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Hora de ser feliz

Brittany Young
Copyright © 1991 by Brittany Young

Originalmente publicado em 1991 pela Silhouette Books,

Divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Título original: Lady in Distress

Tradução: M. Moreira

Copyright para a língua portuguesa: 1992

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.

Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

Foto da capa: RJB





Quando Parker tentou beijá-la, Shelby fugiu desesperada de seus braços. Por mais que o atraente promotor de Dry River Falls a perturbasse, fazendo-a experimentar emoções que nem mesmo o marido lhe despertara, não podia entregar-se a essa paixão. Tinha jurado jamais pertencer a outro homem, mesmo que para isso precisasse abrir mão de seu sonho de felicidade!



Projeto Revisoras

Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.

Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida.

Cultura: um bem universal.

Digitalização: Palas Atenéia

Revisão: Melissa

Vanessa nº 9
3 histórias


HORA DE SER FELIZ

Brittany Young


Quando Parker tentou beijá-la, Shelby fugiu desesperada de seus braços. Por mais que o atraente promotor de Dry River Falls a perturbasse, fazendo-a experimentar emoções que nem mesmo o marido lhe despertara, não podia entregar-se a essa paixão. Tinha jurado jamais pertencer a outro homem, mesmo que para isso precisasse abrir mão de seu sonho de felicidade!

UM MARIDO DE MENTIRA

Judith Bowen


Justine estremeceu ante a pergunta da juíza. Sentada no banco de testemunhas, podia ver o rosto atraente de Clayton, aguardando ansioso por sua resposta. O destino dele estava em suas mãos. A farsa do casamento com aquele homem tivera como objetivo esse momento, em que deveria se comportar como uma esposa apaixonada. Estava sendo paga para isso. Num impulso, decidiu falar o que seu coração obrigava. Iria dizer a verdade!

MEU AMOR SECRETO

Maggi Charles


Pamela virou-se ao ouvir a voz profunda e inconfundível. Quase perdeu a respiração: era Jason St. Clair, o famoso astro da televisão! Mal podia crer que o alvo de todos os seus sonhos românticos estava ali, bem a sua frente, falando com ela! O homem adorado por milhares de mulheres no país inteiro era seu novo vizinho! Não podia haver melhor presente do destino para uma mulher apaixonada…
PRÓLOGO

Shelby Chassen parou, permanecendo imóvel à entrada do antigo cemitério da Nova Inglaterra, o pequeno buquê de flores bem apertado na mão. As árvores em plena florescência de verão sombreavam os túmulos, um leve silêncio permeava a natureza. Até os pássaros deixaram de cantar.

Ela respirou fundo, soltando o ar devagarinho. Seus sapatos de salto alto não fizeram ruído ao cruzar o gramado em direção a um túmulo marcado por uma lápide de mármore azul claro.

Shelby sentiu um aperto no coração ao se ajoelhar diante dela. Seu marido partira havia quase um ano porém continuava difícil lidar com a dor. O tempo, diziam, era o melhor remédio, mas com ela o ditado parecia não funcionar.

Apoiando o buquê na lápide, Shelby estendeu a mão e, com ternura, traçou o nome gravado na superfície polida. Eric.

A brisa fresca soprou uma mecha de cabelos castanhos em seus lábios carnudos porém ela não percebeu. As folhas farfalharam, quebrando o silêncio. Ela também não percebeu. Encontrava-se perdida em seus pensamentos.

Uma mulher observava do ponto em que Shelby havia parado, os olhos escuros entristecidos ao verem o sofrimento da amiga querida. Olhou para o relógio e esperou alguns minutos antes de se aproximar de Shelby e tocar-lhe o ombro.

— Precisamos ir agora se você não quiser perder o avião para o Texas. Shelby virou a cabeça e fitou-a com olhos do mesmo tom castanho dos cabelos.

— Oh, Katy — murmurou com voz rouca.

Katy foi engolfada por uma sensação de impotência.

— Eu sei. Também sinto falia dele. — Ajoelhou-se em frente de Shelby. — Talvez você não devesse ter aceitado esta incumbência. Deixe a revista mandar outra pessoa para acompanhar o julgamento no Texas.

— Não posso. Já lhe disse, não se trata de um julgamento qualquer. Eu conhecia a mulher que foi assassinada.

— Não tão bem.

— Não, mas nós duas escrevíamos para a American Profiles de vez em quando e costumávamos nos encontrar. Ela era uma escritora maravilhosa.

— E agora virou uma história maravilhosa — Katy acrescentou com cinismo.

— Sei que pode dar esta impressão e talvez seja assim que a revista o encare, porém eu gostava de Diane e quero muito acompanhar o julgamento do marido dela.

— Você o conhecia?

— Encontrei-o uma ou duas vezes. Ele era, e suponho que ainda seja, muito rico. Tinha o hábito de aparecer onde Diane estivesse trabalhando. Acho que não confiava muito em sua fidelidade, embora eu não saiba a razão. Parecia que ela o amava muito.

— Então você o conheceu. Acredita que ele seria capaz de matar a mulher?

— Para ser franca, Katy, eu o achava um idiota. Mas assassino? — Shelôy deu de ombros.

Katy fitou-a por um longo instante.

— Será que você será capaz de cobrir o julgamento sem preconceito? Quero dizer, apesar de seu relacionamento com Diane e tudo o mais?



Shelby assentiu.

— É um pouco preocupante, eu sei, mas acredito que sim, ou não teria aceitado a tarefa.

Katy suspirou.

— O que houve? — questionou Shelby.

— Toda esta conversa sobre o julgamento e seu trabalho está muito boa mas completamente fora do que mais interessa.

— E o que mais interessa?

— Você! Você precisa dispor de algum tempo para si mesma. Não descansou desde o funeral de Eric. Tem pegado um trabalho atrás do outro.

— Oh, Katy — Shelby disse, cansada — tempo para fazer o quê?

— Para chorar. Para começar a se recuperar. Talvez procurar a ajuda de um profissional para ajudá-la a lidar com a morte de Eric e com seu futuro.

— Ainda estou funcionando. E no que me concerne, é um modo de lidar com isto.

— Há mais coisas na vida do que apenas “funcionar”. Você merece ser feliz de novo, Shelby.

Shelby fitou a lápide. Feliz. Nem conseguia imaginar o significado dessa palavra. Katy obrigou a amiga a encará-la.

— Querida, você só tem vinte e cinco anos. Tem a vida pela frente. Eu sei o quanto amava Eric mas ele se foi e não voltará mais. Precisa enfrentar este fato e recomeçar sua vida sem ele.

— Ainda não.

— Shelby…

— Não posso. Preciso de mais tempo.

Katy suspirou.

— Tudo bem. Mas se não tomar logo uma atitude vou começar a interferir. E você sabe o que isso significa. — Ela arqueou as sobrancelhas. — Encontros às escuras!

Shelby sorriu, abatida.

— Obrigada por tentar me animar. Não sei o que faria sem você.

— Perderia o avião — Katy replicou com um sorriso, levantando-se e ajudando a amiga a ficar de pé.

De braços dados, as duas se encaminharam para o estacionamento onde se encontrava o carro de Katy.

— Quer acredite ou não, qualquer dia você vai se apaixonar de novo. Há um homem por aí à sua espera — a amiga comentou.

Shelby balançou a cabeça.

— Nem pensar. Já tive a minha cota de sofrimento na vida.

— Amar alguém não leva, necessariamente, ao sofrimento.

— Mas sempre existe um risco. — A voz de Shelby era suave.

— Tudo o que vale a pena envolve algum risco.

Shelby olhou de relance para a companheira. Conhecia Katy desde a infância e as duas sempre tinham se entendido bem. Aquilo, porém, era algo que ela não podia compreender, por mais que se esforçasse. A amiga nunca havia perdido alguém muito próximo. Uma vez que a vida de uma pessoa era tocada pela morte, tudo mudava. Todos os momentos de felicidade, mesmo os mais breves, eram tingidos pela culpa.

Tinha vinte e cinco anos mas por dentro sentia-se com oitenta. Já não encarava a vida com animação, grandes expectativas. Tornara-se um suplício simplesmente viver um dia de cada vez.

— Ah, Shelby — Katy chamou por cima do teto do carro, assim que um pensamento lhe ocorreu: — Continua recebendo aqueles telefonemas?

— Recebi um na semana passada. Katy sacudiu a cabeça, aborrecida.

— Desta vez ele falou alguma coisa?

— Só repetiu o meu nome várias vezes naquela estranha voz sussurrante. — Shelby fitou a amiga com preocupação. — Às vezes ele telefona e não fala nada. Ouço apenas o som lúgubre do vento. — Ela estremeceu. — É estranho.

— Ouça o que eu digo, Shelby, esse cara a conhece de algum lugar. Não tirou o seu nome da lista telefônica.

— Eu sei.

— Depois de quase um ano desses telefonemas a polícia já deveria ter descoberto alguma coisa sobre ele, não acha?

__ Não sei o que mais eles podem fazer, Katy. Já falaram com todos os homens com quem tive algum contato, até os mais insignificantes e não descobriram nada. Investigaram algumas das ligações e chegaram à conclusão de que o homem usa telefones públicos.

— Você não tem idéia de quem possa ser?

— Pode acreditar, já refleti muito. Não conheço ninguém capaz de fazer algo assim.

— Ele a assusta?

— Acho que não deveria me assustar, quer dizer, há meses que ele vem telefonando e não me causou nenhum mal. Mas me assusta, sim. É óbvio que se trata de um desequilibrado ou não estaria fazendo uma coisa destas.

— O que será que ele quer?

— Não sei. Chego a pensar que gostaria que ele aparecesse para dizer o que deseja. Talvez assim eu pudesse descobrir um jeito de lidar com ele.

— Pode ser que ele só queira ouvir a sua voz.

— Seria bom se eu pudesse acreditar nessa hipótese. Meu sexto sentido, porém, me diz que não se trata disto.

Elas abriram a porta do carro e se acomodaram, sem notar o homem parado a alguns metros, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, observando-as.

Assim que o automóvel deixou o cemitério, o homem se aproximou casualmente do túmulo de Eric. Pegando o buquê que Shelby havia deixado encostado à lápide, tirou dele um cravo branco e jogou o resto para o lado. Levou a flor ao nariz e aspirou o delicado perfume que o fazia lembrar Shelby.



Sua Shelby.

Fitando a lápide, passou o cravo pela face, um sorriso retorcido na boca.

— Logo, Shelby. Logo, logo irei me encontrar com você.

CAPÍTULO I

Shelby desceu a poeirenta rua principal de Dry River Falls, Texas. Não havia faróis nos cruzamentos, talvez porque não houvesse tráfego suficiente para que fossem instalados, supôs. Não mais que três mil pessoas viveriam em Dry River Falls, a maioria delas morando e trabalhando nas grandes fazendas fora do perímetro urbano.

Era obrigada a reconhecer que a cidade possuía um certo encanto. Muito quente, sem dúvida, mas cheia de charme. A pequena área central parecia tirada de um filme de faroeste. A única diferença consistia nas ruas e calçadas serem pavimentadas.

Ela circundou a praça — bem pequena, sombreada por árvores. Havia bancos, recentemente pintados de branco, e uma pequena fonte que jorrava água límpida.

Além da praça via-se um prédio de adobe de três andares, que abrigava o tribunal, a cadeia e o gabinete do promotor. Em frente ao tribunal se encontrava o hotel. Shelby sorriu ao ver a placa Hotel. Como se tratava do único da cidade, não precisava mesmo de um nome. Era um prédio comum de cinco andares, de tijolos.

Todo o estacionamento em frente ao hotel estava ocupado por carros alugados: seus colegas, sem dúvida, encontravam-se ali para cobrir o que prometia ser um julgamento sensacional. Ela virou a esquina e'espremeu seu carro entre dois outros. Não havia porteiro, lógico, portanto Shelby tirou a bagagem do porta-malas e levou-a para dentro, surpreendendo-se com o espaçoso hall de entrada. Na recepção, um homem com camisa de mangas curtas, sem gravata, sorriu-lhe com amabilidade.

— Pois não, madame. Em que posso servi-la?

— Meu nome é Shelby Chassen. Reservei um apartamento para as próximas semanas.

— Então veio para o julgamento? — ele perguntou, em tom de conversa.

— É ao que parece, como dúzias de outros jornalistas — ela respondeu com um sorriso.

— Tem razão, madame. Eles têm chegado nestes últimos dias. Não é de uma revista? Acho que fui eu quem fez sua reserva.

— Da American Profiles,

— Isso mesmo. Já ouvi falar dela. — O homem refletiu por um momento. — Acho até que já li essa revista, uma vez. — Deu a ela uma ficha para preencher e uma caneta. — Não é a mesma revista para a qual Diane Lyle escrevia?

— É, sim.

— Então a conhecia?

— Não muito bem, mas nos conhecíamos. O homem sacudiu a cabeça.

— Ela era uma mulher admirável.

— Conhece o marido dela, Jefferson Webster Lyle?

— J.W.? Claro. Todos se conhecem, aqui.

— Acha que ele matou a mulher? — Shelby perguntou enquanto escrevia o nome e o endereço na ficha.

— Bem, madame, não posso dizer nada. Ele tem gênio forte, não há dúvida. Mas talvez esteja dizendo a verdade e ela já estivesse morta quando a encontrou.

Shelby devolveu-lhe a ficha.

— Obrigado, srta. Chassen. Preciso de seu cartão de crédito. Ela escolheu um na carteira e entregou-lhe.

— O advogado do sr. Lyle já chegou?

— Acertou, mais uma vez. Jerry Fisher e seu pessoal estão ocupando quase que todo o quinto andar. — O recepcionista carimbou a ficha, preencheu o comprovante e tornou a dar o cartão de crédito a Shelby.

— Gostaria de deixar um recado para ele, caso não haja problema.

— Claro. — O homem pegou uma caneta junto com um bloco.

— “Jerry” — ela ditou devagar —, “estou cobrindo o julgamento para a American Profiles. Gostaria de conversar com você sobre o caso. Gostaria, também, de conversar com seu cliente. Estou no hotel”. Coloque meu nome embaixo, por favor.

O recepcionista terminou o bilhete com um floreio.

— Vou fazer com que o entreguem agora mesmo.

— Obrigada. Ele lhe deu uma chave.

— Se precisar de alguma coisa, é só me chamar. Meu nome é Bo.

— Obrigada, Bo.

— Seu quarto é o trezentos e quinze. Há gelo e refrigerante na máquina no fim do corredor. O restaurante abre para café da manhã e jantar mas não para almoço. O café é servido das cinco e meia até às dez e o jantar das seis até às onze. Não é elegante mas a comida é boa.

Shelby sorriu-lhe, pegou as malas e levou-as para o único elevador. Depois de apertar o botão, ficou bem em frente à porta, perdida em seus pensamentos. Não sabia com certeza se Jerry Fisher iria cooperar com ela. Havia acompanhado um julgamento anterior dele e o artigo que escrevera não fora muito lisonjeiro.

A porta do elevador se abriu e, distraída, Shelby deu um passo à frente, batendo inesperadamente num peito sólido como uma parede. Mãos fortes seguraram-na pelos ombros e suas malas caíram ao chão.

— Desculpe — ela gaguejou, olhando para o rosto bronzeado com os olhos mais azuis quê já vira.

Os sulcos se aprofundaram no rosto dele.

— Temo que tenha recebido todo o impacto da colisão, dona — disse ele, a voz lenta, arrastada, envolvendo-a numa vibração agradável. — Tudo bem com você?

Shelby afastou-se dele e desviou o olhar.

— Sim, tudo bem. Eu devia ter prestado mais atenção. Ele pegou as malas e colocou-as no elevador.

— Consegue levá-las para o quarto sozinha? Estão um pouco pesadas.

Shelby sorriu com polidez.

— Eu as estou carregando desde Vermont. Acho que sou capaz de levá-las até o quarto. De qualquer forma, obrigada.

O texano ergueu uma sobrancelha, como se entendesse pelos modos dela que Shelby queria se livrar dele. E não parecia acostumado a ser tratado assim pelas mulheres.

Shelby apertou o botão para o terceiro andar e esperou, consciente do olhar do homem fixado nela. Como nada aconteceu, apertou o botão de novo.

O texano permaneceu onde se encontrava, fitando-a, obviamente desejando que ela o olhasse de novo. Era quase um desafio.

A porta do elevador começou a fechar. No último segundo, Shelby ergueu os olhos castanhos para ele. Seu olhar era frio, distante.

Ele ficou olhando para a porta durante alguns segundos, depois balançou a cabeça.

Quanto a Shelby, longe da vista, longe do coração. Assim que a porta do elevador fechou, deixando o texano do outro lado, tirou-o do pensamento. Ele a deixara pouco à vontade e sua maneira de lidar com aquilo era não pensar nele.

Saindo do elevador, encontrou o quarto no meio do corredor. Não era luxuoso mas possuía um certo encanto, com a cama grande de colunas e os móveis antigos. Havia também uma saleta com um sofá, poltronas confortáveis e uma mesa em frente à ampla janela que se abria para a rua. Dava até para ver o tribunal. Um lugar perfeito para trabalhar. Não havia televisão mas Shelby encontrou dois telefones, um no quarto e outro na saleta.

Ela passou a hora seguinte desarrumando as malas e, assim que terminou, tirou da bolsa um envelope grande que o editor lhe enviara, em Vermont. Continha informações sobre o caso que iria cobrir, a começar com a seleção dos jurados no dia seguinte. Já havia lido e relido tudo no avião. Foi para a saleta e separou os papéis em pilhas bem-arrumadas sobre a mesa e tornou a ler a história do caso.

Jefferson Webster Lyle herdara muito dinheiro do pai, um homem do petróleo. Nunca havia conseguido nada por si mesmo. Seu currículo era cheio de negócios fracassados, gastos extravagantes e centenas de mulheres — antes e depois do casamento com Diane. Vivera uma vida pública e cada briga de bar, cada confrontação física com a mulher eram noticiados com grande deleite pela imprensa. Possuía várias casas em diferentes lugares e não passava muito tempo na fazenda que herdara em Dry River Falls. Há pouco mais de um ano, porém, ele e Diane estiveram na fazenda. De acordo com J.W., como gostava de ser chamado, haviam tido uma das brigas costumeiras. Ele saíra da casa, furioso, para dirigir pela fazenda. Não viu ninguém e, também, não foi visto por ninguém. Ao voltar, algumas horas depois, afirmava ter encontrado Diane morta, baleada. Quando a polícia examinou as armas de sua grande coleção, descobriu que faltava uma delas. Alguns dias depois, a arma. foi achada no fundo de um riacho da propriedade. Era a arma do crime. J.W. foi preso imediatamente e ainda se encontrava na cadeia.

Shelby releu os recortes, espantada com o volume. O sujeito não perdia uma oportunidade para contar sua história ou ter a foto publicada em jornais e revistas.

A defesa já estava julgando o caso pela imprensa, o que não a surpreendia. Era assim que Jerry Fisher trabalhava. Os fatos não eram tão importantes para ele quanto a dramaticidade. Em artigo após artigo, Jerry afirmava a inocência de seu cliente, comentando como J.W. era bom rapaz, uma vítima das circunstâncias, um marido angustiado perseguido sem misericórdia por um promotor à cata de publicidade, tentando atrair atenção para si mesmo.

E de parte do promotor, Parker Kincaid, havia apenas um ríspido “sem comentários” em resposta às perguntas dos repórteres.

Shelby arrumou tudo de novo nas pilhas. Com um suspiro, recostou-se na cadeira e olhou pela janela.

Estava tão cansada.

Andava sempre cansada, ultimamente, devido à insônia que a acometera desde a morte de Eric. Mesmo que se encontrasse exausta ao ir para a cama, não conseguia dormir a noite inteira.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Como sentia saudades dele! Eric havia sido seu melhor amigo.

O telefone tocou.

Shelby voltou a cabeça e fitou o aparelho. Jerry deveria ter recebido o bilhete. Limpando as lágrimas com as pontas dos dedos, clareou a garganta e foi até o aparelho.

— Alô! Nenhuma resposta.

— Alô! — ela repetiu, com mais firmeza. — Jerry, é você? A única resposta foi o som do vento.

A cor desapareceu do rosto de Shelby. Ela desligou o aparelho e fitou-o com olhos amedrontados. Ele! Como a encontrara ali?

Respirou fundo várias vezes para se acalmar. Não iria entrar em pânico. Nada de mau acontecera durante os meses em que vinha recebendo aqueles telefonemas. Precisava se lembrar disso.

Ela respirou fundo mais uma vez e exalou o ar devagar. Normalidade era o ponto chave. Já era hora do jantar e cumpriria o programa que traçara. Entrando no banheiro, jogou água fria no rosto e secou-o com a toalha, sem se dar ao trabalho de olhar no espelho. Pegando a bolsa e um pequeno bloco para anotações, desceu para o restaurante.

O ambiente não era muito grande. Talvez comportasse quinze mesas, a maior parte já ocupada. Shelby olhou ao redor, viu alguns rostos conhecidos e sorriu num cumprimento, mas não fez menção de se aproximar de ninguém. A garçonete levou-a para uma mesa arrumada para duas pessoas e tirou o prato excedente.

— Quer tomar alguma coisa? — a jovem perguntou com aquele sotaque característico do Texas.

— Uma água mineral, por favor.

Shelby pegou a caneta e sentou-se, os olhos fitos no bloco. Embora se esforçasse ao máximo para evitar, o telefonema continuava a interferir em seus pensamentos. Isso a incomodava tanto quanto os próprios telefonemas. Não podia se preocupar com aquilo quando tinha tanta coisa a fazer.

E não iria se preocupar. Não permitiria que aquelas chamadas covardes exercessem qualquer tipo de poder sobre ela.

Com uma determinação que não surpreenderia ninguém que a conhecesse bem, afastou o problema da mente e começou a se organizar para a tarefa que tinha pela frente.

Uma das primeiras coisas a fazer era conversar com Jerry Fisher. Jerry era petulante e atrevido, uma pessoa típica da costa leste. A maioria de seus clientes era composta de pessoas ricas como J.W. Lyle, que podiam pagar seus honorários astronômicos. Era famoso por seu desempenho dramático no tribunal — e por tirar seus clientes da cadeia. Shelby não apreciava seus métodos mas gostava dele como pessoa.

Do promotor, Parker Kincaid, nunca ouvira falar. Precisava saber algo sobre seu passado, mas imaginava que não houvesse muita coisa para descobrir. Um advogado que fosse trabalhar numa cidadezinha como aquela, com uma população tão pequena, não poderia ser muito bom. Era bem provável que ele nunca tivesse enfrentado uma causa tão importante e Shelby era capaz de apostar que o promotor jamais deparara com um oponente tão capaz quanto Jerry Fisher. Era difícil não descartá-lo antes mesmo do julgamento começar.

— Shelby? Shelby Chassen?

Ela desviou os olhos do bloco e viu Jerry Fisher parado a seu lado, alto, loiro, muito bem penteado.

— Recebi seu recado. Eu sabia que a American Profiles iria mandar alguém para cobrir o julgamento, mas não esperava que fosse você — ele continuou, secamente.

— Não parece muito promissor para o meu artigo. — Shelby estendeu a mão com um sorriso. — Olá, Jerry, como vai?

O advogado tomou-lhe a mão e segurou-a por um momento.

— Apesar do que acabei de dizer, é muito bom vê-la. Eu soube do que aconteceu ao seu marido. Sinto muito.

— Obrigada, Jerry. — Shelby não queria falar sobre Eric com Jerry ou qualquer outra pessoa. Mudou de assunto depressa. — Podemos conversar sobre o caso? Talvez conseguir uma entrevista com o seu cliente?

— E o que eu ganho com isso?

Ela encarou-o com firmeza. O tom dele era de brincadeira, porém sabia o quanto Jerry levava aquilo a sério.

— Uma cobertura honesta do julgamento, o que obteria mesmo se não conversasse comigo.




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