Editorial I



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ALEXANDRE E SEUS IRMÃOS: PSICANÁLISE DE PIXOTES? *

Manoel Tosta Berlinck.

Psicanalista


Desejo iniciar estas palavras fazendo referência a alguns aspectos de minha prática como terapeuta com menores abandonados, referindo-me fundamentalmente a alguns fatos ocorridos em uma sessão para, a partir daí, passar a outras questões.

Durante três anos. (1979-1981), realizei uma tentativa de terapia de rua com menores delinquentes, primeiro em Osasco e, depois, em Campinas. O grupo de meninos de Campinas que vivia na favela de Vila Progresso - nome que escolhi para designar o bairro de classe media, construções novas, localizado na periferia da cidade em cujo co­ração se encontra a favela: uns 60 barracos equilibrados numa ribanceira - era conhecido como “0 bando do Alemão”.

O “terrível Alemão” como assim era conhecido e chamado pelos moradores da favela era um garotinho que dizia ter 11 anos, mas que possuía um corpo que não iria além dos nove. O “bando do Alemão - que descobri ter o nome de Alexandre - era em boa parte composto por seus 6 irmãos mais velhos e uma irmã de 14 anos, todos muito magros, com dentes cariados e roupas surradas, mal disfarçando fome crônica. Alexandre e seus irmãos não tinham pais (o plural se justifica porque não eram filhos do mesmo homem). Viviam com sua mãe, que havia encontrado na prostituição disfarçada a sua forma de vida, e que estava convencida que nada podia fazer por seus filhos, ou melhor, afirmava, meio sem jeito, que seus filhos eram uns perdidos, que não tinham mais solução e não havia quem pudesse com eles. Quando, uma vez, perguntei a essa mulher o que significava ter um filho, respondeu:cada filho que tenho e mais um estômago para eu sustentar, é mais uma boca pra eu alimentar, e mais uma preocupação... .

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* Agradeço a Maria Cristina Magalhães as sugestões e observações na elaboração deste trabalho. Ele foi escrito para ser apresentado nas Jornadas "En la transicion a la democracia: sintomas sociales" patrocinado pelo Servicio Paz Y Justicia en America Latina, B.Aires, 17/nov./1985.

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O encontro que desejo narrar começa com minha chegada na favela trazendo um saco de argila. Alexandre está com um de seus irmãos, sentado no meio-fio, em frente ao barraco onde mora. Após nos cumprimentar-mos, sento­-me ao seu lado e permaneço algum tempo em silêncio. Alguns minutos, talvez, porque sei que nem Alemão nem seu irmão falam. São sempre silenciosos. Quando falam, dizem frases muito curtas e, muitas vezes, sem nexo.
O irmão de Alemão e torcedor do São Paulo Futebol Clube e aí nos encontramos. Digo: “Então sãopaulino, co­mo andam as coisas?”. "Bem", diz ele. Olha para a argila e me pergunta: "Posso pegar um pouco”, “Claro, digo abrindo o saco plástico. Tira um pedaço de argila e começa amassá-la com as mãos. O silêncio se restabelece. De pois de algum tempo, Alemão que se mantinha quieto e silencioso numa posição um tanto deprimida, meteu a mão no bolso e tirou umas figurinhas, começou arruma-las no chão. Aí eu disse: “Você é bom no bafo?”. Fez um gesto, como a dizer “Não me importo”.Silêncio.

Alemão: -"E você sabe jogar?"

Eu: - “Acho que sei. Arrume aí”.
Arrumou as figurinhas e eu bati. Algumas viraram.

Ele me olhou com um olhar de espanto e admiração. Juntou as figurinhas e me deu para arrumá-las. Eu as ar­rumei, ele bateu e as figurinhas não viraram. Atí bati e elas permaneceram imóveis. Nesse intervalo, Alemão arregaçou a manga de sua camisa, preparando-se para bate. Foi aí que vi que a parte interna de seu punho direito tinha umas quatro ou cinco marcas de queimaduras arredondadas. Imediatamente pensei que aquilo poderia ser uma tortura com cigarro. E perguntei:

- "0 que é isso?"

- "Mosquitinhos" - disse ele.


Peguei sua mão e olhei mais de perto, pois as marcas não me pareciam mordidas de mosquito. E disse:

- “ Isso não é mordida de mosquito”.

Ele me olhou como se eu fosse meio bobo e disse: - “Não. "são queimas de fósforo.

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Foi então que me lembrei de uma brincadeira infantil na qual as crianças encostam na pele cabeças de fósforos em brasa e deixam para ver quem aguenta mais tempo. Aí disse:

- "Como foi isso?"

- “Uma brincadeira".

- "E como foi?"

- "Ah Tinha uns moleques e a gente começou a brincar, prá ver quem era o bão".

Dizendo isso, Alexandre juntou as figurinhas, botou-as de volta em seu bolso e desdobrou a camisa; pegou um pouco de argila e começou amassar o barro. O silêncio se fez. Voltei minha atenção para o irmão de Alexandre, que fazia uma serie de "cobras" com o barro e as havia colocado no chão. Perguntei-lhe: "O que você está fazendo?" Ele disse: "uma casa". Repeti : "uma casa?" Eu disse: "Mas será que essa casa pára de pé?". "Claro. Quer ver?". E começou a tentar botá-la de pé sem sucesso. Enquanto isso, Alexandre produzia um objeto com o barro. Perguntei: "E você, o que você está fazendo ai?". "Uma televisão, disse o menino. "E o que passa na sua TV?". "Anúncios… anúncios de comida" . Aí eu disse: “Sabe o que acho, que sua TV parece uma barriga ... cheia de comida". Ele me olhou e disse: "É". Aí falei: "E você tá com fome? A sua TV tá vazia?". "Não ... eu comi alguma coisa lá em casa". Voltei a falar: “E, sabe, acho também que a sua TV tem que ver com as queimaduras de seu braço". Ele ficou me. olhando como se eu tivesse dito uma asneira. Acrescentei: "ser bão talvez queira dizer, também, não dar trabalho prá sua mãe... se tivesse bastante comida, né?" Ele aí me olhou com outros olhos... levantou-se e saiu correndo - como se estivesse com "fome de bola" - em direção a um grupo de meninos que batiam bola perto de onde estávamos. Seu ir­mão, cansado de tentar pôr de pé aquela estranha casa, saiu atrás dele, sem me darem tempo de falar sobre um sonho que Alexandre havia me contado em nosso encontro da semana anterior. Tratava-se de uma perseguição por uma enorme cobra. Alexandre corria e corria, mas não conseguia escapar da cobra que o perseguia. Gostaria de ter dito para Alexandre que talvez a cobra de seu sonho tivesse que ver com as queimaduras em seu punho.

Mas ele tinha ido embora e era hora também de partir.

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Naquela época, pensava sobre a relação entre imagem corporal e cidadania.

Pensava que apesar de fazermos parte duma nação, seria um equivoco dizer que por isso somos cidadãos. Isso porque a cidadania é conjunto de relações que mantemos com o Estado e demais membros dessa nação da qual fazemos parte, quer seja por nascimento, quer seja por adoção. As relações que mantemos com os outros são, por sua vez, eminentemente legais (ou ilegais, quando códigos existentes são transgredidos por uma ou ambas as partes), isto é, são relações políticas. Para que possamos manter relações políticas e necessário, portanto, que possamos ter uma representação - a da lei -, ou seja, a realidade como um campo estruturado. É claro que não nascemos com essa idéia.Na verdade, a lei é representação que se impõe sobre uma totalidade, visando distingui-la e ordená-la. Ao definir o que é proibido e o que é permitido, a lei separa e distingue partes da uma totalidade, dando-lhe organização. Mas essa idéia só se constitui sobre campo propício e adequado. O corpo é o campo no qual a lei incide, constituindo-o e constituindo-se. Quando se tem imagem totalizada e organizada do próprio corpo, a incidência da lei separa, diStingue e só assim é possível manter-se íntegro. A lei esclarece os limites do corpo, que, dessa forma, vive essa complexa experiência que alguns chamam de constituição do sujeito.

A representação fragmentada do corpo e propiciada pela arbitrariedade. Assim, a breve história de Alexandre é uma sucessão de arbi- trariedades: é tratado pela mãe como um delinquente; é visto pela vizinhança como um inimigo; nem sempre tem o que comer; vive sujo e maltrapilho. Assim, não seria um equívoco supor que Alexandre queima seu próprio braço porque acredita que o braço é sua “maldade, que deve ser castigada. Tal crença e produto da arbitrariedade e da violência que Alexandre constantemente experimenta, enquanto ser humano. Quem imagina seu corpo como barriga, constitui imagem fundada na arbitrariedade que transforma experiência parcial numa totalidade. Enquanto Alexandre representar seu corpo dessa forma, a ­idéia de campo totalizado e ordenado não se fará presente em sua mente, simplesmente porque não será possível pe­sar um conjunto de elementos distintos - cabeça, tronco e membros - que se organizam de forma ordenada e que pás-
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sam a compor um todo - um corpo - a partir dessa representação. Em outros termos, o corpo fragmentado é produto da arbitrariedade e esta e a ausência da Lei. Por isso, inclusive, Alexandre é capaz de queimar seu próprio braço: não há ninguém que o respeite e queira-o bem. Seu pai e desconhecido, sua mãe está convencida de que ele não tem jeito, de que ninguém pode com ele, os moradores da favela têm medo e raiva dele; os moradores do bairro não o querem ver nem pintado; na cidade, para onde vai algumas vezes catar papel, Alexandre é desprezado e escorraça do. Ele ora e uma barriga, ora o terrível "Alemão", o braço inimigo de Vila Progresso.

Como já disse, a situação vivida por Alexandre não é única. A arbitrariedade e mesmo expressão de relações discricionárias que ignoram o ser humano. Nas relações arbitrárias o ser humano e tratado como “mão-de-obra", "braço para a lavoura", "mercadoria", "cérebro (p. ex.: "há fuga de cérebros da América Latina para a Europa e os Estados Unidos"), e assim por diante.

Mas, como será possível a constituição de uma sociedade democrática onde parte considerável de sua população vive a arbitrariedade, a ausência da Lei, a fragmentação de si? A outorga de "constituição democrática é condição necessária mas não suficiente para o término da arbitrariedade que passa pelo corpo e que impossibilita a manutenção de relações políticas que constituem a cidadania. A construção da sociedade democrática implica no fortalecimento da sociedade civil que possui exigências peculiares que vão muito alem da outorga de uma constituição: depende, enfim, de condições que constituem o cidadão.

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Este trabalho com menores delinquentes levou-me a pensar que esses menores são delinquentes porque são abandonados. A delinquência é um sintoma do abandono, que se manifesta sob a forma de ações violentas acompanhadas de surtos alucinatórios.

o menor abandonado é, antes de tudo, uma" criança desamparada, ou seja, e a que não tem pai e que, frequentemente, depende da caridade para sobreviver.


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Assim, minhas observações, bem como leitura de textos pertinentes sobre o assunto levam-me afirmar que o desamparo do menor abandonado ocorre, em primeiro lugar e acima de tudo, no âmbito da família - a instituição que realiza a intermediação entre os que nascem e a sociedade em que nascem. Além disso, o desamparo do menor se deve a uma falta do pai - o que, para muitos, pode parecer a­firmação um tanto radical e estranha!

Tal afirmação torna-se mais misteriosa ainda por­que quando afirmo que o menor abandonado não tem pai, não pretendo dizer que o personagem paterno seja inexistente. Frequentemente, tenho observado que existe uma figura pa­terna degradada que, apesar de estar presente, não consegue desempenhar as funções de pai.

Talvez, a primeira questão que pode surgir para o leitor dessa frase é: "porque e no interior da família que se dá o abandono?”.

O abandono do menor é sempre um desamparo familiar porque, por um lado, o ser humano é institucionalizado, isto é, não consegue viver fora de instituições apesar de mitos como "Robinson Crusoé” ou "Mowgli, o menino lobo" e, por outro lado; devido á intensa precocidade com que nas­ce. A precocidade faz o ser humano dependente de outros: os outros que se dedicam aos cuidados necessários antes e depois do nascimento. O ser humano é, assim, por muito tempo - o tempo da infância - profundamente dependente dos adultos que se dedicam á sua produção - gestação, concepção e os complexos e persistentes cuidados pós-natais: que são necessários ã sobrevivência. Esses adultos são chamados de mãe e pai.

Na nossa sociedade, onde predomina a família nuclear patriarcal, ou seja, uma unidade estrutural composta de pai, mãe e filho(a), relativamente isolada de outros parentes consanguíneos ou afins, a figura do pai concentra uma dupla função: em primeiro lugar, ele é responsável pela guarda dos tabus familiares - especificamente, pelo tabu do incesto - e, em segundo lugar, desempenha um papel de padroado mais familiar, de senhor em técnicas e de tutor da audácia nos empreendimentos. Dessa forma, a função paterna, na família nuclear patriarcal, é tanto repressiva como transgressiva.
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A minha experiência me faz crer que o menor abandonado e aquele que e carente em relação a essas funções, em decorrência da degradação, porque passa a figura paterna.

Não pretendo dizer, com isso, que a mãe também não é responsável pelo abandono. Ao contrário, estou disposto a afirmar - ainda com base na minha experiência - que a mãe, muitas vezes, também abandona os filhos. Mas, tenho notado que o abando materno ocorre quase sempre junto ou imediatamente após o abandono paterno. Geralmente, a mãe abandonada e abandonadora possui um discurso degradante a respeito dos homens em geral e do marido em particular. Discurso que possui uma correspondência na realidade social na medida em que o pai é uma figura ausente e/ou degradada. Assim, o abandono do pai não depende só de sua ausência ou degradação, mas depende, também, e talvez fundamentalmente, da maneira como a mãe fala dessa figura, ou seja, depende do nome do pai pronunciado pela mãe.

Assim, os problemas que afetam o menor abandonado são diferentes dos que atingem o menor trabalhador, por um lado, e os que se referem ao menor infrator, por outro lado, ainda que, a qualquer momento, um menor abandonado possa se transformar num trabalhador ou num infrator.

Entretanto, o desamparo que caracteriza o menor abandonado ocorre também nas mais diversas instituições de nossa sociedade. Assim, não existem informações a respeito do número de menores abandonados no Brasil, no Estado de São Paulo, ou em Campinas. As estimativas são grosseiras e sujeitas a grandes erros.

O desamparo em que se encontra o menor abandonado, se manifesta, também, na ausência de políticas visando especificamente os problemas dessa população. Assim, os par tidos políticos - sem exceção - sequer referem-se a es­se personagem, tanto em seus programas como em suas discussões. Organizados como estão para a disputa eleitoral parecem não se preocupar com os que não votam.

O Estado, por sua vez, nada tem dito ou feito sobre os problemas que afligem o menor abandonado. Tratado menor delinquente - parcela do contingente de menores abandonados - de forma extremamente insatisfatória. As­sim, o confinamento em institui-ções do tipo FEBEM parece
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ser o único programa estatal explícito existente. Digo que esse e o único programa estatal explícito porque a simples leitura de jornais sugere a existência de um outro programa que foi executado pela polícia do Estado de São Paulo há alguns anos, até 1.983: o genocídio, o extermínio em massa de menores abandonados a quem são atribuídos delitos que parecem justificar o assassinato. Assim, naquele ano, a Folha de São Pauto noticiou o assassinato pela polícia, de pelo menos 30 menores, só no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, durante o ano de 1982. A mesma notícia dizia que o numero de menores assassinados é provavelmente muito maior e que tal programa conta com o apoio dos comerciantes do bairro. Essa prática não é nem recente nem restrita aquele bairro. Menores abandonados foram assassinados pela polícia na periferia de São Paulo durante todos os anos da ditadura militar. Não creio que essa prática seja o produto de um programa conscientemente formulado pela policia. Entretanto, penso que o hábito de assassinar menores constitui um programa inconscientemente executado por elementos dessa instituição.

Finalmente, há diversas instituições filantrópicas particulares que recebem ajuda do Estado e que estão voltadas para a integração militarizada de menores no merca­do de trabalho. Em Campinas, existem organizações que denominamos menores de “guardinhas”, “vigilantes”, “patrulhei-ros” e que os colocam a trabalhar uniformizados. Não sou necessariamente contra o trabalho do menor, ainda que seja prática inconstitucional. Não sou necessariamente contra porque reconheço que os salários miseráveis que esses menores recebem são muitas vezes fundamentais para o sustento da família a que pertencem.

Entretanto, quero observar que a exploração do trabalho do menor serve como mecanismo rebaixador de salários de adultos e como instrumento para aumentar o chamado “exército industrial de reserva”. Assim, muitos adultos se vêem na contingência de terem que aceitar salários equivalentes aos pagos aos menores que quiserem trabalhar como secretárias, mensageiros, atendentes etc.

Além disso, a exploração militarizada do trabalho do menor impede a vivência da infância. Digo isso porque parece que as autoridades se esquecem que o menor e, antes de tudo, uma criança e que, como tal, tem direito à


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infância, isto é, á fase da vida em que brincamos, empina mos pipa, jogamos bolinha de gude e bafo, quebramos os vidros dos vizinhos e fazemos outras estrepolias. Mas, acima de tudo, exploramos o mundo e desenvolvemos uma visão das coisas e das pessoas. O enquadramento do menor num exército de trabalhadores não da acesso a infância e, com muita probabilidade, produzirá adultos desajustados.

Entretanto, o mais grave desamparo do menor abandonado e, sem dúvida, o que decorre da degradação da função paterna. A miséria, o desemprego, o salário aviltante, as longas horas gastas no trabalho e no trânsito, a ausência de moradias adequadas, são alguns dos fatores responsáveis pela degradação da figura paterna que não consegue sustentar seus filhos.

Ninguém precisa ter entrado num buraco de favela - em Capinas existem cerca de 15.000 abrigando cerca de 75.000 pessoas - para imaginar a promiscuidade aí existente. Mãe, pai e filhos compartilham com frequência a mesma cama e, assim, todos participam de práticas íntimas em que o tabu do incesto não é respeitado. A violência institucionalizada com que os adultos tratam as crianças espancando-as como se fossem criaturas maléficas por nas­cimento, só servem para degradar ainda mais a figura do pai aos olhos do filho. Enfim, pouca imaginação é necessária para se admitir que o desamparo do menor abandonado está intimamente associado á degradação da figura paterna e que esta degradação também atinge as funções que são normalmente desempenhadas pelo pai em nossa sociedade.

A degradação das funções paternas produz gravíssimas consequências tanto no psiquismo como no comportamento do menor abandonado. Por um lado, a função repressiva - determinando o que é permitido e o que é proibido, o que é certo e o que é errado - é responsável pela aquisição da noção de Lei. A degradação dessa função lança por tanto, o menor abandonado no âmbito da mais intensa arbitrariedade. Essa situação, por sua vez, faz com que o menor não consiga distinguir o que é sua imaginação do que é realidade, ou seja, não consegue estabelecer um limite entre o que vai em sua mente e o que se passa no mundo fazendo com que, muitas vezes, confunda esses dois âmbitos. No caso de Alexandre e seus irmãos, essa confusão se manifesta, por exemplo, na crença de que podem enfrentar (e até vencer) a polícia, num confronto direto.


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Por outro lado, a desproteção e o desamparo que se devem a degradação do pai faz com que o menor abandonado seja acometido do mais profundo terror devido á constante ameaça de morte a que está sujeito. Não precisamos de muita ciência para afirmar que uma pessoa aterrorizada que desconhece a Lei enquanto princípio e capa? de praticar qualquer desatino e, ao mesmo tempo, sofrê-lo.

Termino com uma nota trágica: algum tempo depois desta sessão, o irmão de Alexandre - o sãopaulino - foi morto pela polícia. Meses depois vi, num dos jornais de Campinas, a foto de Alexandre com a tarja preta sobre os olhos. A manchete era: “menor procurado pela polícia". Uma notícia corriqueira em qualquer jornal do Brasil.


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PSICOLOGIA SOCIAL

UM PERSONAGEM EM BUSCA DE SEU AUTOR
Luiz Carlos S. Sampaio.

O "conhece a ti mesmo" inscrito no pórtico do templo grego demonstrava o interesse, ao mesmo tempo que inspirava o saber do homem a seu próprio respeito e das coisas do mundo.

A filosofia teve a missão, até o final do século XIX, de desvendar os mistérios que envolviam a mente humana. Por ser especulativa, deixou de satisfazer as exigências do homem moderno e teve que ser substituída por algo mais consistente, mais preciso, passível de demonstração.

As ciências naturais floresciam, por que não lançar -lhes mão dos modelos, cuja eficiência fora comprovada desde Galileu ao submeter a provas as afirmações de Aris­tóteles?

Tomá-los não seria um contrasenso, já que, há não muito, Darwin afirmara que entre os homens e os demais animais a diferença observada residia apenas no grau, não na qualidade.

O estudo da biologia avançara, desvendando mistérios profundos da natureza humana. O corpo" humano, submetido a estudos sacrílegos nas alcovas dos mestres da pintura e escultura desejosos de um retrato fiel, na idade media, tornou-se alvo de observação e retaliação por par­te dos cientistas, tal como visto na "Lição de Anatomia", de Rembrandt, no século XVII.

A alma humana, o espírito, a mente, ate então pensada intangível, deveria ser encerrada no espaço do laboratório, para, cativa, submeter-se á frieza dos instrumentos de medida. Nasce a Psicologia Científica.

Psicologia que compara homens e ratos, que mede a inteligência, que reduz o psiquismo a terminais de input e output, e o homem ao fruto de um condicionamento operante.


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Filosofia e ciência, damas de senhores diversos, uma do pensamento, a outra dos instrumentos de medida, do saber positivo que extrapola a curiosidade própria de saber­ e visa ao controle, preocupação central do homem moderno.

A prática derivada dessa psicologia positiva é a da engenharia psicológica. O psicólogo cientista vislumbra, a partir do conhecimento proveniente das pesquisas contra ladas, a arquitetura do homem ideal. O psicólogo prático, engenheiro, concretiza a edificação desse homem.

Tal controle não basta impor-se, porém, ao homem isolado. Ser social interage com outros homens e não ra­ro de modo desastroso. Faz-se necessário uma Psicologia Social que ponha termo nos desastres das guerras e nos conflitos inter e intra grupais.

Esta foi a Psicologia Social que herdamos aqui no Brasil. Uma psicologia dos pequenos grupos, que enfatiza os tipos de liderança, a percepção do outro, a comunicação, que não leva em conta, entretanto, a natureza do campo em que se realizam as pesquisas. Tal psicologia reúne um corpo teórico que administra as práticas dos grupos de treinamento, os T-Group.

Uma Psicologia Social que introduz-se nos espaços das fábricas, das escolas, dos hospitais, dos bancos, dos escritórios e mesmo da política macro e micro social, de onde surgem estudos sobre o trabalho, as gerências, da organização, do atendimento, da aprendizagem, dos recursos humanos. Seu objetivo: encontrar e colocar o homem certo no lugar certo e que a produção se dê sem conflitos, para ser maximizada.

O psicólogo social, arquiteto e engenheiro, sustenta garboso o estandarte da "Ordem e Progresso".

A sonhada arquitetura, entretanto, no real, mostrou-se ineficiente e desajustada. No pano de fundo da ordem desordem insinua-se e busca reinar soberana.

A euforia dá lugar, então, á depressão. Criticar, repensar os modelos e os referenciais teóricos são as insígnias da nova bandeira levantada, principalmente, por


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um grupo que se reúne sob a denominação de Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO.

Desiludidos com o casamento, com o saber positivista e pragmático, resgata esse grupo o pensamento de dois autores que dele se libertaram e se mantiveram afastados, Freud e Marx.

Psicanálise e/ou Materialismo Dialético poderiam ser os rumos para uma Psicologia Social não alienada e ideológica.

Desejosos de conhecer melhor as duas vertentes e as contribuições, reúne-se o grupo de são Paulo da ABRAP­SO, no 6o Encontro, sob o tema "Freud x Marx - Um dilema para a Psicologia Social?".

Não pretendendo ser partidarista, a organização do Encontro convidou pessoas que se interessam, trabalham e estudam as correntes em questão, sem privilegiar as instituições a que elas, porventura, pertençam.

Os convidados foram: Silvia T. M. Lane (Psicóloga Social), Oswaldo D. M. Di Loreto (Psiquiatra), Fábio Landa (Psicanalista), Paulo Silveira (Sociólogo), Fábio A. Herman (Psicanalista) e Manoel Berlinck (Psicanalista).

A questão central abordada pelos convidados foi a dos possíveis pontos de contato entre a Psicanálise e o Marxismo. Todos foram unânimes em afirmar que estes pontos inexistem, visto que Freud e Marx ativeram-se a objetos diferentes, ou nas palavras de Di Loreto, "Freud nunca pretendeu abordo questões de sociologia, bem como Marx nunca pretendeu ser psicólogo", A divergência mostra-se mais acentuada quando se aborda a visão de homem que cada um apresenta nas obras deixadas. Para" Freud, o homem e um ser biológico, dotado hereditariamente de impulsos de vi­da e de morte, de força variável, cuja personalidade completa-se ainda na infância, a partir das relações objetais que trava com as imagos parentais. Imagens internalizadas com frequência de modo distorcido pela predominância de um ou outro impulso, e pelas vicissitudes do desenvolvimento da sexualidade. As relações futuras, do cotidiano de cada indivíduo, seriam mediadas e determinadas pelos "fantasmas",reminiscentes dessas relações objetais primordiais. A construção do real estaria, assim, condicionada a um processo de análise pessoal.
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Marx também parte de um homem biológico, que, ao ser socializado, introduz-se na história de seu grupo social, que não e estanque no tempo, mas transformada segundo os desenvolvimentos que sofre o modo de produção da vida material, desenvolvimento este, impulsionado pela luta de classes, alcançada no momento em que os indivíduos explorados tomam consciência de sua condição no grupo social a que pertencem, adquirindo, desse modo, uma consciência de classe. Com isso, o homem de Marx e um ser biológico, social e histórico. Ator e autor de sua história pessoal, e do grupo de pertinência, e enfim, da própria história do homem.

Como contribuição direta á Psicologia Social, La­ne, em uma ótica marxista, afirma que toda a Psicologia e social, pois todo o homem e ser social, o homem isolado da sociedade não existe . Não nega, com isto, a possibilidade de uma Psicologia do Indivíduo, lembra, Outrossim, que a própria noção de indivíduo é histórica, e sua existência só se afirma contraposta á noção de grupo, numa relação dialética.

Ainda na linha marxista, Silveira propõe a tese do "Fetiche, descrita por Marx no “0 Capital”, em relação ao dinheiro. No sistema capitalista de produção, a pessoa, o cidadão livre seria o “Fetiche que oculta a real condição de mercadoria, para a classe trabalhadora. As relações humanas não seriam estabelecidas com base nas humanidades dos agentes, mas sim, numa relação de trocas com bases nas leis de mercado, entre o comprador e o vendedor da força de trabalho.

Na linha Psicanalítica, Herman problematiza a questão do real, inacessível ao psiquismo humano cujo alcance não permite ir além de uma representação idiossincrásica. Como contribuição de sua experiência pessoal enquanto psicanalista, relata ter percebido uma certa constância nas atitudes dos “executivos" que atende em análise; o traço característico seria o de uma compulsividade á ação, batizando-o, então, como “neurose de ação". Deixa claro, entretanto, que suas observações merecem aprofundamento.

Landa e Berlinck contribuem demonstrando que a Psicanálise, enquanto método de observação e pesquisa, é possível fora do espaço privado dos consultórios, podendo ser
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realizada, por exemplo, em instituições ou mesmo em espaços sociais maiores como o de uma favela.

Como contribuição final, lembram todos que, apesar das propostas teóricas de Marx e Freud não se aterem ao mesmo objeto, seria enriquecedora a leitura da Psicanálise através de uma ótica marxista, bem como uma leitura psicanalítica do marxismo, trabalho que vem sendo realizado por alguns autores, mas que carece de maiores desenvolvi­mentos.

Lógico está que o exposto acima trata-se de uma simplificação restritiva do exposto pelos convidados em questão, simplificação que pôde ter cometido o desastre de desvirtuar o pensamento elaborado por eles, a quem só te­mos a agradecer a gentileza concedida Bem, e nossa psicologia social, personagem abstrato etéreo produto mental de uma época historicamente determinada; qual seu rumo? O que temos como certo é que não pode continuar a ser pretendida como positiva e, dessarte, descompromissada politicamente, pois tal descomprometimento só é possível no mascaramento ideológico. O tempo é de repensá-la, expo-la críticas e deixa-la sem corpo, por enquanto.
LUIZ CARLOS S. SAMPAIO Médico psiquiatra, pós-gradua­do em Psicologia Social, co-editor da revista “Psicologia e Sociedade” da ABRAPSO.

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