” (p.125).

Na História da leitura, verificamos, de acordo com Chartier (1988, p.122), que diferentes recepções de um mesmo texto têm a ver com os próprios leitores. Os sujeitos são diversos em seu caráter, em seus humores, na pluralidade de suas aptidões e expectativas. Eles também diferem entre si no que se refere à idade, ao gênero, à escolarização e, portanto, fazem usos bem distintos do mesmo texto.

As fotonovelas foram alvo da leitura de milhares de pessoas no Brasil, entre os anos 1950 e a década de 1980, conforme Joanilho e Joanilho (2008). Revistas como Grande Hotel e Capricho seriam muito consumidas por causa das fotonovelas. Ao investigar a revista Capricho como um lugar de memória, nas décadas de 1950 e 1960, Raquel Miguel (2009) evidenciou que as leitoras, as quais participaram de sua pesquisa, compravam Capricho para ler as fotonovelas. Analisando Grande Hotel, verifiquei que, a partir de dezembro de 1961, a maior parte da revista passou a ser destinada à publicação desse tipo de narrativa. Esse dado pode ser interpretado como uma resposta da Editora Vecchi às demandas do mercado. Se os leitores, as leitoras de Grande Hotel também comprariam a revista especialmente por causa das fotonovelas, seria viável que se oferecesse ao público leitor do impresso o que ele desejava.

Apesar de seus inumeráveis leitores, de sua grande circulação durante tanto tempo, segundo Joanilho e Joanilho (2008), as fotonovelas foram praticamente ignoradas por críticos e intelectuais que a consideravam como um subgênero da literatura. Também seus leitores, de acordo com Sampaio (2008), não receberam atenção dos estudiosos. Tal como os romances Bianca, Júlia e Sabrina,23 as revistas “populares” femininas não são bem recebidas pelas instituições que nos dizem o que é uma boa obra literária. Para os autores, ao analisar o comportamento dos críticos de arte, verifica-se que, quando um artefato cultural é dirigido às massas, ele não merece, na perspectiva desses críticos, atenção. Isso ocorre mesmo que textos de gêneros como esses tenham vendido (e vendam) milhões. Para essas instituições, não é o mercado editorial aquilo que conta quando se trata de avaliar a qualidade de um texto. Assim, quando artefatos culturais destinados às massas são analisados, com frequência, as análises ocorrem com o objetivo de que sejam desqualificados.

O problema é que, geralmente, quando se avalia um texto como um exemplo de baixa qualidade em termos estéticos e estilísticos, um contra-exemplo da literatura, tal como seria o caso de uma fotonovela, costuma-se avaliar da mesma maneira os seus leitores. Isso era exatamente o que vinha ocorrendo no campo de estudos sobre as revistas femininas que veiculavam esse tipo de texto. Segundo Joanilho e Joanilho (2008), os leitores e as leitoras do gênero teriam sido caracterizados como indivíduos “de baixa formação cultural e possuidores de parcos rendimentos” (p.529). Essa constatação encontra ressonância se retomamos os estudos macrossociais de Pierre Bourdieu (2008). Fundamentando-se em suas análises da realidade francesa dos anos 1960 e 1970, o estudioso verificou que todas as práticas culturais, entre elas, a leitura, estão associadas ao nível de instrução dos sujeitos e, de modo secundário, à origem social.

Tendo em vista as características das fotonovelas e das revistas que as veiculavam, vale ressaltar que, caso se encontre um leitor ou uma leitora “exemplar”, que leia textos do cânone literário e que, em algum momento da vida, tenha lido uma fotonovela ou um romance “água com açúcar”, como Bianca, por exemplo, a leitura “pior” e “descartável” teria sido feita apenas por distração, quase sem atenção... Logo, teria sido praticamente um deslize ter lido fotonovela ou Bianca, uma vez que esse tipo de leitura não seria digno de figurar entre as grandes leituras de formação de um grande leitor, de uma grande leitora. Não se imagina que um(a) leitor(a) erudito(a) possa ter se formado também, lendo romances como Bianca ou fotonovelas, porque são produtos muito consumidos, produzidos para as massas. E aquilo que se consome muito se desgastaria, perderia seu valor de distinção.24 O “chique” mesmo é possuir aquilo que é raro, para poucos, de difícil acesso.

No caso das mulheres que precisassem escapar da dominação masculina, a situação seria ainda pior. Como grandes leitoras, elas precisariam ler também textos que as fizessem se libertar da condição de “ser mulherzinha”. Nessa direção, a leitura de Grande Hotel não ajudaria muito. Na revista, encontramos imagens de mulheres e textos que prescrevem seu comportamento, no sentido de apresentar, especialmente para as suas leitoras, representações de como elas deveriam ser e agir numa relação de submissão ao homem (namorado, noivo, marido ou pai). Apropriando-se dessas representações, as mulheres, leitoras de Grande Hotel, incorporariam, então, esquemas de ação, categorias de pensamento que gerariam e estruturariam, por sua vez, imagens e ideias relativas a elas mesmas, mulheres, a seus modos de ser, agir e pensar que fariam com que ocupassem o lugar de dominadas na relação com os homens. Portanto, revistas de fotonovelas ou romances de amor como Bianca, Júlia e Sabrina não contribuiriam com a formação de mulheres autônomas e independentes (dos homens). Essas seriam leituras proibidas e perniciosas para a formação dessas mulheres.

Mas é por meio do que nos narrarem homens e mulheres a respeito de suas experiências de leitura de Grande Hotel que poderemos perceber como as pessoas reagiam aos sistemas normativos. Em outras palavras, através das suas formas de apropriação desse suporte, reconstruídas em seus discursos, poderemos perceber como as leitoras e os leitores do impresso lidavam com o dispositivo presente na revista feminina, criado e alimentado também por outras instâncias do contexto mais geral da época. Poderemos verificar os modos pelos quais os indivíduos lidavam com esse dispositivo no que se refere, por exemplo, ao que se imaginava e àquilo que se queria desses sujeitos, especialmente das mulheres e dos representantes das camadas populares, público alvo dos editores de revistas de fotonovelas, em termos de modos e condições de leitura do impresso e até mesmo em termos de comportamento. Se Grande Hotel, uma revista para mulheres, que veiculava fotonovelas, dá contornos para o dispositivo que prescreve, que procura conduzir modos de ler, de escrever, maneiras de se relacionar com o impresso e até com outros indivíduos, com o mundo, as memórias dos leitores, das leitoras da revista poderão evidenciar como esses sujeitos recebiam (aceitavam? Submetiam-se?) e transformavam (transgrediam?) tal dispositivo.

Não podemos fazer uma relação direta entre leituras e sujeitos leitores, nem afirmar que os textos são bons em si mesmos, pois os impactos da leitura advêm do ato de ler. O que importa mesmo é o que as pessoas fazem com aquilo que leem, como já mostraram estudos realizados no campo da História Cultural. Relevantes são os usos que os sujeitos fazem do escrito, os motivos que os levam a ler, as suas práticas de leitura.

Bourdieu (2004 [1970], p.298-9) afirma, baseando-se em pesquisas desenvolvidas em larga escala, na França, desde os anos cinquenta, que existe “uma relação extremamente sólida entre as diversas práticas ‘legítimas’ e o nível de instrução”. Entretanto, Bernard Lahire (2006), na introdução do livro no qual apresenta os resultados de sua pesquisa, que, diferentemente das investigações de Bourdieu, tem, como foco, indivíduos, faz-nos deparar, em certa medida, com um contra-exemplo para a constatação de Bourdieu (2008). Nesse momento do texto, Lahire apresenta-nos algumas das preferências de um indivíduo singular: Ludwig Wittgenstein, as quais, frequentemente, costumam causar espanto por suas aparentes “contradições”. Afinal, como pode Wittgenstein, um filósofo, oriundo de uma família da alta burguesia ser apaixonado por westerns e revistas de histórias policiais?

Por meio de um raciocínio comparativo, tomando como base as teorizações probabilísticas de Bourdieu (2004, 2008 [1979]), que realizou pesquisas em escala macrossocial, e as constatações de Lahire (2006), fundamentadas em investigações, nas quais se trabalha com observações na escala do indivíduo, poderíamos nos perguntar: e no caso dos leitores e das leitoras de fotonovelas? Eles seriam mesmo sujeitos que teriam pouco capital cultural e baixo capital econômico?25 Seriam eles indivíduos portadores e produtores de práticas culturais de “baixa qualidade”? Poderíamos homogeneizar leitores a partir de suas relações com um tipo de impresso e com um determinado gênero textual? De que cultura e de que pessoas, estamos falando?

No caso das fotonovelas, as quais poderiam, perversamente, funcionar como um “anestésico da consciência popular” (JOANILHO; JOANILHO, 2008, p.531), em um País ainda marcado pela não-simetria nas relações de gênero, pela profunda desigualdade social, não é de se estranhar que esses supostos leitores piores fossem representantes do universo feminino e das camadas populares. Conforme Joanilho e Joanilho, as narrativas e os recursos estéticos e estilísticos de revistas femininas “populares” nem são analisados com verticalidade. Textos e leitores, leitoras dessas revistas de fotonovelas são alvo de críticas ácidas, quase sempre advindas de críticos que pouco estudaram tais impressos e esses gêneros textuais. Parece haver aí relações supostamente diretas e necessárias: se é artefato para as massas, é ruim, alienante; se é para mulheres, se é “popular”, é de baixa qualidade.

Quando se pensa sobre um impresso “popular”, geralmente, existe a tendência de se imaginar que seu público seria constituído de leitores pouco escolarizados, de baixo poder aquisitivo. Isso ocorreria, por exemplo, com os leitores de fotonovelas que escolheriam esse gênero para consumir. Contudo, um raciocínio desse tipo leva a uma homogeneização do suposto público leitor e a constatações apriorísticas. Somente uma pesquisa sobre leitores desse tipo de texto pode ajudar na compreensão das fronteiras que separariam práticas culturais “legítimas” de “ilegítimas”, no que tange a grupos e classes sociais, mas também a indivíduos, uns em relação a outros, e a cada indivíduo em relação a si mesmo. Entendo que a oposição: “legítimo”/“ilegítimo”, como esquema de percepção do mundo, traz também outras, de acordo com Lahire (2006), tais como: alto/baixo, digno/indigno, culto/inculto, inteligente/bobo.

Em conversa informal, uma leitora de Grande Hotel na sua juventude, oriunda das camadas médias letradas brasileiras, hoje com 78 anos de idade, disse-me que lia intensamente as revistas femininas que veiculavam as fotonovelas. Ela, atualmente pesquisadora, professora universitária aposentada, que já publicou vários livros em seu campo de atuação, contou-me que manteve correspondência, durante sete anos, com um leitor de Grande Hotel. A troca frequente de cartas entre eles foi motivada pela leitura de uma coluna da revista, na década de 1950, em que os leitores publicavam recados, falando do seu desejo de se corresponder com outros leitores que tivessem determinado perfil. Por causa dessa coluna, a escrita entre eles passou a acontecer. Ela, que se tornou leitora de clássicos da literatura, da obra de Simone De Beauvoir, de vários livros teóricos, bem como conhecedora e apreciadora da arte considerada legítima no mundo dos séculos XX e XXI, soube que ele, na época, leitor assíduo de Grande Hotel como ela o fora um dia, havia se tornado um jornalista de renome no País. Por causa de sua paixão pelos livros, ela descobriu que ele publicara, há pouco tempo, um livro26 em que narra esse período da vida no qual trocou cartas com essa leitora de uma revista de fotonovelas.
Considerações finais

Como estudos da História Cultural e da História da Leitura já evidenciaram,27 a investigação de que tratei neste artigo vem demonstrando que há uma tensão entre os dispositivos presentes em Grande Hotel, os quais procuram condicionar os movimentos das(os) leitoras(es), em seu trabalho de produção de sentido para os textos que leem, e a apropriação que os sujeitos fazem do impresso, seus usos da revista feminina. Mesmo que a revista, os responsáveis pelos textos nela publicados procurassem modelar as práticas culturais e sociais de suas leitoras, por meio do ordenamento de suas condutas e de seus pensamentos, seus dispositivos não eram absolutamente eficazes do ponto de vista da aculturação. Conforme se verifica nas teorizações de Chartier (1988), também no caso de Grande Hotel, eles forneciam um lugar, quando eram recebidos, para o distanciamento, o desvio, a reinterpretação.

No que se refere às práticas de leitura, alguns estudos,28 assim como o desenvolvimento da pesquisa abordada nestas linhas, já nos permitem afirmar que as práticas individuais encontram correspondência no social. As práticas dos leitores são, em certa medida, regidas tanto pelas regras de sua comunidade de pertencimento, quanto pela forma, pela materialidade do texto, alvo da leitura. Socialmente, o leitor aprende o que é ler. Portanto, ele não inventa sozinho um jeito de ler, uma maneira de se apropriar dos diferentes tipos e gêneros textuais. O leitor e a leitora nascem em uma sociedade, em um meio cultural que lhes informa como, quando, o que ler. Contudo, leitores e leitoras não são passivos diante da sociedade e da cultura existentes. Eles participam delas; transformam e criam saberes, comportamentos; apropriam-se de conhecimentos e de artefatos culturais.

A respeito do público leitor de Grande Hotel, é possível afirmar que, embora alguns estudos históricos e sociológicos evidenciem que revistas “populares” e femininas, especialmente as revistas de fotonovelas, fossem, em grande medida, consumidas por mulheres pobres e com poucos anos de escolaridade,29 Grande Hotel foi objeto da leitura de homens e mulheres, quando jovens, oriundos não somente de meios populares, mas também das camadas médias letradas do Brasil, entre 1947 e 1963. As representações presentes em Grande Hotel, dependendo das apropriações que as leitoras fizessem delas, poderiam ser um instrumento que produziria nelas um constrangimento internalizado. Elas poderiam provocar, nas mulheres, um efeito de respeito e de submissão. Contudo, ao analisarmos os modos de apropriação das leitoras dos textos veiculados pela revista, como também as suas maneiras de estabelecer relações com o impresso, podemos verificar em que medida as representações presentes em Grande Hotel atingiriam (ou não) seus modos de estar no mundo e de apreendê-lo.

Penso, de acordo com Chartier (1988), que a leitura é um ato concreto, um processo que requer construção de sentido, interpretação. Dessa forma, concebo a leitura de Grande Hotel como situada no cruzamento entre seus leitores, “dotados de competências específicas, identificados pelas suas posições e disposições, caracterizados pelas suas práticas do ler”, e os textos “cujo significado se encontra sempre dependente dos dispositivos discursivos e formais” (CHARTIER, 1988, p. 26). Isso significa que, ao analisar a relação dos leitores de Grande Hotel com a revista, considero que essa relação é móvel, variável. Portanto, tomo a produção do sentido dos textos de Grande Hotel como dependente também do próprio texto e da modalidade da leitura realizada.

Como uma revista que veiculava fotonovelas, podemos afirmar que seu objetivo editorial era ter, como público alvo do impresso, as mulheres. Mesmo que homens também as tivessem lido, as revistas que publicavam as fotonovelas eram revistas femininas porque traziam, em suas seções, temáticas atribuídas tipicamente ao universo feminino. Assim, de acordo com os rótulos, temas como: beleza, cuidados domésticos, moda, culinária pertenceriam ao mundo das mulheres. Trata-se, ainda, de um produto “insistentemente classificado” como da “cultura de massa” (SAMPAIO, 2008, p.98).

Ao estudar uma revista dirigida às mulheres entre o final dos anos quarenta e o início dos anos sessenta, como também as narrativas dos leitores a respeito de suas experiências de leitura de Grande Hotel, lidamos com discursos, de modo algum neutros. A investigação que abordo neste artigo tem tratado de representações construídas nos textos veiculados pela revista Grande Hotel, a respeito das mulheres, presentes em um impresso dirigido a elas, as quais certamente encontram-se “num campo de concorrências e de competições, cujos desafios se enunciam em termos de poder e dominação” (CHARTIER, 1988, p.17). Especialmente a revista e os textos nela contidos apresentam percepções do social que, nas palavras de Chartier (1988, p.17), “produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projecto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas”. Dessa maneira, ao analisar a leitora visada pelo editor da revista feminina, e os leitores empíricos desses impressos poderemos oferecer os contornos de mulheres e de homens, nas suas relações, envolvidos em lutas de representações em um período bastante peculiar da história. Entre as décadas de 1950 e 1970, vemos explodir, em várias partes do globo, os movimentos sociais, o movimento feminista, que viria, ele também, marcar a história (sobretudo das mulheres). Logo, por meio das lutas de representação, em torno da figura feminina – sem, é claro, procurar pensar a mulher assim, inteira e homogênea, como sugere essa expressão –, poderemos “compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio” (CHARTIER, 1988, p.17).

Trata-se, pois, de uma proposta de pesquisa que tem em vista, de acordo com Chartier, “uma história cultural do social” (1988, p.19), uma vez que a análise incide sobre representações do mundo social. Desse modo, a investigação poderá contribuir com a compreensão de “formas”, de “motivos” os quais traduzem posições, interesses dos atores, que “objetivamente confrontados”, descreveriam “a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse”. Nessa direção, a pesquisa sobre leitoras visadas e leitores empíricos de Grande Hotel, suas práticas de leitura relativas ao impresso e sua apropriação da revista, dos textos nela publicados poderá descortinar imagens de mulheres, desejadas e reais, e também de homens de “carne e osso”.


Referências

ABIB, Ivani Vecina. Argumentação e publicidade: o universo feminino e o percurso da sedução. Dissertação (Mestrado) – São Paulo, Pontifícia Universidade de São Paulo, 2002. Disponível em:

  1   2


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal