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ANARQUISMO

Editori Riuniii. Roma 1976; C. Napoleoni, Lezioni sul Capitolo sesro inediw di Marx. Boringhien, Turim 1972.

[Cesabe Pianciola]
Anarquismo.
I. Definição geral. — Não é possível dar uma definição totalmente precisa de Anarquismo. 0 ideal designado por este termo, embora tenha sofrido notável evolução no tempo, sempre se manifestou e manifesta como coisa realizada e elaborada, como aspiração ou como objetivo últi­mo e referencial, cheio de significados e de con-leúdos, dentro da perspectiva em que é analisado.

O termo Anarquismo, ao qual frequentemente é associado o de "anarquia", tem uma origem precisa do grego àvapr.ía, sem Governo: através deste vocábulo se indicou sempre uma sociedade, livre de todo o domínio político autoritário, na qual o homem se afirmaria apenas através da própria ação exercida livremente num contexto sócio-político em que todos deverão sèr livres. Anarquismo significou, portanto, a libertação de todo o poder superior, fosse ele de ordem ideoló­gica (religião, doutrinas, políticas, etc), fosse de ordem política (estrutura administrativa hierar­quizada), de ordem económica {propriedade dos meios de produção), de ordem social (integração numa classe ou num grupo determinado), ou até de ordem jurídica (a lei), A estes motivos se junta o impulso geral para a liberdade. Daí provém o rótulo de libertarismo, atribuído ao movimento, e de libertário, empregado para designar o que adere ao libertarismo.

Precisados os termos, por Anarquismo se enten­de o movimento que atribui, ao homem como indivíduo e ã coletividade, o direito de usufruir toda a liberdade, sem limitação de normas, de espaço e de tempo, fora dos limites existenciais do próprio indivíduo: liberdade de agir sem ser oprimido por qualquer tipo de autoridade, admi­tindo unicamente os obstáculos da natureza, da "opinião", do "senso comum" e da vontade da comunidade geral — aos quais o indivíduo se adapta sem constrangimento, por um ato livre de vontade. Tal definição genérica, avaliada de diversas maneiras por pensadores e movimentos rotulados de anárquicos, pode ser sintetizada atra­vés das palavras retomadas em nosso século, por valia dos anos 20, pelo anárquico Sebastien Faure na Encyclopédie anarchiste: "A doutrina anárqui­ca resume-se numa única palavra: liberdade".
II. Nascimento e primeiro desenvolvimen­to do anarquismo. — O espírito libertário ou, por outras palavras, o anseio pela liberdade abso­luta, é próprio de todas as épocas históricas. Pode-se até afirmar que o Anarquismo se apresentou com semblantes heterogéneos desde a antiguidade clássica, acompanhando, de vários modos, o de­senvolvimento sócio-cultural. A história dá-nos três formas diferenciadas da manifestação do fenóme­no: a) em primeiro lugar existe a manifestação de um Anarquismo a nível puramente intelectual, em autores de excepcional ou insignificante relevo que se tomaram críticos da autoridade política do seu tempo e que discutiram a eventualidade de construir uma sociedade antiautoritária ou, pelo menos, a-autoritária. Muitas vezes, mas não sem­pre, a apresentação de concepções libertárias coincidiu com propostas genericamente definidas como utopistas; b) em segundo lugar, a aspiração anárquica está ligada a afirmações de tom mais ou menos vagamente religioso. Entram, neste âm­bito, todos os apelos milenarísticos de uma socie­dade perfeita, onde a meditação entre o humano e O divino não precisaria de particulares supra-estruturas autoritárias e onde, mediante a elimina­ção destas, a sociedade perfeita poderia verifi­car-se imediatamente; c) finalmente, as duas ma­nifestações apontadas, intelectual is Uca uma e fideística outra, foram colocadas frequentemente em confronto em movimentos efetívos de tipo social, geralmente rebeldes, os quais, em ocasiões históricas específicas, congregavam numerosas forças sociais, particularmente do setor agrícola, sob a forma de protesto coletivo e contestador das autoridades políticas e das estruturas sociais existentes. Basta pensar nas frequentes revoltas medievais dos camponeses da Grã-Bretanha para chegarem às posições libertárias, do movimento dos cavadores (diggers) na revolução do século XVII ou nas revoltas dos camponeses alemães liderados por Thomas Munzer rebelados contra os príncipes ou, finalmente, em numerosas expres­sões extremas de movimentos anabatistas.

As concepções libertárias só tiveram um desfe­cho irrevogável no mundo político do século XVIH, como primeira forma de reação e de união simultânea em relação ao racionalismo iluminista, provocando e aprofundando a dis­cussão sobre a conceito de autoridade. Esta — e O exemplo iluminísta é exatamente o de Rousseau — é acolhida no campo político, mas posterior­mente limitada e rejeitada no plano individual. A contradição ideal presente nessa relação man-tém-se intacta se bem que levada a um plano de luta política efetiva, no curso da Revolução Fran­cesa. Nesta, o grupo jacobino, partidário maior dos princípios da autoridade e da centralização, produziu, em seu seio, forças contestadoras e libertárias, tais como, por Exemplo, os enragés (os enraivecidos) assim como, no final do ciclo revolucionário, alguns expoentes de primeiro pla­no da conspiração babuvisla pela igualdade.


III, A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ANARQUISMO. — Com a Revolução Francesa e com o desenvolvi­mento industrial, nasce e se afirma um tipo de Anarquismo a que pode ser dado o nome de "moderno" e que permanece ainda no debate político de nossa época.

O primeiro índice desia mudança é a consa­gração do termo anarquia em sentido positivo, contraposto ao uso e até então quase que exclu­sivo, no sentido de caos e de desordem- Com essa característica, sempre acompanhada de uma nega­ção absoluta do presente social, apontando para uma ruptura revolucionária (a negação pura será talvez o único componente a ser colocado em evi­dência), a anarquia recebe formas novas de elabo­ração teórica e de aplicação prática que se vão acentuando, cada vez mais, com o decorrer dos anos. No campo do debate doutrinal, o momento do desenvolvimento de um verdadeiro e próprio "pensamento anárquico" pode ser fixado nos fins do sécuío XVIII, numa obra famosa e popular e ao mesmo tempo grandiosa e abstrusa: a Enquiry concerning potitical justice de William Godwin. Nessa obra, os temas, que se tornarão mais tarde típicos do Anarquismo, a recusa de autoridades governantes e da lei são inseridos numa dinâmica dominada pela razão e por um justo equilíbrio entre necessidade e vontade, ter­minando na demanda de uma liberdade total no campo ético-político, realizável apenas num regi­me comunitário que desaprova a propriedade privada. Estes princípios, diversamente interpre­tados e ulteriormente elaborados, fornecem o ponto de partida para o desenvolvimento poste­rior de toda a corrente ideal que, no decorrer do tempo, se identifica com o Anarquismo comunista, ao qual vários pensadores ou simples propagan­distas juntarão, continuamente, novos elementos. Se em Godwin o Anarquismo ainda não se apre­senta como concepção completa, no decorrer do século XIX adquire uma organicidade como ex­pressão e ponto de encontro de um debate ideal que encontra, na realidade social, uma corres­pondência imediata. De quando em quando, o Anarquismo apresenta-se com cores políticas e sociais e só raramente mantém integralmente a caracterização de prevalência ética, que era notó­ria na sua primeira existência histórica.

Nesta luta evolutiva, participada por pensadores políticos e "organizadores" dessemelhantes entre si — como Proudhon e Bakunin, Stirner e Malatesta, Kropotkin e Tolstoi, e outros — vão-se configurando algumas divisões fundamentais e dissensões as quais, apesar de múltiplas tentati­vas, não foram nunca sanadas. A cisão de base situa-se entre o Anarquismo individualista e O Anarquismo comunista. O primeiro, que tem co­mo autor principal a Max Stimer, apoia tudo sobre o indivíduo. Este, através do próprio "egoísmo" e da força que dele deriva, afirma-se a si mesmo e à sua própria liberdade mas apenas na condição existencial totalmente privada de componente autoritário, em contraposição e tam­bém em equilíbrio com todas as outras forças e egoísmos dos outros indivíduos, únicos na arran­cada da ação para alcançar o fim último, que é a realização completa do EU, numa sociedade não organizada e independente de todo o vínculo superior. O Anarquismo comunista, que repre­senta historicamente um passo à frente em rela­ção ao Anarquismo individualista, vê a realização plena do EU numa sociedade onde cada um for induzido a sacrificar uma parte da liberdade pes­soal, mais precisamente a económica, pela vanta­gem da liberdade social. Esta pode ser alcançada através de uma organização comunitária dos meios de produção e do trabalho e numa distri­buição comum dos produtos, na proporção das necessidades de cada um, desde que nela sejam salvaguardados os princípios fundamentais do Anarquismo, a saber, o exercício das mais amplas liberdades para o indivíduo e para a sociedade. Como subcategoria do Anarquismo comunista, ou como estádio mais atrasado do mesmo, encontra­mos o Anarquismo coletivista, teorizado por Ba­kunin e aplicado em Espanha, que propõe o co-munitarismo do trabalho e da produção, colocan­do em comum todos os meios a ela necessários, mas deixando a cada um usufruir individualmen­te os resultados do trabalho pessoal. No quadro das correntes descritas, interpõem-se outras sub­divisões que acentuam os aspectos sociais — de claras ligações com o mundo do trabalho e em particular com o proletariado — ou que fazem ressaltar os módulos poiítico-ideais, ou seja, a temática relativa ao Estado, ao Governo e, mais genericamente, à autoridade. Todas estas corren­tes que são mais para examinar em suas relações recíprocas e em seu devir histórico do que para aceitar — dada a sua rigidez esquemática — plasmaram o substrato dentro do qual se moveu o mundo que até hoje se voltou para o Anar­quismo.
IV. Objetivos, meios e táticas. — Se examinarmos os momentos mais importantes e participantes do Anarquismo, desligando-os de seu contexto histórico ou de sua colocação frente aos problemas modernos, poderemos descobrir três subcategorias que se referem respectivamente a) aos objetivos — negativos (I) ou construtivos (II); b) aos meios; c) às táticas.

1. Objetivos negativos. São estes certamente os frutos criticamente mais elaborados encarados permanentemente pelo Anarquismo e que podem ser colocados na negação sustentada pelo Anar­quismo frente: a) à autoridade; b) ao Estado; c) à lei.



a) O Anarquismo rejeita toda a autoridade na medida em que vê nela a fonte exclusiva dos males humanos. A autoridade rejeitada pode ser tanto de ordem sobre-humana como de ordem humana. À frente de todas, está a autoridade di­vina e, consequentemente, o poder sobrenatural do qual deriva toda a faculdade de comando, que é negado não tanto como consequência de um raciocínio filosófico mas simplesmente como um poder. Nessa condição, ele é um condicionador das escolhas e das ações voluntárias do homem. Como corolário, nasce daí a repulsa por qualquer religião, enquanto ideologia, "nobre mentira", ca­paz de justificar o arbítrio usado com intuitos repressivos e de efeitos encontráveis no campo moral para encarnar estruturas terrenas e coerci­tivas na vida individual e coletiva. Historicamen­te dependente da autoridade divina, mas plena­mente autónomas nas épocas moderna e contem­porânea, a autoridade política foi identificada com aqueles que têm na mão a gestão do poder polí­tico desde a cúpula do Governo até os níveis mais baixos da ossatura do Estado, nas várias ma­nifestações do poder em escala nacional. A auto­ridade política, expressão da autoridade ou do poder económico segundo as interpretações do Anarquismo ligadas, de certa maneira, à análise marxista, é a causa primeira da opressão do ho­mem no Estado social e como tal deve ser com­batida, tanto no plano ideal como no plano real. Nasce disto a firme oposição do Anarquismo a todo o poder político organizado institucional-mente ou voluntariamente. Como associação po­lítica por excelência está o partido ou os partidos visados pelo Anarquismo sendo que algumas cor­rentes ainda toleram a organização sindical num plano horizontal. Neste contexto, dentro da orga­nização política, o indivíduo, por limites impostos ou por vontade, cede uma parte da sua liberdade à coletividade e, como num nível superior é rejei­tada toda a concepção contratual, assim, em nível mais baixo, não são admitidas as teses de associa­ção, com a única exceção das mutuárias, onde o indivíduo não é privado do que lhe pertence, e onde, como numa espécie de doação, ele concede à comunidade algo que tende a exaltar-lhe a liber­dade de indivíduo.

  1. A recusa do Estado por parte do Anarquismo está intimamente ligada à sua concepção de autoridade. O Estado, em toda a sua organização de pirâmide burocrática, é o órgão repressivo por excelência. Como tal, priva o indivíduo de toda a liberdade, chamando unicamente para si a ca­pacidade de agir e a possibilidade de definir a liberdade, impondo uma série de obrigações e de comportamentos a que o indivíduo não pode fu­gir. É isto que o Anarquismo pretende combater. Enquanto órgão de repressão, o Estado é visto pelo Anarquismo com capacidade de intervenção global na vida do indivíduo, na sua vida económica, na sua existência social como também na sua capacidade de desenvolvimento ético e inde­pendente. O Estado não está apenas na raiz de todo o mal social. É também o criador da ordem económica existente e do capitalismo moderno.
    Este só consegue sobreviver porque se apoia numa base político-organizacional que lhe é fornecida por estruturas estatais. Deste modo, o Anarquis­mo, na interpretação de Bakunin e de seus epí­gonos, por exemplo, vira completamente de baixo para cima a análise marxista da relação existente entre estruturas económicas e superestruturas políticas.

  2. Finalmente, como consequência de sua atitude para com o Estado, o Anarquismo condena a lei, ou seja, toda a forma de legislação que, na práti­ca, seja expressão de repressão por parte da má­quina de Estado. A lei é o instrumento de opressão de que se vale a organização política do pre­sente para coarctar especificamente as liberdades geralmente reprimidas pela autoridade. A legis­lação é rejeitada, por isso, seja como forma de contenção de uma condição social de liberdade seja como meio de ilusão levado a cabo pelos fortes em prejuízo dos fracos. Para o Anarquis­mo social, esta ilusão da legislação é praticada pelos ricos em prejuízo dos pobres e pelos capi­talistas em prejuízo dos proletários. Isto não im­pede que o Anarquismo não recuse toda a defesa do organismo social existente. Na verdade admite formas livres e espontâneas de jurisdição que sur­jam das mesmas exigências de situações concretas e que devem ser interpretadas como verdadeiras intervenções terapêuticas por ocasião de malessociais e que têm por fim a cura desses males e não a sua perseguição ou condenação.

2. Objetivos positivos e construtivos. Há dois pressupostos que dinamizam estes objetivos: em primeiro lugar, o de toda a crítica negativa a res­peito do mundo existente, tal como sugerimos acima; em segundo lugar, o pressuposto de que, conforme constatação, se o homem deve viver sem Estado, e pode viver sem Governo, deve também desenvolver a própria existência em qualquer so­ciedade, onde exista a aceitação conceptual desta, e, conseqiientememe, a possibilidade da fazer re­verência a uma "futura sociedade anárquica". Esta nova sociedade tem como fundamento pró­prio e como condição essencial e única a libera­ção do indivíduo, a nível individual e social, de toda a imposição externa. O único vínculo a que ainda está vinculado o comportamento individual é a "opinião", ou seja, a atitude — também livre e autónoma — de todas as outras mónadas que constituem precisamente a sociedade. Num qua­dro deste tipo podem surgir todas as formas de vida social organizada, as quais, por uma contra­dição meramente aparente, foram definidas como organizações anárquicas que dizem respeito ao (a) campo económico e ao (b) campo social.

a) Organizações anárquicas de tipo económico. Foram propostas algumas organizações anárqui­cas com base numa nova estruturação económica. Em geral, essas organizações dizem respeito a uma gestão comunitária ou comunística da sociedade. Pode se afirmar que todas são fundadas sobre O elemento cooperativo, isto é, sobre a livre asso­ciação de indivíduos com fins de produção e de distribuição de bens produzidos e tendo em vista a eliminação de toda a tendência autoritária atra­vés da criação da autogestão, a partir de baixo. Esta determina os objetivos comuns e indica os meios técnicos (necessariamente "autoritários") para alcançar fins concretos. Da forma coopera­tiva originária de base se passa a construções mais amplas através de figuras sucessivas e mais arti­culadas de federação, b) Organizações anárquicas de tipo social. A base social da organização anár­quica, paralela ã económica, é constituída segun­do as correntes ou pelo próprio indivíduo ou pelo núcleo familiar. Estes, unidos num certo territó­rio geográfico e tendo interesses e atividades co-letivas afins, constituem a comuna {commune) dentro da qual todos são iguais e as decisões são tomadas por iniciativa de todos, numa espécie de democracia direta que, porém, é incompleta, en­quanto está privada de representação institucional (até em suas formas não delegadas). A união das comunas dá lugar ã federação no âmbito da qual as relações intercorrentes são análogas, havendo' assim, sempre em escala geográfica mais vasta, a federação das federações, até alcançar o ponto alto e ideal da pirâmide que seria a federação anárquica universal, uma espécie de objetivo fi­nal como aspiração de uma meta de desejável realização. Se estes são os aspectos positivos ge­rais do Anarquismo, entendidos como projetos de solução global dos problemas da humanidade, é oportuno observar também que o Anarquismo propõe toda uma série de objetivos intermediários que só impropriamente podem ser chamados, mais do que de transformação, de açâo social e sempre de realização imediata, exequíveis a curto prazo. Estes últimos, porém, coincidem mais com os meios, através dos quais o próprio Anarquis­mo entende realizar-se.

3. Os meios. São bastante diversos, apesar de historicamente ter havido uma notável interde­pendência entre eles. Embora se apoie em pres­supostos antiorganizativos, uma expressiva parte do Anarquismo (com o auspício de Eurico Mala-testa) admitiu a possibilidade da organização co­mo fundamento do progresso e da difusão das próprias doutrinas anárquicas apoiando-se na pro­paganda tradicional — ou até na propaganda específica embora rejeitada por muitos, chamada propaganda "dos fatos" — e usando, desde que se respeitem determinados vínculos libertários como é o caso, já referido, da autogestão a partir de baixo para cima ou o da substituição dos Órgãos centrais de díreção — comités centrais ou conselhos diretores — por simples comités de correspondência. O dado organizativo teve sem­pre no Anarquismo uma referência social explí­cita, bem diversa, por exemplo, da que é proposta pelo marxismo. Na verdade, o Anarquismo está ligado às massas e nunca às classes. De modo particular, não evoca a classe operária, conside­rada como verdadeira aristocracia incapaz de querer obter a própria liberdade enquanto inte­grada no "sistema" e beneficiadora de inúmeros privilégios. O Anarquismo liga-se mais ao sub-proletariado das cidades e ao campo em especial, que vive marginalizado pela sociedade burguesa e em condições de miséria material e moral e, por isso, o levantar-se contra as estruturas do poder. Organização e propaganda, unidas ou se­paradas, segundo as interpretações, são as bases necessárias para as três formas de organização anárquica que até agora caracterizaram o movi­mento e que suscitaram a atenção teórica dos estudiosos: a) a educação; b) a rebelião; c) a revolução.

a) A educação na sociedade autoritária represen­ta a primeira forma de intervenção repressiva sobre o homem. É lógico, por conseguinte, que o Anarquismo tenha procurado colher, de um lado, todos aqueles elementos libertários aplicáveis ã criança e ao adulto, como formas de estruturação ética e cultural do homem sem constrangimento da inteligência e do espírito na base de esquemas fixos estabelecidos a priori. A educação e mais genericamente toda a pedagogia libertária tentaram construir uma escola livre de vínculos com a sociedade repressiva, que fosse capaz de contri­buir para criar um homem sem inibições para consigo mesmo, e apto a agir fora de todo o es­quema imposto em seu relacionamento com a sociedade.



Mas a educação, entendida não mais como ele­mento de formação individual e sim como verda­deiro processo de difusão de ideias anárquicas na sociedade, representou também um dos maiores momentos da presença do Anarquismo, o qual, especialmente em suas expressões pacifistas, ba­seadas no conceito de amor e de não-violência — foi o caso de Leão Tolstoi — atribuiu amplo espaço a todas as motivações que implicavam a possibilidade ou a necessidade de dar uma forma­ção livre à criança ou, mais amplamente, ao homem que vive em sociedade. Daí provieram concepções que recebiam a denominação de "edu-cacionismo", enquanto buscavam no fator educa­cional o fim e o princípio da própria ação.

  1. Característico do Anarquismo é o fenómeno da rebeldia, por seu lado exterior violento ou, peio menos, não pacífico — vizinho, mas não ne­cessariamente conexo com o fenómeno paralelo do insurrecionismo. A rebeldia ou rebeldismo é a exteriorização violenta e de improviso, a maior parte das vezes manifestando-se irracionalmente,
    de uma ação eversiva contra a ordem constituída. Tal tipo de ação, precisamente pela desorganização e impulsividade com que se manifesta, pode ter, até, um sucesso imediato, como acontece no caso de uma insurreição — precedida de uma teorização aplicada — assim como pode dar lugar à verdadeira revolução. A maior parte das vezes, porém, tem um fim destrutivo imediato e a pró­pria manifestação coincide já com o seu desaparecimento na medida em que tende a eliminar, em tempo igual, a si própria e à autoridade contra a qual se rebela. As rebeliões libertárias, frequentes em todas as épocas históricas, só em raros casos foram "produtivas" para o movimen­to, tendo suscitado, muitas vezes, reações contrárias em detrimento de todo o Anarquismo.

A forma mais orgânica com expressão anti-autoritária é seguramente a revolução pregada e propagandiada por numerosos pensadores e múl­tiplos movimentos e grupos anárquicos que viram nela a possibilidade de redenção da opressão au­toritária. Trata-se de uma contradição íntima de todo o anti£utoritarismo, na medida em que a re­volução é, de per si, inteiramente autoritária, já que pretende obter, pela força, tudo o que a razão, a opinião e o consenso não conseguiram diligenciar. Com efeito, o Anarquismo conscientizou-se de tal contradição e o conceito de revolução enunciado — derrubamento da autoridade para instauração da nova condição ideal — coin­cide com o de rebelião, mantendo, de fato, as características do imediatismo e da impaciência revolucionária. Para ela, os fins devem ser alcan­çados imediatamente e os objetivos da transfor­mação social são realizáveis no brevíssimo arco da revolução-revolta. Aparece claro o elemento utopístico de tal concepção revolucionária. Nesta concepção, a revolução mais do que efetiva é puramente ideal e, mais do que política, sua na­tureza manifesta-se mais intelectual e abstrata, imaginável em qualquer momento, sempre pronta a explodir, mas nunca manifestada senão na con­figuração reduzida da rebelião e da insurreição.

4. As táticas. Historicamente, o Anarquismo lan­çou mão de alguns momentos táticos de manifes­tação que deram lugar a autênticas teorizações que podemos sintetizar assim: a) voluntarismo; b) espontaneísmo; c) extremismo; d) assembleís-mo e movimentismo. Observa-se que estes com­ponentes quase sempre se manifestaram unitaria-mente, ou, pelo menos, em conjunto e interseccio-nados entre si, enquanto contribuíram para formar, em grupo, o fenómeno a que se pode dar o nome de "ação libertária".



  1. O Anarquismo, recusando a consciência mar­xista de classe, apoia a sua tese de intervenção política unicamente na escolha livre do indivíduo e, portanto, sobre a vontade de cada um. As várias vontades são unificadas por uma espécie de "espírito vital", de paixão coletiva, emotiva e racional ao mesmo tempo, e agregam as oportunidades de ação dos indivíduos, gerando um comportamento coletivo ou uma perspectiva de atos comuns.

As vontades individuais, unificadas na medida acima referida, se comportam espontaneamente de um modo social e revolucionariamente anti-autoritário. O impulso para a destruição — ou "alegria" da destruição, segundo Bakunin —,que é próprio do indivíduo, comporta espontanea­mente o intuito de destruição e de revolução, quenão requer longa e particular predisposição, mas nasce espontaneamente e sem esforço só pelo fatode que, no presente, existe a autoridade. O espontaneísmo, para o Anarquismo, está na base,portanto, de todo o movimento e de qualquer eventualidade de ação. Esta só tem razão de ser quando promana de exigências sociais, políticasou simplesmente intelectuais, exigências que terminam por exteriorizar-se sem necessidade de uma estrutura que determine os fins ou de uma direção que indique a elas o caminho. A organização admitida por alguns antiautoritários tem a exclusiva finalidade de facilitar o desenvolvimento das opções espontâneas ou, quando muilo, a de coor­dená-las para o objetivo libertário final.

  1. As propostas rebeldísticas e espontaneísticas fazem com que o movimento anárquico deva propor-se sempre objetivos para além do tempo presente, tanto no terreno político como no social. Ultrapassam, poriamo a realidade. Não para uma construção futura a partir da própria realidade, mas para uma subversão futurística que alcance a abolição do que já existe, para entrar, em seu lugar, um nada antiautoritário que se torne o tudo da racionalidade anárquica. São próprias do Anarquismo as múltiplas opções extremísticas e aniquiladoras das condições presentes, independentemente da efetiva gestão delas e da possibilidade de cumprir, no plano prático, o que é reafirmado “extremisticamentí:", no plano teórico. Valem, para exemplo, as teses sustentadas pelosirmãos Cohn-Bendit na obra Extremismo, remédio da doença senil do comunismo (1968).

  2. Para o Anarquismo é o próprio "movimento" espontâneo que cria as condições do progresso ulterior do ideal que se quer afirmar. O movimentismo constitui o privilegiamento da ação em si mesma, analisando a realidade concreta, não com mira de um escopo concreto imediato, mas sim com o objetivo de realizar subitamente um fim abstraio. Não obstante a ligação existente com a realidade com o propósito ultra-revolucionário, o movimentismo esconde, efetivamente, intuitos meramente ínsurreeionistas, através do contínuo envolvimento em novas ações locais, espontâneas,
    voluntárias e assim por diante. O movimento se rege e se organiza através do uso do instrumento de assembleia, O asscmbleísmo é, teoricamente, a forma democrática perfeita. Concede ao indivíduo e a sociedade o modo completo de expressão das capacidades próprias sem imposição de opiniões e de valores alheios. Na realidade histórico-sociológica é um instrumento capaz de funcionar por si só. Existe um grupo restrito de dirigentes, uma elite (quiçá oculta), capaz de organizar e de programar os trabalhos da assembleia, e de forçar as opiniões dos outros, induzindo a "base" a aceitar o que foi preordenado pela referida elite. É esta, certamente, uma outra contradição interna do movimento anliauloritário, eomprovada histó­rica e teoricamente pelo próprio Bakunin e seus epígonos até nossa época. Bakunin, agindo em­bora nas organizações oficiais do proletariado (Primeira Internacional}, procurou inserir nelas seus próprios núcleos de "fidelíssimos" de elite caracterizados pelo sectarismo c pelo caráler de segredo, com o escopo de definir a linha de ação das próprias organizações e, em sentido mais ge­ral, de todo o movimento anti-autoritário.

V. O anarquismo moderno. — O Anarquis-mo, depois da válida elaboração dos anos do final do século XIX e princípios do século XX e do su­cessivo impulso para a ação do período da guerra civil espanhola (1936-1939), teve uma reviviscén-cia nos anos 60. Frente às doutrinas prevalente-mente sociais do passado, o novo Anarquismo renovou, em parte, a própria temática de contes­tação e antiautoritária, assumindo tons mais mo­derados no que diz respeito à rejeição de entida­des hierárquicas organizadas (Estado, lei e Go­verno) e tornando mais precisos certos objetivos da própria polémica antiautoritária (ideologias sociais, burocracia, sociedade de consumo). Jun­tou à luta habitual contra toda a forma de repres­são violenta a luta contra a repressão psico-ideológica das sociedades de massa nas quais o homem se aliena, não mais no campo do trabalho c do capital, mas sim conforme interpretações do novo libertarismo, no campo da própria persona­lidade, privando-se da própria consciência e da própria capacidade de escolher livremente os objetos de seu próprio interesse. O Anarquismo indivíduou, nestes fatos, os novos vínculos de opressão do homem e, não levando mais a fundo a introspecção, simplesmente os refutou com os mesmos instrumentos com que no passado negara Estado e Governo. Na sua rejeição, o Anarquis­mo não teve sucesso até hoje, provando com isto que sua verdadeira essência, identificada por Marx e por EngeJs a partir de 1871-1872 e refor­çada, mais tarde, por Lenin por volta dos anos 1917-1920, é a de um movimento de rebeldia de perspectiva imediata, e. também, de uma parte, expressão de exigências utópicas e, de outra, ex­pressão das condições de alienação do mundo intelectual pequeno-burgues das sociedades mais evoluídas, estranho aos grandes conflitos sociais do neocapitalismo mas ao mesmo tempo partici­pante deles. Sua essência seria ainda a de um grupo disponível para qualquer ação emancipa-dora e extremisticamente revolucionária, oposta a qualquer tentativa de restauração e voltada para o retorno a um passado místico, coincidente, aliás, com o futuro utópico do antiautoritarismo total, na perspectiva do que foi apresentado por Herbert Marcuse. Perdendo sua caracterização social, o Anarquismo fez uma opção qualitativamente im­portante: de uma teoria típica de países atrasados e de grupos explorados passou a ser. generica­mente, a expressão dos "rejeitados", dos desclas­sificados intelectuais e de todas as outras classes da sociedade altamente industrializada. Esses re­jeitados estão unidos por contingência da luta contra as novas formas autoritárias do mundo moderno, identificadas mais com o poder poiítico que rege os Estados e os Governos ou até com as instituições destes e não com as instituições, enti­dades e pessoas que detêm o poder económico.



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[Gian Mário Bravo]



BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola & PASQUINI, Gioanfranco. “Dicionário de Política”. São Paulo: 2004, p. 23-28.


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