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Eduardo Carvalho Monteiro
Batuíra
Verdade e Luz
EDITORA LUMÉN

Conteúdo Resumido
Este livro é uma biografia completa do abnegado pioneiro do Espiritismo em terras de Piratininga (São Paulo) Antônio Gonçalves da Silva, o Batuíra, um dos maiores personagens do Espiritismo no Brasil.
Sumário

Um projeto, uma luz e um livro / 03

Palavras necessárias / 05

I - Visitando São Paulo antiga / 06

II - Os primeiros anos / 16

III - O teatro da Cruz Preta / 20

IV - A luta abolicionista / 24

V - O surto variólico em 1873 / 30

VI - Bafejado pela fortuna material / 32

VII - Saravá, doutor batuíra! / 34

VIII - A conversão / 40

IX - Histórico da fundação da instituição beneficente Cristã "Verdade e Luz" / 46

X - Criação do periódico "Verdade e Luz" / 51

XI - Polêmica religiosa / 57

XII - Batuíra noticiou discos-voadores em 1897 / 60

XIII - Cenas de uma vida edificante / 62

- Depoimento de Carlos Jordão da Silva

- Batuíra e Anália Franco

- Batuíra em Campinas

- Batuíra em Minas

- Opinião de Cairbar

- Apoio a FEB

- Nunca é tarde demais

- Receita para marido infiel

- O hospício do Batuíra

- O gosto da cana

- Ao pé do ouvido

- A bica do convertido

- O tempo de

- Simplesmente Zéca

XIV - Chácara dos obsidiados / 79

XV - O desencarne / 82

XVI - A instituição cresceu e sobrevive até hoje / 85

XVII - Batuíra materializado / 88

XVIII - Presença do espírito de Batuíra na produção psicográfica de Chico Xavier / 93

- Obras do autor / 99

- Bibliografia / 100
Um projeto, uma luz e um livro...
Nossa amizade (pelo menos nesta encarnação) começou com a confecção do livro Irmão X, Meu Pai. Foi por intermédio dele que conheci o escritor e jornalista Humberto de Campos Filho. Ele ali, com seu jeitão carioca e gozador, a contar histórias do imortal Humberto de Campos, o Irmão X, com tal riqueza de detalhes e emoções que eu próprio parecia ter convivido com "o velho".

Fui várias vezes à casa de Humberto Filho. Lá, mostrou os pertences pessoais de seu pai (a máquina de escrever, a bengala, o pince-nez, o aplicador de colírio, etc), que deram origem ao Memorial Humberto de Campos, apresentado na XV Bienal Internacional do Livro, em 1998, em São Paulo.

Lançado o livro Irmão X, Meu Pai, um sucesso, Humberto já começava a pensar num futuro trabalho. Sentia no seu íntimo uma vontade imensa de produzir.

E eu já havia aprendido a conviver com seus olhares. Sabia que, mais dia, menos dia, Humberto viria pedir-me opinião sobre "uma nova idéia, rapaz, o que é que você acha?" Era uma pesquisa, um embrião de um novo livro, os primeiros rabiscos sobre a vida de Batuíra.

Achei a idéia ótima, o entusiasmo de Humberto contagiante. Imaginava ele algo épico, grandioso, título provisório "Heróis da Caridade". Falaria de Batuíra e outros personagens.

Mas a pesquisa parou. Nenhuma folha foi mais escrita desde dezembro de 1997. Humberto de Campos Filho ficou doente, foi internado no início de 98 e desencarnou em março. A pasta de recortes, anotações e escritos ficava na mesa de seu apartamento, no mesmo lugar desde dezembro.

Foi quando decidimos, na própria Bienal do Livro de abril de 98, dar prosseguimento ao trabalho iniciado por Humberto Filho.

E, como nada acontece por acaso, recebemos em nosso stand na Bienal a visita do escritor Eduardo Carvalho Monteiro, talento reconhecido dentro e fora do meio espírita. Pesquisador, biógrafo, escritor, articulista e possuidor de uma grande biblioteca em sua casa, Eduardo era o facho de luz colocado no caminho para terminar o trabalho iniciado por Humberto.

Assim foi. Eduardo aceitou a tarefa, desenvolveu, ampliou, concretizou e finalizou a obra sobre Batuíra que, agora, ganha seu espaço eterno nas bibliotecas e mentes dos leitores.

Era um trabalho que precisava ser acabado. Começou com Irmão X, foi para Humberto de Campos Filho, passou para Eduardo Carvalho Monteiro e fechou com Batuíra – Verdade e Luz.

O ciclo está completo. A obra está pronta.

Boa leitura aos amigos. Obrigado aos Humbertos. Minha gratidão a Eduardo.

Celso Maiellari

Palavras necessárias


Desde muitos anos, quando começamos a tarefa de registrar a memória do Espiritismo em São Paulo, alimentávamos o desejo de deixar para a posteridade uma trilogia biográfica dos maiores pioneiros espíritas no Estado: Cairbar Schutel, Anália Franco e Batuíra. Ao entregar ao público, portanto, este Batuíra — Verdade e Luz, cremos estar deixando para as gerações futuras um quinhão importante de nossa memória, para que sirva de exemplo e incentivo aos que farão nossa história no futuro, e estar completando nosso desejo inicial.

Como observaremos na leitura deste livro, após o desencarne de Batuíra, a Instituição Beneficente Cristã Verdade e Luz passou por muitas dificuldades e quase veio a desaparecer, não fosse um confrade iluminado que a fez reerguer-se, Dr. Pedro Lameira de Andrade. Substituiu ao Lameira, levantando a hipoteca do único imóvel da Instituição e aumentando-lhe o patrimônio com duas valiosas propriedades em Poá e Porto Ferreira, onde se mantêm excelentes serviços assistenciais aos mais necessitados, D. Maria Janoni Novazzi, ainda encarnada na data do lançamento desta obra.

Por justiça, portanto, ao Dr. Lameira e à D. Maria dedicamos esta obra, em reconhecimento ao que fizeram como continuadores do ideal de Batuíra.

Uma outra homenagem gostaríamos de prestar à figura de um espírita que foi um amigo e um mestre, não só deste autor, mas de uma infinidade de espíritas que beberam, na fonte de seus conhecimentos, orientações e incentivos a seus trabalhos na seara espírita. Refiro-me a Stig Roland Ibsen, que, por certo, hoje também integra a falange de Batuíra na sustentação do movimento espírita do Brasil. Ao Stig, pois, nossa lembrança afetuosa de amigo reconhecido.

Por último, gostaríamos de consignar nossos agradecimentos ao confrade Luciano Klein Filho, pela cessão de microfilmes do Reformador e a Lorehy Novazzi, atual Presidente da Instituição Verdade e Luz, pela atenção e por nos ter disponibilizado os arquivos da Entidade.

Eduardo Carvalho Monteiro



I
Visitando São Paulo Antiga
Viajemos ao passado. Com uma moderna câmara de vídeo na mão e uma idéia na cabeça, regulamos nossa máquina do tempo para cento e tantos anos atrás e desembarcamos na velha Paulicéia.

A caixinha de surpresas está aberta. São Paulo respira ares eminentemente rurais. A população condensa-se entre os límpidos rios Tamanduateí e Anhangabaú (que saudades!), agradecida pela descoberta desse paraíso por Anchieta e Nóbrega, onde desde 1554 fincaram as bases de seu Colégio. No campo do Bexiga, relata Affonso de Freitas em seu Tradições e Reminiscências Paulistanas, que abrangia todo o espaço entre as ruas da Consolação e Santo Amaro, caçavam-se perdizes, veados e até escravos fugitivos. Os largos de Guaianases, do Arouche e a Avenida Tiradentes eram ainda o Campo Redondo, do Arouche e da Luz, e as chácaras do Charpe, Bom Retiro, do Arouche e da D. Anna Machado, do Barão de Limeira, dos Fagundes e de D. Alexandrina de Moraes fechavam os limites da "despovoada" cidade (27.800 habitantes) num círculo de latifúndios baldios: só nos últimos dias do século passado é que se adensariam demograficamente e se transformariam nos fulcros dos atuais bairros centrais dos Campos Elíseos, Bom Retiro, Vila Buarque e Rua Conselheiro Furtado, Avenida Brigadeiro Luís Antônio e adjacências.

Nosso passeio prossegue. A videocâmara insaciável não quer perder nenhum detalhe. Ela agora descobre o Morro do Chá e espanta-se com a grande plantação na chácara da Baronesa de Tatuhy — ops! Nossa câmara treme, perde o foco, mas recupera-se... quase fomos atropelados por um carro de praça! Incrível! Sobre quatro rodas, uma boléia e um varal com dois cavalos atrelados, estala seu chicote fino e comprido um chauffeur de chapéu coco, levando no carro seis passageiros espremidos num assento almofadado, no fundo, e no banquinho de baixar, colocado atrás da boléia. Mas onde estávamos mesmo? Ah! No morro no qual hoje se assenta o formigueiro da Rua Barão de Itapetininga e onde nossa câmara de vídeo está a registrar a plantação da preciosa teácea de Joaquim José dos Santos Silva, sobrinho do Brigadeiro Francisco Xavier dos Santos, que mais tarde viria a ser o rico Barão de Itapetininga, falecido em 1876. Saibam, pois, disto todos os que caminham celeremente por essa via no século XXI em busca de seu ganha-pão, e que vêem numa placa azul de esquina apenas um punhado de letras. Evocando na, espiritualidade seu criador, quem sabe não encontrem a inspiração do mais rico fazendeiro da Capital em 1850 para faturar seu rico dinheirinho?


Rua XV de Novembro (Antigo do Rosário e depois Imperatriz) em 1861
Indiferente a essas bucólicas paisagens, o progresso forçou a Jules Martin projetar em 1882 uma enorme estrutura metálica que, inaugurada em 1892, recebeu o nome de Viaduto do Chá. Das antigas lembranças, apenas o nome, pois tiveram os descendentes da Baronesa de Tatuhy que aceitar a desapropriação da bela chácara para a formação da Rua Nova São José, hoje Líbero Badaró. O progresso impiedoso venceu...

Nas mãos das damas elegantes a câmara está a focalizar os leques, acessório indispensável, naquele domingo de sol, da "toilette" feminina, completada pelos vestidos estufados e as gargantilhas de renda. Encantador ornato, eles são de charão, madrepérola ou preciosas penas de avestruz.

A iluminação pública a gás não havia chegado. À hora do crepúsculo, o azeite é aceso pelos responsáveis pelos postes que abrigam os providenciais candeeiros.

A cidade, à época de nossa filmagem, dividia-se nas Freguesias da Sé, Efigênia e Brás. A viação urbana compunha-se de carros e tílburis de aluguel, e suas viagens, cobradas entre $500 e $200, tinham por destino a Chácara do Capitão Benjamim, Rua de Santo Amaro, Chácara do Conselheiro Falcão, na Mooca, Igrejas do Brás, da Luz, da Consolação, e Campo Redondo, Largo do Arouche, Morro Vermelho e Lavapés.

Lavapés... Vamos focar nossa lente ali. Contam cronistas — historiadores que a origem do nome dessa rua pode estar ligada ao ato católico de imitar na quinta-feira santa o procedimento do Nazareno de limpar os pés de seus discípulos. Visitemos, então, nossos irmãos piratininganos do passado, na Rua Lavapés, e surpresa! Lavapés não vem daí! Observemos a higiene dos transeuntes, ao percorrerem a trilha que irá transpor as divisas do além-Cambuci em direção à Freguesia do Brás. A divisa é um córrego que faz suas evoluções pelo varzeado de Tapanhoim, na estrada poeirenta que antecede a íngreme subida da Rua da Glória. Ali, algum anônimo cidadão colocou uma prancha que serve à coletividade peregrina, de pau tosco, entre gramíneas e fedegosas, formando uma convidativa bacia natural, onde os viandantes descansam, eles próprios e os animais, lavando seus pés, sob os olhares curiosos das lavadeiras.

Lavapés... assim se imortalizou o córrego que deu lugar ao burburinho agitado de uma rua afogada nas modernas máquinas sobre quatro rodas. Vão-se longe os costumes da gente do sertão de descalçar as botinas que traziam as marcas da poeira e do barro da Várzea do Carmo.

Nada mais surpreende a nossa lente. Uma criatura circunspeta cruza nosso caminho. Iniciamos um diálogo. Ele diz chamar-se Marques, Gabriel Marques (*). Perguntamos-lhe sobre a existência de uma tal Rua Espírita. Sua primeira reação é de espanto. Depois relaxa, olha-nos com certa desconfiança e responde com outras perguntas:

(1) Gabriel Marques, Ruas e Tradições de São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1966.

— Por que estás a me perguntar sobre essa rua? Acaso seria pelo velhote de nome Batuíra que lá habita?

Não entendemos bem a razão de tamanha surpresa, mas achamos de bom alvitre responder afirmativamente. Dizendo, então, ser historiador, o estranho Marques saiu-se com esta:

— Na última visita que fizemos a essa antiga rua, a fim de verificar "ele visu" o seu progresso, procuramos obter informações sobre a existência do velhote Batuíra, da sua tenda e dos seus sortilégios.

— Sortilégios?!... — espantou-se a pessoa com a qual falávamos, na rua. O senhor disse "sortilégios"?..

Era um morenaço farto de carnes; largo de peito e de pupilas raiadas de sangue. Gingava um pouco no andar e tinha cara de lua cheia. Sem chapéu. Pixaim tosado rente. Quando falamos em "sortilégios", suas manoplas alisaram nervosamente o amplo queixo e as beiçorras se esticaram num sorriso vermelho e mole...

— O senhor falou acaso em feitiçaria?...

— Bem... Nós...

Quisemos melhor esclarecer nossa boa intenção. Mas não foi possível. O homenzarrão não nos deu vez a isso. Sua voz tonitroante dominou nossa vontade.

— Pois está errado! Completamente errado!— prosseguiu ele. — Nesta rua, que até viu nascer minha avó, nunca houve uma tenda de feitiçaria. Nem ontem, nem hoje, nem nunca. Tenda espírita, isso sim. Essa, já houve, e das melhores. Agora há outras, por aí, mas todas muito legais. É de justiça, amigo, não confundir feitiçaria com espiritismo. São práticas diferentes; o senhor sabe disso? Uma cuida do bem; a outra do mal. Umas trabalham com Nosso Senhor Jesus Cristo. Numas há médiuns e protetores; noutras há orixás e pais-de-santo. A diferença é, pois, da água para o vinho; está entendendo o senhor?




Rua Direita (1862). Ao fundo, cortando a rua, o sobrado da Baronesa de Tatuhy, que foi demolido em 1869 para, no local, ser construído o Viaduto do Chá.
— Mas... Acontece que...

—Não, meu amigo! Não acontece coisa nenhuma! O senhor está falando com quem conhece do riscado. Sou espírita; minha mãe é espírita, meu pai também é espírita, minha avó, que Deus a tenha no reino da Glória, também era espírita. E mais: é com muita honra que moramos aqui na rua do velho Batuíra — a Rua Espírita; sabe disso?

— Sim; sabemos. Mas, é que...

Ainda dessa vez não pudemos prosseguir. Com um gesto decisivo e largo o homem nos interrompeu, à bruta:

— Chega! Já vi tudo! Descrente! Católico-apostólico-romano! Mas sempre saiba, para seu bom governo, que um padre já escreveu, não sei onde, mas com muita sabedoria, que estar com Cristo, em qualquer lugar, ainda que seja no Reino do Inferno, é estar no Paraíso!

Demo-nos por vencidos. Içamos bandeira branca sem nem ao menos exigir condições...

Curioso tipo de homem, aquele. Para Freud talvez não tivesse mistério algum. E mestre Maupassant dele faria, por certo, um tipo imortal, aumentando assim a sua já admirável galeria de almas. E que surpreendentes conclusões mestre Gorki não arrancaria da alma confusa daquele pernóstico mestiço?...

Após o gesto despótico que nos tapou insolentemente a boca, e após sibilinas frases pronunciadas de cabeça baixa, beiçorra esticada e olhos fechados, o mestiço prosseguiu, agora com maior convicção:

— Já sei; já sei. Mas é preciso conhecer a verdade em "O Livro dos Espíritos", do grande pai Allan Kardec. E para não caçoar mais da Doutrina santa é bom que o senhor leia "O Evangelho de São Lucas" Conhece? Nele se conta que, certa vez, levaram à frente de Cristo um homem possesso, que diziam ter o demônio no corpo. O homem urrava, como bicho; esperneava, como bicho; babava e não atendia a ninguém, como um perfeito bicho. Que fez então Jesus Cristo? Jesus Cristo mandou que o espírito maligno dele se retirasse e deixasse o coitado em paz. Que aconteceu após as palavras de Jesus? O homem caiu no chão. Rolou no chão. Gritou. Estremeceu. Urrou e depois ficou bom. Sarou. Voltou a ser homem, como os outros homens. O maligno saiu dele numa ventania que a todos assustou. O homem depois nem sabia dizer o que com ele de verdade havia acontecido. O senhor está entendendo? Está?

O mulato, certo da verdade que pregava, queria falar mais. Destravada a língua, ameaçava espalhar-se em mais amplas explicações. Mas nós preferimos ver a rua; conhecer a rua; sentir o progresso da rua; entrar em contato com a alma da rua.

Então, deixamos o homem falar sozinho...

— Adeus, amigo! E obrigado por tudo!

A resposta custou um pouco, mas, afinal, saiu:

— Vá! Vá com Deus, Nosso Senhora.

Nós então fomos com Deus, Nosso Senhor... Fomos com Deus Nosso Senhor e "achamos que esta Rua Espírita é, sem favor nenhum, uma das boas vias públicas paulistanas". Começa na Rua Lavapés e fica no fidalgo bairro do Cambuci. Já se moderniza. Há nela alguns prédios dignos de apreço. São prédios de linhas modernas. Até bonitos. Arejados. Funcionais. Na rua já se nota regular movimento de veículos e pedestres. O progresso vai nela acentuando-se dia a dia. Dentro em breve será, sem dúvida, uma das principais artérias de São Paulo.

Deram-lhe o nome de Rua Espírita. Isso foi em virtude do Senhor Doutor Batuíra, o Espírita. Lembrança do povo, que a tradição oficializou. É hoje rua alegre, confraternizadora. Todos ali se estimam. Todos amam todos. Modéstia e compreensão geral são ali sentimentos generalizados. É Já artéria de bairro seleto, de ambiente agradável. Nela não há batuques de babalaôs. Nem mulher louca à procura de faca. Nem a tenda do Doutor Batuíra. Nem demônio de cara preta...

É rua que não envergonha São Paulo.

Saravá, Rua Espírita do Senhor Doutor Batuíra!

A história do sr. Marques excitou-nos a curiosidade. Prosseguimos nosso périplo pela São Paulo do século XIX. Sabíamos que de 1820 a 1850 pouco havia se modificado nas características da cidade e que São Paulo, em 1850, com seus quase 28.000 habitantes, era menos populosa que Cuiabá, que tinha 35.000 habitantes, e São Luiz do Maranhão, que já contava com 31.600 habitantes.

Junto ao progresso econômico do Estado, vindo principalmente com o desenvolvimento da cultura do café e a industrialização, aconteceu a transformação de sua Capital em pólo cultural dos mais importantes do país, com a presença dos estudantes de Direito e a proliferação das publicações literárias, que tiveram seu apogeu em torno de 1860. Dentre os acadêmicos da Faculdade São Francisco, muitos alcançaram grande projeção política e literária, como Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e outros.

E nós estamos visitando São Paulo nessa época!

O teatro? Ah, o teatro! Deixavam-se de lado os dramalhões estrangeiros, e as peças representadas começaram a enfocar ambientes e temas nacionais. Martins Pena, João Caetano, Alencar, Macedo, França Júnior, eram encenados com o mesmo brilhantismo que o observado nas exibições de música erudita e popular. A Casa da Ópera, fechada por alguns anos, passou a ser de uso do Teatro Acadêmico do curso jurídico. O Teatro São José, seu substituto, foi inaugurado em 1864, no Largo São Gonçalo (atual Praça João Mendes), e possuía acomodações para mais de 1.200 pessoas.




Teatro São José, em 1860, ainda não terminado.
Nas proximidades, ficamos sabendo da existência de outro teatro de proporções mais modestas, que funcionava na Rua da Cruz Preta (atual Quintino Bocaiúva), entre as Ruas do jogo da Bola (Benjamin Constant) e da Freira (Senador Feijó), o qual dispunha de um palco pequeno, platéia com um só tipo de tribuna para duzentas pessoas, tudo improvisado no fundo de uma taverna. (2) Era o teatrinho do português Antônio Gonçalves da Silva, também conhecido como Batuíra, e que funcionou entre 1860 e 1870.

(2) Informações contidas em São Paulo Histórico, de Nuto Sant'Anna, vol. V, 1944; Memórias para a História da Academia de São Paulo, de Spencer Vampré, vol. II, 1924; e História e Tradições da Cidade de São Paulo, de Ernani Silva Bruno, edição especial sob o patrocínio da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, vol. II.

Batuíra? O nome não soava estranho. Já havíamos ouvido referências a essa figura. Estávamos nas proximidades da Rua da Cruz Preta, máquina de vídeo à mão, quando passa um jovem maltrapilho, gritando a todos os pulmões a exibição, às 20 horas, da peça O Rabecão naquela sala de espetáculos. Imperdível. Algumas voltas pelas proximidades para aguardar a hora da representação e, entre casas pobres e largos sobrados, descobrimos a Loja do Juca Mamede, na Rua da Imperatriz (atual 15 de Novembro). Misto de botequim e de armazém, exalando olor clássico de recintos úmidos e fechados, é um estranho ambiente que atrai a fina flor intelectual da cidade. Altos funcionários públicos, prelados notáveis, lentes e estudantes da Faculdade de Direito e até o Presidente da Província, contaram-nos, compareciam à loja do Juca Mamede para discutir política, religião, finanças... Ficamos sabendo, inclusive, que a própria Maçonaria lá urdira a Independência do Brasil, enquanto por seu calçamento desfilavam os famosos Dragões do Império.

Naquele instante, aquele cenário pertencia à nossa câmara indiscreta... carros de bois, negras de tabuleiros à cabeça, veículos austeros com cortinas de gorgorão transportados por escravos, muares puxados pelo focinho por tropeiros, sabe-se lá de onde, avançando lentamente, erguendo poeira ou chapinhando indiferentes à lama...

A hora chega. O Teatro da Cruz Preta, ou melhor, do Batuíra, está completamente lotado. Na platéia impaciente, excitada, podemos registrar a presença prestigiosa de Martinico Prado, Domingos Marcondes, Souza Lima e do futuro Barão do Rio Branco, entre a maioria estudantil. Abrem-se as cortinas e entra o diretor-ator para anunciar o espetáculo.

Apupos, assovios, aplausos, pilhérias carinhosas são recebidos com bom humor e reverência. A ovação estende-se e deixa Batuíra impaciente. Ele se queixa, implora silêncio para iniciar o espetáculo.

A platéia se acalma. Afinal, todos pareciam estar ali para apreciar a arte dramatúrgica do português. No ar, a expectativa do começo da exibição. Os atores aprumam-se, o silêncio se faz no ar. Súbito, roubando a concentração dos atores, um estudante espolca no ar um improviso:

Salve! Grande Batuíra!

Com teus dentes de traíra,

Com teus olhos de safira,

Com tua arte, que me inspira,

Nas cordas de minha lira,

Estes versos de mentira! (3)



(3) Em A Academia de São Paulo — Tradições e Reminiscências — Estudantes, Estudantões, Estudantadas, volume 2 (2ª série), 1907 — Almeida Nogueira. / Improviso atribuído a Bernardo Guimarães.

A platéia explode em gargalhadas. Os atores perdem a concentração, mas ninguém se agasta. Tudo é festa, tudo é diversão no Teatrinho do Batuíra.

Após a exibição, é hora de recolher-se. Os candeeiros estão para ser apagados, as repúblicas dos estudantes recebem seus últimos boêmios, o céu de São Paulo brilha na luminosidade das estrelas, a cidade dorme.

E nós, câmara de vídeo debaixo do braço, curiosidade mais do que saciada, retornamos à nossa máquina do tempo, não sem antes nos perguntar: quem terá sido essa inolvidável figura do século XIX, apelidada simplesmente de Batuíra, que conseguia despertar com seu carisma tanta admiração entre os mais simples quanto entre os intelectuais de sua geração?

Nosso tempo acabou. Afinal, o que seria o tempo para os grandes avatares da humanidade? Se suas ações transpõem o ritmo das horas e permanecem gravadas na memória da humanidade, que importa a contagem das horas, se eles vivem no tempo do não-tempo?




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