Economia Solidária e Desenvolvimento Local: uma Contribuição para Redefinição da Noção de Sustentabilidade a partir da Análise de três casos na Bahia



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Economia Solidária e Desenvolvimento Local: uma Contribuição para Redefinição da Noção de Sustentabilidade a partir da Análise de três casos na Bahia

Genauto Carvalho de França Filho

Gildásio Santana Junior

RESUMO

O presente texto examina potencialidades das práticas de economia solidária na efetivação do desenvolvimento local, sugerindo um outro modo de conceber a sustentabilidade na sua análise. A partir de investigação empírica no Estado da Bahia, buscou-se compreender a singularidade de tais práticas na sua relação com o local. Em especial, tal análise procurou salientar como o desenvolvimento das atividades econômicas em tais experiências articula-se com diferentes dimensões da vida das pessoas no território, como o social, o político, o cultural e o ambiental. A idéia fora de mostrar, a partir de um enfoque de antropologia econômica, os reflexos específicos de tal articulação sobre a conformação do desenvolvimento local. Para tanto, a pesquisa estrutura-se a partir de três estudos de caso: a Rede Pintadas, a Associação de Pequenos Produtores da Bahia – APAEB/Valente e o Projeto de Policultura do Semi-árido (Umburanas, Ourolândia e Cafarnaum). Os resultados alcançados apontam diferentes inovações suscitadas através das práticas de desenvolvimento local, permitindo redefinir critérios de relevância para sua avaliação ao incorporar um outro olhar sobre a sustentabilidade de tais experiências.



INTRODUÇÃO

O Estado da Bahia chega aos primeiros anos do século XXI com uma economia que parece pujante, sustentada, ainda, na indústria de transformação de bens intermediários (petróleo, petroquímica e sidero-metalúrgica), mas ampliando significativamente suas indústrias de bens finais, principalmente o setor automobilístico que já representa 17,3% de toda a produção industrial da Bahia (AVENA FILHO, 2006).

Além disso, consolida-se no Estado o pólo de fruticultura do sub-médio São Francisco (Juazeiro), a produção de grãos no oeste (Barreiras), a celulose no extremo sul, a indústria de turismo ao longo do litoral e na Chapada Diamantina, sem falar das indústrias de bens finais leves (calçados, móveis e informática) espalhadas pelo interior, com destaque para as indústrias de calçados.

Em suma, pode-se afirmar que a economia baiana nos últimos 60 anos conseguiu se complexificar, tanto do ponto de vista setorial, quanto espacial, avançando no sentido de diminuir a concentração espacial na Região Metropolitana de Salvador e a prevalência na produção de bens intermediários. Todo esse dinamismo fez com que a economia baiana alcançasse o patamar de sexto PIB do país

No que pese tal dinamismo, o que poderia atestar que as escolhas proferidas estavam certas, os frutos deste crescimento não chegou a todos os baianos. Ocasionando um aparente paradoxo, ou um novo enigma como assinala ALBAN (2005), quando se verifica grande crescimento econômico, porém sem desenvolvimento. Ou seja, apesar do Estado da Bahia ser a sexta economia do país, quando se observa os índices sociais nota-se que a Bahia ocupa as últimas posições (vigésima posição no IDH e abaixo da média nacional em vários indicadores). Logo, analisando a dinâmica da economia baiana por um prisma mais amplo verifica-se que a aparência não representa a essência e uma série de restrições pode ser apontada sobre o seu desempenho econômico.

O fato do descompasso entre crescimento econômico e falta de desenvolvimento não passou despercebido pelos formuladores das políticas públicas e diversas ações foram feitas no sentido de minorar tal situação, entre estas se pode citar programas de desenvolvimento local (Programa Faz Cidadão, incentivo aos Arranjos produtivos Locais (APLs), PRODUR, PRODUZIR I e II, PRO-GAVIÃO, SERTÃO FORTE, CABRA FORTE, até a criação da SECOMP em 2001). Assim, verificou-se uma sucessão de políticas de investimentos, contudo não gerando alavancagem de desenvolvimento no Estado.

Trata-se aí de uma equação mal resolvida, o que nos leva a interrogar sobre as razões dessa situação na Bahia. Se o problema não se encontra na falta de investimentos, deve-se interrogar então sobre o modo ou a natureza do investimento, isto é, a lógica e diretriz destes investimentos, sobretudo nas iniciativas de desenvolvimento local.

O presente texto considera equivocado o enfoque no investimento, como também a visão de desenvolvimento local caracterizada pelo viés da empresarização e exclusividade no empreendedorismo de negócios; logo, há uma necessidade de redefinição dos critérios para avaliação da relevância em matéria de desenvolvimento local. Neste sentido, o artigo apresenta uma proposta de tipologia para considerar a relevância na análise de experiências de desenvolvimento local. A investigação escolheu três casos relevantes de desenvolvimento local na Bahia, fomentada pela sociedade civil: APAEB/Valente, Rede Pintadas e Projeto Policultura no Semi-árido (Umburanas, Ourolândia e Cafarnaum). Os resultados alcançados através da análise dos três estudos de caso revelam o potencial de novas práticas de desenvolvimento local a partir da complementaridade de tais experiências. Os atributos de tal complementaridade, refletido nos pontos fortes observados em cada experiência, sinalizam na direção de superar o economicismo particularmente presente em muitas visões e práticas do desenvolvimento, conduzindo a incorporação de novas perspectivas de regulação da vida econômica e social nos territórios, como particularmente presente na idéia e prática da economia solidária. A visão da economia solidária é então destacada neste texto que se conclui através de uma reflexão sobre novos critérios de relevância e elaboração de um quadro de tipologização das práticas de desenvolvimento local.

O estudo conseguiu apontar as potencialidades contidas nas experiências que buscam uma relação mais equilibrada entre práticas econômicas e práticas sócio-culturais, sócio-políticas e sócio-ambientais.
2. Repensando idéias e práticas do desenvolvimento local

2.1 Breve síntese do debate sobre desenvolvimento local

A preocupação com o desenvolvimento local (seja no debate acadêmico, seja na agenda de discussão pública) aparece fortemente vinculada a uma série de questões/aspectos não resolvidos pelos mercados e pela tradição das políticas desenvolvimentistas (incapacidade de generalizar bem-estar, necessidade de conectar os locais a processos/espaços dinâmicos, de potencializar a produção e de otimizar a comercialização).

Neste sentido, o debate sobre desenvolvimento local surge como uma espécie de solução mágica para os problemas anteriores advindos da idéia de desenvolvimento. Não sem razão, o conceito tende a angariar certa unanimidade e, ao mesmo tempo, desconfiança no sentido da sua importância teórica-prática. Atualmente, ele vem assumindo os contornos próprios de uma espécie de conceito guarda-chuva, que alçado à condição de panacéia, acaba por induzir uma variedade de processos de intervenção.

A questão desloca-se então não para a discussão do desenvolvimento local em si mesmo, mas para suas diferentes modalidades. Neste sentido, as formas de ação do desenvolvimento local podem, mais ou menos, enfatizar a mercantilização, a estatização, as parcerias estado-sociedade civil com protagonismo social, entre outras. Assim, se por um lado o conceito de desenvolvimento local permitiu um avanço significativo no sentido de deslocar o foco de atenção na resolução dos problemas públicos para o território, por outro lado, o problema ou a questão do como agir no território permanece.

Nossa hipótese é de que, no caso baiano, a aposta no desenvolvimento local, enfatizou uma lógica de intervenção quase que exclusivamente centrada nas possibilidades de êxito contidas em uma dinâmica mercantil. É assim que os projetos fomentados pelo governo baseavam-se fundamentalmente numa dinâmica que aqui qualificaremos de empresarização (SOLÉ, 2004), mesmo que o formato das iniciativas utilizadas em alguns momentos fosse do tipo associativo ou cooperativo.

No plano conceitual, um contraponto importante à visão de desenvolvimento local que enfatiza dinâmicas de empresarização pode ser encontrado em GALLICCHIO e CAMEJO (2005). Para estes autores, o desenvolvimento local é entendido como um ambicioso processo que envolve tempo, recursos humanos e econômicos, e, sobretudo, capacidade de construção e criação, o qual implica ir construindo, em cada etapa, estas condições ao nível do território e sua articulação com o global. Estes autores querem distinguir-se de outras práticas que se limitam a incorporação de metodologias e técnicas de intervenção afins, mas que não supõem processos de longo prazo, implicando que tampouco se modifiquem substancialmente as formas de implementação e a sustentabilidade de processos.

Esta preocupação com uma forma de valorização do modo de agir em desenvolvimento local, voltado para uma perspectiva de equilíbrio das várias dimensões compondo a vida num território parece muito próxima das preocupações que são comuns aos princípios, conceitos e práticas de economia solidária (ES).

2.2 Economia Solidária como um modo de agir renovado em matéria de desenvolvimento local?

A compreensão da natureza singular das práticas de economia solidária supõe desconstruir a concepção habitual sobre o fato econômico que o identifica a noção de mercado ou troca mercantil. Ao menos duas implicações problemáticas podem ser constatadas em decorrência dessa definição, indicando seu caráter reducionista. A primeira diz respeito ao pressuposto de escassez caracterizando a realidade e meio ambiente econômico a priori, através da ênfase sobre a noção de recursos raros. A segunda é relativa à visão de natureza humana, cujo comportamento reduz-se a uma questão de escolha racional, como se o próprio da ação e conduta humana fosse de proceder sempre a um “cálculo utilitário de conseqüências”, segundo a expressão de Guerreiro Ramos (1981). Em suma, tal definição formalista de economia baseia-se na axiomática do interesse (Caillé, 2002).

A definição substantiva, por outro lado, especialmente em seu sentido polanyiano, compreende a economia como “um processo institucionalizado de interação entre o homem e a natureza que permite um aprovisionamento regular de meios materiais para satisfação de necessidades” (Caillé, 2003). Este sentido substantivo relaciona-se a concepção aristotélica de economia e a própria etimologia da palavra economia, remetendo a noção de ciência da boa gestão da casa (oikós), ou das condições materiais de existência.

Inspirados numa concepção muito próxima desta, os economistas clássicos ingleses (incluindo Marx) vão enxergar a economia política como o estudo científico da produção, da troca e da distribuição da riqueza material, ou ainda, conforme resume Caillé (2003), “a ciência dos sistemas econômicos, entendidos como sistemas de produção e de intercâmbio de meios para satisfazer necessidades materiais”.



Combinando lógicas econômicas diversas

A compreensão em síntese sobre uma perspectiva substantiva de leitura da economia pode, em resumo, identificar-se a idéia de economia como toda forma de produção e de distribuição de riqueza – o que significa assumir o pressuposto básico de uma definição de economia como economia plural. Como as formas de “fazer economia” variaram historicamente, já que se encontram distintas formas de produzir e distribuir riqueza nas diferentes culturas humanas ao longo dos tempos pode-se então, a partir dessa concepção, reconhecer diferentes economias, o que Polanyi (1983) chama de diferentes princípios do comportamento econômico: o mercado auto-regulado, a redistribuição, a reciprocidade e a domesticidade.

Estes diferentes princípios históricos do comportamento econômico podem resumir-se a três formas de economia (Laville, 1994) com o rearranjo de tais princípios na modernidade. Assim, economia entendida como toda forma de produzir e distribuir riquezas admite:

a) uma economia mercantil – fundada no princípio do mercado auto-regulado. Trata-se de um tipo de troca marcado pela impessoalidade e pela equivalência monetária, limitando a relação a um registro puramente utilitário. Pois, neste tipo de troca/relação o valor do bem (que se mede pelo seu preço) funda a lógica do sistema, ao contrário do primado do valor do laço ou da relação social que se busca numa lógica reciprocitária;

b) uma economia não mercantil – fundada no princípio da redistribuição. Ou seja, marcada pela verticalização da relação de troca e pelo seu caráter obrigatório, pois aparece a figura de uma instância superior (o Estado) que se apropria dos recursos a fim de distribuí-los;

c) uma economia não monetária – fundada no princípio da reciprocidade. Ou seja, um tipo de relação de troca orientada principalmente segundo a lógica da dádiva, tal como descrita por M.Mauss (1978). A dádiva compreende três momentos: o dar, o receber e o retribuir. Neste tipo de sistema, os bens circulam de modo horizontal e o objetivo da circulação destes bens e/ou serviços vai muito além da satisfação utilitária das necessidades. Trata-se, sobretudo de perenizar os laços sociais. A lógica da dádiva obedece assim a um tipo de determinação social específica, pois, ao mesmo tempo livre e obrigada, a dádiva é essencialmente paradoxal (França Filho e Dzimira, 1999).

Em resumo, a noção de economia plural, que aqui adotamos como desdobramento da opção por uma definição substantiva de economia, corresponde à idéia de uma economia que admite uma pluralidade de formas de produzir e distribuir riquezas. Esse modo de conceber (ou entender) o funcionamento da economia real, além de ampliar o olhar sobre o econômico, para além de uma visão dominante que reduz seu significado à idéia de economia de mercado, permite ainda perceber certas singularidades próprias às práticas de economia solidária.

A primeira dessas singularidades diz respeito à possibilidade de pensar as práticas de economia solidária como uma projeção no nível micro ou meso-social desse conceito macro-social de economia plural. A segunda concerne à possibilidade de enxergar a economia solidária como uma articulação inédita dessas três formas de economia, inventando assim um outro modo de instituir o ato econômico, ao invés de ser concebida como uma “nova economia” que viria simplesmente somar-se as formas dominantes de economia, numa espécie de complemento servindo de ajuste às disfunções do sistema econômico vigente (como se a economia solidária tivesse a função de ocupar-se dos pobres e excluídos do sistema econômico, ocupando assim uma espécie de setor a parte num papel funcionalmente bem definido em relação ao conjunto). A terceira singularidade remete a possibilidade de pensar as práticas de economia solidária como modos de gestão de diferentes lógicas em tensão nas dinâmicas organizativas. Neste sentido, enfatiza-se o desafio fundamental da busca do equilíbrio necessário a sustentabilidade de tais práticas em meio a esta tensão de lógicas.

Contudo, para além dessa combinação de diferentes lógicas econômicas enquanto traço que singulariza as práticas de economia solidária como fundamento de uma outra economia, importa salientar ainda uma segunda vocação de tal forma de economia que aqui definimos como construção conjunta da oferta e da demanda.

Construindo conjuntamente a oferta e a demanda

Tal vocação deve ser compreendida assumindo-se o pressuposto de entendimento da economia solidária como iniciativas de natureza associativa ou cooperativista envolvendo moradores num determinado contexto territorial que buscam a resolução de problemas públicos concretos relacionados à sua condição de vida no cotidiano, através do fomento à criação de atividades sócio-econômicas. Neste sentido, a criação das atividades (sócio-produtivas) ou a oferta de serviços, são construídas (ou constituídas) em função de demandas reais (genuínas) expressas pelos moradores em seu local. Tal economia estimula, então, no território um circuito integrado de relações sócio-econômicas envolvendo produtores e/ou prestadores de serviço em articulação com consumidores e/ou usuários de serviços, numa lógica de rede de economia solidária.

Assim, neste tipo de economia, a consideração sobre oferta e demanda como entidades abstratas (supostamente vocacionadas a harmonizar-se sempre, graças à ação transcendente de uma mão invisível – num processo mais conhecido como auto-regulação do mercado) perde sentido. Do mesmo modo que a competição também deixa de ter importância nesta lógica. Isto porque o objetivo da rede é a ruptura com a dicotomia habitual (em regimes de mercado supostamente auto-regulado) entre a produção e o consumo (pelos seus efeitos danosos muitas vezes em temos sociais...) e o estímulo a livre associação entre produtores e consumidores (ou prestadores de serviços e usuários), permitindo a afirmação do conceito de prossumidores.

Nesta economia de prossumidores, a regulação ocorre através de debates públicos concretos no espaço associativo, num exercício de democracia local em que os próprios moradores planejam e decidem sobre a oferta de produtos e/ou serviços (ou seja, a criação das atividades sócio-econômicas) em função das demandas efetivas identificadas precedentemente por eles próprios.

Finalmente, a construção conjunta da oferta e da demanda como característica–chave dessa outra economia estimulada supõe ainda, no nível da ação, uma articulação fina entre dimensões sócio-econômica e sócio-política. Isto porque a elaboração das atividades sócio-produtivas conjuga-se a uma forma de ação pública: trata-se de moradores num determinado território debatendo politicamente seus problemas comuns e decidindo seu destino. Tais iniciativas têm vocação, desse modo, a constituírem-se também como formas inéditas de espaço público em seus respectivos territórios de pertencimento.

Importa salientar que esta construção conjunta da oferta e da demanda significa na prática muito mais uma vocação das experiências de economia solidária. Ou seja, ela não acontece sempre. Isto quer dizer que, nem todos os bens e/ou serviços ofertados em experiências de economia solidária é fruto de uma construção conjunta da oferta e da demanda. Tal construção conjunta aparece de modo mais nítido nas experiências de rede de economia solidária, especialmente quando enraizadas num território, seja abarcando uma cadeia produtiva, seja ofertando serviços e/ou produtos que a comunidade precisa.



Superando alguns reducionismos de visão

Em resumo, os termos do debate que empreendemos acima como modo de compreensão da temática da economia solidária apresentam ainda o mérito de permitir ultrapassar quatro tipos de reducionismo amplamente praticados na análise teórica e que dificulta sobremaneira um entendimento mais arejado deste assunto (e da realidade):



a) A irredutibilidade da idéia de empresa (como propósito) à empresa mercantil.

Um desses reducionismos é a tendência a identificar a idéia de empresa produtiva como sinônimo necessário de empreendimento lucrativo e fins utilitários. Tal modo de pensar anula as possibilidades de ações coletivas organizadas de natureza produtiva e elaborando atividades econômicas sem fins de acumulação privada e em benefício de grupos e comunidades territoriais. Isto implica ampliar o conceito de empresa produtiva, para além da norma capitalista, assim como, redefinir-se os parâmetros de gestão comumente utilizados na direção de um maior desenvolvimento e institucionalização de formas autogestionárias.



b) A irredutibilidade da idéia de economia à troca mercantil.

Um segundo reducionismo susceptível de superação nesse debate é aquele que identifica à idéia de economia exclusivamente à lógica utilitarista da economia de mercado ou da troca mercantil. Tal reducionismo impede as possibilidades de uma ampliação da compreensão sobre o que seja o ato econômico e seu sentido para a vida em sociedade, na direção de sua re-significação enquanto forma de produzir e distribuir riquezas. É assim que a superação de tal reducionismo permite enxergar as singularidades das formas muito diferentes de instituir a economia, entre as quais aquela que coloca a solidariedade no centro da elaboração de atividades produtivas.



c) A irredutibilidade da idéia de política à Estado.

Um terceiro reducionismo consiste a separar à política da sociedade, ou seja, das práticas cotidianas dos cidadãos em seus respectivos territórios, como se o lócus fundamental para tal fim fosse exclusivamente as estruturas de Estado. A visão da economia solidária aqui trabalhada insiste na idéia de uma economia não como um fim em si mesmo (como na lógica de mercado), mas como um meio a serviço de outras finalidades (sociais, políticas, culturais, ambientais, etc.). Isto significa conceber a elaboração de atividades econômicas através de iniciativas organizadas como formas de resolução de problemas públicos concretos num determinado território. Ou seja, as formas de economia solidária podem também ser percebidas como modos de ação pública, isto é, de fazer política no seio da própria sociedade, na medida em que tais iniciativas voltam-se para resolver problemas públicos vividos coletivamente num determinado contexto territorial. Trata-se, evidentemente, do fomento a uma política do cotidiano nos bairros e comunidades que incitam cidadãos a agir.



d) A irredutibilidade da ação humana à ação interessada.

Ao contrário das abordagens da ação social em termos de escolha racional, como se o próprio da ação humana fosse proceder sempre e exclusivamente segundo um cálculo utilitário de conseqüências, numa visão que enfatiza a dimensão estratégica dos comportamentos individuais, a perspectiva da economia solidária abre-se muito mais para uma visão complexa do humano. Este é pensado como antes de tudo um ser simbólico, dotado de valores, e cujo comportamento não pode ser entendido em termos de previsibilidade, mas sobretudo é marcado pela incerteza. Se a necessidade, impelindo por vezes os atores a condutas utilitárias constitui um elemento não desprezível na análise dessa realidade, por outro lado tal fator não pode ser considerado o motor exclusivo na explicação das condutas humanas, sobretudo em matéria de economia solidária.

Em resumo, as práticas de economia popular e solidária no Brasil ganharam em complexidade nos últimos anos, afirmando-se como um campo de atores inventando soluções muito inovadoras entre o econômico e o político para a resolução dos problemas cotidianos enfrentados em seus respectivos territórios como decorrência dos processos de exclusão social. De iniciativas originais no plano sócio-econômico; em que se afirma também uma dimensão política forte, seja através da democratização das relações de produção na direção de processos autogestionários, seja com a afirmação de um tipo novo de espaço público de proximidade naquelas experiências em que se vivencia um outro modo de instituir a economia nos territórios através de processos de construção conjunta da oferta e da demanda; surgem em seguida formas de auto-organização política indicando a constituição de espaços públicos de um segundo nível (França Filho, 2006a) em relação aqueles de proximidade (como os exemplos das redes e fóruns de economia solidária); e, finalmente, conhecemos mais recentemente a multiplicação crescente de políticas públicas de economia solidária, inaugurando-se mais um fato novo na dinâmica deste campo, uma vez que tais políticas intervêm no seio de espaços públicos em diferentes níveis, redefinindo as relações entre sociedade civil e poder político, numa abordagem ampliada da ação pública.

Diante das considerações acima desenvolvidas, como definir relevância em matéria de desenvolvimento local?



3. Critérios de relevância para avaliação de experiências: como definir a sustentabilidade no desenvolvimento local/territorial?

Um primeiro aspecto que devemos salientar para uma consideração sobre relevância em matéria de desenvolvimento local passa pela necessidade de compreender a própria idéia de sustentabilidade aplicada a tais experiências no sentido de desconstruí-la. Ou seja, a sustentabilidade no território não pode ser avaliada apenas segundo critérios de economicidade, isto é, enfatizando, sobretudo, a rentabilidade financeira dos empreendimentos produtivos. Logo, uma redefinição da idéia de sustentabilidade torna-se fundamental neste momento. Neste intuito, um primeiro critério que nos parece fundamental diz respeito à capacidade (ou vocação) da experiência em promover uma articulação fina entre diferentes aspectos da vida em um determinado território, entre as quais destacaríamos as dimensões do: econômico, social, político, cultural e ambiental.

Isto implica reconhecer a importância da dimensão econômica, porém sem admitir sua absoluta centralidade no processo de desenvolvimento. Pois, a sustentabilidade das experiências passa necessariamente pela afirmação das demais dimensões da vida num território: o que significa um território sem história ou sem identidade? Podem as atividades produtivas num território não estarem identificadas com o significado do que se passa (ou se vive ou se constrói) no tecido da vida social que envolve o cotidiano das pessoas? O que dizer de atividades econômicas desvinculadas das características ambientais num território? Ou seja, atividades produtivas que desprezam o manancial de recursos naturais do lugar, cujas fontes energéticas ou os recursos utilizados não se renovam. Como pensar desenvolvimento num território sem considerar a formação da cultura política e a dinâmica de participação das pessoas na discussão dos seus problemas comuns? Onde não há incentivo à preservação e formação de saberes, nem a produção de tecnologias próprias. Em suma, como conceber sustentabilidade num território sem criar as condições de permanência das pessoas nos seus lugares de origem?

As considerações acima situam o alcance da nossa problemática, impondo um desafio metodológico fundamental: como aferir a sustentabilidade em cada uma dessas cinco dimensões?



A seguir serão propostos alguns critérios precisos para aferição da sustentabilidade relativo a cada dimensão. Antes, porém, faz-se necessário apresentar algumas considerações de esclarecimento dessa abordagem. Assim, importa ressaltar por um lado, o caráter de indissociabilidade dessas várias dimensões. Isto é, a importância da sustentabilidade no território ser compreendida em relação ao conjunto das dimensões. Por outro lado, a avaliação da sustentabilidade a partir de cada dimensão no território representa um recurso analítico importante em dois sentidos: de um lado, ao permitir um aprofundamento da compreensão do desenvolvimento local pela explicitação de suas distintas facetas/dimensões (beneficio de aprofundamento do caso); do outro, ao possibilitar um reconhecimento mais preciso sobre diferentes graus de desenvolvimento local nos territórios, favorecendo análises comparativas. Desse modo, a nossa tese central consiste em considerar que o grau de desenvolvimento local e sua sustentabilidade num território supõe um equilíbrio dinâmico entre as várias dimensões que atravessam a vida das pessoas.
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