Economia o pensamento Realista de Hans Morgenthau



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Revista CADE-FMJ

S E Ç Ã O IV


ECONOMIA


O Pensamento Realista de Hans Morgenthau

Prof. Fernando Roberto de Freitas Almeida*

O presente artigo apresenta análise da interpretação realista das Relações Internacionais, enfocando o conceito de poder, na obra fundadora da Escola Realista, A Política entre as Nações, do pensador alemão naturalizado americano Hans J. Morgenthau, cujo centenário de nascimento se comemora em 2004. As controvérsias provocadas por esse livro instigante prosseguem, levando a que, de fato, as Relações Internacionais, com suas muitas teorias, tenham, como um de seus poucos pontos de convergencia, o debate com as idéias de Morgenthau, um referencial permanente.

Após as conferências de Teerã, Ialta e Potsdã, de que participaram os líderes aliados Winston Churchill, Josef Stalin, Franklin Roosevelt e, posteriormente, Harry Truman, que, além de adotar posição mais rígida com a URSS, nessa última conferência, informou a Stalin sobre a bomba atômica)1 convocadas para se definir um novo sistema internacional, após a derrota do Eixo, o governo dos EUA investiu vultosos recursos na instalação e no financiamento de centros de pesquisas dedicados a um campo de estudos que se notabilizou como uma “área americana” das ciências sociais: o campo das Relações Internacionais. Tal vinculação aos interesses da grande potência marcará para sempre a visão da disciplina. Evidentemente, uma potência hegemônica precisa conhecer aqueles com quem está lidando, ou seja, o desenvolvimento teórico das Relações Internacionais pode ser entendido como um programa de Estado, para fortalecer o Estado. A paz, tão procurada no imediato pós-II Guerra Mundial, poderia vir pela defesa intransigente dos interesses nacionais, pela hegemonia?

Como observou Gonçalves (2002:49),

o acadêmico australiano Scott Burchill, na introdução de seu livro sobre as teorias das relações internacionais, afirma que: ‘Relações Internacionais pode ser designada como a disciplina do desacordo teórico’. Isso porque os especialistas divergem sobre praticamente tudo o que diz respeito ao seu quadro teórico-conceitual.

Tal quadro não poderia deixar de ser extremamente complexo, tendo em vista, conforme referência do mesmo autor (2002:50) que



o projeto das Relações Internacionais como disciplina nasceu da necessidade de se encontrarem as razões da Primeira Guerra Mundial, uma vez que a História Diplomática e o Direito Internacional, que ao longo do século XIX haviam-se ocupado do assunto, já não conseguiam mais dar conta da complexa rede de interações que formavam a realidade das relações internacionais do século XX. A primeira cátedra dedicada às Relações Internacionais, Cátedra Woodrow Wilson2, foi criada na Universidade de Gales, em 1919.

É interessante nos debates que, até então, haviam ocorrido nos EUA a figura do teólogo Reinhold Niehbur (autor de Moral Man and Inmoral Society, de 1932) para o qual não se podia esperar que os grupos humanos agissem segundo princípios éticos e morais, pois irão sempre agir apenas politicamente3. Só os indivíduos agem moralmente, em seu ponto de vista, com raças, classes e nações buscando sempre defender seus próprios interesses. Segundo ele, “a nação é a coletividade mais coesa e egoísta que existe”, o que significa considerar as relações internacionais como relações de poder.

Para ter paz, então, seria enganoso usar o argumento de que uma nação deve ser mais ética do que as outras. Tais considerações provocaram grande celeuma, ainda mais que o religioso Niehbur, acreditando, necessariamente, em um ser humano imperfeito, arrolava entre suas fontes os não-americanos Freud, Nietzche e Karl Marx. Da visão freudiana, tirou a idéia do comportamento irracional das nações e de Marx : os grupos são economicamente interessados. Nietzche lhe deu o afastamento daqueles que se dedicariam a um objetivo superior. Atacar desta forma a visão idealista que vinha sendo debatida desde Woodrow Wilson só poderia causar incômodo.

Aliás, seguindo-se à criação da Cátedra Woodrow Wilson, coube ao historiador inglês Edward Hallett Carr (1892-1982) mostrar como o pensamento sobre o funcionamento do sistema internacional no entre-guerras apresentou dois julgamentos bastante divergentes, no dizer de Griffiths (2004), o realismo e o idealismo, ou utopismo4. Assim, pode-se considerar, simplificadamente, que as teorias das Relações Internacionais vêm a ser esquemas para entender o mundo a partir de um país que se tornou o centro do sistema internacional, e de outro, que havia deixado de sê-lo.

Como assinalou Griffiths (2004), Carr, em sua obra clássica Vinte Anos de Crise: 1929-1939, cuja primeira edição foi publicada em 1939 e a segunda em 1946, justamente argumenta que as ciências humanas tendem a ser prescritivas, “subordinando a análise dos fatos ao desejo de reformar o mundo”. Dessa forma, o estudo das relações internacionais estaria relacionado inicialmente ao equilíbrio de poder vigente na Europa desde 1815, em que a Grã-Bretanha exercia papel fundamental. Como observou Pecequilo (2004:127), Carr, diferentemente do que mais tarde afirmará Morgenthau, quando declarou estar sistematizando uma teoria realista para a política internacional, tinha como objetivo oferecer sugestões para o começo de uma ciência para o estudo da política mundial que escape das utopias.

Se Niehbur é considerado o “pai do realismo” americano, referência teórica central, deve-se considerar que ele não esgota o assunto, que precisou ser fundamentado no pensamento político clássico. Walter Lippman e John Spickman, com suas análises de geopolítica, são também formuladores do realismo, mas foi em 1948 que surgiu a obra basilar desse modo de ver o relacionamento entre os Estados nacionais: Politics Among Nations (A Política entre as Nações) de Morgenthau.

Afinal, o que é a teoria realista? Em linhas gerais, propõe que o meio internacional é composto por Estados nacionais, que possuem recursos desiguais, lutam para obter mais poder e, assim, realizar seus interesses nacionais (o subtítulo do livro de 1948 é A luta pelo poder e pela paz). Para um país periférico, como o Brasil, não há uma formulação dos realistas e, em linhas gerais, seguem-se aqui os para-
digmas estabelecidos pelos analistas do hemisfério Norte.5 Morgenthau definiu seis princípios básicos:

1° a sociedade é governada por princípios que encontram suas raízes na natureza humana que, independentemente de tempo e lugar, sempre busca a realização de seus interesses;

2° a política internacional não segue ética, moral ou religião, apenas o “interesse definido em termos de poder”. Segundo Gonçalves (2002:56), isso permite a “análise racional do comportamento político dos governantes”, pois o poder é o meio que se utiliza para se obter ainda mais poder;

3° os interesses mudam de acordo com as circunstâncias, mas a essência, que é a busca pelo poder, não muda;

4° existem leis morais próprias para a política internacional e, para Morgenthau, há dois tipos de ética, como definidos por Max Weber: a ética da finalidade e a ética da responsabilidade;

5° não se aceita a idéia de que “determinada nação possa revestir ‘Deus está conosco’ como uma frase perigosa por conduzir a guerras”(Gonçalves, 2002:57) e “a paz só pode existir como resultado da negociação dos diferentes interesses dos Estados”. Tal proposição era problemática nos EUA, pois significava crer ser tão esdrúxulo querer “salvar o mundo” pelo nazismo quanto pelo liberalismo democrático, mas Morgenthau provinha de um meio em que floresceu e prosperou o nazi-fascismo;

6° é preciso reconhecer que a esfera política é independente e, como cada dimensão da realidade precisa de explicação por instrumental teórico específico, o realismo seria essa ferramenta para o estudo das relações internacionais (no dizer de Gonçalves, p.57, “para o correto entendimento da política”).

Os realistas vêem o fenômeno da guerra como essencial às relações internacionais, mas sem abordar o ponto de vista econômico. Estão ausentes de sua obra, por exemplo, referências a um “keynesianismo militar”, atualmente bastante citado por autores da área. Giovanni Arrighi (O Longo Século XX), por exemplo, usa esse conceito para clarificar o desempenho dos diversos Estados nacionais que detiveram a hegemonia ao longo da expansão do capitalismo, como um sistema econômico que viria conseguir abrangência mundial, a partir do século XVI.

Fazendo uma reconstrução teórica do realismo, é possível identificar duas fontes diretas, Maquiavel e Thomas Hobbes. Tucídides (460-400 aC), com sua análise da Guerra do Peloponeso, é igualmente um referencial importante, já que apontou como causa daquele conflito a preocupação espartana com o aumento do poderio militar ateniense.

Maquiavel, como todo cientista político ou filósofo, propunha um diálogo com autores precedentes, no caso, o pensamento aristotélico. Aristóteles, por vezes considerado o “filósofo do empirismo”, apresentou a família como a origem da sociedade, saindo do poder patriarcal o poder da sociedade. Daí, considerou o Estado como algo natural e o rei, naturalmente, seria o pai de todos. A apropriação dessa visão pela teologia cristã (início do século XIII), deu força nova ao aristotelismo, com São Tomás de Aquino “cristianizando” Aristóteles, a partir da substituição da natureza por Deus. É sobre essa base que Maquiavel se movia, sem desenvolver um sistema filosófico, mas, a partir da experiência, mostrava que a sociedade é formada por homens, que nutrem interesses, que são contraditórios e os levam a choques. O ser político bem sucedido tem controle sobre todas as variáveis de seu interesse e a conquista e a manutenção do poder provêm do cálculo. Para ele, a Igreja aparece apenas como uma instituição, uma das variáveis relevantes de sua época.

Aparece aí a essência do realismo: analisar a realidade como ela é, não como deveria ser, o que caracteriza o caráter prescritivo dos idealistas. Vê-se o debate com Aristóteles nitidamente no afastamento da moral em relação à política, negando a noção aristotélica de que esta última visa ao bem comum. Ao estudar Tito Lívio, queria estudar um Estado paradigmático: Roma. Aliás, na atualidade, dada a supremacia americana no campo militar e a característica de “império ideológico” da hegemonia dos EUA, são cada vez mais comuns as comparações deste país ao Império Romano. Outra ruptura com o pensador grego foi a proposição de que o Estado se funda sobre a astúcia e a razão, não sobre a família.

De Thomas Hobbes, que se propôs a fazer mais do que uma reflexão política, uma ciência política, os realistas tiraram a busca de “compreender de forma racional o Estado e estabelecer o objetivo de sua existência” (Alves, 1997:32). De fato, onde em Maquiavel estava o Príncipe, em Hobbes está o Estado. Conforme Alves (1997:32):


O soberano exerce o monopólio da força e não reconhece nenhuma outra soberania terrena, pois abaixo dele todos são súditos. Neste sentido, o Estado soberano não reconhece nanhum outro poder com capacidade de lhe impor leis. Nas suas relações externas, o Estado goza de total independência, não se submete à lei e pode recorrer à violência, quando for sua conveniência.

É fundamental, então, a distinção entre o meio interno, o estado de sociedade, regulado pela autoridade máxima do governante, e o meio externo, caótico, o estado de natureza. Neste último, viviam os seres humanos antes de se organizarem, delegando o monopólio da violência ao Estado, representado por um monarca. Hobbes concluiu que o ser humano mistura o tempo todo razão e paixão, e que o Estado será uma organização racional, para induzir o ser humano a atuar de forma racional. O pacto social foi possível internamente, mas, nessa visão, não o será externamente. De fato, dá continuidade ao pensamento de Maquiavel, contradizendo Aristóteles e o pensamento católico: a sociedade não é natural; resulta da vontade dos homens, sem intervenção divina.

Para o filósofo e advogado australiano Hedley Bull6, o hobbesianismo é um dos três paradigmas (modelos) das Relações Internacionais, ao lado do grociano (Hugo Grotius, considerado o pai do Direito Internacional) e do kantiano (Emmanuel Kant, tido como a origem do pensamento idealista em Relações Internacionais).

Pecequillo (2004:136) apresenta um resumo dos pressupostos básicos do realismo, reproduzidos no Quadro 1.



Quadro 1

Realismo: pressupostos básicos

Natureza humana

Má, perversa, incontrolável e ambiciosa; homens sempre buscam a realização de seus interesses individuais

Características do sistema internacional

Formado por Estados soberanos que interagem sem controle ou lei superior; Estado de natureza/anarquia; possibilidade latente de guerra.


Atores do sistema internacional

Estados são os únicos reconhecidos; demais atores que eventualmente estão agindo não importam.

Ordem no sistema internacional

Equilíbrio de poder

Conceitos centrais

Anarquia, poder e interesse nacional, Estado, equilíbrio de poder.

Fonte: Cristina Soreanu Pecequilo, Introdução às Relações Internacionais.

Fundamentos da análise de Hans Morgenthau

A propósito das considerações anteriores, podem-se identificar as origens do raciocínio de Hans Morgenthau. Além dos autores citados, Morgenthau adotou Max Weber como seu modelo pessoal e intelectual, conforme lembra Ronaldo Sardenberg, no prefácio à edição brasileira de Política entre as Nações (UnB, 2003). Aliás, segundo Pecequilo (2004:210),



Weber, como Maquiavel, indica a separação entre o poder e a moral, ressaltando a especificidade da ação política, destacando a necessidade de ela ser julgada por seus próprios resultados e méritos e não por um conceito abstrato ou padrão universal ideal (a oposição entre ética da responsabilidade e da convicção). Em Weber, destaca-se a figura do Estado como detentor do monopólio legítimo da força e as suas formas de dominação: lei, tradição e carisma.

Já em seu primeiro livro, Scientific Man versus Power Politics, de 1946, Morgenthau apresentou concepção tradicional, metafísica e religiosa da “queda do homem”, mostrando o “homem político” como uma criatura egoísta inata, com necessidade insaciável de dominar os outros. Citava, então, três dimensões da natureza humana: biológica, racional e espiritual, que dominam o comportamento da espécie, mas optou por enfocar a vontade de poder.

A observação de Smith (2000:187) para os historiadores, com referência a como sua “situação de vida” (Sitz in Lebem) influencia fortemente sua capacidade e seus critériios analíticos, é perfeitamente aplicável a esse modo de ver de Morgenthau: judeu alemão, filho de pai autoritário, como registrou Sardenberg no prefácio acima referido, assistiu à I Guerra Mundial e suas repercussões. Obviamente também acompanhou a ascensão do irracionalismo nazista (capaz de unificar o liberalismo ocidental e o dirigismo estatal estalinista, como apontou Hobsbawn em A Era dos Extremos).

Especializado em Direito e diplomacia, quando viajou para a Áustria, em 1932, não mais pôde retornar a seu país. Curiosamente, procurou empregos em locais em que se consideraria útil, como a Palestina, a Pérsia, o Afeganistão e, frisa Sardenberg, até a América Latina (sic). Não se interessou pelos EUA, onde faria toda sua carreira no futuro, exatamente por pensar que lá não teria como destacar-se. Fixando-se, então, na Espanha, não pôde mais uma vez retornar a sua casa, pois a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) o pegou de surpresa, quando passava a lua-de-mel na Itália.

Diante do novo conflito, migrou para os EUA, em 1937, naturalizando-se em 1943. O ambiente intelectual americano era de embate entre isolacionistas e idéias legalistas e foi das notas de aula dos alunos que ministrou em Chicago (onde lecionou até 1971) que redigiu A Política entre as Nações, trabalho pioneiro na articulação da teoria realista das Relações Internacionais, cuja primeira edição tratava da obsolescência do Estado nacional soberano. Na segunda edição, lançada em 1954, as novas tendências estruturais do sistema internacional, o processo de descolonização, a montagem de instituições supranacionais, a partir da ONU, levaram a que enfatizasse estas últimas e proclamasse a vitória do realismo.

Contudo, queixava-se de incompreensão, visto que suas críticas à política externa americana não eram bem recebidas. De fato, ele foi contra o Estatuto da ONU e, posteriormente, sua posição de crítica à Guerra do Vietnã o isolou, a ponto de outro expoente da escola realista, Henry Kissinger, não lhe dar crédito em seu grande livro Diplomacia. Morgenthau acabou sendo considerado somente como um analista da Guerra Fria, mas ele percebeu as limitações de qualquer teoria das relações internacionais, embora considerasse a sua aplicável a todos os Estados (concentrando-se no mais forte).

Para Morgenthau, as políticas externas dos países refletem três padrões de atividade:

1° manutenção do equilíbrio do poder (status quo);

2° expansão (imperialismo);

3° demonstração (política de prestígio).

Pode-se perceber uma contradição básica: resistiu à idéia de uma ordem internacional, dada toda a carga de seus pressupostos teóricos, mas não descobriu leis para o equilíbrio de poder e traz a suposição de que, a longo prazo, algum tipo de equilíbrio será inevitável ao sistema anárquico. Então, a estabilidade será uma função da habilidade e da vontade dos estadistas, o que defende em várias partes do texto. As mudanças resultantes do fim do grande conflito de 1939-45 criaram uma estrutura bipolar, muito mais difícil de ser administrada. Destacou quatro mudanças fundamentais:

1ª desde o século XVIII, diminuiu o número de grandes potências e a diplomacia perdeu flexibilidade. Neste ponto, é necessário ressaltar que Morgenthau faz extensa defesa do corpo diplomático que existiu na Europa dos nobres do século XIX, que atuavam como uma corporação acima das nações, com importantes diplomatas vindo a ocupar cargos ministeriais em diferentes países, algo inimaginável no século XX, com a lealdade a um único Estado nacional sendo considerada obrigatória e, melhor dizendo, óbvia;

2ª deixou de existir uma grande potência, para atuar como Estado-tampão entre as superpotências. A Grã-Bretanha havia atuado como um árbitro do continente europeu, no século XX, mas este papel não passou a um sucessor;

3ª compensações territoriais não mais puderam ser usadas para manter o equilíbrio central, pois houve a descolonização em escala mundial;

4ª o século XX, com as novas tecnologias, para transporte, comunicação e guerra, transformou-se numa era de “mecanização total, guerra total e dominação total”.

Como resultado dessas considerações, além da base de seu pensamento, tornou-se pessimista quanto à possibilidade de os EUA e a União Soviética manterem a paz internacional. Isso é explicitado nas Partes 7 e 8 de A Política entre as Nações, em que analisa o novo equilíbrio de poder, com a Europa sendo retirada de cena, após ter criado tecnologias e instituições de que outros se apropriaram, e as tentativas de manutenção da paz proliferaram, sem maior sucesso. Afinal, se não era o arsenal atômico a fonte da instabilidade (era a disputa pelo poder) também não poderia ser a solução para ela. Percebe-se que foi um advogado que escreveu sobre a futilidade do Direito Internacional, da opinião pública, do desarmamento e da ONU, já que estava preso a uma crença metafísica na natureza humana, mas definiu limitações para o poder:

1ª por moral;

2ª pela opinião pública, mesmo que tenha desacreditado da força de uma opinião pública internacional, preferindo considerar que, em todos os países, há determinados nichos, em que opiniões também presentes em outros países irão desenvolver-se e manifestar-se;

3ª pelo próprio Direito Internacional;

4ª pela necessidade da paz, apesar de não elaborar cálculos sobre o custo econômico da guerra, preocupação que já afetara Xenofonte, na Grécia Clássica, como lembrou John Kenneth Galbraith;

5ª pelas organizações internacionais;

6ª pela diplomacia.

Pode-se reparar, pelo até aqui exposto, que é um ponto interessante de toda sua análise da virtual abstração de variáveis econômicas e tecnológicas, tratando essencialmente da problemática da capacidade industrial dos Estados nacionais e das tecnologias militares que possam utilizar. No que se refere à economia, com efeito, o pensamento realista não a priorizou, tendo em vista trabalharem no nível de uma high politics que, segundo Pecequilo (2004:121),

refere-se aos componentes essenciais da política de poder para os realistas, envolvendo os elementos militares, diplomáticos e estratégicos que definem a capacidade de projeção internacional do Estado e sua capacidade de ação diante de unidades políticas semelhantes. Pode-se dizer que este termo indica os aspectos mais “nobres” da política internacional, opondo-se às questões sociais, culturais e econômicas dos Estados, pertencentes ao seu mundo doméstico, que representariam a low politics.

Críticos do idealismo consideram que esse pensamento, efetivamente, formou um tipo de “folclore” ou uma “cultura diplomática” que leva à guerra e apontaram contradições e tensões na principal obra de Morgenthau, a saber:

1ª não distingue entre poder como um fim e poder como um meio para conquistar um fim;

2ª não define se o pessimismo quanto à política internacional provém das hipóteses metafísicas sobre a natureza humana, ou da própria natureza anárquica do sistema internacional;

3ª há tensão entre o compromisso que ele tem com a teoria, como descrição da realidade e como instrumento para a política externa americana.

Grande contradição foi que sua crítica à política dos EUA pressupunha que esta falhara ao concordar com as exigências do “interesse nacional”. Isso enfraquecia seus argumentos de que a política internacional não era uma esfera de escolha e contingência, mas de necessidade e determinismo. Afinal, se há “leis objetivas enraizadas na natureza humana”, tanto faz se os estadistas as conhecem ou não, mas se sua aplicação depende de prévio conhecimento, então não há leis empíricas.

Ficando contra a Guerra do Vietnã, perdeu posições importantes que poderia conquistar no stablishment intelectual americano, principalmente tendo em conta a peculiaridade daquele país, em que o meio acadêmico fornece os grandes formuladores de políticas externas. Desde os anos 50, ele se preocupava mais com a política exterior dos EUA e as relações com a URSS e menos com a teoria.

Sua crítica à intervenção no Sudeste Asiático era baseada em princípio clássico da diplomacia: estadistas não devem comprometer-se, sob risco de perda de prestígio seu e de seus países, com posições das quais não possam recuar, nem avançar sem o risco de se chocarem com outras superpotências.



O “núcleo duro” de A Política entre as Nações

A Política entre as Nações é um livro volumoso (1.093 páginas, na edição brasileira) e toda sua parte III (403 páginas) é dedicada ao “Poder Nacional”, cujos elementos são:

1° geografia;

2° recursos naturais: alimentos, o recurso mais elementar e cita os casos da Grã-Bretanha, da Alemanha, e da decadência do Império Espanhol, mas não se refere ao emprego deles como arma (a “arma alimentar” passou a ser analisada em diversos países nos anos 70, conforme Almeida, 2001); e matérias-primas, das quais analisa apenas aquelas que interessam aos EUA, o petróleo, a energia atômica (considerando “irracional” que Estados nacionais controlem o poder nuclear);

3°capacidade industrial: comentada sem análises sobre os comportamentos dos grandes grupos privados, que à época já eram vistos como agentes extremamente importantes, notadamente nos países de tradição liberal;

4° grau de preparação militar: em que enfatiza a tecnologia;

5° liderança: aponta para a existência de líderes providenciais, como foi Frederico, o Grande, para a Prússia;

6° população: referindo-se à distribuição pela Terra e a suas tendências, comentando especificamente a expansão demográfica da América Latina, o que veio a ser objeto recente da preocupação de Samuel Huntington, em livro ainda não traduzido para o português;

7° índole nacional: afirmando que não se preocupa com os fatores formadores da índole nacional, ignora uma rica discussão no âmbito de diversas disciplinas. Dado o mundo em que vivia e a proposta que apresentava, analisa mais cuidadosamente a índole nacional russa e relacionando índole e poder nacional, comenta a “força e a persistência” elementares dos russos, a “inventividade individual dos americanos” e a “disciplina e exatidão germânicas”. Morgenthau segue uma trilha antiga, como observou Anderson (1996:149), mas, pragmaticamente, sonega a importância do assunto:



O primeiro autor importante sobre o assunto, David Hume, introduzia-o com a advertência de que ‘as pessoas vulgares tendem a levar todos os caracteres nacionais ao extremo’, mas que essa não era uma razão para negar sua existência. Homens de senso condenam esses julgamentos indistintos, embora, ao mesmo tempo, eles concedam que cada nação tem um conjunto peculiar de maneiras, e que algumas qualidades específicas são mais freqüentemente encontradas entre um povo do que em seus vizinhos.

De fato, Anderson lista os autores que primeiramente trabalharam com estas distinções, e não foram poucos: Voltaire, na Enciclopédia, com sua descrição elogiosa dos franceses; Kant, em seus elogios aos alemães e desvalorização dos ingleses, sendo, cem anos depois, repetido por Nietzche, de forma radical: “Comparados aos ingleses, uma manada de bêbados e vadios que aprenderam outrora grunhidos morais sob a influência do metodismo e do Exército da Salvação”, os alemães podem ser criticados, mas são mais “intangíveis, mais amplos, mais incalculáveis”; Vincenzo Gioberti, incensando o caráter italiano, até Alfred Fouillée, colega de Durkheim, que publicou um Esquisse psychologique des peuples européens, em 1902. Otto Bauer, mais detidamente citado, procurou explicar a idéia de caráter nacional “racionalmente, como os muitos diferentes produtos da história” (Anderson, 1996:153), diferindo dos demais marxistas, com a finalidade de combater mais eficazmente o nacionalismo, o que não se faria negando “as especificidades auto-evidentes de uma nação”. Nisto, aproximou-se de Hume.

8° moral nacional: elemento classificado como esquivo e menos estável, sendo o grau de determinação com que um povo apóia as políticas de seu governo; evidentemente intangível, aparece sob a forma de opinião pública e esta instabilidade o incomoda, perguntando: “como os americanos reagiriam àquilo por que a Europa e a Ásia passaram?” Para saber algo mais sobre a questão, tem-se de considerar que a qualidade da sociedade e do governo pesa muito;

9° qualidade da diplomacia: que considera o mais importante dos elementos;

10° qualidade do governo, que precisa saber equilibrar recursos e política, selecionando objetivos e métodos. Avalia que, em termos de governo doméstico e política externa, será preciso ter o apoio de outras opiniões públicas (exercendo o soft power, ou seja, conquistando corações e mentes no exterior, com a exportação de sua cultura nacional, por exemplo). Afirma não existirem mais assuntos puramente internos.

Conseqüentemente, a “pirâmide do poder nacional” é composta, então, por uma base relativamente estável, a geografia, subindo em maior instabilidade até a moral nacional, o mais instável dos elementos.

Morgenthau considera que os responsáveis pela política exterior (valorizando a atuação do diplomata) e os que moldam a opinião pública devem avaliar permanentemente os impactos dos elementos no futuro. Como a economia é tratada subsidiriamente, ele pergunta (p.296): “Que significação terá o processo de industrialização de nações como o Brasil, a China e a Índia, para a força militar desses países?” e, logo a seguir, “O que poderão significar as taxas previstas de crescimento da população americana,nas duas próximas décadas e a elevação, mais rápida ainda, do número de habitantes da América Latina,da Índia e da China?” Considerações que levassem em conta outros agentes das relações internacionais, como os grandes conglomerados transnacionais, já existentes àquela época e atuantes no mundo afora, principalmente nos principais países latino-americanos (agindo também freqüentemente conforme os interesses nacionais de seus países de origem) não o fariam chegar a conclusões tão nebulosas, pois seria obrigado a pensar em novas fronteiras para o capitalismo.

Algumas décadas após a redação dessas palavras, o acróstico BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) produzido pela corretora Goldman & Sachs alcançou ampla repercussão mundial. A empresa projetou o crescimento do Produto Interno Bruto desses quatro países, mostrando que, no ano 2050, dominarão a economia mundial, ombreando-se aos EUA. A própria terminologia empregada para eles, como países emergentes, é tão-somente uma sinonímia para a expressão corrente nas análises econômico-financeiras, mercados emergentes.7

Claro, erros de avaliação podem ser cometidos na avaliação dos elementos citados por Morgenthau e ele os analisa detidamente. Por exemplo, é preciso não desconsiderar a relatividade dos elementos entre os países e verificar a permanência, ou não, de determinado fator. Assim, as estatísticas referentes ao porte do exército francês, em 1919, davam-lhe posição ímpar no cenário mundial, a ponto de ser considerado, por Churchill, a garantia de paz na Europa. No entanto, o quadro mudou com o tempo, sem ser reavaliado, levando à derrota acachapante dos franceses diante da Alemanha. Este marcante fato histórico, porém, apresenta leituras complexas e o simplismo/pragmatismo de Morgenthau aqui aparece bem. Segundo Vizentini (1996:42),

a segunda fase da campanha (a Batalha da França) apenas confirma dramaticamente a política que vinha sendo seguida pela direita internacional e pela francesa em particular. A facilidade encontrada pelo avanço alemão surpreende até a Hitler. Importantes reservas militares não são usadas. Toda infra-estrutura econômica é entregue intacta aos invasores, enquanto as tropas desmoralizadas encontram-se entregues à própria sorte. O governo conservador francês parece mais preocupado em impedir uma revolta popular contra sua política de desmantelamento das conquistas sociais da III República, do que em combater os nazistas.

Associado a isso, não se pode atribuir importância demasiada a um só fator. Nesse ponto, critica acerbamente a Geopolítica, tratando-a como uma “pseudociência”, que “eleva a geografia a valor absoluto” (casos do inglês Mackinder e do alemão Haushofer) e o nacionalismo, que enfatiza a índole nacional8 e leva “à metafísica política do racismo” (p.311).

Também despreza o militarismo. Afinal, nenhuma nação que tenha ensaiado os métodos do militarismo foi jamais suficientemente forte para resistir à oposição combinada das demais nações, provocada pelo temor de um poder material superior. No momento presente, os EUA possuem um poder bélico superior ao de todos os outros países somados (possivelmente excetuando-se o arsenal atômico russo, mas as estatísticas sobre ele não são confiáveis) , o que é uma situação inusitada.

Para analisar as limitações do poder nacional, a partir do conceito de equilíbrio de poder, Morgenthau esclarece que usa esse conceito em quatro sentidos:

1° política voltada para certo estado de coisas;

2° estado de coisas real;

3° distribuição aproximadamente igual de poder;

4° qualquer distribuição de poder.

Neste ponto, surge uma comparação com a Economia, pois afirma que seu conceito de equilíbrio traz a mesma concepção de equilíbrio daquela outra ciência e se refere ao capitalismo como um “poder compensatório”. Seu conceito de equilíbrio também é aplicável à política doméstica e, no plano externo, apresenta dois padrões principais, em diagramas (p. 330-338): a oposição direta (uma potência contra a outra) e a competição por terceiros países, em que seu exemplo é a disputa pela Coréia.

Os métodos dos países para que se atinja o equilíbrio seguem, principalmente, o princípio maquiavélico de “dividir para governar”, as compensações territoriais (comenta que, em 1815, após a derrota de Napoleão, chegou-se a criar uma comissão estatística com a finalidade de avaliar os espaços distribuídos entre os vencedores), os armamentos e as alianças.9 Claro que o mantenedor, ou balanceador, do equilíbrio ficará em “esplêndido isolamento”, como a Grã-Bretanha ficou no século XIX, frente ao continente europeu.

Não escapou de sua análise a existência de sub-sistemas inter-relacionados espalhados pelo mundo, com equilíbrios próprios. Para exemplificar este ponto, recorreu à guerra de 1851, de Brasil e Uruguai contra a Argentina, referindo-se a ter “remota semelhança” com o equilíbrio europeu. Com efeito, as disputas no Cone Sul, mesmo a Guerra da Tríplice Aliança, ou do Paraguai, poderiam ser vistas como características de uma fase de definição das identidades nacionais, dentro de um abordagem mais atual da história.

Conclui-se do exposto que, evidentemente, o equilíbrio de poder altera-se com o tempo e Morgenthau observa justamente que o único sistema local de equilíbrio de poder que conseguiu autonomia, ao longo do século XX, foi o latino-americano, por ser, em sua visão, protegido pelos EUA. A derrota do III Reich poderia ter sido, então, considerada fundamental nessa permanência do equilíbrio local, visto que o grande esforço armamentista empreendido pelo regime peronista, que anteriormente contava com o apoio alemão a um projeto de potência regional, na época mesma do lançamento da primeira edição de A Política entre as Nações, alteraria profundamente o quadro regional, em caso de domínio da Europa pela Alemanha.10





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