Editorial I



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PSICANÁLISE E MATERIALISMO HISTORICO DA lIBERTAÇÃO DO HOMEM

Paulo Cesar Sandler*

Perplexo após ler uma reportagem que descrevia os trabalhos do encontro promovido pela ABRAPSO, no qual se pretendia verificar possíveis relações entre psicanálise e marxismo, perplexidade esta ligada às conclusões reporta­das pelo Dr. Luiz Carlos Souza Sampaio, fui por ele instado e convidado a desenvolver por escrito as razões de minha perplexidade. Agradeço ao Dr. Sampaio o convite para desenvolver algumas idéias a respeito de um tema que ocupou o todo de um período de vida universitária no campo da psiquiatria social, tanto em trabalhos teóricos como em experiências práticas .



Introdução

Em outras ocasiões (1978, 1982), alicercei com fatos e conclusões advindos de investigação empírica, de campo, a recomendação de que avanços na construção de um corpo teórico constituído da descoberta de leis gerais, princípios unificadores e conceitos geradores ("idées mére, como escreveu James Joyce) que pudesse dar conta, em algum grau, das ainda obscuras relações entre a dita dinâmica sócio-cultural e o acontecer mental do homem, só poderiam vir a ocorrer quando se descartassem:



  • Relações tipo causa/efeito (Causa “social” - efeito “psicológico”)

  • Relações estatísticas setoriais tipo “sociologia americana

  • A dicotomia artificial, pseudo, entre sociologismo e psicologismo

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* Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Medicina Preventiva pela Faculdade de Medicina da U.S.P. Ex-diretor do Programa de Saúde Mental da Faculdade de Saúde Pública da U.S.P. (1979-1983).


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Estabelecimento de explicações precoces, desautorizadas pela ausência de dados empíricos embasadores que confiram teor de verdade às explicações. (Tipo “poluição causa doença mental” e assemelhados)

Ao descartar disto, penso que, da mesma forma que parecem ter pensado os organizadores do encontro, resta um trabalho que lance mão de uma sociologia compreensiva, cuja ideologia não seja outra que o favorecimento do homem; ou seja, uma aproximação à verdade dos fatos do acontecer humano ideologicamente condicionado por uma busca da verdade do homem. Em outras palavras, as descobertas de Karl Marx, Max Weber e dos desenvolvimentos daí advindos, que poderíamos chamar arqueológicos, como por exemplo as contribuições de Michel Foucault e Peter Berger. O mesmo diz respeito ao campo chamado de psicologia: o amor á verdade, o movimento iniciado por Sócrates e re-impulsionado por Kant, em sua morada que tomou o nome de Sigmund Freud e seus desenvolvimentos posteriores. A dicotomia acima apontada ainda faz com que o investigador fique falando em "aproximar a psicanálise do marxismo, ou fique tentando ver “pontos de contato”. Realmente, ao se observar um fenômeno, partindo-se de dois pontos de vista muito díspares quanto a sua própria magnitude, como apontou Bastide, ou seja, o macro-nível e o micro-nível, pode-se concluir em favor de "aproximações" ou "afastamentos': Confunde-se o ponto de vista com o objeto observado. Mas, como demonstraram Kant e Weber, o objeto não tem nada a ver com o ponto de vista, sendo este último explicitável pela ciência. Os tais “níveis" diversos de observação, e os -ismos deles derivados, não passam de débeis criações humanas, reflexos de nossa incomensurável imprecisão e falibilidade na observação e explicitação verbal daquilo que também muito imprecisamente convencionamos denominar “realidade".

Indivíduo e Sociedade são duas destas caricaturas verbais de uma realidade última, incognoscível. Assim, busca-se aproximar duas “coisas", a rigor, inexistentes em si Teorias, ciência, são arranhões superficiais na epiderme de uma realidade gigantesca. Partidarismos, apriorismos (os-ismos) são produtos humanos ligados a algo que talvez seria mais pertinente ficar confinado à história e prática da religião. Se o cientista acredita que um determinado -ismo existe, principalmente, aquele ao qual


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ele decidiu, provavelmente por ideologia, se filia, existe mesmo, ele é um sonhador que jamais desperta - toma concretamente como existe algo que não possui existência concreta. Este processo concretificante foi estudado por Hanna Segal e Wilfred Bion, após Melanie Klein, em outros estudos pudemos perceber sua existência não somente na psique do assim rotulado “psicótico”, mas grassando em toda a trilha da ciência ocidental, principalmente após Déscartes (1984, 1986).

Mais sucesso nos parece ter uma idéia que foi gera­da na década de 60, e que tomou o nome de "Teoria Geral dos Sistemas” (ver Miller, 1965). Diz respeito á possibi1idade de uma descoberta valer para qualquer nível de observação considerado - porque científica. Há certos aconteceres que valem para uma célula, para um indivíduo, para uma famí1ia, para uma sociedade. A rigor, a história da tecnologia, que lida com fenômenos concretos, facilmente reconhecíveis pelos órgãos dos sentidos, já demonstrou de sobejo que muitos pesquisadores e experimentadores podem chegar ao mesmo produto, em épocas até diversas, por meio de caminhos e materiais diversos, sem nenhum conhecimento prévio ou contato de uns com os outros. Foi assim com a roda, com o avião, com o automóvel e, in­felizmente, com a bomba atômica. Em termos científicos, certos aconteceres são trans-históricos, a-temporais, por que ligados a essências básicas do homem. Isto não desafia a concepção histórica do materialismo dialético, mas desafia tão somente as aplicações dogmáticas, estreitas deste, que esquecem que o processo histórico e ideológico apenas o aparecimento, eclosão ou valorização dos aconteceres. Apelando para o mais facilmente visível mundo sensorialmente apreensível, mais uma vez: quem inventou o avião - Leonardo, Santos Dumont ou os irmãos Wright? Ou o inventor anônimo de Ícaro? Os gregos eram pessoas de sorte: viveram antes da grande explosão mental que criou os primeiros -ismos da história, as várias -gias, filhos esquizofrenicamente cindidos, afastados à distância mais do que estelar da mãe filosofia.

Francis Bacon (Essays, LVIII) escreveu:
“Solomon saith: There is no new thing upon the earth

So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembranse; so Solomon giveth his sentence that all novelty is but oblivion”


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(Salomão disse: Não há nada de novo na face da terra.

Tanto é assim que Platão teve uma imaginação, que todo conhecimento não passava de lembrança; e então Salomão deu sua sentença, que toda novidade não passa de esquecimento)

A respeito dos efeitos na memória como entrave à descoberta científica, ver Bion (1977).

O que denominamos, hoje em dia, de psicanálise, marxismo, residiu anteriormente em outras moradas, chamadas Sócrates, Platão, Spinoza, Bíblia, Shakespeare, Proust, Einstein. O que simplifica nossa tarefa. Não se trata de “aproximar” produtos de nossa mente, mas sim de re-descobrir algo sue nunca foi separado em si. De se aproximar de uma síntese que, na realidade propriamente dita existe, mas que foi explodida pelas incomensuráveis limitações da ciência.

Em desenvolvimentos posteriores, pode ser que este re-conhecimento auxilie não só o estabelecimento de corpos teóricos de uma hoje chamada psiquiatria social, psicologia social, mas antes uma possibilidade de compreensão mais próxima da realidade do acontecer humano. Com a provável dispensa, como já o fez com sucesso a literatura, de prisões tipo “psicologia”, “social”, “psiquiatria”, “psicanálise”, “marxismo”.


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UM GOLPE NA ILUSÃO DA CONSCIÊNCIA
Solicito ao leiro que se re-lembre, ou consulte, a metáfora de Platão, da caverna e das sombras projetadas. Depois dele, um período que se estendeu por centenas de anos foi re-erguendo o mito da auto-consciência humana, mito este que atingiu o ápice talvez com Descartes que, apesar de ter advogado a existência da dúvida filosófica, não exitou em retroceder e afirmar que "Cogito ergo sum" - quem sabe foi assolado pelos mesmos problemas que fizeram Pascal, homem sincero, afirmar "Ces epas infinis m’effraie" ("estes espaços infinitos me aterrorizam"). O desvio nesta adoração ao mito da auto-consciência talvez tenha se chamado Emmanuel Kant.

- Curiosamente, foi através da religião, de um modo trágico para a humanidade, embora, que o ser humano pôde manter um certo grau de consciência de sua pequenez e da percepção do seu não-arbítrio. Sendo Deus o dono de nossos destinos, como crêem os religiosos, não somos mais nós os donos de nós mesmos.

A mensagem religiosa quanto ao não arbítrio e inconsciência humanos foi, no entanto, tornada um fato concreto corrompendo e distorcendo o sentido original. Certos traços humanos, hoje chamados pela psicanálise pós Melanie Klein de psicóticos, fizeram com que as pessoas tomassem a religião em seu aspecto ritual, mecânico, estereotipado. Todo tipo de mundanidade - própria igreja sempre teve um nome para isto, ou seja, a "secularização" - se instalou. Jesus, como escreveu Bion, foi enterrado sob um manto sa­grado de adoração, e o Império Romano se continuou em riqueza sob novo nome. Cruzadas, justificativas de se espraiar a pobreza material na terra se seguiram e a, religião sobreviveu às costas da morte da mensagem.

O espírito de Platão e Kant é desenterrado no século XIX, com a ajuda de Freud e Marx. Um golpe severo no mito da consciência, mas não mais a serviço de nenhum inconfessável proveito político-social, e sim a favor da "ciência", ou seja, o guarda-chuva onde se abrigou a sede da verdade, ocorreu. Livre do aproveitamento ligado ao


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poder que a religião fez, durante a infância da humanidade, ou seja, de oferecer algo que era de fora, externo ao homem como governando seus destinos, Marx e Freud desfecharam um golpe no mito da consciência, nos mostrando que há forças independentes da vontade e intencional idade cognoscíveis diretamente ao ser humano, e que estas são as verdadeiras forças que o conduzem. Maiores do que sua vontade, poderosas e desconhecidas. Não e para menos que uma das análises onde Marx e Freud se aproximam mais, inclusive na terminologia, e na análise da religião. "O ópio do povo" ou a "projeção da onipotência de cada um" mostram um tipo de estado sonambúlico, hipnagógico, onde os zumbis são conduzidos, perdendo sua auto-condução. Na terminologia "social", mostrou Marx, após Hegel a existência real de uma inconsciente, porém detectável, ideologia, subjacente aos conteúdos expressos pelos governantes, que guiava a criação de códigos (penais, por exemplo, ou de moralidade, etc.) propagandísticos, mas cuja realidade latente, detectável por exemplo pela aplicação do método marxista, era bem outra. Na terminologia "psicológica", mostrou Freud a existência real, porem inefável, não concreta, não factual em si, mas produzindo fatos reais, de um inconsciente povoado de destruição, morte, e também vida e criação, subjacente e governando a frágil embarcação do ser que pensava se arbitrar; governo este não de um leme seguro, mas do mar revolto, cujas ondas desdenham dos ridículos dispositivos humanos destinados a vencê-lo. Ate mesmo os termos infra-estrutura e super-estrutura têm suas contrapartidas na terminologia da psicanálise - e no seu campo semântico.

- Esperançosos e talvez entusiasmados pelo impacto de tamanha descoberta, altamente impregnados de racionalismo: Marx e Freud lançaram-se à prática do desvendamento destas forças criando e aperfeiçoando continuamente seus me todos, na tentativa de ajudar o ser humano a se desenvolver, a se assenhorar ou domesticar a realidade gigantesca que descobriram existir. O descobridor da existência do inconsciente esperava no início trazê-lo à consciência; o descobridor da irracionalidade acreditava na implantação final de uma racionalidade que extinguisse os governos. (Veja-se o "Manifesto").

O re-conhecimento do não-livre-arbítrio foi perene nas artes. Chico Buarque e Milton Nascimento perguntam
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"O que será que me dá", Milan Kundera descreveu uma insustentável leveza e Shakespeare escreveu "tragédias", mas King Lear ou Macbeth bem poderiam se intitular "ser humano". A explicitação não-religiosa que percebe dentro do ser humano a existência de inapeláveis forças desconheci­das que governam o homem, produziu, tanto em Marx como em Freud, o re-conhecimento da besta-fera que o ser dito humano abriga. Novamente, o paralelismo com a religião se dá, mas ao invés da rigidez moral condenatória e ameaçadora, cuja promessa de punição do mal tentava manter encurralado aquilo que Freud denominou de instinto de morte, surgiu uma esperança no fato de tais forças serem intrínsecas ao homem. Assim, a responsabilidade pelos seus próprios destinos, e responsabilidade pela sua própria inconsciência, substituiu a Inquisição ou a fogueira protestantista - Marx apontou que o homem explora o homem, reco­nhecendo a fera. Falou em um "homem novo", pós-comunismo, sua esperança para a manutenção do mesmo, semelhante à proposta "psicoterápica" de Freud, do re-conhecimento da violência, da inveja e da destruição que são partes integrantes do único ser que mata sem necessidade de sobrevivência.

Tanto Marx como Melanie Klein, ao lidar com o problema predatório e da exploração humana, com as dificuldades do respeito, da gratidão e da separação, nos explicitaram com clareza acessível aos seus contemporâneos as consequências da inveja. Marx ainda se prendeu a uma dicotomia, ao identificar aquilo que Klein chamou de "objeto mau" como sendo o capitalismo, e o objeto bom, no comunismo. Igual à religião, estabeleceu normas externas ideais: para a conduta humana, que seriam, ao menos no início, impostas por governos exógenos, fora do indivíduo, tendentes a substitui um possível senso de contenção , recato, limites pessoais, limitação da voracidade (aqui entendida, ainda segundo Klein, como a tendência do indivíduo a exigir e possuir mais do que realmente necessita), probidade e honestidade que, se não foi desenvolvido dentro, não poderá jamais existir. Não há possibilidade do reflexo condicionado, típico de serem muito simples do ponto de vista biológico, ser instituído nesta área emocional. Obtem-se pela criação, pela réverie materna no lar de origem ou através de se "aprender pela experiência", como diz Bion, com os reveses e perdas da vida. O marxismo, como religião, acabou servindo de escudo para novas explora-


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ções - não Marx, mas o seu "-ismo". O predador, traves­tido de comunista, não dividiu a riqueza, mas criou "Nomenklaturas" e justificou ações de destruição. Em 1917, prédios centenários e a memória de um povo foram destruí­dos; a arte foi obliterada poucos anos depois, e a inveja como combustível legalizou a destruição, deixando uma marca negra que cujo deserviço à causa do comunismo, ainda não pode ser avaliado com precisão. Fidel Castro acabou co locando tropas de guerrilheiros contra certas turbas que tentavam incendiar os hiltons de Havana; ele sabia que os hiltons não eram maus em si e poderiam ser usados - como o são - numa divisão mais equanime, pelo povo. Não se pode afirmar que o "pobre" e enfurecido, se tiver uma chance de impunidade, pois pobreza material não implica em pobreza de espírito. E, se assim fosse, nem eu estaria escrevendo isto aqui, nem o leitor estaria lendo, pois, nós, membros da pequena burguesia, já teríamos evaporado frente ao número de "pobres" vigente em 1986.

Estando o bom e o mau divididos, o mau fica fora, e cega-se para o mau que persiste em qualquer ser humano. A cegueira produz o desatino. Marx estava ajudando o ser humano ao demonstrar que a estratificação social, ate então justificada inclusive por razões divinas, criava um tipo de estímulo à inveja humana que, talvez, no caso de alguns pobres, as teorias da inveja de Melanie Klein só se apliquem naquilo que elas também valorizam o papel diletério de uma mãe indisponível, ou, como disseram Bion e Winnicott, incapazes de "revérie". A criança que não come carne durante os sete primeiros anos de sua vida, ou o porteiro do prédio ou empregada doméstica que são submetidos a carregarem semanalmente dezenas de sacos de super-mercado, sem poderem nutrir sequer a esperança de um dia usufruírem de nenhum, pois o que o patrão pode gastar em duas horas, consumir-lhes-ia dois anos de economias não podem ser imputados como "invejosos", primariamente. Mas Marx, ao idealizar o Estado protetor, uma entidade mantenedora que daria lia cada um de acordo com suas necessidades", favoreceu os espertos, cuja necessidade segue sendo predatória. Localizar fora do indivíduo a solução, como na religião, explora o sonho dourado da irresponsabilidade, vê a fera no sistema político e não no homem que o idealizou e o praticou, e municia a inveja em travestis de comunista, os espalhadores da pobreza - terá sido isto algo decorrente de uma falha na apreensão da psique, por parte dos
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iniciadores do comunismo? Mas, o que eles poderiam fazer? Ninguém é perfeito, talvez não tivesse Marx podido ler direito o seu Shakespeare e Melanie Klien ainda estava devendo quase cem anos para descobrir o que descobriu. Mesmo Marx ainda reconheceu no capitalismo o seu aspecto de progresso técnico e material. Um grande triunfo do capita1ismo, longe do sistema que sobrevive a qualquer tirania imposta por qualquer ama, e a valorização de algo que preserva o indivíduo. O problema é a escolha - ideológica e na maioria das vezes injusta - de que indivíduos serão valorizados. O modo capitalista que da efetivamente um locus ao indivíduo enquanto tal, e possibilita um certo progresso, desde que não desafie os rígidos limites de mudança de um extrato social para outro, segundo as reais possibilidades individuais (inteligência, trabalho etc.). Pelo menos para a pequena burguesia, e mais ainda para a burguesia, não ficar obrigatoriamente aprisionado pela inveja predatória que faz destruir o que o outro tem como substituto ao que eu próprio não tenho, mas sim usufruir o esforço do próprio trabalho, é possível. Para estes extratos, vale mesmo - doutrina do "individual enterpriser".

Já existe este espécimen entre os húngaros e os chineses, e as acusações de desvio ou revisionismo partem dO proprietário de Volgas e "dachas", que só produzem controle burocrático, mais nocivo do que a falsa riqueza sem trabalho de juros bancários.
Nos confins do comunismo, inexistiria o governo; nos confins de uma psicanálise, inexistiria a ditadura do su­per-ego. Em ambos, os desejos desenfreados do inconsciente, vitimado por só-desejos de satisfação imperiosa e imediata (veja-se Freud, 1911), às custas do que ou de quem quer que seja, seriam controlados, postergados por uma afeição fraterna, um respeito das necessidades do outro. O termo "camarada" (amigo) não foi criado por acaso; a Psicanálise não é filha da medicina, ou seja, um dos redutos da ajuda inter-humana, também por mero acaso.

Não sei se é justificável surpresa frente às conclusões do encontro que não há pontos de contato entre o que Freud e Marx descobriram. Parafraseando Marguerite Yourcenar, estes dois ramos que intentaram conhecer e ajudar o homem talvez sejam "tão diferentes como só dois irmãos conseguem ser". O povo, o senso comum, em sua sabedoria,


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soube reconhecer com mais facilidade, tanto na execração como na exaltação, a irmandade de dois libertadores do homem, que tiveram a coragem de re-conhecer a violência, a predação e, principalmente, o não-arbítrio inconsciente que caracterizam este espécimen mal acabado de ser-vivente, auto denominado humano.

"0 ser humano, este inconsciente", poderiam dizer aqueles preocupados velhinhos de uma improvável mistura judaico-saxônica, mas de coração latino, o Prof. Karl e o Dr. Sigmund, trabalhando em seus bissextos consultórios sócio-individuais.



DESENVOLVIMENTOS

As limitações humanas fizeram crer que a falha estava no método e não no seu executor e idealizador. O amadurecimento, obtenível apenas e tão somente pela dura experiência do desacordo, tem demonstrado que a coisa e muito mais difícil do que o entusiasmo inicial da descoberta, criado pela contemporaneidade desta, fazia crer. O sangue, suor e lágrimas cobra um preço cuja moeda são várias gerações. A vingança e o triunfo fina do inconsciente, da pureza, pregou uma peça nos descobridores da irracionalidade, que acabaram apelando para a racionalidade com arma, para combater a primeira. Frágil palito de madeira, nossa espada infantil é ridícula contra uma hidra que precisou de um Hércules e um Palas Atenéia para vencê-la, em outras eras.

Vicissitudes comuns destes dois irmãos: sua aplicação superficialmente compreendida, repetitiva, ritual e religiolizada (como disse Kant: "protejam-me dos meus amigos, que de meus inimigos sei me defender"); esperanças infundadas na eficácia total, ideal de duas descobertas; risco de esquecimento precoce e desinteresse.

Sobreviverão? O quanto sobreviver a humanidade o anseio de libertação e o seu gosto, agora já experimenta­do, fazem parte de um patrimônio, talvez já incorporado à genética humana.

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Referências
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BION, W.R. - A Memoir of the Future, book I; "The Dream". Imago, Rio de Janeiro, 1975.

FOUCAULT, M. - História de la loucura en la edad classica.


FREUD, S. - Two Principles of the Mental Functioning, 1911. The Hogarth Press, 1963.
FREUD, S. - Beyond the Pleasure Principle, 1927. The Ho­garth Press, London, 1968.
KANT, E. - Crítica da razão pura. In: "0s Pensadores ", Ed. Abril.
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WEBER, M. - A ética protestante e o espírito do capitalismo. Pioneira, S. Paulo.

YOURCENAR, M. - Golpe de Misericórdia. N. Fronteira, RJ, 1983.


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QUEM É O BRASILEIRO?

UMA EXPLORAÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS LEVANTADAS POR GILBERTO FREYRE E SERGIO B. DE HOLANDA
Antonio Ribeiro de Almeida* Gerson Muccillo*

Lucy Leal de Melo.





  1. Introdução.

É possível formular a pergunta "Quem é o Brasileiro?", e, se possível, dar para ela uma resposta adequada? E estaria o psicólogo social melhor instrumentalizado para respondê-la do que, por exemplo, o antropólogo, o sociólogo, o historiador ou o literato? Estas questões surgem naturalmente para quem se volte para o estudo do que tem sido chamado caráter nacional, caráter social, características nacionais, personalidade básica, personalidade modal e personalidade plurimodal. (Ver, por exemplo, From, 1941; Klineberg, 1948, 1966; Kardiner, 1948; Kardiner, Linton, Ou Bois e West, 1945; McDavid e Harari, 1974; Dufrenne, 1959 e Inkelis e Levison, 1969).


O estudo do caráter nacional é, atualmente, visto pela psicologia acadêmica de uma forma fria e, às vezes, hostil, conforme comentário de Inkelis e Levinson (1969). No caso brasileiro, esta desconfiança é ainda maior no meio dos intelectuais que suspeitam sempre existir nestes estudos uma inspiração etnocêntrica, nacionalista e fascista. Há na intelectual idade, em alguns momentos da nossa história, um sentimento generalizado do cosmopolitismo e uma crítica, ora clara, ora velada, a preocupações nacionalistas. Mata (1977), por exemplo, crítica o falecido líder do Partido Comunista Brasileiro, Astrogildo Pereira, que num dos seus discursos defendeu o fortalecimento de uma cultura nacional. Sob o ângulo de uma análise marxista, uma questão, como a do caráter nacional, e elástica, logo, sem sentido. Corbisier (apud Mata, 1977) cri-
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* Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, São Paulo.

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tica todas as interpretações do Brasil e dos brasileiros feitas até hoje, e diz faltar a Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e outros sociólogos, uma "consciência crítica da história. Para ele, o equívoco está no fato de que a "nação" não e uma substância, mas uma função. Logo, não existe uma substância do brasileiro que suporte a tributos como "preguiça, verbalismo, cordialidade, etc." pág. 167).
Do lado acadêmico, as objeções que são feitas a estudos como este são muitas. Apontamos algumas: a) as nações são, como organizações sociais, de grande complexidade, comportando diferenças culturais regionais e de classes sociais; b) a formação de uma nação, como o Brasil, onde concorrem no período colonial três raças diferentes = a branca, a negra e a indígena - cada uma portadora de culturas diferentes e em diferentes estágios de desenvol­vimento; c) os instrumentos de investigação, sejam os oriundos da Antropologia, da Psicologia Social são de baixa fidedignidade; e d) os estudos, conduzidos em amostras muito reduzidas, tornam impossível qualquer generalização estatisticamente válida.

Apesar destas críticas, o problema continua posto e renasce com frequência porque nada está tão perto do brasileiro do que ele mesmo. Vinte e quatro horas por dia: cada brasileiro fala do brasileiro usando a sua psicologia "naive" Por outro lado, há que distinguir o mundo dos intelectuais e o mundo das pessoas comuns. Será que a interpretação dos intelectuais, as constantes "superações" que fazem das ideologias, as suas críticas e auto-críticas chegam ao homem comum e modificam o seu estilo de viver? Suspeito que sempre existiu um grande fosso entre o intelectual e o homem comum.


Um estudo sobre o brasileiro pode, do nosso ponto de vista, ser conduzido se tem a consciência da sua, historicidade. Mesmo um estudo dos seus traços descritivos: que, segundo julgamos, permanecem durante longo tempo. E o contexto histórico deste estudo se faz no final do século XX, quando o brasileiro vive sua mais radical crise: tanto ao nível econômico como moral. Apesar de reconhecermos a não existência de uma "substância" que suporte o "ser do brasileiro", há que ver, entretanto, que se pode perceber uma continuidade entre o brasileiro dos séculos
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XVIII, XIX e XX. Esta continuidade parece assegurada pelas matrizes culturais, pela língua e pelos símbolos comuns. Cada geração que chega tem a função de prosseguir um processo. Ela agrega muito à história comum, mas aprendeu o passado, integra-o no seu presente para a construção do futuro. Não chegamos ao exagero de dizer que os nossos mortos nos governam cada vez mais. Mas eles estão aí. Para nós, é possível, portanto, dar uma resposta à questão "Quem é o Brasileiro? ". Não privilegiamos, por outro lado, o psicólogo social nesta resposta. Acredita­mos que existem outras formas de conhecimento e muito do brasileiro está descrito na literatura e na arte. Como ignorar as tiplogias criadas por um Jorge Amado, um Machado de Assis ou um Érico Veríssimo? Na nossa Arte, muito do brasileiro está revelado na obra de Villa Lobos ou nos quadros de um Portinari ou Guignard.
Depois de inúmeros estudos de sociólogos, coube a um psicólogo social, Dante Moreira Leite (1927-1976), com o seu "O Caráter Nacional Brasileiro: História de uma ideologia", estudar o brasileiro numa época em que os psicólogos se voltavam para o que vem de fora. Num certo sentido, sua tese de Doutoramento, defendida em 1954 na Universidade de São Paulo, estava à frente de sua época. Aluno de Otto Klineberg, praticamente o pai da Psicologia Social na USP, Leite foi certamente por ele influenciado no estudo do caráter nacional. Sua tese tem uma feição européia enquanto tenta rever todas as interpretações do brasileiro, desde Pero Vaz de Caminha ate Caio Prado Jr. Ao lado desta revisão, expõe as doutrinas do caráter nacional e a crítica. Para Leite (apud Mota, 1977): "O caráter nacional brasileiro tinha então diferenças, não das igualdades do povo brasileiro e do Brasil com aquelas nações desenvolvidas" (pág. 244). Mas Leite não teria conseguido realizar esta tarefa. Ele teria mergulhado na ideologia da ciência, na Ideologia da Superação da Ideologia. Mas o que nos interessou não foi continuar o estudo do caráter nacional ao nível do discurso. Preocupou-nos verificar se estas descrições do brasileiro, realizadas "on the green table" eram ou não reconhecidas pelo próprio brasileiro. Adotando esta hipótese de trabalho, estudamos as descrições do brasileiro, como apresentadas por Leite (1976), e que se referem a dez intelectuais - escritores e sociólogos - e realizamos uma exploração numa amostra de sujeitos da cidade de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo.
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  1. Objetivos.

Os objetivos desta exploração foram os seguintes:


Primeiro: Examinar, numa pré-pesquisa, qual ou quais das descrições do brasileiro, entre os seguintes autores: Silvio Romero, Affonso Celso, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Affonso Arinos, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Fernando Azevedo e Vianna Moog, era(m) escolhida(s) em: primeiro e segundo lugares;

Segundo: Testar, numa amostra mais ampla de Ss da cidade de Ribeirão Preto, quais os traços que receberiam concordância, discordância ou sobre os quais os Ss não têm opinião quando aplicados ao brasileiro;

Terceiro: Verificar se há uma correspondência entre os dados obtidos em Ribeirão Preto com os obtidos em outras cidades do Brasil.
Este artigo se refere ao primeiro e segundo objetivos.



  1. Método.



    1. - Procedimento.

Após a preparação do questionário, onde não se informava aos Ss que os traços haviam sido estabelecidos por dez intelectuais brasileiros, solicitou-se aos Ss, de ambos os sexos, cuja escolaridade variava de média a superior, que escolhessem em primeiro e segundo lugares as melhores descrições, na sua opinião, do brasileiro. Registrou-se uma concentração muito significativa, em primeiro e segundo lugares, nas listas de traços estabelecidas por Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda. Segundo Leite, os traços descritivos do brasileiro, por esses sociólogos, são os seguintes:


Sergio Buarque de Holanda:

Culto da Personalidade, Falta de Hierarquia, Desordem, Ausência de espírito de organização espontânea, Inquieto e desordenado; Ânsia de prosperidade sem custo, de posição


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e riqueza fáceis; Aventureiro; Inteligência como ornamento e prenda; Cordialidade; Individualismo.



Gilberto Freyre:

Sadismo no grupo dominante e masoquismo nos grupos domina dos; Animismo; Crença no sobrenatural; Gosto de piadas picantes; Erotismo; Gosto de ostentação; Personalismo; Culto sentimental ou místico do pai; Maternismo; Simpatia do mulato; Individualismo e interesse intelectual permitidos pela vida na "plantação"; Complexo de Refinamento.

De Gilberto Freyre, os autores desta pesquisa excluiram os traços "Simpatia do mulato e Interesse intelectual permitidos pela vida na plantação", por não serem relevantes na atual pesquisa e se localizarem no contexto específico da vida patriarcal. Já da lista de Sérgio B. de Holanda, foi excluído o traço "Ausência de espírito de organização espontânea", por oferecer possível dificuldade de compreensão dos Ss no contexto da atual pesquisa. Os pesquisadores acrescentaram os seguintes traços e que consideraram relevantes para o contexto social do brasileiro nesta década de 80:

Os pesquisadores:

Barulhento; Trabalhador; Patriota; Pouco desenvolvido fisicamente; Respeitador das leis, regulamentos e normas; Não valoriza o tempo; Valoriza sua origem étnica (portuguesa, negra e indígena); Fiel aos princípios religiosos; Ordeiro (do ponto de vista legal); Fatalista; Como Povo tem boa saúde; Imprevidente.

O questionário final contou com trinta e seis traços e os três níveis de decisão já relacionados. Uma cuidadosa instrução foi elaborada para a leitura dos Ss ou lidas para os Ss - quando não sabiam ler como também uma folha para tomada de dados referentes a cada Ss da amostra.

3.1.1 - Aplicação


O questionário foi aplicado, por dois pesquisadores, em regiões da cidade de Ribeirão Preto, que concentraram populações de renda baixa e média. A aplicação foi
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conduzida nas residências, locais de trabalho e mesmo em via publica. Evitou-se a entrega do questionário para ser respondido e devolvido posteriormente, devido ao alto índice de perda. O Ss era informado da finalidade do estudo, tempo aproximado da demora e que sua resposta seria mantida em sigilo. Durante a aplicação, o pesquisador explicava, em termos comportamentais, traços cujo significa do era desconhecido ou obscuro para o Ss. De uma forma geral, os Ss receberam muito bem o estudo.

3.1.2 - Amostra
A amostra, até o presente, está constituída de 163 Ss, sendo 66 Ss do sexo masculino e 97 Ss do sexo feminino. Quanto ao estado civil, 85 Ss são casados, 66 solteiros, 4 Ss viúvos, 6 Ss desquitados, 1 Ss divorciado e 1 Ss se declarou amasiado. Quanto à nacionalidade, 159 Ss são brasileiros, 1 Ss brasileiro naturalizado e 3 Ss são estrangeiros. A escolaridade dos Ss da amostra e a seguinte: 9 analfabetos; 45 Ss do 1o grau, tendo 27 Ss não completado .este grau; 59 Ss do 2o grau, com 8 Ss sem completar este grau; 50 Ss do 3o grau, tendo 15 Ss não completa do. A religião Católica e a dominante. Os Ss tiveram uma distribuição etária entre 18 e 60 anos de idade.
A amostragem utilizada foi de improbabilidade, sendo, portanto, acidental, em que se tentará - a pesquisa está em andamento - atingir uma quota arbitrária de Ss por classe de atividades, segundo o que propõe Sellitz ­(1965). As classes de atividades escolhidas foram as seguintes: Agricultura, Administração Publica, Bancários, Comércio, Donas-de-Casa e Domesticas, Estudantes, Aposentados, Indústria, Construção Civil, Professores, Profissionais liberais, outras.


  1. Resultados e Discussão.

O exame da Tabela 1 permite, de uma forma geral, verificar que os traços atribuídos ao brasileiro por Gilberto Freyre e Sergio B. de Holanda, apresentam um percentual alto de concordância na nossa amostra. Os traços que ob­tiveram, respectivamente, a mais alta e a mais baixa concordância foram os seguintes: Gosta de piadas picantes, 95.7% e Como Povo, tem boa saúde, 24.5%. Do total de 36


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traços pode-se verificar que dezessete traços obtiveram alta concordância e seis traços alta discordâcia.

TABELA 1

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São eles os seguintes: Concordância - gosta de piadas picantes, desejoso de posições e riqueza fáceis, alegre, hospitaleiro, barulhento, gosto da ostentação, imitador do estrangeiro, ansioso de subir a qualquer custo: aventureiro, fatalista, acredita no sobrenatural, sádico quando está no poder e masoquista quando está "por baixo" individualista, não valoriza o tempo.
Os traços com significativa discordância são os seguintes: sem preconceito racial, respeitador das leis, regulamentos e normas, disciplinado, como povo tem boa saúde, e, com menor discordância os seguintes: valoriza sua origem étnica e fiel aos princípios religiosos. Observou-se, portanto, uma confirmação de nove traços dos indicados por Gilberto Freyre, e, sete dos oito traços indica dos por Sergio B. de Holanda. Para nossa amostra, o brasileiro continua cordial, e, o que e mais surpreendente: alegre, contrariando as teses de Paulo Prado (1928) e a situação social em que vivemos.

Outro dado característico desta amostra e que os Ss optaram com baixa frequência para a coluna "não tenho opinião", sugerindo, portanto, que os mesmos têm uma imagem social do brasileiro. O traço onde se observou maior concentração naquela coluna foi "cultua sentimentalmente ou misticamente a figura do pai". Esta dificuldade dos Ss


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foi verbalizada muitas vezes quando respondiam ao questionário. Diziam, por exemplo, coisas como esta: "As gerações mais velhas cultuavam. As mais novas não estão nem aí".

Confirmando, por outro lado, o que de nós já disse Alceu Amoroso Lima de que somos hipocritamente racistas, a amostra discorda 60,1% de que o brasileiro não tenha preconceito racial. Estes dados vêm também de encontro aos que obteve Rodrigues no Rio de Janeiro (1984). Surpreendentemente, os dados também sugerem um possível preconceito religioso exercido pela maioria católica contra os crentes de outras religiões.

Este perfil provisório do brasileiro, cujos limites de interpretação devem ficar na região de Ribeirão Preto, mostram dados que vão de encontro com a literatura do caráter nacional. Provisoriamente, é possível detectar uma personalidade modal onde existem e coexistem traços como de uma forte religiosidade coexistindo com frequentes conflitos com uma sensualidade maior que vem dos tempos coloniais. Há também uma sugestão, ao nível psicológico, de uma personalidade autoritária onde o sadismo e o masoquismo se expressam na situação de Poder. A pouca valorização do tempo, a imprevidência aparecem para confirmar a já hoje institucionalizada impontualidade brasileira.

Naturalmente, sem que fossem provocados, muitos Ss da amostra revelaram um grande inconformismo com o que o brasileiro é hoje. Verbalizavam desejo de mudança. Mas se isto será feito algum dia e em que direção, é uma questão para as futuras gerações.

Finalmente, quando os pesquisadores tiverem concluído este estudo, verificar-se-á por uma análise estatística se existem diferenças no perfil do brasileiro por Ss de sexos diferentes, escolaridade, regiões do Brasil, níveis sócio-econômicos e faixas etárias.


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Referências


  1. Dufrenne, M. La Personnalité de Base. Paris, Presses Universitaires de France, 1959.




  1. Inkeles, A., Levinson, D.J. National Character: The Study of Modal Personality and Sociocultura1 Sys­tems. In: The Handbook of Social Psychology. 2nd ed, Reading, Massa., Add1son-Wesley, 1969.




  1. Freyre, G. Interpretação do Brasil. Trad. Olivio Mon­tenegro. Rio de Janeiro, José 0lympio, 1947.




  1. From, E. Escape from freedom. New York, Rinehar, 1941.




  1. Holanda, S. B. Raízes do Brasil. Prefácio de Antonio Cândido, 15a. ed., Rio de Janeiro, José 0lympio, 1982.




  1. Klinebert, O. Psychologie et caractère national. ­vue de Psychologie des Peuples, 1, janeiro, 1948.




  1. As Diferenças Raciais. Trad. Giaconda Mussolini, S. Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966.




  1. Kardiner, A. The concept of basic personality structure as an operational tool in the social science. In: Haring, Dougalas, G. (Eds) Personal Character and Cultural Milleu. Syracuse, Syracuse University Press, 1948, pags. 431-447.




  1. Kardiner, A., Linton, R., Du Bois, C. e West, J. The Psychological Frontiers of Society. New York. Columbia University Press, 1945.




  1. Leite, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro: História de uma Ideologia. 3a. ed., Pioneira, São Paulo, 1976.




  1. McDavid, J. W. and Harari, H. Psy-chology and Social Behavior. New Vork, Harper & Row, 1974.

12.Mata, Carlos C. Ideologia da Cultura Brasileira (l933­-1974), São Paulo, Ática, 1977.

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13.Prado, Paulo. Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tris­teza Brasilelra. Ed. Dupra-Mayença, São Paulo, 1928.


14.Rodrigues, A. Some Social-psychological Characteris­tics of Brazilians. In: XXIII International Congress of Psychology, Acapulco, Mexico, 2-7 septemb­er, 1984.
15.Selltiz, C., Jahoda M., Deutsch, M. e Cook, S.M. Métodos de pesquisa das Relações Sociais. Trad. Inah de Oliveira Ribeiro, São Paulo, Ed. Helder, 1965.

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NOTICIÁRIO DA ABRAPSO


A ABRAPSO esteve presente na 38a Reunião Anual da SBPC, em Curitiba-PR, durante julho-86.


Participou com um curso sobre Mudanças Políticas no Brasil (Prof. Dr. Salvador Sandoval, Prof. Dr. David Fleischer, Prof. Marcos Goursand de Araújo); uma mesa-redonda sobre Dogmatismo na Psicologia; um simpósio sobre Organização Comunitária e práticas de intervenção do Psicólogo (prof. Alberto Asib Andery, Rosa Cristina Montei­ro); um simpósio sobre Questionamentos em torno das atividades de estágio em Psicologia Organizacional (Prof. Dr. Sigmar Malvezzi, Praf. Jose C. Zanelli, Prof. Celso Correa e Prof. Carlos Perano); um simpósio sobre a Questão Epistemológica e Metodológica na Pesquisa em Psicologia Social (Prof. Brígido V. Camargo, Prof. Dirceu Malheiros, Profa Rosa Nader e Profa Clélia Schulze). Tivemos ainda, nossa Assembléia Geral Anual.
Além do número de atividades que pudemos organizar, resultante dos trabalhos de pesquisa realizados por nossos sócios e convidados, pôde-se ressaltar a grande afluência de interessados nesses trabalhos (tivemos sempre entre 70 e 100 espectadores não passivos, mas questionadores, participantes com opiniões e experiências para trocar).

Esperamos poder continuar e progredir nas nossas futuras realizações!

Aos interessados nos trabalhos, podemos colocar em contacto com os participantes: mande-nos sua carta e nós a remeteremos ao autor em questão.

A nossa Assembléia Geral foi realmente importante: tratou dos estatutos, que vinham sendo discutidos nas Assembléias Regionais e na Reunião de Diretoria de maio­ 86. A forma final desses estatutos está transcrita neste número da Revista para conhecimento de todos os associa dos e demais interessados. (ver anexo)


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Outro item importante da pauta da Assembléia Geral foi o da anuidade já que os novos estatutos mudaram sua forma de aprovação. A anuidade para o período julho-86 ate junho-87 foi fixada em 2 (duas) OTNs, o que, no momento, significa o total de Cz$ 212,00 (duzentos e doze cruzados). Durante este período os associados receberão no mínimo 2 (dois) números da Revista (e este e o 1o deles: você está em dia?); continuarão gozando de descontos nos nossos Encontros, dos quais participar e estará em dia com a nossa Psicologia Social (vamos colaborar para continuar a existir?).

E já em 07-08-09 de novembro de 1986, acontecerão em Belo Horizonte-MG, o II Encontro Nacional da ABRAPSO. Você está convidado a apresentar trabalhos na área de Psicologia Social e suas relações com Saúde, Educação, Psicanálise, Arte e Cultura, Psicologia Comunitária e Ecologia Humana, Violência, Política.

Inscreva-se, entrando em contacto com a FAFICH-UFMG Depto. de Psicologia Social - Rua Carangola, 288 - Bairro Santo Antonio - Belo Horizonte-MG. (Você deve mandar um resumo do seu trabalho. Para maiores informações, entre em contacto com sua Regional, ou com a própria secretaria do Encontro).


Participar é também escrever para a nossa Revista!

Mande seu artigo, relato de experiência, ponto-de-vista teórico!



NORMAS PARA PUBLICAÇÃO:
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E não se esqueça! ELEIÇÕES!


Constituinte? Também!

Mas, as nossas eleições devem ocorrer em julho-87, durante a Assembléia Geral, na SBPC. Uma comissão eleitoral deverá ser formada a partir do Encontro Anual de Novembro-BH. Você é parte atuante de um grupo de sócios da ABRAPSO, cuja regional está pronta para trabalhar como sede Nacional pelos próximos dois anos?

Então, prepare-se! As normas para as eleições chegarão após o Encontro de Novembro!

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ESTATUTO DA ABRAPSO
(Conforme aprovado na Assembléia Anual, realizada, na SBPC - dia 14/07/86)


ART. 1o - A Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), fundada em 10 de julho de 1980, é uma sociedade civil, autônoma, com fins não lucrativos, com duração por prazo indeterminado, com sede na cidade de residência de seu presidente, eleito, para cada período, e destinada a congregar pessoas que se interessam pelo desenvolvimento da Psicologia no Brasil.

§ ÚNICO - No momento de sua criação, a ABRAPSO é sita à Rua Ministro de Godoy no 1.029 - 3o andar - sala 326, no Bairro Perdizes, de CEP 05015, no Município de São Paulo, São Paulo.

ART. 2o - A ABRAPSO TEM POR FINALIDADES:

a) garantir e desenvolver as relações entre pessoas dedicadas ao estudo, ensino, investigação e aplicação da Psicologia Social no Brasil;

b) propiciar a difusão e o intercâmbio de informações sobre o desenvolvimento do conhecimento e prática da Psicologia Social;

c) organizar conferências e cursos e promover a publicação de trabalhos de interesse para o desenvolvi­mento da Psicologia Social.



ART. 3o - Há três categorias de sócios: fundadores, titulares e acadêmicos.

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