Editora Barba Ruiva Editamos material independente e de domínio



Baixar 426.87 Kb.
Página1/9
Encontro30.07.2016
Tamanho426.87 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9
Editora Barba Ruiva

Editamos material independente e de domínio

público a baixo custo.




Os revisores são os próprios leitores. Caso encontre algum erro, contate-nos.

Editora Barba Ruiva



http://ruivabarba.googlepages.com/home

ruivabarba@gmail.com

Impresso no Brasil – 2007






Outros livros desta Editora:

  • Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

  • O Abolicionismo, Joaquim Nabuco

  • O Anticristo, Friedrich Nietzsche

  • 1984”, George Orwell

  • Investigação Acerca do Entendimento Humano, David Hume


Copyleft: todos os direitos liberados.

Promoção de Saúde



a negação da negação

Fernando Lefevre

Ana Maria Cavalcanti Lefevre

Sumário

Apresentação 9
I - A CRÍTICA DOS CONCEITOS 11

Saúde Pública e pós-modernidade 13

A pós-modernidade 13

Pós-modernidade e Saúde Pública 19
Crítica da doença como fatalidade 21

A doença como fatalidade 21

Rompendo com a visão fatalista 22
Crítica da saúde como positividade ou saúde como negação da negação 25

Saúde da Promoção de Saúde 25

A Promoção de Saúde: obtendo a saúde positiva como negação da negação 30

Promoção e prevenção 32

Promoção não é prevenção 33

Dois grupos de pressupostos 36

Dialética ou simbiose? 39

Promoção de Saúde como a ação de decifrar signos 43


Desconstruindo a doença como ameaça 45

A Promoção de Saúde, a doença e o entendimento cognitivo 46

Promoção de Saúde e a doença concreta 47

A informação como peça-chave 47

Comunicação social em saúde, lógica sanitária e lógica da população 50
Informação para a saúde versus educação para a saúde 55

Lógica sanitária e lógica do cotidiano 56

Promoção de Saúde, pedagogia normativa e pedagogia dialogal 58

Limitações 59


Referências bibliográficas 60

II - AS CRÍTICAS DAS ESTRATÉGIAS E DOS PROCESSOS ENVOLVIDOS 63



Introdução 65

Políticas públicas saudáveis? 65

As propostas de políticas públicas saudáveis 65

Políticas públicas saudáveis: uma perspectiva crítica 67
A Promoção de Saúde e o Planejamento Estratégico 71

Cláudio Gastão Junqueira de Castro

Ana Maria Cavalcanti Lefevre
O momento normativo: o que deve ser 75

O momento estratégico 77

O nomento tático-operacional 78

Conclusão 79


Processo de avaliação em Promoção de Saúde: um exemplo hipotético 80

Promoção de Saúde e fases da vida 87

O curso pós-moderno da vida 87

Os idosos na atualídade 91

A Promoção de Saúde para a qualidade de vida dos idosos 94


Promoção de Saúde e espaços urbanos 99

A urbanização na pós-modernidade 99

As cidades saudáveis como nova estratégia em Promoção de Saúde 103

Crítica da proposta das Cidades Saudáveis 105


Referências bibliográficas 106

III - PROMOÇÃO DE SAÚDE E DOMÍNIOS CONEXOS 111



Escolas promotoras de saúde ou escolas promotoras de aprendizagem/educação? 113

Ghisleine Trigo Silveira

Isabel Maria Teixeira Bicudo Pereira
Escola Promotora de Saúde: o tripé educação em saúde, ambiente saudável e serviços de saúde 116

Educação em saúde 118

Ambiente saudável 119

Serviços de saúde 119

A escola Promotora de Saúde e a "escola nossa de cada dia" 120

Uma escola saudável é uma boa escola? 123


Recursos Humanos para a Promoção de Saúde 125

Ana Maria Cavalcanti Lefevre

Vitória Kedy Cornetta
A representação gerencial da área de Recursos Humanos para o setor saúde 126

A representação do conceito de saúde e os recursos humanos para a área de Promoção de Saúde 129

Atributos e habilidades que deve ter um trabalhador da Promoção de Saúde 131

Propostas para o desenvolvimento de profissionais de Promoção de Saúde 133

Considerações finais 135
Bioética e Promoção de Saúde 137

Paulo Antonio de Carvalho Fortes

Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli
Conceito, características e breve evolução histórica 137

As ações de Promoção de Saúde e a autonomia 141

Promoção de Saúde e o princípio ético de justiça 146

Conclusão 148


Referências bibliográficas 149
Considerações finais 153
Sobre os Autores 155

Apresentação

O propósito deste livro é apresentar a Promoção de Saúde para dois públicos ao mesmo tempo: para os que têm pouca ou nenhuma familiaridade com o tema e também para aqueles que têm dela uma visão convencional. Assim sendo, busca-se ao mesmo tempo apre­sentar a Promoção de Saúde e criticar o modo como ela é habitualmente vista, concebida e praticada.

Acreditamos firmemente que a Promoção de Saúde representa uma possibilidade de mudança radical no modo atual de conceber e praticar saúde. Mas, para chegar lá, será preciso revisitar criticamente seus fundamentos e práticas. O presente livro representa uma contribuição nessa direção.

A esta breve apresentação seguem-se ensaios que fazem a crítica, tanto do modo atual de conceber saúde e doença, quanto das insuficiências da crítica da saúde/doença feita pela Promoção de Saúde convencional.

Finalmente, fazem parte do livro também três ensaios que relacionam a Promoção à Escola, aos Recursos Humanos e, dada sua importância atual para a Promoção de Saúde e para a Saúde Coletiva como um todo, à questão da Bioética.

Saliente-se que somos partidários da proposta de Promoção de Saúde, mas não incondicionais: nossa condição é que a Promoção seja vista e praticada como uma estratégia - poderosa que pode significar passos concretos em direção à utopia de um mundo sem doenças ou, no mínimo, menos doente.

De fato, nos últimos anos o movimento de Promoção de Saúde vem ganhando força, com a realização de uma série de conferências internacionais, inclusive na América Latina, reforçando suas práticas. Trata-se de uma proposta historicamente recente, mas que recupera antigas tradições da Saúde Coletiva, que concebia a saúde e a doença numa escala mais macrossocial, no contexto das cidades e do meio ambiente.

Há, todavia, um grande perigo rondando a Promoção e que está ligado ao fato, óbvio, de que ela é tributária do seu tempo histórico e, por isso, das relações de poder, hegemonia e contra-hegemonia que marcam este e qualquer tempo histórico. Sem entrar, por hora, no detalhe da questão, o que podemos dizer é que ela pode estar sendo usada, entre nós brasileiros e alhures, para deslocar a saúde do seu espaço político nobre - a relação saúde/doença - sob a alegação de que saúde é "outra coisa", diferente da "doença", o que vai acabar levando a que a tecnocracia hegemônica reine inconteste sobre o campo sanitário, relegando a Saúde Coletiva ou Pública à condição de articuladora de uma estratégia compensatória que, sob uma roupagem vagamente progressista, destina-se, no fundo, a bloquear o acesso das massas pauperizadas e excluídas ao mercado de consumo de bens de saúde, colocando assim em cheque a própria concepção moderna de Saúde Coletiva e, no nosso caso brasileiro, os princípios mesmos do Sistema único de Saúdé - SUS.

Nesse sentido, acreditamos ser necessário que, sobre o arcabouço da Promoção de Saúde seja exercida uma aguçada crítica conceitual e política envolvendo a noção ambígua de "Saúde Positiva", que esclareça os riscos a que a Promoção está sujeita e que permita que avanços reais e permanentes sejam alcançados.

É o que se pretende ao longo deste livro.


Os autores

São Paulo, agosto de 2004


I


A CRÍTICA DOS CONCEITOS




Saúde Pública e pós-modernidade

A pós-modemidade1
Pareceu-nos útil preceder as análises dos diversos processos e estratégias de uma revisão sumária da pós-modernidade, e da Saúde Pública ou Coletiva dentro dela, uma vez que, evidentemente, é este o contexto atual que marca e influencia as estratégias e processos de Promoção de Saúde envolvidos.

Fica claro que não pretendemos, nem remotamente, esgotar aqui a temática da pós-modernidade e seus impactos na Saúde Pública ou Coletiva, sendo nosso objetivo apenas contextualizar a discussão de nosso objeto central que diz respeito aos aspectos mais instrumentais ligados à Promoção de Saúde.

Iniciando a análise, podemos dizer que não há consenso sobre o conceito de pós-modernidade. Alguns autores a definem como um momento que sucede à modernidade, outros como um momento que a ela se contrapõe. O que para alguns autores é pós-modernidade para outros é alta modernidade e neste caso a pós-modernidade seria apenas uma possibilidade.

Assim, para definir conceitualmente pós-modernidade precisamos, antes de mais nada, esclarecer que se trata de um debate onde os marcos tanto temporais quanto conceituais não se colocam de forma precisa.

O debate contemporâneo sobre a pós-modernidade advém das percepções e constatações das inúmeras mudanças que ocorreram e vêm ocorrendo no mundo atual e do significado e impacto delas na vida social.

Há um consenso de que os anos 1980 apontam para o limiar de uma nova era, que conduz a humanidade para além da modernidade. Esta transição é caracterizada pelo uso de diferentes termos. Alguns autores definem este período como a emergência de um novo sistema social (observamos isto na utilização dos conceitos "sociedade de consumo, sociedade de informação"). Para outros autores, a utilização de termos como pós-modernidade ou pós-modernismo indicam o encerramento de um período (Giddens,1991).

Não iremos aqui nos deter nestas diferenças conceituais: adotare­mos o termo pós-modernidade para caracterizar, ainda que de maneira imprecisa, a vida nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Em 1973, Daniel Bell estabelece um debate precursor sobre este tema quando introduz a noção de sociedade pós-industrial. Na obra The coming of Post Industrial Society, discute as mudanças que ocorrem na vida socioeconômica, as quais, derivadas da incorporação de novas tecnologias, levam a uma sociedade com ênfase na informação e no conhecimento.

Jean François Lyotard foi o primeiro responsável pela popularização da noção de pós-modernidade. O que a caracteriza, em termos da condição do conhecimento, é a ausência de uma grande narrativa, isto é, de um enredo que nos insere na história tendo um passado e um futuro previsível. Enquanto a modernidade poderia ser explicada em termos de uma narrativa, como por exemplo o objetivo político-ético no Iluminismo, a ciência pós-moderna desconfia e questiona as grandes narrativas. Para Lyotard não há uma razão, há razões, não há uma História, há histórias (Tachner,1999).

Para Baudrillard enquanto a modernidade tem como caracte­rísticas fundamentais a racionalidade, a diferenciação nas variadas esferas da vida social, a alienação do ser e a fragmentação social, a pós-modernidade se caracteriza pelo processo crescente de diferenciação onde as fronteiras da vida desaparecem implodindo a totalidade social. Enquanto a modernidade se caracterizaria pelo desencanto, pela destruição das aparências, na pós-modernidade há a destruição dos significados. Para Baudrillard as massas, esta maioria silenciosa e indiferente, são como um buraco negro que absorvem tudo e não refletem nada, respondendo pelo abismo dos sentidos que caracteriza a sociedade atual.

Ainda para Baudrillard (apud Tachner,1999), a sociedade pós-moderna seria dominada pela presença dos simulacra, que são representações ou cópias de objetos que servem de modelo e precedem a realidade social. Estes modelos constituem uma hiper-realidade e passam a estruturar a vida cotidiano; constituindo assim uma sociedade de simulações.

Como outros autores, Giddens não define as mudanças atuais como a entrada na pós-modernidade, mas acredita estarmos "alcançando um novo período em que as conseqüências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas do que antes" (Giddens,1991). Portanto ao nos referirmos a Giddens usare­mos o termo modernidade em vez de pós-modernidade. Segundo este autor, para se entender a natureza da modernidade é necessário dar conta do extremo dinamismo e do alcance globalizante das instituições modernas.

O dinamismo da modernidade seria derivado da separação do tempo e do espaço; do desencaixe dos sistemas sociais e da ordenação e reordenarão reflexiva das relações sociais. Segundo Giddens (1991) há conexões entre a modernidade e as transformações tempo/espaço. Estas transformações começam a ocorrer no final do século XVIII com a invenção do relógio mecânico expressando uma dimensão uniforme do tempo vazio. Com a uniformidade de mensuração do tempo, através do relógio, foi possível o estabelecimento da correspondente uniformização da organização social do tempo. Podemos observar este fato com a padronização mundial dos calendários. O mesmo ocorre com a padronização do tempo através de regiões, pois até então os tempos eram diferentes dentro de um mesmo Estado.

O esvaziamento do tempo foi pré-condição para o esvaziamento do espaço, que se dá através da separação entre o espaço e o lugar. Na modernidade os espaços se tornam cada vez mais virtuais e passam a ser moldados por influências sociais bem distantes deles. A separação do espaço/tempo é essencial ao dinamismo da modernidade porque é condição para o processo de desencaixe. Por desencaixe o autor refere o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação que passam a ser reestruturados através de extensões indefinidas de espaço/tempo.

Giddens destaca dois mecanismos básicos de desencaixe: fichas simbólicas e os sistemas peritos. Como fichas simbólicas destaca o dinheiro, meio de intercâmbio que pode circular sem ter em vista as características dos sujeitos ou grupos que lidam com ele. O dinheiro se torna um mecanismo de desencaixe na medida em que é um modo de adiantamento, pois proporciona meios de conectar o crédito à dívida em momentos em que a troca imediata de produtos é impossível. Desta forma retarda o tempo e separa as transações de um lugar particular de troca. Assim o dinheiro possibilita a realização de transações entre agentes amplamente separados no tempo e no espaço, sendo um meio de distanciamento espaçoltempo.

Os sistemas peritos são sistemas de excelência técnica ou com­petência profissional que organizam áreas dos ambientes materiais e sociais que vivemos hoje. São também considerados mecanismos de desencaixe, pois removem as relações sociais das imediações do contexto em que ocorrem, uma vez que ofere­cem garantias de expectativas de espaço e tempo distanciados. Estes mecanismos estabelecem alongamentos de sistemas sociais uma vez que as pessoas confiam nos sistemas peritos. Poderíamos exemplificar esta situação quando indivíduos compram determinado produto, como um automóvel, porque confiam na capacidade técnica e eficiência da empresa que o produziu. Trata-se de um elemento de fé, de confiança no sistema perito em questão.

Na relação modernidade/reflexividade nota-se que a "reflexividade é introduzida na própria base de reprodução do sistema, de forma que pensamento e ação estão constantemente refratados entre si (...). A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter (...). Não é que não existe um mundo estável a ser conhecido, mas que o conhecimento deste mundo contribui para seu caráter instável ou mutável (...). O conhecimento (...) reúne-se ao seu objeto (:..) deste modo alterando-o" (Giddens 1991).

Outro conceito destacado por Giddens é que a modernidade é essencialmente globalizante. Para estudarmos esta questão é necessário analisar a organização da vida social através da relação espaço/tempo. Na era moderna o distanciamento entre espaço/tempo é cada vez maior, de forma que as relações sociais locais e distantes ocorrem de forma cada vez mais alongada. "A globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam locais distantes de tal maneira que acontecimentos locais são moldados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa" (Giddens, 1991). Portanto, o que ocorre em uma cidade é influenciado por fatores distantes tais como o mercado de bens, ou a bolsa de valores, que freqüentemente operam em uma localidade muito distante da cidade em questão.

Outro ponto importante a ser colocado em relação à globalização diz respeito não só à internacionalização do mercado, mas à velocidade e à proporção com que ela vem ocorrendo, que tem abalado o próprio espaço de atuação dos estados nacionais. Estes tem tido uma sucessiva diminuição de poder em decorrência de acordos realizados pelos blocos internacionais e pela crescente volatilidade do capital eletrônico que abala suas estruturas básicas de funcionamento e atuação colocando mesmo em xeque o seu próprio conceito, tendo em vista o novo mundo que se descortina.

Para finalizar esta seção seria importante colocarmos que a contemporaneidade traz à tona transformações de tal monta que fica difícil definir se estamos nos limites da modernidade ou se iniciamos uma era pós-moderna. O avanço tecnológico da informática a partir dos anos 1980 tem alterado a base produtiva da nossa sociedade. A produção rígida, mecânica é substituída pela automação e torna-se flexível. Os produtos, antes padronizados, podem, agora ser despadronizados e atender a um mercado de consumo mais flexível e portanto individualizado. Temos então a possibilidade real, também, de despadronizar o consumo e em vez de buscarmos o homem médio passa-se a ter o foco no cliente, procurando-se a produção de um produto que atenda a seus desejos, necessidades e expectativas. A TV, que antes havia sido o ícone da indústria cultural, perde espaço para as TVs a cabo, segmentadas.

A realidade, antes vista como totalizada, torna-se plural; as lutas de classe cedem lugar a movimentos sociais com novos atores: gays, consumidores, ecologistas, negros, diabéticos, aidéticos, mulheres, idosos, entre muitos outros.

Pós-modernidade e Saúde Pública
As profundas modificações econômicas e sociais decorrentes de modelos de desenvolvimento e das políticas de industrialização adotadas, sobretudo a partir da segunda metade do século XX (Gray, 1999) pelos países de capitalismo avançado, bem como o rápido desenvolvimento da ciência e tecnologia e o aumento dos processos de comunicação, comércio e interrelação entre os países acarretaram, em especial para os países em desenvolvimento, conseqüências e impactos em diversas dimensões das suas realidades.

Dentre estas podemos salientar as que se referem ao padrão de urbanização que se estabeleceu nos países do Hemisfério Sul, caracterizado por uma ocupação de espaço caótica e anárquica, sem a correspondente infra-estrutura necessária; as mudanças no estilo de vida e nas relações entre as pessoas; as mudanças nos modelos de Estado, com conseqüente desestruturação/reestruturação dos serviços.

Se por um lado a modernidade trouxe avanços inegáveis à humanidade no que tange à questão da saúde das populações, pois assistimos o incremento da esperança de vida ao nascer em níveis jamais vistos, em decorrência do acesso e disponibilização de serviços e tecnologias em saúde às comunidades, por outro lado a complexidade do mundo pós-moderno apresenta uma realidade sanitária de difícil enfrentamento combinando, especialmente nos países do chamado terceiro mundo, doenças típicas de países avançados com as de países subdesenvolvidos.

Assim, "crescem muito doenças próprias, principalmente, do viver em cidades" (Novaes, 2003).

Segundo este autor em diferentes regiões do Brasil os dados revelam:

- aumento expressivo das doenças crônico-degenerativas como conseqüência do prolongamento vida;

- aumento das doenças resultantes das transformações sociais e culturais do mundo pós-moderno, decorrentes de um modo de vida que em nada favorece a saúde das pessoas e das comunidades como a violência, o estresse, o crescente uso de drogas, as depressões, as insônias, as iatrogenias, etc. Segundo o autor o consumo de drogas psicoativas já estaria ao redor de 3 a 4 bilhões de reais/ano no País.

- aumento do número de mortes em decorrência da obesidade, ultrapassando as mortes evitáveis pelo uso do tabaco. Além disso, verifica-se um aumento do número de crianças obesas, as quais apresentam problemas de alteração nos triglicérides e colesterol. Este dado complica-se quando se observa que este agravo é mais presente em famílias de menos renda;

- presença de desnutrição (causada por deficiência de ferro) em crianças matriculadas em creches e pré-escolas municipais, pesquisadas em 20 capitais brasileiras.

Nos países do terceiro mundo, como o Brasil, esta realidade torna-se ainda mais complexa pois as ineqüidades típicas do modelo de desenvolvimento social do país sob o aspecto do capitalismo dependente, mantêm presentes um perfil epidemiológico de doenças características da pobreza (como doenças infectocontagiosas, diarréias, desnutrição, etc.) aliadas a doenças típicas do capitalismo avançado (doenças cronicodegenerativas, obesidades, violência, etc.). Essas transformações do mundo contemporâneo, portanto, "impactam de maneira significativa o campo da saúde, seja no nível do seu objeto - o processo saúde-enfermidade de indivíduos e coletividades - seja no nível do instrumental teórico metodológico em que se apóiam o conhecer e o fazer sanitário" (Carvalho, 1996).

Assim, o discurso e a prática sanitária hegemônica, baseados no modelo biomédico, entram em crise, mostraram-se ineficazes para o enfrentamento da complexidade dos quadros sanitários presentes no mundo, ao final do século XX e início do século XXI. O arsenal tecnológico, bem como a produção de bens e serviços disponíveis atualmente, tem sido impotente em muitos casos para proporcionar a melhoria da saúde de pessoas e comunidades e também não tem conseguido subsidiar e instrumentalizar políticas públicas que resultem em intervenções adequadas.

Crítica da doença como fatalidade

A doença como fatalidade
Uma das características que marcam mais decisivamente a distinção entre a Saúde Pública tradicional e a perspectiva da Promoção de Saúde diz respeito aos pressupostos, relativos à doença, subjacentes a cada uma destas perspectivas.

A Saúde Pública tradicional, assim como a Medicina e as demais áreas de conhecimento a ela subordinadas, entende que a doença faz parte da vida humana sobre a Terra; que, na qualidade de vicissitude, a doença é algo que, simplesmente, existe, sempre existiu e sempre existirá. Enfim, que é uma espécie de fatalidade natural.

Com efeito, para este quadro de referência, a vida do homem sobre a Terra implica, de uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, sempre, a competição com outras formas de vida, ou seja, a presença de um meio ambiente natural cheio de macro ou micro bios ameaçadoras para a "bio-humana", para as quais a Ciência e Tecnologia - C&T, ou seja, a Cultura, vem desenvolvendo e aperfeiçoando os devidos "antibióticos".

Este mesmo meio ambiente é também responsável por excesso de calor, frio, umidade, secura, etc., causadores diretos ou indiretos de doenças e mal-estares, condições que necessitam, portanto, das devidas respostas sob a forma de artefatos protetores, que o ser humano foi providenciando ao longo de sua evolução cultural.

Por outro lado, o fato do homem, ao longo da sua evolução histórica, ter optado cada vez mais por viver e trabalhar em ambientes artificiais como cidades, casas, apartamentos, fábricas, fazendas, etc., tornou também a doença uma fatalidade associada a esta opção já que a vida nestas condições implica, "naturalmente", a presença de um sem número de possibilidades, digamos, "culturais", de adoecer.

Finalmente, temos a doença vista como uma fatalidade propriamente socioantropológica, que advém do ser gregário do homem, ou seja, que acontece dado o fato de que, vivendo junto a seu próximo, o homem desenvolve, "naturalmente", em relação a seu semelhante, raiva, ódio, ciúme, inveja, exclusão, privilégios, etc., condições que geram agressão, violência, assassinatos, injustiça social, miséria, fome e tantas outras manifestações similares do Ser da Doença.

Com tudo isso, parece quase impossível não entender e aceitar uma representação social da doença como uma fatalidade da vida humana sobre a Terra, enfim como algo natural; e, correlativamente, uma representação da saúde como uma resposta a esta fatalidade, que, como o remédio, consistirá necessariamente em algo artificial, uma mercadoria, um produto, um serviço, exterior, a ser vendido (ou garantido como direito, num contexto histórico de sociedade do bem-estar) ao homem.

A saúde e a doença, segundo esta representação, dominante entre nós, são, pois, prisioneiras desta relação: fatalidade natural/resposta cultural.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal