Ecos da reforma ortográfica de 1911 na imprensa republicana portuguesa: o seculo, o Diario de Noticias, o mundo, o paiz, a capital



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Ecos da reforma ortográfica de 1911 na imprensa republicana portuguesa: O Seculo, o Diario de Noticias, O Mundo, O Paiz, A Capital

Maria do Céu Fonseca

Universidade de Évora

Na edição de 26 de Junho de 2010, o semanário Expresso pôs em prática uma nova ‘norma de escrita’ com a introdução das medidas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em chamada de 1ª página, noticiava o seguinte:




EXPRESSO ADOTOU O ACORDO ORTOGRÁFICO

A PARTIR DE HOJE, TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS NO EXPRESSO SERÃO ESCRITOS SEGUNDO O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO.



LEIA EDITORIAL E PÁG. 2

Que se saiba, este foi o primeiro órgão da imprensa escrita a implementar o acordo de 1990: “Expresso poupa letras e adota acordo”, pode ler-se em artigo da pág. 2 e, mais adiante, “Adotar um acordo” (Editorial, pág. 36).

Há cerca de cem anos atrás, dois outros jornais de referência em Portugal – o Diario de Noticias (fundado em 1864) e O Seculo (fundado em 1881) – procediam de forma idêntica, desta feita em relação à primeira reforma ortográfica nacional. Conhecida por “reforma de Gonçalves Viana” – nome do insigne foneticista, relator da Comissão de trabalhos e um dos seus mentores –, a reforma ortográfica de 1911, que foi oficializada por portaria de 1 de Setembro de 1911, chegou com a implantação da República e os novos ventos da história. Recorde-se que em 15 de Fevereiro de 1911 o governo português nomeia por portaria a Comissão encarregue da reforma ortográfica, que foi publicada no então Diário do Governo, em 12 de Setembro de 1911 (cf. Figura 1e Figura 2). Neste mesmo dia 12 de Setembro de 1911, o jornal Diario de Noticias trazia em 1ª página a informação sobre este decreto publicado no Diário do Governo (cf. Figura 11):



Reforma da ortographia / O «Diário do Governo» publica hoje o seguinte decreto: / «Conformando-se com o parecer da comissão encarregada, por portaria de 15 de Fevereiro de 1911, de estabelecer as bases para a unificação da ortographia que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos e publicações officaes: / Manda o governo da Republica portugueza, pelo ministério do interior […]
E poucos dias depois sai no mesmo jornal a notícia de que a Imprensa Nacional adoptara a nova ortografia (cf. Figura 15):
A reforma orthographica e os typographos da Imprensa Nacional / Por ter sido determinado na Imprensa Nacional / que a reforma orthographica entrasse / immediatamente em vigor, o pessoal typographico deste estabelecimento dirigiu-se esta tarde ao / respectivo administrador […]
O mesmo fez o jornal O Seculo, que, dois meses depois do decreto de oficialização, dava conta, também em 1ª página, da actualização de algumas das normas da ortografia simplificada de 1911 (cf. Figura 28):
A REFORMA ORTOGRAFICA / O “Seculo” adota algumas das alterações propostas pela comissão oficial […]
Desde cedo, outros periódicos da época noticiaram e comentaram esta primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da língua portuguesa. Por aí pode-se acompanhar a preparação de impressores e tipógrafos para receber a Reforma; por aí perpassa o terçar de armas a favor de e contra a Reforma, que chegou a ser impugnado por petição colectiva; e por aí se percebe que a liça de hoje em torno do mais recente acordo ortográfico é o regressar de uma velha questão do princípio do século XX, em que entraram nomes como José Correia Nobre de França, Alexandre Fontes, Henrique Brunswick e os dos filólogos Aniceto dos Reis Gonçalves Viana e António Cândido de Figueiredo, que assinaram cartas em Diario de Notícias e O Seculo: “A Questão Ortográfica / O erudito e respeitável filólogo, Sr. Gonçalves Viana, relator da Comissão Oficial da reforma ortográfica, dirigiu ao Sr. Rodolf Horner a seguinte carta, cuja publicação nos pede” (Figura 18) e “A reforma ortográfica / Do nosso presado amigo e distincto philologo dr. Candido de Figueiredo recebemos a seguinte carta” (Figura 24).

O que se pretende agora é mostrar como alguns periódicos republicanos portugueses acompanharam e repercutiram os acontecimentos ligados à reforma ortográfica de 1911, quer depois da sua publicação em Diário do Governo, quer em fase anterior. O objectivo é tentar apresentar uma memória da época e reconstituir a atmosfera dos acontecimentos mais imediatos que envolveram esta Reforma.


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