Editorial I



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PSICOLOGIA E SOCIEDADE
REVISTA DA

ASSOCIACÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL ABRAPSO

ANO I - OUTUBRO 1986 - no 2


ÍNDICE

EDITORIAL I

LANE, Silvia T. Maurer - Psicanálise ou Marxismo: Dilema

da Psicologia Social? 1

LANDA, Fábio - Notas sobre um Debate de Psicologia Social 6

SILVEIRA, Paulo - O Fetichismo da Mercadoria e a Psicaná-

lise. Elementos para um Debate 8

BERLINCK, Manoel - Alexandre e seus Irmãos: Psicanálise

de Pixotes? 17

SAMPAIO, Luiz Carlos S. - Psicologia Social. Um Persona-

gem em busca de seu Autor 27

SANDLER, Paulo Cesar - Psicaná1ise e Materialismo Históri-

co: Da Libertação do Homem - 32
ALMEIDA, Antonio Ribeiro de; MUCCILLO, Gerson; MELO, Lucy Leal de - Quem é o Brasileiro? Uma Exploração das características levantadas por Gilberto Freyre e

Sérgio B. de Ho1anda 43

NOTICIÁRIO DA ABRAPSO 54

ESTATUTO DA ABRAPSO 57


ABRAPSO

ASSOCIACAO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL

Diretoria do Biênio julho 85/junho 87 Presidente: Angela Caniato

1o Secretário: Leila Maria Ferreira Salles 2o Secretário: Dulce Helena Penna Soares 1o Tesoureiro: Marly Lamb

2o Tesoureiro: Carmem de Oliveira Vice-Presidente-São Paulo: Bronia Liebesny Vice-Presidente-Sul: Brígido Vizeu Camargo

Endereço da Sede Nacional: Departamento de Psico­logia de Maringá, Av. Colombo, 3.690 87100 - Maringá-Paraná

Revista Psicologia e Sociedade é publicada semes­tralmente pela ABRAPSO com a colaboração do Centro de Ciências Humanas da PUCSP.
COMISSÃO EDITORIAL
Alberto Abib Andery Yvonne Anatanaitis Odair Furtado Brônia Liebsny

Luis Carlos Sampaio

Artigos e Correspondências para Psicologia e Sociedade devem ser enviados para: Rua Ministro de Godoi, 1.029 sala 326 - PUC-SP - 05015 - São Paulo ­S.P.
-I-

EDITORIAL

Passamos de Boletim a Revista semestral. Aqui vai o número 02 do ano de 1.986.


Os primeiros artigos apresentam algumas colocações feitas por conferencistas para o 6o Encontro Regional da ABRAPSO, em abril deste ano, em São Paulo. O tema geral abordado era: Psicanálise ou Marxismo: Dilema da Psicologia sociaL? Infelizmente, não obtivemos todos os textos produzidos, mas os que abrem este número mostram o interesse do tema. Fecha um artigo avaliativo sobre esse Encontro escrito pelo colega da Redação da Revista, Dr. Luiz Carlos S. Sampaio.
Publicamos ainda neste número um artigo dos Professores Antonio Ribeiro de Almeida e outros, cujo título é sugestivo: Quem é o Brasileiro?
E ainda você vai ler notícias sobre a ABRAPSO. E, encerrando o número, um Documento para ser guardado: O novo Estatuto da ABRAPSO, aprovado em Assembléia anual da entidade, em Curitiba/PR, em julho de 1.986.
Só nos resta desejar Boa Leitura e Bom Proveito.

A Redação.


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PSICANÁLISE OU MARXISMO: DILEMA DA PSICOLOGIA SOCIAL?
Silvia T. Maurer Lane.
A história da Psicologia Social como ciência é bastante recente e desde as suas origens ela vive a ambiguidade de ser um ramo da Psicologia ou da Sociologia - daí as mais variadas denominações como Psicossociologia, So­ciopsicologia, etc.

Recordo-me que em 1.957, quando instalávamos o CRPE, ao se organizar a biblioteca, tivemos uma acalorada discussão (entre psicólogos e sociólogos), se os livros de Psicologia Social deveriam ficar junto aos de Psicologia ou aos de Sociologia. E os argumentos de ambos os lados eram fortes - tanto e que não me lembro qual foi a solução dada.

Mas a própria história foi respondendo: ela avança enquanto estratégias de estudos e pesquisas nos Estados Unidos, dentro de sua tradição pragmática e individualista, vinculada basicamente á Psicologia, concebida como o estudo do comportamento humano que tem o seu início e fim no organismo essencialmente biológico.

Na Europa, podemos observar que enquanto a Inglaterra tende a acompanhar os EEUU, a França pende para um pensamento mais sociológico, incorporando basicamente os estudos sobre pequenos grupos (o que poderia ser considera­do - por concessão - Psicologia Social). Paul Haubousse Bastide, quando em São Paulo, há uns anos atrás, narrava a estigmatização da Psicologia Social, a partir dos movimentos de 1.968, quando a única teoria psicológica acrita era a Psicanálise com toda a sua ortodoxia.

Na Alemanha, a tradição filosófica se manifestava nas elaborações teóricas na procura de grandes sistemas explicativos.

No final da década de 60 e, principalmente na de 70, o Laboratório de Psicologia Social de Paris VII, começa a produzir algumas análises críticas, ao lado de pesquisas tradicionais, descritivas, sob uma ótica marxista


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e comprometidas com uma atuação partidária no P.C. - é o caso de Bruno, Poitou, Pecheux, Robert Pagés, entre ou­tros. O que se observou foi um dogmatismo partidário sue gerou a crítica, acabar por paralisar a produção científica.

Por outro lado, a tradição teórica promove grandes reflexões sem, porém, as pesquisas que lhe dêem consistência.

Porém, não podemos negar a influência positiva destes autores que, de algum modo, vieram de encontro às questões geradas pela própria realidade social vivida pela Psicologia na América Latina.

A insatisfação gerada pelo caráter ideológico da Psicologia norte-americana e pela "crise" de uma Psicologia Social funcionalista e positivista, que não dava conta de explicar o nosso cotidiano latino-americano, encontra nas reflexões críticas dos franceses a referência de que o pivô da questão estava na concepção de homem que vinha embasando a Psicologia.

E é nesta direção que o marxismo traz a sua primeira contribuição: o homem só pode ser concebido como produtor da História, e esta História, se concretizando na produção material e intelectual da vida em sociedade.

O homem assim concebido traz em si todo um processo de homenização ao longo da história da civilização, trás em se a história de sua cultura, dos modos de produção que gera as relações, á linguagem, etc. O Homem que é individualidades, nas suas especificidades, mas que também é totalidade histórico-social.

Cabe aqui mencionar a tentativa de Georges Polit­zer (fins da década de 20, início da de 30), em construir uma Psicologia Concreta em bases marxistas, o qual volta a ser lido avidamente à procura de pistas para uma psicologia materialista-histórica. Desta leitura ficam duas contribuições: a crítica à fragmentação da Psicologia e, consequentemente, do Homem, e a crítica aos fundamentos da Psicanálise, quando Politzer resgata a contribuição significativa de Freud no estudo do Inconsciente, como sendo uma elaboração em direção a uma Psicologia concreta.


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Poderia mencionar uma terceira contribuição, que e a ênfase que ela dá à narrativa - que hoje percebemos o quanto ela e fundamental na compreensão do ser humano.

Ainda se poderia citar os trabalhos de Bliger, procurando os vínculos entre psicanálise e marxismo; os de Lucien Seve, em torno de personalidade, e outros, cada um a seu modo contribuindo para um aprofundamento crítico na questão da Psicologia Social.

Porém, a contribuição mais sistemática numa linha marxista foi feita por Leontiev, com base em pesquisas e experimentos, saindo de uma mera re-leitura marxista do que se produzia em psicologia, para uma elaboração teórica em torno de três categorias fundamentais: a consciência, a atividade e a personalidade. E, do pressuposto que toda a Psicologia e Social.

Não é o caso de nos aprofundarmos na análise destas categorias, cabendo apenas ressaltar a importância dada á linguagem e ao Pensamento (herança de Vogtski) na mediação entre consciência, atividade e personalidade.

Se a atividade pode ser alienadora, e pelo fato também de estar acompanhada pela ideologia embutida nos significados das palavras (historicamente elaborados e normatizados pela classe dominante que detém a hegemonia do saber). É narrativa, o discurso individual que irá permitir, através da análise, captar o movimento da sua consciência.

Temos priorizado o estudo da consciência através do discurso, o qual permite resgatar também o relato de atividades, assim com a própria identidade - enquanto consciência de si - as pesquisas têm apontado a identidade como uma categoria e nos parece, no momento, mais cons­ciente que personalidade, por seu caráter dinâmico no conjunto das relações sociais que definem o indivíduo.

Porem, esta ênfase ha questão da consciência tem suscitado por parte de alguns estudiosos o rótulo de “cognitivista”- o qual não aceitamos, pois entendemos que consciência não exclui o inconsciente, muito pelo contrário.

Quando analisamos a questão a partir do prisma da alienação, temos observado que o que chamamos de “aliena-
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ção mental" ou social" se processam de maneiras semelhantes , sugerindo um processo inconsciente que ocorre , seja através da ideologia, seja através dos chamados mecanismos de defesa, ambos distanciando e imobilizando o homem na sua realidade concreta, e ambos trazem no seu âmago emoções fortes e contraditórias.

Vale a pena observar que a ideologia que se institucionalisa super estruturalmente, não é a que necessariamente observamos no discurso individual - é, antes, a sua lógica e seus valores que se reproduzem a nível individual.

O fato de priorizarmos a consciência, pode ser justificado, parodiando kimer que partimos do aparente (superficial) para chega o profundo – que está contido no aparente, mas não facilmente captado pelas nossas técnicas de análise. O inconsciente com seus conteúdos históricos e, possivelmente ideológicos, tem uma relação dialética com o consciente, perceptível através da análise de discursos quando esta aponta para contradições, seja na fala, seja entre a fala e a ação.

Acreditarmos que dentro da psicanálise existem contribuições significativas nesta direção - basta lembrar de Lacam e a importância que ele atribui á linguagem, na análise do inconsciente através das metáforas e metonímias.

Também a leitura crítica que Deleuse e Guattari fazem de Freud - o resgate do inconsciente histórico e de desejos. A concepção de homem de Moreno na sua proposta terapêutica vem de encontro á nossa abordagem, e por que não dizer também de Jung, com sua visão cósmica do homem.

O que a ciência, para avançar, não tolera é o dog­matismo, a verdade absoluta. Se nos atermos á ortodoxia freudiana, então as partículas ou (Psicanálise ou Marxismo) é necessária, porém se aceitamos como desafio o conhecimento do ser humano em toda a sua complexidade, e com todo o seu potencial criativo, que é manifestação da totalidade histórica e transformador de sua realidade, não podemos negar o inconsciente sempre presente com toda a energia emocional nele contida - então esta partícula ou não cabe.
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Quando vemos no materialismo dialética a superação da contradição entre objetividade e subjetividade, diria­mos que tanto o behaviorismo quanto a psicanálise têm contribuições importantes que devem ser retomadas num outra nível de análise - numa outra dimensão do homem.

O importante é aceitarmos os desafios e pesquisar­mos sempre - algumas pistas já estão surgindo.
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NOTAS SOBRE UM DEBATE DE PSICOLOGIA SOCIAL
DR. Fábio Landa.

Nestes apontamentos, quer me referir a um tema que foi ventilado e debatido naquela ocasião: a oposição entre social e individual.


A oposição entre individual e social é tomada e desenvolvida como real e existente, a partir de uma abordagem distorcida e superficial do que é visto "latu sensu" , como trabalho coletivo e o trabalho, por exemplo: do psicanalista, que é visto como trabalho com um indivíduo.

De um lado, pode-se supor a premência de que "alguma coisa deve ser feita já" e, de outro, uma certa atitude defensiva de que "você não me entende, mas eu estou fazendo". Ambas as posições têm a seu favor a percepção dO impacto que causa as ofensas graves e sistemáticas contra tudo e todos, uma intensa negatividade da realidade presente, e daí uma certa posição de resistência contra a destruição, que como num dos filmes de Bergman, aparece figurada com o surgimento de animais cruelmente mortos todas as manhãs na praça de uma aldeia (pior é quando todas as manhãs surgem cadáveres humanos na praça da cidade).

Alguma coisa deve ser feita já se prolonga em quem faz, o que faz, como faz, porque faz, para que faz. O esquecimento é quanto custa. O que se verifica muitas vezes e que, durante algum tempo, sem se ter alguns referenciais claros, é possível desenvolver um certo sacrifício que, afinal, tem pouco fôlego. A ilusão de que se está trabalhando para o outro, é a ilusão filantrópica que, com um pouco de boa vontade e tolerância, tudo vai ficar bem. E, concretamente, termina por originar um certo ceticismo e burocratismo.

Talvez tenhamos que admitir que nos defrontamos com alguns problemas bastante sérios: drogas, violência, infância marginalizada etc. - são alguns elementos de uma colagem que e inevitavelmente angustiante. A observação empírica aqui é de grande valia, não só para as questões e seus determinantes, como para obter e entender os recursos para intervir e desenvolver.


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Diante da magnitude e profundidade dos problemas com que nos defrontamos, se impõe como tema fundamental a questão da formação do profissional.

A visão arbitrária da oposição entre individual e social cede quando verificamos que o bebê humano, ao contrário das crias de todas as outras espécies, depende integralmente para sua sobrevivência, dos adultos, de tal modo que é impensável um bebê humano abandonado a si mesmo que sobreviva. Depende desde o nascimento da teia de relações sociais que estabelece para continuar vivendo. Estamos vivos porque somos sociais. Quando se examina um indivíduo estamos absolutamente no campo de exame de una teia social complexa. Como queria Freud, não há nada dentro de um que alguma vez não tenha estado fora, e não há nada fora que não sofra a influência de dentro.

É pouco provável que após quase um século, o psicanalista não tenha aprendido nada e não tenha alguma coisa a dizer. Possivelmente, a partir do seu laboratório, o contexto analítico clássico, tenha aprendido algo e algo que possa ser transmitido como uma contribuição; já se tentou antes, W. Reich, E. Fromm, etc. Pode ser que algum texto possa extrapolar o seu contexto de origem e adaptar-se e transformar outro contexto. É menos provável ainda que a partir da psicanálise não se possa obter alguma referência a respeito do que fazer, como fazer, etc.

Uma barreira histórica recente, mas profundamente arraigada, é a herança dos anos 40, quando a psicanálise foi vista e se viu como parte do campo anti-progressista, anti-desenvolvimentista, anti-socialista. O que e não captar e reconhecer, mas temer o incômodo revolucionário de seus conteúdos e, de outra parte, neutralizar-se a si mesma.

A psicanálise contribui para que se possa observar e para que se possa aprofundar e intervir no fenômeno observado. Talvez possa ter seu lugar como um contribuinte não só como resistência á destrutividade, mas como colaborador da construção.


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O FETICHISMO DA MERCADORIA E A PSICANÁLISE

(Elementos para um debate)*

Uma das preocupações centrais da obra de Marx é o desvendamento dos elementos constitutivos fundantes do regime capitalista de produção.

O resultado de seus estudos o leva a considerar que um desses elementos fundantes é o surgimento histórico da figura do trabalhador livre. Esta figura é condição mesma da possibilidade do capital, isto é, de uma bem deter­minada relação social, uma relação entre classes sociais, que se estabelece ao nível do processo de produção, mas que tem como corolário a prévia possibilidade de existência de um mercado de compra e venda de força de trabalho, no qual o trabalhador se determine como trabalhador livre, no sentido aqui de ser ele mesmo proprietário de sua força de trabalho e também apenas dela. O processo histórico - nada idílico - da constituição dessa figura do trabalhador livre, Marx vai denominar de acumulação originária do capital.

Contudo, a existência de um mercado de compra e venda da força de trabalho, isto é, no qual a força de trabalho se determine como mercadoria, não pressupõe que a figura de seu possuidor seja, ao mesmo tempo, proprietário. Mais claramente: sob o regime escravista também existia um mercado de compra e venda de força de trabalho. Nele, o escravo é possuidor de sua força de trabalho, mas não seu proprietário, isto é, não determina como trabalhador livre.

Torna-se necessária, pois, uma nítida distinção de determinações específicas entre essas duas formas históri-

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* Este texto ligeiramente modificado foi apresentado em abril no Seminário "Psicanálise ou Marxismo: dilema da Psicologia Social", promovido pela ABRAPSO e, em julho, no "Encontro sobre questões teóricas, ideológicas e metodológicas da Psicologia na América Latina", realizado na Universidade de Havana.

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cas da mercantilização da força de trabalho, entre o trabalho cativo e o trabalho livre, entre o escravo e o trabalhador assalariado.

No caso do escravo, “ele é vendido, com sua força de trabalho, de uma vez para sempre, a seu proprietário. Ele mesmo é uma mercadoria, mas sua força de trabalho não é sua mercadoria”.(1) Ou seja, dessa disjunção entre a posse e a propriedade da força de trabalho resulta que a pessoa do trabalhador seja implicada como mercadoria, o escravo como coisa, etc., etc. (2)


Com o trabalhador livre ocorre o contrário, ele se determina como proprietário de sua força de trabalho, esta é sua mercadoria, e ele só a vende por uma quantidade de tempo determinada, digamos por tantas horas por dia.

Seria mais rigoroso ate pensar que o operário não vende sua força de trabalho, mas a aluga.

Nestes termos, não é a pessoa do trabalhador que é uma mercadoria, mas sim sua força de trabalho. Abre-se, desse modo, uma disjunção entre a sua pessoa, na sua individualidade corpórea e psíquica, e sua força de trabalho.

Do ponto de vista histórico, econômico e jurídico, essa distinção entre o trabalho cativo e o trabalho livre, entre o escravo e o operário, e justa.

Entretanto, se essa distinção não for considerada nos precisos termos em que foi estabelecida, ela pode obscurecer a inteligibilidade dos fenômenos que se passam no terreno do imaginário social, ou mais precisamente, no da ideologia.

Se histórica, econômica e juridicamente a mercado­ria força de trabalho não se confunde com a pessoa do tra-

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(1) K.Marx, "Trabalho assalariado e capital", in: Obras Escolhidas, vol.1, Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1961, p. 63.

(2) Uma sugestiva análise a respeito é feita por Maria Sylvia Carvalho Franco, em "Organização Social do Trabalho no Período Colonial", Discurso, no 8, São Paulo, maio de 1.978.

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balhador livre, contudo essa mercadoria, a força de trabalho, na medida em que se constitui num conjunto de disposições e de habilidades envolvendo cérebro, músculos, nervos etc., ela se determina como uma das dimensões constitutivas da pessoa do trabalhador, da sua individualidade corpórea e psíquica. E há de se convir que não se trata de uma dimensão pouco importante.

Assim, se é justo dizer que o trabalhador, sob o capitalismo, não é uma mercadoria, é necessário também levar em conta que, a sua pessoa, na medida em que esta é inseparável de sua mercadoria, sua força de trabalho, está profundamente implicada à forma mercadoria.

De um modo mais geral, estas precisões significam que a própria questão da individualidade, corpórea e psíquica, sob o capitalismo, situa-se numa basculação dialética inexorável entre as determinações da pessoa e da mercadoria, da pessoa e da coisa.

Uma leitura isolada e menos atenta do fetichismo da mercadoria, tal como foi analisado por Marx, pode levar a supor que o fetichismo de que se trata é restrito exclusivamente ao plano social e mais ainda que se refere apenas às mercadorias mais tangíveis, como um automóvel ou uma cadeira. E quando muito, nós outros indivíduos/pessoas/ sujeitos, por pressuposição, portanto, desde sempre, nos "arriscamos" a travar relações reificadas somente quando assumimos posições sociais que são desdobramentos da forma mercadoria, ou, o que é o mesmo, das formas que de­correm do movimento do capital, como por exemplo, as de comprador, vendedor, produtor, capitalista, rentista, consumidor etc.

Entretanto, o fetichismo da mercadoria tem uma ex­tensão muito maior e mais complexa. Ele se refere também a essa mercadoria tão especial, que é a força de trabalho e, portanto, a essa basculação dialética entre a coisa e a pessoa em que está envolvida a questão da individualidade.

Esta questão da individualidade e sua articulação com a reificação das relações sociais é abordada por Marx num pequeno item dos GRUNDRISSE, denominado "0 dinheiro como relação social".

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Neste texto Marx considera que a possibilidade do surgimento da individualidade na história é posta pela primeira vez pelo capitalismo. Com efeito, para ele, nas formas de produção que antecedem o capitalismo, os indivíduos” sempre foram indivíduos determinados: escravo, senhor, vassalo, membro de uma casta, etc., etc. Ou seja que essas determinações histórico-sociais impunham rígidos limites ao desenvolvimento da livre individualidade.

Por um ângulo diferente, considera que nestas for­mas pré-capitalistas, a natureza ainda é pensada como extensão inorgânica dos indivíduos isto é que independentemente da existência de exploração econômica e de dominação política nestas formas sociais, as condições de sobre vivência e de reprodução permaneciam mais ou menos garantidas. No capitalismo, ao contrário, esses laços umbilicais com a natureza são cortados, a natureza passa a se antepor aos homens como seu outro, como capital. Esse é outro dos significados da noção de trabalhador livre, is­to é, um sujeito desapossado de qualquer meio de produção; o ”indivíduo nu", que tem como única alternativa para sua sobrevivência e reprodução a venda de sua força de trabalho, de sua única mercadoria, que se materializa mesmo em sua individualidade corpórea e psíquica.


Assim, pois, se o capitalismo põe historicamente a possibilidade do desenvolvimento de uma individualidade livre, este mesmo desenvol-vimento é impensável sem as vicissitudes implicadas pela presença permanente da necessidade da venda de si mesmo, ou como disse antes, sem aquela basculação dialética entre a coisa e a pessoa em que a nossa individualidade se radica.
A propósito do fetichismo da mercadoria sintetiza Marx: "O misterioso da forma mercadoria consiste simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos do trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. Por meio desse quiproquó os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas físicas, metafísicas ou sociais.(...)[no mundo da religião] os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida próprias, figuras au-

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tônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere nos produtos do trabalho". (3)

Este "reflete aos homens" a que alude Marx, é o resultado de um duplo movimento constituído de 2 momentos: o 1o projeção no objeto (no caso, a mercadoria), e o 2o de introjeção do objeto; mas já nesse segundo momento, o objeto retoma aos sujeitos dotado, impregnado, marcado por qualidades e características "objetivas" e que portanto, são tomadas como próprias do objeto, mas que no entanto, não são senão o efeito das projeções dos próprios sujeitos.

Indiscutivelmente, o processo mesmo no qual se fundamenta o fetichismo da mercadoria, guarda uma similitude muito grande com inúmeros processos que são específicos da teoria psicanalítica; dos quais talvez possam ser destaca dos aqueles relacionados aos processos identificatórios.

No mesmo texto, um pouco mais adiante, Marx afirma: "Portanto, os homens relacionam entre si seus produtos de trabalho como valores não porque consideram essas coisas como meros envoltórios matérias de trabalho humano da mesma espécie. AO contrário. Ao equiparar seus produtos de diferentes espécies na troca, como valores, equiparam seus diferentes trabalhos como trabalho humano. Não o sabem, mas o fazem por isso, o valor não traz escrito na testa o que ele é. O valor transforma muito mais cada produto de trabalho em um hieróglifo social mais tarde, os homens procuram decifrar o sentido do hieróglifo, descobrir o segredo de seu próprio produto social, pois a determinação dos objetos de uso como valores, assim como a língua, é seu produto social. A tardia descoberta científica, de que os produtos do trabalho, enquanto valores, são apenas expressões materiais do trabalho humano dispendido em sua produção, faz época na história do desenvolvimento da humanidade, mas não dissipa de modo algum a aparência objetiva das características sociais do trabalho”. (4)

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(3) O Capital, vol.I, Abril Cultural, SP, 1983, p.71. (4) O Capital, ob.cit., p. 72 (grifos meus).


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Nesse excerto, caberia um duplo destaque: 1o ao caráter inconsciente do fetichismo aderido á forma mercadoria(5) e, 2o, que mesmo o conhecimento científico da produção mercantil “não dissipa de modo algum, a aparência objetiva das características sociais do trabalho", também atenta para o caráter inconsciente do fetichismo da mercadoria, mas o leva mais adiante, indicando uma cisão, uma ruptura, entre o saber teórico, consciente, e um fazer,um agir que e articulado pela aparência objetiva, refletida pela forma mercadoria. Denota, pois, uma certa ancoragem do fazer e do agir e, portanto, da própria atividade prática, que faz com que esta seja isolada, separada do saber teórico e consciente.
E continua Marx: "(...) a forma de caráter de valor dos produtos de trabalho, parece aqueles que estão presos ás circunstâncias de produção mercantil, antes como depois dessa descoberta científica, tão definitivo quanto a decomposição científica do ar em seus elementos deixa perdurar a forma do ar, enquanto forma do corpo físico”.(6)
Estas últimas considerações de Marx desdobram sua fórmula anterior: “não o sabem, mas o fazem", aproximando-se mais de uma fórmula que se tornou recentemente de uso corrente na teoria psicanalítica. A fórmula de O. Mannoni: "bem sei, mas mesmo assim”.(7) Fórmula que não por acaso refere-se aos dispositivos que correspondem ã estrutura do fetichista.
Não estou propondo aqui uma aproximação apressada entre a teoria do fetichismo da mercadoria formulada por Marx e a teoria do fetichismo concebida por Freud. O objetivo e mostrar que uma análise acurada dessas duas teorias pode revelar um campo possível para uma articulação entre a teoria marxista e a teoria psicanalítica.

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(5) Devo esta sugestão ao Dr. Fábio landa . (6) O Capital, ob.cit., p. 72 (grifos meus).

(7) O. Mannoni, La otra escena. Claves de 1o imaginário , B.A., Amorrortu, 1.980.

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A essas últimas considerações, mais ou menos for­mais, da ordem dos mecanismos e dispositivos que envolvem o fetichismo da mercadoria, deve-se enfatizar os aspectos discutidos anteriormente relacionados ao fato de que esse fetichismo concerne também á mercadoria força de trabalho, ou seja, de que se trata de um fenômeno que atinge a própria constituição da individualidade sob o capitalismo. Uma análise aprofundada desse ultimo ponto, se não evoca a constituição de estruturações psíquicas especificas á sociabilidade capitalista, pelo menos parece indicar que essa mesma sociabilidade possa favorecer, reforçar e revitalizar determinadas configurações psíquicas.



Imediatamente antes de proceder á análise sobre o fetichismo, quando está discutindo a necessidade de uma mercadoria exprimir seu valor no valor de uso de outra, que enquanto expressão de valor, esta ultima mercadoria vale como corporificação de valor, como corpo de valor, Marx faz uma interessante analogia: "De certa forma, sucede ao homem como á mercadoria. pois ele. não vem ao mundo nem com um espe1ho, nem como um filósofo fichtiano: eu sou eu, o homem se espelha primeiro em outro homem. Só por meio da relação com o homem Paulo, como seu semelhante, reconhece-se o homem Pedro a se mesmo como homem. Com isso vale para ele também o Paulo, com pele e cabelo, em sua corporalidade paulínica, como forma de manifestação de gênero humano". (8)

Essa analogia feita por Marx suscita processos que a teoria psicanalítica situa no campo das identificações.

Estas identificações, ou melhor, os processos identificatórios realizam-se fundamentalmente no riquíssimo momento denominado de processo secundário, que é o momento da estruturação psíquica, quando se constituem o su­perego, os ideais do eu, e se realiza a própria estruturação do eu.

Nos processos identificatórios é particularmente importante a maneira pela qual o imaginário, já presente nas fases ou momentos precedentes, se articula ao simbólico, que é condição do processo secundário.(9)


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(8) O Capital, ob.cit., p. 57.

(9) Piera Aulagnier, A Violência da Interpretação, Imago, Rio de Janeiro, 1.979, p.163.
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O representante por excelência desse simbólica que e o suporte da função simbólica, é o pai. Este, para além de suas vicissitudes atuais e que, de resto, se articulam aquelas de sua própria passagem pelo processo secundário, isto é, pelo Édipo, traz consigo, na sua individualidade corpórea e psíquica, o atributo de proprietário que lhe foi adjudicado pelas condições histórico-sociais: a sua força de trabalho, sua mercadoria. Tem que se haver, pois, o pai, também com a basculação dialética entre as determinações da coisa e da pessoa.

Parece evidenciar-se aqui uma possibilidade de articulação entre as relações sociais existentes e a estruturação psíquica dos indivíduos.

Uma das dimensões da figura do pai nesse processo de estruturação, e que já foi estudada por tantos, é a de veicular, através de suas próprias projeções e, portanto, de seus ideais, a normatividade social. Fenômeno que de­correria de seu papel na formação dos próprios ideais da criança.

Marcuse, por um outro ângulo, vai mais longe ainda quando considera o próprio princípio de realidade sob o capitalismo, como princípio do desempenho, do que resulta, para ele, um alinhamento do desempenho erótico ao desempenho social.(10)

Articulado a estas análises, o fetichismo da mercadoria, tal como vínhamos analisando, poderia se constituir numa das formas de incorporação do social pelos sujeitos através dos processos identifica-tórios. De tal maneira que se poderia inclusive pensar na constituição de constelações psíquicas especificas, estruturadas á base da introjeção desses elementos sociais heterogêneos. Com essa introjeção poderia instalar-se um dispositivo psíquico a­través do qual o Sujeito projetaria nos objetos seus próprios ideais de ego relacionados à sua autovalorização(como pessoa ou como coisa?), e que, em retorno, refletiriam sobre o sujeito como atributos aderidos ao próprio objeto.

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(10) Herbert Marcuse, Eros e Civilização, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1.968, p.59.


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No fetichismo da psicanálise de que trata Freud, os atributos projetados pelo fetichista são encarnados na própria coisa material, ou em partes do corpo, o que dá no mesmo. Na hipótese que propomos o fetichismo poderia se ancorar também nas determinações pendulares entre a coisa e a pessoa, entre o sujeito e o objeto, entre uma individualidade supostamente livre e as determinações inerentes à mercadoria força de trabalho.

Talvez uma ilustração radical desse fenômeno psíquico seja o daquelas pessoas que de certa forma articulam seu desejo, a indivíduos ou grupos que alcançando um sucesso socialmente reconhecido, exercem sobre aquelas um extraordinário fascínio. É o caso, por exemplo, de certos cantores ou grupos ligados à música popular. Uma das hipóteses de explicação desse tipo de fenômeno é de que o simbólico, representado pela figura do pai, é, neste caso, fantasmatizado, o que significaria sua subsunção ao imaginário. Em termos das instâncias psíquicas poderia significar uma aliança de um superego fragmentário e alienado às dimensões mais arcaicas do id.(ll)

Retomando a analogia que Marx faz entre a necessidade de uma mercadoria expressar o seu valor no valor de uso de uma outra, no corpo de valor, vemos que talvez pudesse ir mais longe; não se trata apenas da necessidade que o homem tem de se espelhar em outro para identificar­-se como sendo do gênero humano. Pode tratar-se também, tal como ocorre com a mercadoria, de sujeitos que necessitam expressar o seu "valor" no "corpo de valor", no “valor de uso" de outros.

Estas tentativas de articulação, aqui apenas aludidas, entre a teoria marxista do fetichismo e a teoria psicanalítica, poderão servir de sugestão a investigações que tenham por pressuposto possíveis compatibilizações entre essas duas teorias que constituem marcos notáveis na história do conhecimento no campo das ciências humanas.


Paulo Silveira.

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(11) Massimo Canevacci, A Antropologia do Cinema, Brasiliense, São Paulo, 1.984, p.15.
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