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Nos momentos de crise
"Às vezes é preciso que a luta se faça constrangedora e terrível para que os amores que possuímos se mostrem na expressão mais ampla de sua própria grandeza, assim como é preciso que anoiteça para que vejamos do mundo as estrelas que acendem a vida eterna na imensidade... Nas horas de aflição pensemos nisso, meditemos simplesmente nisso e levantemos as próprias energias, que o Senhor elastecerá e abençoará. "
Batuíra/Chico Xavier Mais Luz

IX
Histórico da fundação da Instituição Beneficente Cristã

"Verdade e Luz"
Após sua conversão e com o constante aprimoramento advindo da leitura de obras espiritistas, Batuíra passa a entender a Doutrina pela vertente da caridade e do amor ao próximo. O sentido de solidariedade humana, que já era conquista de seu espírito missionário, desabrocha a ponto de assombrar a sociedade paulistana do último quartel do século passado diante da postura assumida por ele em defesa dos enjeitados e dos menos favorecidos. Como aquele homem abastado podia viver em meio aos pobres, doentes e rejeitados sem nada pedir em troca? Só quem não conhecesse a Doutrina Espírita para se admirar. Batuíra assumiu o papel do "moço rico" de Jesus e desapegou-se de sua fortuna pessoal para "perder" a sua vida em prol dos menos favorecidos.

Da morte do filho em 1883 à fundação oficiosa do Grupo Espírita Verdade e Luz, não temos dados que possibilitem saber a data exata em que começou a funcionar. Uma notícia publicada no Reformador de 15 de maio de 1890 (a primeira de Batuíra, desde que o periódico começou a circular) dá conta da "restauração" do Grupo, deduzindo-se, daí, um interregno nas suas atividades antes de 1890. Eis a notícia:


Espiritismo em São Paulo
De uma carta de São Paulo transcrevemos os seguintes trechos: Ontem, com grande satisfação nossa, foi restaurado o Grupo Espírita Verdade e Luz, que há tempos se achava adormecido.

Seu restaurador é o nosso irmão Batuíra, que acabou de construir um confortável chalet na Rua do Lavapés n° 4, fazendo aí num vasto salão, decentemente mobiliado, onde oferece explicações do Evangelho Segundo o Espiritismo.

A primeira explicação teve lugar domingo próximo passado, 16 de abril à tarde, com grande concorrência.

O mesmo confrade fez a aquisição de uma pequena tipografia para em breve começar a publicação de um pequeno jornal com o título "Verdade e Luz"

Rendamos graças ao bom Pai por tanta felicidade entre os trabalhadores da consoladora Doutrina: O Espiritismo.

Depois de acompanharmos o autor desta carta nas graças que a Deus eleva, desejamos também felicitar ao nosso confrade Batuíra pelo esforço que emprega em derramar as verdades que está de posse..

Possa esse esforço servir de incentivo a quantos estejam no caso de seguir-lhe as pegadas.

O primeiro jornal Verdade e Luz que conseguimos ter em mãos, o de número 4, indica que o endereço do Grupo era Rua Independência n° 4, antiga Lavapés. Pouco tempo deve a Rua ter tido essa denominação, pois o desejo do povo consagrou-a até hoje como Lavapés.

Podemos considerar, portanto, 16 de abril de 1890, a data da fundação oficial e documental do Grupo Espírita Verdade e Luz, apesar de já se ter reunido informalmente antes. É importante esta definição por se tratar de uma das Entidades Espíritas mais antigas que ainda se mantêm em atividade no Estado de São Paulo. Segundo nossas pesquisas, apenas superada pela Associação Espírita Anjo da Guarda, de Santos, fundada pelo também excepcional confrade espírita Benedito José de Souza Junior em 2 de novembro de 1883. (12)

(12) A título de contribuição à história do Espiritismo, informamos que no Rio de Janeiro funciona até os dias de hoje o Grupo Espírita Discípulos do Samuel, fundado em 1899 por Joaquim Bertoldo dos Santos; o Grupo Espírita Antônio de Pádua, fundado em 1883 com o nome de Grupo Espírita Santo Antônio; a FEB, fundada em 1884; e o Centro Espírita Fernandes Figueira, fundado em 1892, com o nome de Grupo de Estudos Espiríticos. São alguns dos poucos grupos centenários espíritas ainda em atividade no Brasil até os dias de hoje.

Na época, inclusive, até a expansão do Espiritismo começar a merecer a oposição da Igreja Católica, essas instituições não se registravam nos órgãos públicos como se passou a exigir posteriormente.

Assim, o grupo espírita Verdade e Luz só foi ser registrado e ganhar estatutos no ano de 1904. Batuíra era, então, o corpo e alma do grupo, mas depois de participar pessoalmente do célebre Congresso organizado no Rio de Janeiro pela FEB, sentiu ser necessário constituir sua Entidade juridicamente. Este Congresso reuniu mais de 2.000 espíritas sob a direção de Leopoldo Cirne, então Presidente da FEB, e aprovou a Tese Bases da Organização Espírita que, com relação à unificação, destacava:

a) organizar um Centro na Capital de cada Estado para promover a organização e a filiação de associações;

b) essa filiação será feita "sem nenhuma relação de dependência disciplinar", mas unicamente com intuitos de confraternização e unidade de vistas. (13)

(13) Allan Kardec — Francisco Thiesen / Zeus Wantuil, Volume II, Ed. FEB.

Desse seu entrosamento com a FEB, Batuíra constituiu na capital paulistana, a 24 de maio de 1908, a União Espírita do Estado de São Paulo, entidade que federava centros espíritas e grupos familiares de todo o Estado. Uma comissão executiva, que tinha como Presidente o Coronel Antonio Raposo de Almeida, Batuíra e Studário Cardoso como vices, dirigia a União que, naturalmente, era filiada a FEB.

Alguns estados já possuíam Sociedades Federativas e eram filiadas a FEB, no entanto, a iniciativa de São Paulo deu grande impulso ao movimento febiano e inspirou a criação de entidades semelhantes, inclusive da União Espírita Mineira, em Belo Horizonte, também constituída por interferência de Batuíra.

Não conseguimos saber até quando a União Espírita do Estado de São Paulo exerceu suas atividades unificacionistas, mas por ela percebe-se que Batuíra tinha grande entrosamento com a Federação Espírita Brasileira.

Ele era sócio honorário da FEB desde 28 de dezembro de 1895 e já em 1890 havia feito sua primeira visita à Entidade nacional.

Apesar de possuir, portanto, Estatutos desde 1904, só em 1° de janeiro de 1908, Batuíra os torna públicos, divulgando-os no Diário Oficial, páginas 11 e 12. Eis ò seu texto:


Publicações particulares estatutos
Da Instituição Christan Beneficente "Verdade e Luz"

Artigo 1 A Instituição Christan Beneficente "Verdade e Luz" com sede nesta Capital e nela findada a 25 de dezembro de 1904, tem por fim:

1) Asilar órfãos de ambos os sexos, reconhecidamente desvalidos e fornecer-lhes roupas, alimento, tratamento medico, educação e instrução e ensinar-lhes uma arte ou ofício;

2) Asilar viúvas desvalidas, mas honestas, fornecendo-lhes roupas, alimento, tratamento medico e ocupação compatível com as suas forças;

3) Recolher obsedados (loucos) de ambos os sexos e ministrar-lhes gratuitamente o tratamento psíquico adequado.

Artigo 2 - O regime da Instituição será rigorosamente vegetariano.

Artigo 3 - A Instituição é administrada e representada ativa e passivamente em juízo, e, em geral, nas suas relações com terceiros, pelo seu administrador.

Artigo 4 - A Instituição constará de tantos sócios quantos forem às pessoas caritativas que desejarem contribuir para a sua manutenção.

Artigo 5 - Os sócios não respondem subsidiariamente pelas obrigações que os representantes da associação contraírem expressa ou tacitamente em nome desta.

Artigo 6 - A Instituição tem por patrimônio os seguintes bens que lhes foram doados pelo seu atual administrador Antonio Gonçalves da Silva Batuíra e sua mulher Maria das Dores Coutinho e Silva e por outras pessoas, bens que são assim discriminados: Um sitio com suas bem feitorias, animais, instrumentos rurais, etc., situado no bairro do Jequerituba município de Santo Amaro; um prédio sob o n. 28 na rua Espírita, desta Capital, com todo o seu mobiliário; a tipografia que nele se acha com todos os seus pertences; outro prédio terá o usufruto, enquanto viver, a sócia Maria das Dores Coutinho e Silva, passando por sua morte o dito prédio à Instituição.

Artigo 7 O atual administrador, no caso de incapacidade psíquica, poderá nomear uma pessoa idônea para substitui-o na administração e, acontecendo que não ache pessoa em tais condições, o governo poderá chamar a si os bens da Instituição.
São Paulo, 30 de Dezembro de 1907

O Administrador, Antonio Gonçalves da Silva Batuíra.


Algumas peculiaridades do texto revelam um pouco dos costumes da época e da personalidade ímpar de Batuíra.

Asilar viúvas desvalidas, porém honestas (sic), talvez possa revelar um preconceito ou então uma precaução tomada por Batuíra por alguma ocorrência desagradável de que tenha sido vítima.

A obrigatoriedade do vegetarianismo aos assistidos pela Instituição mostra um Batuíra muito exigente em relação a si próprio e aos que o rodeavam.

Após o desencarne de Batuíra, na reformulação estatutária promovida para a adaptação da Instituição à nova condição, modificou-se o texto original por: O regime da Instituição será vegetariano, quanto possível.

Acima de tudo, porém, o teor dos estatutos confirma a generosidade e o desprendimento de Batuíra ao relacionar os valiosos bens que destinou à Instituição Cristã Beneficente Verdade e Luz após a sua morte. Lembramos, ainda, que a essa época (1908), boa parte de seu patrimônio já havia sido vendido para sustentar sua vasta obra assistencial e o periódico Verdade e Luz.

A publicação dos Estatutos e a organização da vida da Instituição deveram-se, sobretudo, à certeza que Batuíra tinha da proximidade de seu desencarne, que ocorreria um ano após.





Fac-símile do Jornal Verdade e Luz de 16/07/1890 (nª 4)
X
Criação do periódico "verdade e luz"
Em 1889, Batuíra passou a ser o agente exclusivo do Reformador na cidade de São Paulo, advindo daí, talvez, o despertar do pioneiro espírita para a necessidade de dotar São Paulo de seu próprio órgão de propaganda e que pudesse registrar as atividades do movimento na época.

Antes que Batuíra conseguisse viabilizar o periódico Verdade e Luz, poucas tentativas e efêmeras tiveram os paulistas em criar uma imprensa espírita no Estado, apesar de que já estivesse a Doutrina se solidificando em terras bandeirantes.

Assim, relacionamos duas dessas tentativas, inclusive para situar a importância que teve o Verdade e Luz para a defesa da Doutrina em São Paulo. São eles:

União e Crença — Areias, publicação mensal, propriedade do Grupo Espírita Fraternidade Areense. Fundado em 24/03/1881. Foram seus editores: Cel. Joaquim Silvério Monteiro Leite e Afonso da Távora. Pugnou pela união da família espírita, ao tempo um tanto dividida entre místicos e científicos. Preferiu divulgar o Espiritismo na forma que melhor cabe aos brasileiros: religião.

Espiritualismo Experimental — Capital. De vida efêmera, parece que o primeiro exemplar circulou em setembro de 1886. Periódico mensal, fundado e dirigido por Francisco dos Santos Cruz Júnior, assim se definia: órgão consagrado a todos os ramos do conhecimento humano e, especialmente, à Ciência Espírita. Teve como representante no Rio de Janeiro o português Augusto Elias da Silva, fundador do Reformador em 1883. (14)

(14) Informações encontradas no trabalho 70 anos de Imprensa Espírita em São Paulo, de Eduardo Carvalho Monteiro, constante do livro Sinal de Vida na Imprensa Espírita.

Fac-símile do Jornal Verdade e Luz de 15/01/1900 (nª 232)

Fac-símile do Jornal Verdade e Luz de 30/09/1900 (nª 232)
Conforme vimos no capítulo anterior, em 1890 Batuíra adquiriu uma tipografia, que passou a denominar-se Tipografia Espírita e, em 25 de maio de 1890, lançou o primeiro número do jornal Verdade e Luz no formato 26x38, com 4 páginas a 3 colunas e tendo o próprio como editor. Seus primeiros pontos de venda foram duas charutarias na Rua São Bento e no Largo do Tesouro, sendo o fruto da venda destinado à assistência social. Seu excêntrico expediente, no frontispício da primeira página, dizia o seguinte:

Sendo o nosso periódico de propaganda do Espiritismo, e por isso da religião cristã, declaramos aos nossos rivais que o receberem, não serão considerados assinantes sem que espontaneamente enviem seus nomes a esta redação e, por isso, dispensados de devolver os que tiverem recebido.

Só desejamos ser auxiliados por aqueles que aceitarem ou simpatizarem com a nossa doutrina, e é só destes que esperamos proteção. Entendemos que as doutrinas devam ser sustentadas somente pelos seus adeptos.

Assina-se na Rua Independência n° 4 (antiga Lavapés).

Preço da assinatura até 31 de dezembro de 1890: 2.000 réis.

Na última página divulgavam-se os dias das reuniões públicas: quintas e domingos às 19 horas, sendo neste último apresentada palestra sobre o Evangelho segundo a Ciência Espírita.

Abrindo o ano de 1900, o primeiro exemplar já apresentava um frontispício mais elaborado com as frases Sem Caridade não há Salvação e Nascer, Viver, Morrer, Renascer ainda e Progredir Sempre, tal é a Lei. Autodefinindo-se como Orgam do Espiritualismo Scientifico, trazia o nome de seu diretor responsável.

A princípio, o jornal saía com a tiragem de 2 a 3 mil exemplares, a qual foi crescendo até atingir a fantástica marca de 15.000 exemplares em 1897, diminuída em 1900 para não menos surpreendentes 6.000 exemplares. Nos últimos anos da direção de Batuíra, o Verdade e Luz passou a ter o formato de revista (16x22, com 32 páginas a 1 coluna) e sair mensalmente. Não sabemos se o periódico circulou após o desencarne de Batuíra, mas tudo indica que não, por muito tempo, face às dificuldades financeiras encontradas por seus sucessores. Em dezembro de 1922, já sob o comando de Lameira de Andrade, voltou a circular quinzenalmente em formato de revista.

Além de traduções de periódicos estrangeiros e de noticiários nacionais, o jornal (depois revista) Verdade e Luz inseriu em suas colunas as colaborações originais de muitos espiritistas brasileiros, entre outros, Ewerton Quadros, Anália Franco, Augusto José da Silva, Valado Rosas, Urias, Pitris, Paulo Vero, Manuel José da Fonseca, Luís Ferreira, Edla de Morais Cardoso, Antônio Pinheiro Guedes, João Lourenço de Sousa, Traumer, Casimiro Cunha, Modesto de Araújo Lacerda e Silvestre Evangelista dos Santos.

Se por um lado o desprendimento de Batuíra, investindo muito dinheiro no jornal, auxiliava na divulgação da Doutrina Espírita por distribuí-lo quase gratuitamente, por outro, comercialmente, era um desastre, pois consumia suas economias e seu patrimônio cada vez diminuía mais.

Desta maneira, o Reformador, de 2 de novembro de 1899, noticiou algumas providências tomadas pelo Editor do Verdade e Luz para equilibrar seu orçamento:

Em uma longa exposição de motivos esse nosso colega de São Paulo cabalmente justifica a resolução que é obrigado a tomar, cessando a distribuição gratuita da sua folha e passando a cobrar os preços que reproduzimos em seguida, mas continuam excetuados os Governadores dos Estados da República, as associações literárias, gabinetes de leitura, lojas maçônicas que o reclamem e as bibliotecas públicas do país. Em seu Ano XVII, já como hebdomadário da Instituição Cristã Verdade e Luz, no formato revista, eram os seguintes conceitos em sua apresentação: Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. A potência da causa inteligente está na razão direta da magnitude do efeito. Não há culto mais elevado que a Verdade.

Em sua requisitada obra A Imprensa Periódica de São Paulo (15), Affonso de Freitas infelizmente se baseou num mal formulado e preconceituoso necrológio de Batuíra, para assim se referir ao grande líder espiritista:

(15) Editada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1915.

...Antônio Gonçalves da Silva Batuíra, homem morigerado que em São Paulo conseguiu, após longos anos de trabalho honrado e pertinaz, reunir avultados bens de fortuna, era um espírito crédulo e bom, porém mal-orientado, e os 17 anos de jornalismo sectarista absorveram-lhe toda a fortuna com tanto labor acumulada, vindo ele a falecer a 21 de janeiro de 1909 nas vizinhanças da miséria.

Longe de ser "mal-orientado", Batuíra foi, isto sim, um dos próceres do movimento espírita do passado. Admirado até mesmo pelos adversários do Espiritismo, sua fé inabalável aliada à grande extensão de sua obra caritativa e de divulgação da Doutrina Espírita, fez dele um grande vulto até hoje admirado pelos espíritas.

Batuíra transferiu em março de 1905 a redação e as máquinas da Revista Verdade e Luz para a Rua Espírita n° 28.

Uma pequena análise nos permitimos fazer, apesar dos poucos e dispersos números que tivemos a oportunidade de compulsar do periódico Verdade e Luz.

O jornal se iniciou fruto do idealismo de Batuíra e incorporando tendências ufanistas. No começo não tinha uma linha editorial definida, fruto da inexperiência de seu fundador, além de critérios técnicos. Quanto ao conteúdo, apresentava artigos proselitistas ou numa linha de combate ao catolicismo.

Aos poucos a inexperiência vai sendo suprida e o jornal assume uma linha editorial mais definida, alguns colabora-dores de peso, mas mantém uma característica de jornal espiritualista, seguindo uma tendência da época e falando de assuntos como maçonaria, teosofia, astrologia, etc... Por terem na Igreja Católica uma adversária comum, livres-pensadores e espiritualistas em geral eram unidos entre si, misturando suas teorias e forçando uma mútua identificação que nem sempre existia.

Ao assumir polêmicas em favor do Espiritismo, principalmente entre Batuíra e as Damas da Caridade da Diocese, cremos que o jornal encontrou o seu ponto de equilíbrio, pois juntos vieram os artigos traduzidos mostrando as experiências do Espiritismo científico por parte dos grandes sábios.

Estas, bem dosadas com matérias com análises evangélicas e notícias em equilíbrio de espaço e destaque, a partir de 1900 faziam do Verdade e Luz um jornal dinâmico e interessante de ler. Para a divulgação da Doutrina, sua credibilidade e as altas tiragens que alcançava eram de excepcional valor.

Ao desencarnar, Batuíra deixou um ótimo periódico em seu conteúdo, apresentando-se como uma Revista Mensal de Espiritualismo Científico e realmente o era, boa apresentação em 32 páginas de substancioso Espiritismo.

Também instalou Batuíra junto à Redação uma Livraria Espírita, dispensando-se de receber lucro sobre as vendas para facilitar o acesso às obras a um maior número de pessoas. Vendia não só obras em português, como importadas da Europa, América do Norte e países latinos.

Como bom propagandista, Batuíra espalhou gratuitamente prospectos e folhetos de propaganda do Espiritismo, por ele próprio impressos, e distribuiu milhares de livros pelo interior do País, tantos, que, de acordo com as próprias palavras dele, muitas vezes ficaram esgotados nas livrarias dos Srs. Magalhães e Laemmert.


XI
Polêmica religiosa
Como já relatamos, o surgimento do Verdade e Luz foi muito importante por ter sido o único a sobreviver e manter regularidade por duas décadas no campo doutrinário espírita. Sua importância crescia à medida em que se tornava uma voz em defesa dos princípios espiritistas, principalmente contra os católicos, que viam o Espiritismo crescer em adeptos e se solidificar junto a intelectuais de prestígio da sociedade paulista,

O episódio mais importante da vida do jornal foi à polêmica religiosa travada entre Batuíra e as Damas da Caridade da Diocese de São Paulo por mais de oito anos, em que ele assinava os artigos com o pseudônimo "Ninguém". Nestes artigos intitulados Diversos Assuntos oferecidos as Exmas. Damas de Caridade da Diocese de São Paulo, Batuíra relatava casos do Centro, curas físicas e espirituais lá obtidas, conceitos evangélicos espíritas, rebatia as acusações dos católicos e fazia defesa veemente do Espiritismo contra as diatribes assacadas pela Igreja. Sua redação era simples, mas correta, e ele alternava momentos de serenidade na linguagem com rigor e agressividade quando necessário.

Naturalmente refugiava-se Batuíra atrás de um pseudônimo por não querer auto-exaltar-se, colocando-se em superioridade pelas curas que promovia, no entanto, no centésimo artigo dedicado às suas contendoras, resolveu assinar "Alguém". Isso aconteceu no número de setembro de 1908, alegando ele que, diante de sua consciência, só agora se julgava "alguém" na Seara Espiritista por haver consolidado a Instituição Cristã Beneficente Verdade e Luz, à qual havia acabado de doar tudo o que possuía (ou que restava) com plena aprovação da esposa. Reverente, consciente de sua responsabilidade, escreveu Batuíra:

Só temos que agradecer à Divina Providência ter abençoado o nosso pequeno trabalho, permitindo-nos podermos apreciar o resultado dos nossos esforços no transcorrer de dezoito anos. E mais adiante: Enquanto a Divina Providência nos der força, faremos o que pudermos para convencer nossos adversários de que os nossos maiores desejos têm sido, são e serão o adiantamento de toda a Humanidade. Saibam as nobres Damas que ainda continuamos com o mesmo afã no empenho de aliviar os sofrimentos dos nossos irmãos, sem indagarmos a que seita ou religião pertencem. E como entre nós a Católica é a mais numerosa, mais trabalho temos com os crentes dessa religião.

Para ilustrar o teor dos artigos dedicados às Damas de Caridade, selecionamos um pequeno trecho que reproduzimos do exemplar de 30 de abril de 1903, n° 311, Ano XIII (16). É a seqüência da descrição de uma polêmica com o Rev. Eduardo Pereira, protestante.

(16) Exemplar disponível no arquivo do Autor e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

(...)


Desafiamos o nosso contendor para que nos dissesse o nome de um só espírita que estivesse no Hospício.

Dissemos que a mentira dita por um sábio não deixaria de ser mentira. Mas a verdade dita por um ignorante era sempre verdade. Era isto o que esperava iria acontecer.

Provamos pelos fatos que o espiritismo curava a loucura e que as religiões positivas a produziam.

Começamos por contar a primeira cura que fizemos, como o mais indigno instrumento da Divina Providência.

Uma senhora (médium auditiva inconsciente) estava muito atormentada por ouvir as palavras as mais imorais e insultuosas que "lábios" ocultos proferiam; entretanto, com uma oração e alguns conselhos ficou livre desse incômodo moral por 10 minutos.

Outra tinha sido acometida de loucura furiosa horas depois de seu casamento havia 5 anos e a quem a família já pensava em internar no Hospício; veio para nossa casa e, no fim de dois meses, achava-se completamente sã.

Ainda outra, uma moça solteira que viera com seus pais, uns roceiros, em menos de quinze dias voltou ao seu trabalho.

Mencionei ainda o caso de três pessoas, pertencentes à mesma família, que ficaram loucas, num sábado quando estavam rezando novenas e que em vinte dias ficaram curadas.

Essa família morava seis léguas distante da capital. No fim de trinta dias nos vieram agradecer a cura que Deus lhes fez.

Estes fatos contamos com todas as peripécias, assim como outros que seria longo enumerar.

Quando demos por terminada a conferência, eram nove horas da noite.

Todos os assistentes, no auge do entusiasmo, romperam com uma demorada salva de palmas.

Vede, nobres Damas de Caridade, como foi aplaudida a verdade!

A verdade é sempre a verdade.


Ninguém

XII
Batuíra noticiou discos-voadores em 1897




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