Ecce homo – o sagrado o que é o Sagrado?



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ECCE HOMO – O SAGRADO*

 

1. O que é o Sagrado?

Pode ser palavra, experiência e objeto: a família, a vida, a experiência. O sagrado mantém a chama do mistério: de um lado de exaltação e outro de sombrio. O homem tem necessidade de crer em algo que dá sentido a vida, arraigado em suas crenças mais profundas e que atinge suas emoções. O sagrado se personifica em um Deus, Igreja, Doutrina ou num personagem.
2. O sagrado e a natureza

Para os antepassados os céus manifestavam o sagrado. A natureza tinha formas familiares e personificação divina. A natureza permitia comunhão entre o homem e o divino. O mito era partilhado entre a comunidade.

Neste sentido o sagrado é compreendido como conjunto de valores e idéias, e tem a função de dar sentido às causas da existência humana.
3. O sagrado e o fogo

O temor da natureza, a terra e o céu eram fontes da reflexão. Surge o animismo: a crença que objetos são habitados por forças divinas e explicam as dúvidas do homem.

A função do mito (sagrado) é dar respostas às questões fundamentais do homem: de onde vivemos, para onde vamos, quem somos. O mito mais antigo é o da deusa mãe, representado por uma mulher grávida.

Neste sentido o sagrado é carregado de símbolos (personifica). O uso dos símbolos é como o uso de instrumento tangível para tocar o intangível. Por isso houve a necessidade de objetos tangíveis para explicar o sagrado.

Um importante elemento simbólico é o fogo que significa a sabedoria e a água que purifica. Outro símbolo é a morte. O sagrado começa com o cultuar dos mortos cercam de 90.000 anos atrás. Era necessário contatar com a vida após a morte. O homem preocupa-se com o sentido do tempo, de vida e morte.
4. O fogo universal

É necessário um prédio para venerar a morte, onde há temor, as atitudes são diferentes. O local sagrado é diferente do comum, deve estar separado da realidade. São construídos a partir da geometria própria e com o auxilio da astronomia. Na cultura oriental as técnicas de construção afastam as forças negativas.

O conceito de sagrado tem duas dimensões: a temporal e a espacial. No espaço se manifesta os rituais em grupo, a tristeza, a alegria, há meditação, celebração e oração. A liturgia no sagrado tem sentido de coesão social. O sagrado tem  uma dimensão de separar o indivíduo do cotidiano. O tempo no sagrado é diferente: regenerativo, cíclico e atemporal.

O próprio homem faz a ligação entre o sagrado e o humano. Para os antigos eram os anciãos e em algumas religiões são os sacerdotes. Eles são os guardiões do sagrado.

O sagrado também mantém uma hierarquia e uma ordem de forças submetidas. Os princípios sagrados direcionam a vida, dão segurança, e estabelecem a ordem social e a coesão social. Será possível existir preceitos morais sem a moralidade da crença humana?

Quem transgride este principio tem penalidades. A transgressão é avaliada pelas instituições religiosas ou por ritos locais que evocam idéias seculares. As estruturas e modelos das instituições são semelhantes. Os princípios não se questionam. Mas às vezes são transgredidos mesmo que temporariamente. Estas transgressões são válvulas sociais para renovar o sentido do sagrado. Ex. O carnaval.

Da transgressão surge novas compreensões, novo sentido. Como Buda  e Lutero. As novas respostas ao sagrado são dadas pela ciência (Copérnico e os cientistas): a compreensões se dá pela observação. Acontece uma mudança de pensamento e nova interpretação do sagrado. Questiona-se a explicação do sagrado e a ciência torna-se sagrada.
5. O fogo sagrado do progresso

No século XIX surge com a ciência o racionalismo, novo tipo de sagrado. A ciência torna-se análoga a religião. Os cientistas são os novos sacerdotes. Através do progresso é mais fácil acreditar que compreender. As novas descobertas fascinam e aterrorizam o homem. A medicina e a ciência dão novas explicações às questões humanas. Surgem novos equipamentos e novos experimentos que questionam o homem: Hiroshima e Chernobil. O progresso expõe a dualidade: ele traz questionamentos com a poluição e o desequilíbrio da natureza, compreende, mas não da respostas, progride, mas traz mais obscuridade.

  Atualmente as grandes religiões absorvem metade da população mundial. O sagrado continua um tema importante. Na definição atual, sagrado é tudo aquilo que o homem define como tal e deve ser constantemente renovado. Tanto o ocidente quanto o oriente retomam os valores essenciais do homem. Para muito a interpretação do sagrado é uma busca solitária. O sagrado não é mais algo imposto. O sagrado se manifesta na evolução técnica, nos novos ídolos (pessoas, celebridades), os crentes são legiões de fãs. Os novos sacerdotes são os ecologistas que revelam a angustia do homem diante da natureza, mas que desperta a solidariedade.

Só podemos conceber o sagrado como experiência do passado, do presente e do futuro. O problema do século continua sendo à busca do sagrado e das respostas para os mesmos mistérios desde os primórdios: de onde viemos? Para onde vamos? Quem somos?


* Autores do trabalho: Guy Ménard é professor do departamento de ciências da religião da UNIVERSIDADADE de QUEBEC em Montreal. Roger Dadoun é psicanilista, filosofo e poeta. Jean Delumeau nascido em Nantes, é historiador francês especialista em cristianismo no período renascentista. É doutor em letras e ensina na Escola Politécnica de Rennes. Síntese: Gilmar J Hellmann
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