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Memorándum 17, out/2009

Belo Horizonte: UFMG; Ribeirao Preto: USP

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Mahfoud, M.; Massimi, M. (2009). Editorial. A relevancia das contribuicoes filosóficas para o estudo da pessoa e para a construgao da psicologia. Memorándum, 17, 01-07. Retirado em / / , da World Wide Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al7/edl7.pdf

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Graminha, M. R. & Bairrao, J. F. M. H. (2009). Torrentes de sentidos: o simbolismo das aguas no
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Torrentes de sentidos: o simbolismo das aguas no contexto umbandista

Torrents of senses: the symbolism of water on the Umbanda context

Marina Rachel Graminha José Francisco Miguel Henriques Bairrao

Universidade de Sao Paulo

Brasil Resumo

Esta pesquisa objetivou averiguar a possível existencia de urna concepgao de emogao intrínseca aos sentidos das aguas na umbanda. Para tanto, examinou-se o simbolismo das aguas presente em letras de músicas rituais da umbanda (pontos cantados). Foram coletados aproximadamente 1200 pontos e selecionados 155 que aludem á agua. Averiguaram-se correlagoes entre qualidades de agua e elementos significantes correlatos (rio, mar, cachoeira, areia, barco etc.) e os seus significados expressos no contexto das letras. As categorías de significados das aguas encontradas foram: maternidade, segredo, nutriéncia, luz, batismo, vida e morte, balango, limpeza e variagoes e nuances do tónus afetivo. Nos pontos, estes sentidos sao fluidos e permeiam uns aos outros. Conclui-se que na umbanda o simbolismo das aguas comporta urna concepgao que Ihe é peculiar de emogoes, porém permeada de nuances de sentido que ultrapassam o ámbito psicológico e assumem conotagoes éticas e ontológicas. Palavras-chave: emogoes; simbolismo; etnopsicologia; umbanda; psicología da religiao.

Abstract

This research aims at verifying the possible existence of a conception about emotion intrinsic to the senses of water in Umbanda. In order to do so, the symbolism of water present on the lyrics of Umbandás ritual music {pontos cantados) has been analysed. Twelve hundred lyrics were collected and 155 were selected, because they allude to water. It has been found correlations between qualities of water and significant correlate elements (river, sea, waterfalls, sand, boat etc) and their meanings expressed in the lyrics. The categories of meanings of water found were: maternity, secret (mystery), nutrience, light, baptism, life and death, swinging, cleanliness and also variations and nuances of affective tonus. In the lyrics, these senses are fluid, and permeate each other. Thus, in Umbanda, the symbolism of water has a conception that is peculiar concerning emotions, although permeated of nuances of senses that go beyond the psychological field and undertake ethical and ontological connotations. Keywords: emotions; symbolism; ethnopsychology; umbanda; psychology of religión.

Introducao

A umbanda é urna religiao afro-brasileira que incluí ritos de possessao por espirites mais ou menos associados a aspectos da natureza. Entre estes, existe o chamado "povo das aguas", em que se incluem espirites de marinheiros, caboclas e outros. Durante os rituais, os médiuns em transe utilizam-se da agua de diversas maneiras: recomendam banhos e chas aos chamados consulentes e podem ser feitos com diversas ervas, flores e sal.

A agua aparece também nos pontos cantados (músicas rituais) que evocam diversos modos deste elemento surgir na natureza em suas letras, revelando os seus usos ñas giras (rituais de possessao) e o seu simbolismo no culto.

O enfoque ñas músicas rituais nao é inédito. Segundo Carvalho (1997, p. 96), estes textos pertencem á esfera do sagrado e tratam de urna intrínseca rede poético-discursiva, sobre a qual muito ainda falta saber:

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trata-se de pequeños cánticos, carregados de valor ritual, no momento em que foram gerados no contexto específico de urna tradigáo religiosa (...)■ Compostos predominantemente no modo lírico, esses fragmentos se vinculam a um rico universo mítico que nao é necessariamente descrito por eles; pelo contrario, a mitopoética desses cantos existe para modificar e expandir esse mesmo universo de origem. O autor acrescenta:

E na medida em que formam urna tradigao eminentemente oral, nao sao "petrificados pela escrita", como é o caso das escrituras sagradas a que as reflexoes da maioria dos filósofos se referem, mas sao fixados (ou melhor, contidos) pelo verso, pelas melodías a eles associadas e pelas varias condigoes rituais a que se submete a sua criagao (ídem, p. 97).

Vale ressaltar que os pontos nao tém datagao, pois se trata de tradigao oral. Muitos recebem influencia de músicas populares brasileiras, enquanto outros sao criados e só circulam dentro de um terreiro, o que torna impossível datar ou determinar a sua autoría.

Estudiosos da possessao tém defendido que esta funcionaría como urna especie de linguagem capaz de expressar diferentes vivencias pessoais e sociais (Crapanzano & Garrison, 1977; Lambek, 1988). No caso específico da umbanda e em particular do manejo das aguas, ritual e simbólico, nao raramente umbandistas experientes costumam assinalar a sua vinculagao a aspectos da vida emocional humana.

Fica, no entanto, por esclarecer o que no contexto umbandista se compreenderia como emogao e mesmo se o estudo do simbolismo das aguas poderia prestar-se á investigagao de urna concepgao de emogao umbandista.

Este estudo nasceu da tentativa de sanar essa lacuna do saber etnopsicológico sobre a cultura religiosa brasileira. Objetiva averiguar a possível existencia de urna concepgao das emogoes intrínseca aos sentidos das aguas ñas práticas religiosas umbandistas através da análise das letras de pontos cantados (músicas rituais).

É muito importante sublinhar que a umbanda nao é urna religiao ¡solada, dada a sua permeabilidade e maleabilidade ao imaginario brasileiro, e, ao estudar a possível existencia de urna concepgao de emogoes intrínseca as suas práticas, no fundo o que se investiga é algo que provavelmente vai além do contexto estritamente umbandista, alcangando decodificar a linguagem comum á espiritualidade popular brasileira sumarizada pela umbanda.

Por outro lado é importante nao perder de vista que a proposta de urna etnopsicologia nao pode se desenvolver sem tomar como contraponto as elaboragoes científicas desenvolvidas a respeito do tema estudado. adiante averiguadas.

O simbolismo das aguas

Foi realizado um levantamento sobre o simbolismo das aguas na literatura internacional e brasileira a fim de realizar um diálogo com os dados encontrados no simbolismo das aguas na umbanda.

Posto que a umbanda tem-se mostrado capaz de acolher e elaborar a memoria coletiva de experiencias históricas muito significativas e de unir e recriar concepgoes religiosas provenientes dos diversos segmentos étnicos que se miscigenaram para compor o povo brasileiro, na prática e na vivencia religiosa dos seus adeptos, havendo um ampio tránsito de adeptos e sendo difícil estabelecer fronteiras rígidas entre esta religiao e outros cultos brasileiros que em larga medida com ela se interpenetram e com ela compartilham o mesmo imaginario, tais como o candomblé, a barquinha e o daime, a literatura disponível sobre o significado das aguas nestes contextos foi igualmente considerada, na qualidade de apoio e eventualmente de contraponto.

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Há diferentes maneiras de se estudar o simbolismo das aguas. Em muitos dos autores estudados, pode-se observar que a agua está ligada á vida, á fertilidade e, principalmente, á maternidade, podendo esta última ser considerada a principal significagao desse elemento.

Araújo (1999) pesquisou o simbolismo das aguas no Centro Espirita e Culto de Oragao Casa de Jesús Fonte de Luz, casa esta que segué a religiao da Barquinha (um dos cultos de origem amazónica ligados á ingestao da ayahuasca). Nesse trabalho, ele apresenta as concepgoes dos participantes sobre o significado das aguas naquele ritual. Um dos participantes afirma que:

(...) podemos dizer que a agua é luz, vida e fonte de rica energía positiva do divino. O Daime é um dos meios de conexao com o sagrado, um dos elementos condutores da troca vertical entre os homens e os seres divinos (p. 81).

E ainda, segundo o autor, há urna equivalencia entre o daime e o mar para os praticantes. Araújo (1999) ressalta a importancia ritual do daime e da agua, destacando que essa nao é considerada urna agua qualquer, mas sim aquela utilizada com um objetivo específico, sagrado, de cura.

Cirlot (1984) fala sobre o simbolismo das aguas de urna maneira geral, e o associa á temática da vida e da criagao. Cirlot (1984, p. 62) ressalta também a característica feminina das aguas ñas mais diversas culturas. Afirma:

nos Vedas, as aguas recebem o apelido de mártritamáh (as mais maternas), pois, a principio, tudo era como um mar sem luz. Em geral, na India, considera-se esse elemento como o mantenedor da vida que circula através de toda a natureza, em forma de chuva, seiva, leite, sangue. Ilimitadas e imortais, as aguas sao o principio e o fim de todas as coisas da térra.

Desta forma, pode-se observar a associagao da agua com a criagao. Joseph Campbell (www.context.org/campbell.html), a partir de sua leitura do Antigo Testamento, no qual é afirmado que Deus criou tudo menos a agua, afirma que:

a agua é a deusa. O que aconteceu no Antigo Testamento é que o principio masculino permaneceu personificado e o principio feminino é reduzido a um elemento. O primeiro verso diz que quando Deus criou, o sopro de Deus ressoou sobre as aguas. E a agua éa deusa.

A temática da criagao na literatura nao se esgota. No contexto do candomblé entendido estritamente como um culto brasileiro que se apóia sobre contribuigoes religiosas africanas, sem quaisquer preocupagoes de aferir a sua fidelidade ao que supostamente teria sido o seu significado anterior á sua recepgao e reelaboragao no Brasil (o que para efeito deste estudo seria irrelevante), Vallado (2002), ao falar sobre os mitos de criagao dos orixás, afirma que Olodumaré criou Iemanjá para ajudar na criagao do mundo, para nao se sentir só. Olodumaré é um orixá masculino responsável pela criagao do mundo e que jorrou as aguas, segundo o mito, e criou Iemanjá, orixá feminino que ficou responsável por todas as cabegas que pensam e pela casa (que seria o mundo como um todo).

Iemanjá é um orixá que, no Brasil, está ligada as aguas salgadas. Desta maneira, podemos observar um estreitamento entre os dois mitos de criagao e a constante associagao da agua com o elemento feminino, também responsável pela vida. Ademáis, Cirlot (1984) fala da maternidade das aguas e de sua associagao com o inconsciente, como algo imerso. Afirma: "interpretado pela psicología atual como símbolo do inconsciente, quer dizer, da parte informal, dinámica, causante, feminina do espirito. Das aguas e do inconsciente universal surge tudo o que é vívente, como da mae" (p. 62). Araújo (1999, p. 82) afirma algo semelhante, ainda na trilha da agua como vida e fecundidade. Diz:

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é preciso afirmar que o homem, ao tomar contato com a agua, se regenera e, portanto, nasce novamente. Reintegra-se e com isso executa um gesto primordial. (...) Com isso, podemos deduzir que a agua é um símbolo de vida e fecundidade. Nela há um reordenamento cíclico.

Cirlot (1984, p. 62) ilustra essa simbologia através do ritual de batismo. Ele mostra essa característica cíclica da agua e o porqué de sua utilizagao num ritual de batismo. Afirma que:

as aguas superiores e inferiores se encontram em comunicagao, mediante o processo da chuva (involugao) e da evaporagao (evolugao). Intervém aqui o elemento fogo como modificador das aguas e por isso o sol (espirito) faz que a agua do mar se evapore (sublima a vida). A agua se condensa em nuvens e retorna á térra em forma de chuva fecundadora, cuja dupla virtude deriva de seu caráter aquático e celeste. (...) Em suma, as aguas simbolizam a uniao universal de virtualidades, fons et orígo, que se encontram na precedencia de toda forma ou criagao. A imersao ñas aguas significa o retorno ao pré-formal, com seu duplo sentido de morte e dissolugao, mas também de renascimento e nova circulagao, pois a imersao multiplica o potencial da vida.

O mesmo autor afirma que o simbolismo do batismo está estreitamente relacionado com o das aguas. Segundo ele, "representa a morte e a sepultura, a vida e a ressurreigao... quando mergulhamos nossa cabega na agua, como num sepulcro, o homem velho fica imerso, enterrado inteiramente. Quando saímos da agua, o homem novo aparece súbitamente" (ídem, p. 63).

A agua como elemento transitorio, também foi algo comentado por Bachelard (1942/1989). Segundo ele,

a agua é realmente o elemento transitorio. É a metamorfose ontológica essencial entre o fogo e a térra. O ser voltado á agua é um ser em vertigem (...) a morte cotidiana é a morte da agua (...) a morte da agua é mais sonhadora que a morte da térra: o sofrimento da agua é infinito (p. 7).

Quanto á associagao comum entre maternidade e agua, Bachelard (1942/1989) explorou-a relacionando natureza, agua e maternidade. Em primeiro lugar, afirma que "a natureza é urna projegao da mae" (p. 120). Posteriormente, afirma que "primeiro, todo líquido é urna agua; em seguida toda agua é um leite" (p. 121).

Bachelard (1942/1989, p. 6) comega dizendo que a agua é um elemento "mais feminino e mais uniforme que o fogo, (...) mais constante que simboliza as forgas humanas mais escondidas, mais simples, mais simplificantes". Completa que:

quando tivermos compreendido que toda a combinagao dos elementos naturais é, para o inconsciente, um casamento, poderemos perceber o caráter quase sempre feminino atribuido á agua pela imaginagao ingenua e pela imaginagao poética. Veremos também a profunda maternidade das aguas (...) a fonte é um nascimento irresistível, um nascimento continuo (p. 15).

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Ademáis, Bachelard (1942/1989) diz que, sendo a agua um alimento completo, ela

também representaría a volúpia feminina, justamente devido a essa associagao com o

leite e, conseqüentemente, com o seio, símbolo do feminino. Assim, ele acrescenta que

"a agua tomou a propriedade da substancia feminina dissolvida" (p. 131). Diz ainda que

o movimento das aguas também é característico da representagao do feminino, pois a

agua "embala como urna mae" (p. 137).

Durand (1997) aproxima-se destas afirmagóes de Bachelard (1942/1989) ao afirmar

que: "(...) eterno feminino e sentimento de natureza caminham lado a lado na literatura"

(p. 233). O mar seria para ele o elemento embalador.

Cirlot (1984, p. 64) também fala da maternidade e do feminino. Cita as grandes maes

que sao sempre associadas as aguas. Diz:

Segundo Evola, em La Tradizione Ermetica, "Sem a agua divina, nada existe, disse Zózimo. De outra parte, entre os símbolos do principio feminino figuram os que aparecem como origem das aguas (mae, vida), assim, térra mae, mae das aguas, pedra, caverna, casa da mae, noite, casa da profundidade, casa da forga, casa da sabedoria, selva, etc. A palavra divina nao deve induzir ao erro. A agua simboliza a vida terrestre, a vida natural, nunca a vida metafísica".

Percebe-se aqui, num autor vinculado as concepgóes religiosas que derivam do monoteísmo abrahámico (judaismo, cristianismo e islamismo) um misto de admissao do simbolismo da agua como feminino e vida combinado a um viés patriarcal, que rejeita a associagao do feminino ao sagrado.

Em contrapartida, Durand (1997, p. 200) cita culturas que adoram divindades femininas ligadas as aguas. Para ele, a agua:

(...) liga a idéia de riquezas, a nogao de plural, a figuras femininas da fecundidade, da profundidade aquática ou telúrica. É o que acontece com os Agvinos ligados a Püshan, deus da vida, "doador de riquezas", "massa divina", que se concentram na figura feminina de Sarasvati, deusa das aguas maes. Doadora de vida e posteridade, portadora do alimento do leite, do grao e do mel, abrigo á prova de tudo, inviolável refugio.

Durand (1997) indica outros casos de povos que relacionam as aguas ao culto de divindades consideradas grandes deusas e maes. Entre eles, destaca o culto chileno e peruano á baleia e refere que, entre os bambaras, o deus Faro, grande deus do Níger, frequentemente adquiría forma feminina e seu corpo terminava numa cauda de peixe, com barbatanas ñas orelhas. Durand (1997, p. 226) também se reporta a Przyluski, dizendo que este "reduz os nomes semíticos da Grande Deusa, a Astarte siria, a Asthar árabe, a Ishtar babilónica, a Tanit cartaginesa, a urna forma "Tañáis" estreitamente ligada a "Nanai", que seria um antigo nome da agua e do rio".

Arthur Ramos (1940, p. 305) fala sobre a simbologia de Iemanjá no candomblé, afirmando que "Iemanjá é a ¡mago materna e no rico simbolismo do seu culto representa a mae d'água, a mae peixe". Diz ainda que "a ¡mago materna torna-se mais evidente com o sincretismo católico, onde Iemanjá se torna Nossa Senhora do Rosario" (p. 307). Ramos (1940, p. 314) também faz um paralelo entre Iemanjá e deusas de outras crengas. Afirma que:

as crengas ligadas as aguas tém urna difusao universal. Verificou Sebillot que as aguas, nos varios folclores, influem sobre a fecundidade, a abundancia do leite etc. Isso tem a sua ¡mediata explicagao psicanalítica, quando se sabe a significagao simbólica da agua. Quase todas as fantasías infantis concernentes á agua, como já vimos para os sonhos, exprimem símbolos de nascimento.

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Ramos (1940) refere também a representagao de Iemanjá como uma muiher e seu lado sedutor e voluptuoso. Assim, afirma que Iemanjá "é representada comumente nos candomblés sob a forma de uma figura feminina de grandes seios que simbolizam a fecundidade. (...) Há sempre um curioso simbolismo de amparo e protegao" (p. 309). Ramos (1940) comenta a concepgao de um desejo incestuoso perante essa representagao de mae. Deste modo, afirma que:

a mae d'água é, evidentemente, a ¡mago materna. A atragao das aguas, (...) o "canto da sereia", o feitigo de Yara e de Iemanjá, nada mais exprimem do que a atragao incestuosa, o desejo inconsciente de volta ao regago materno. Mas como o incesto é tabú, é punido terrivelmente com a morte (p. 317).

Completa: "o motivo da punigao ocorre freqüentemente, mas de maneira disfargada e simbólica, ñas superstigoes, lendas e contos populares do Brasil. A mae d'água pune aquele que déla se aproximar. A bengao transforma-se em maldigao" (p. 320). E ainda: "a Yara que se torna aqui masculino, é a resultante de uma condensagao do pai temível que castiga o filho incestuoso. (...) A mae fálica torna-se perversa e cruel. Pune e devora os filhos, como está em varios mitos e contos populares" (p. 329). Ramos (1940) comenta Jung ao falar sobre essa representagao da mae fálica. Afirma que:

Jung insistiu sobre essa longa serie de monstros marinhos, símbolos da mae terrível. (...) Entre ¡numeras notas, lembra ainda Jung que o radical mar significa morrer. (...) A fantasía da mae fálica explica a transformagao de Iemanjá e da Yara em entidades masculinas e demoníacas, o que vinha intrigando os folcloristas (p. 330).

Na umbanda, assim como no candomblé, os orixás femininos e ligados as aguas mais freqüentes sao Iemanjá e Oxum, que se diferenciam pelo fato de Iemanjá estar ligada as aguas salgadas e Oxum as aguas doces. Assim, Iemanjá e Oxum, além de serem consideradas donas dos dominios das aguas, também estao muito ligadas aos sentimentos humanos, tanto ao amor quanto ao odio. Estas relagoes simbólicas das emogoes podem estar relacionadas aos movimentos das aguas, que sao instáveis (Vallado, 2002). Iemanjá estaría mais associada ao papel de mae, já que, como está mais ligada as aguas do mar aqui no Brasil, o seu "humor" também estaría mais propenso a oscilar (relagao simbólica com o movimento das ondas). Já Oxum, como estaría mais ligada as aguas doces, teria como papel guardar os sentimentos humanos, por isso seria mais "doce". Assim, sao consideradas maes, porque protegem e defendem, assim como punem.

Também Iansa e Nana sao orixás "femininos" de grande importancia e, no Brasil, ligadas respectivamente aos ventos e tempestades e á agua pantanosa, parada. Seus "humores" também sao associados a qualidades das aguas e seus movimentos (Iansa é tempestuosa; Nana é associada á figura de uma velha, a "avó", calma e sabia). É importante ressaltar a diversidade da forma como a agua aparece na natureza. Essa diversidade acaba por contribuir para as diferentes nuances com relagao ao simbolismo das aguas, apesar dos aspectos em comum, como citado ácima, em relagao aos orixás. Assim, Cirlot (1984) fala das diferentes manifestagoes simbólicas aquaticas. Sao elas: a chuva, o mar, o rio e as nuvens.

Quanto á chuva, Cirlot (1984) destaca o seu caráter feminino, de fertilidade, porém também destaca seu caráter intermediario. Deste modo, afirma que:

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a chuva tem um primeiro e evidente sentido de fertilizagao, relacionado com a vida e com o simbolismo geral das aguas. Além disso, e pela mesma conexao, apresenta um significado de purificagao, nao só pelo valor da agua como "substancia universal", agente mediador entre o informal (gasoso) e o formal (sólido), admitido por todas as tradigóes, mas sim pelo fato de que as aguas da chuva provém do céu. Por esta razao, tem parentesco com a luz (p. 159).

Rene Guénon (1993) também destaca a relagao da chuva com o sol e com a luz. Assim, ao falar dos símbolos escritos em urna tabula siria, Guénon (1993, p. 320) afirma que: (...) as aguas estao figuradas por urna serie de linhas onduladas totalmente semelhantes áquelas que se vé nos raios do Sol. A verdade é que, em virtude do que já explicamos, nao existe nisso qualquer contradigao: a chuva, que naturalmente se liga ao símbolo geral da agua, pode na realidade ser considerada como proveniente do Sol. Além disso, como ela é um efeito do calor solar, sua representagao pode legítimamente confundir-se com a do próprio calor. (...) A propósito dessa questao, é necessário notar ainda que o fogo e a agua sao dois elementos opostos, oposigao esta que, no entanto, consiste apenas na aparéncia exterior de um complementarismo.

Cirlot (1984) afirma que as nuvens, assim como a chuva, sao intermediarias entre o formal e o informal e também associadas á fertilidade. Por isso, o simbolismo das nuvens e da chuva se aproxima, porém com urna diferenga: a chuva está mais ligada á luz, e as nuvens á metamorfose. Assim, assevera que:

as nuvens apresentam dois aspectos principáis: de um lado, se relacionam com a névoa, com o mundo intermediario entre o formal e o informal; de outro, constituem o océano das "aguas superiores", o reino do antigo Netuno. No primeiro aspecto, a nuvem simboliza fenómenos e aparéncias, sempre em metamorfose, que escondem a identidade perene da verdade superior. No segundo caso, as nuvens sao progenituras de fertilidade e podem relacionar-se analógicamente com tudo aquilo cujo destino seja dar fecundidade (p. 419).

Já ao falar das aguas manifestadas na térra, como o rio e o mar, Cirlot (1969/1984) destaca também a simbologia da fertilidade. Porém, essas duas qualidades da agua possuem simbologias próprias. O mar estaria ligado á vida, á fecundidade, porém também estaria relacionado á morte. Desta maneira, Cirlot (1969/1984, p. 372) afirma que:

seu sentido simbólico corresponde ao do "océano inferior", ao das aguas em movimento, agente transitivo e mediador entre o informal (ar, gases) e o formal (térra, sólido) e, analógicamente, entre a vida e a morte. O mar, os océanos, sao considerados assim como a fonte da vida e o final da mesma. "Voltar ao mar" é como "retornar á mae", morrer.

Já o simbolismo do rio estaria mais ligado ao transcorrer do tempo. O autor afirma que o rio "é um símbolo ambivalente por corresponder á forga criadora da natureza e do tempo. Por um lado, simboliza a fertilidade e a progressiva irrigagao da térra; por outro, o transcurso irreversível e, em conseqüéncia, o abandono e o esquecimento" (p. 499).

Memorándum 17, out/2009

Belo Horizonte: UFMG; Ribeirao Preto: USP

ISSN 1676-1669

http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al5/grambair01.pdf



Graminha, M. R. & Bairrao, J. F. M. H. (2009). Torrentes de sentidos: o simbolismo das aguas no
contexto umbandista. Memorándum, 17, 122-148. Retirado em / / , da World Wide

Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al7/grambair01.pdf

Vallado (2002), em seu estudo sobre Iemanjá no candomblé, afirma que os diferentes "tipos" de agua fazem com que haja também variagoes na representagao dos orixás femininos. É o caso das diferentes qualidades de Iemanjá, que sao representadas por diferentes nuances das aguas. Por exemplo, Iemanjá Aoió seria mais feminina, mais calma e ligada á familia e estaría representada pelo alto-mar e lagoas, que sao aguas mais paradas. Já Iemanjá Sessu está associada as profundezas das aguas. Tem como característica ser metódica e ciumenta e, segundo Vallado, apazigua Ogum com suas aguas frias.

Bachelard (1942/1989) também trata das diferentes qualidades das aguas. Quando discorre sobre a agua marinha, aponta o aspecto violento que por vezes é simbolizado por esta. Assim, diz que "a agua violenta é logo em seguida a agua que violentamos. Um duelo de maldade tem inicio entre o homem e as ondas. A agua assume um rancor, muda de sexo. Tornando-se má, torna-se masculina" (p. 16).

Bachelard (1942/1989) afirma que a agua salgada está mais ligada ao masculino. Está também ligada ao nado, robusto. Completa que há urna supremacía das aguas doces na imaginagao poética em relagao as aguas salgadas. Destaca que o mar fábula o distante e por isso é preso a contos e fabulagoes. Afirma que: "o inconsciente marítimo é, portanto, um inconsciente falado, um inconsciente que se dispersa em narrativas de aventuras, num inconsciente que nao dorme. Perde assim, ¡mediatamente, suas forgas oníricas" (p. 159).

A agua é também um grande símbolo de limpeza. Segundo Bachelard (1942/1989), o grande ideal de pureza é a agua clara. Por isso, ele ressalta a supremacía da agua doce com relagao á agua salgada. Afirma que "a agua doce é a verdadeira agua mítica" (p. 158). Destaca-se também que a figura da agua traz urna idéia de pureza e seu uso implica a limpeza do material e do inconsciente.

Embora o simbolismo das aguas parega estar muito ligado á limpeza, Durand (1997, p. 222) destaca diferentes apropriagoes quanto ao uso das aguas. Assim, afirma que: a própria agua, cuja intengao primeira parece ser se lavar, inverte-se sob a influencia das constelagoes noturnas da imaginagao: torna-se veículo por excelencia da tinta (...) Ao mesmo tempo que perde a limpidez, a agua "espessa-se", oferece á vista "todas as variedades da púrpura, como cintilagoes e reflexos de seda furta-cores". (...) Essa agua espessa, colorida e próxima do sangue está ligada no poeta americano á recordagao da mae desaparecida. Esta agua geográfica, que só é pensável em vastas extensoes oceánicas, esta agua quase orgánica á forga de ser espessa, a meio caminho entre o horror e o amor que inspira, é o próprio tipo de substancia de urna imaginagao noturna. Mas também ai o eufemismo deixa transparecer a feminilidade.

Através da leitura da passagem ácima, podemos observar a multiplicidade de significados e inversoes que o simbolismo das aguas pode nos trazer. Essas variagoes e dicotomías sao características da própria agua, segundo Durand (1997), que reflete o mundo á sua volta ao mesmo tempo em que apela para que se submerja dentro déla. Bachelard (1942/1989) utiliza-se da obra de Edgar Poe para falar, de urna maneira poética, dos paradoxos intrínsecos á natureza da agua. Durand (1997, p. 208) comenta-o, afirmando que:

Bachelard mostra em Poe inversoes constantes a propósito das metáforas aquáticas: a agua duplica, desdobra, redobra o mundo e os seres. O reflexo é naturalmente fator de redobramento, o fundo do lago torna-se o céu, os peixes sao os pássaros. Há nesta perspectiva urna revalorizagao do espelho e do duplo.

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Ao investigar o simbolismo das aguas, percebe-se que a agua pode ser encarada tanto como continente quanto como contido. Ao mesmo tempo em que a agua é utilizada como beberagem, também é instrumento de navegagao.

Araújo (1999) fala dessa dualidade. Quando fala do ritual da Barquinha, fala da agua de duas maneiras: aquela usada ritualmente, dentro do cálice sagrado, que simbolizaria o seio materno que produz o leite. Por outro lado, fala do simbolismo do daime como mar sagrado, na qual seus participantes devem prosseguir durante a viagem da vida. Durand (1997) também fala do simbolismo dessa dualidade. Sobre as beberagens sagradas, afirma que:

a virtude dessas beberagens é ao mesmo tempo criar urna ligagao mística entre os participantes e transformar a condigao triste do homem. A beberagem embriagante tem por missao abolir a condigao cotidiana da existencia e permitir a reintegragao orgiástica e mítica (p. 261).

Depois, sobre a agua e a navegagao, Durand (1997, p. 251) fala sobre a continencia da agua e sobre o simbolismo da barca. Desta maneira, segundo o autor,

a alegría de navegar é sempre ameagada pelo medo de "sogobrar", mas sao os valores da intimidade que triunfam e "salvam" Moisés das vicissitudes da viagem. (...) Por que a constelagao que vimos estudando este capítulo é a do continente, e esse aspecto dominante importa mais do que a fixidez ou a mobilidade do utensilio. A tecnología apenas se serve da diferenga entre os continentes fixos (cisternas, lagos, cubas, etc.) e continentes movéis (cestos, barcos de todas as especies, etc.) como de simples artificio taxonómico. Na nogao de continente, nota o tecnólogo, vém fundir­se tres atividades: transporte, transbordamento e colegao. (...) O barco pode, na verdade, ser símbolo de partida, mas é mais profundamente cifra de fechamento. O gosto pelo navio é sempre alegría em fechar-se perfeitamente. (...) O navio é um fato de habitat antes de ser meio de transporte. (...) A barca, mesmo que seja mortuária, participa assim, na sua esséncia, do grande tema de embalador materno. A barca romántica liga-se á íntima seguranga de carga.

Araújo (1999) explora muito a temática da viagem em seu estudo. Afirma que, para os integrantes do Centro Espirita e Culto de Oragao Casa de Jesús da Fonte de Luz a barca possui um papel fundante. O autor diz que:

a barca, para seus integrantes, tem dois significados: o primeiro é o de que representa a própria missao deixada por Daniel [fundador da casa]; e o segundo, expressa a viagem de cada um. Essa barca é a viagem de suas vidas, em resumo, a viagem dentro de urna grande viagem (ídem, p. 76). Mais adiante, o autor traz a idéia de que, naquele centro:

a viagem nada mais é do que urna provagao, onde a agua agitada reflete as tentagoes do mundo de ordem mundana. A agua se agita porque a sociedade humana quebrou determinadas regras divinas. As aguas marítimas exprimem o sentimento descontrolado dos seres humanos e o desgosto do criador (ídem, p. 13).

Desta forma, podemos observar a extrema importancia da agua e da barca nesse culto. O autor ressalta algumas concepgoes que foram trazidas pelos participantes. Assim,

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nessa entrevista, o Daime é considerado urna luz. A luz associa-se á revelagao, a urna ampliagao de conhecimentos, e aqueles que navegam sobre as ondas do mar sagrado gradativamente vao adquirindo conhecimentos para si e urna sensibilidade de enxergar o outro (ídem, p. 83).

Araújo (1999) destaca a relagao da barquinha com a umbanda, justificando as semelhangas entre as duas religioes. Segundo ele,

se a base doutrinal da Barquinha é crista, a Umbanda tem a sua participagao efetiva na construgao dessa religiao, tendo em vista que, através de varios depoimentos de informantes, apurou-se que mestre Daniel, que era maranhense, apreciava esse tipo de prática religiosa (ídem, p. 86).

Apesar do parentesco entre os cultos e do provável compartilhamento de sentidos no atinente ao significado das aguas, assegurado pela comum pertenga ao solo do imaginario brasileiro, há diferengas no emprego de alguns termos e específicamente no caso do uso da palavra "marinheiro". Na barquinha sao chamados de marinheiros os participantes do ritual. Assim, segundo o autor (1999, p. 80):

quando assumem os trabalhos da Barquinha, os fardados sao chamados de marinheiro, pois desempenham tarefas básicas para alcangar um maior grau de luz quando desencarnarem. Se houver urna preparagao agugada por parte dos fiéis, dizem-lhes que estao promovidos a oficiáis e nao mais marinheiros do mar sagrado, urna vez que ocupam, dentro da sua hierarquia religiosa, urna posigao mais elevada.

Na umbanda os marinheiros constituem-se numa classe de entidades espirituais habitualmente subordinada a Iemanjá, muitas vezes entendida como constituida por espirites de pessoas que teriam tido urna vida ligada ao mar ou morrido afogadas. Sao muitas vezes considerados especialistas em trazer equilibrio, especialmente para as emogoes. No ámbito do chamado povo das aguas, sao a categoría mais falante, quando nao a única (exceto algumas caboclas, outras classes, como sereias e "santas", apenas dangam e ás vezes emitem sons lingüisticamente inarticulados).

Muitas classes de entidades espirituais femininas se expressam na vivencia do ritual umbandista com movimentos que remetem ao movimento das aguas, como se estivessem banhando o corpo dos médiuns e chorando. Nos rituais de umbanda a idéia de limpeza parece estar relacionada á agua principalmente nos pontos cantados (músicas rituais). A agua é sempre referida á limpeza do ambiente ou da pessoa que participa da gira (do ritual). O orixá Oxum também parece estar muito relacionado com a idéia de limpeza, visto que a cachoeira é um local sempre referido a esse orixá e é muito utilizado para se efetuar a "limpeza espiritual" de seus praticantes.

Enfim, pode-se observar que os autores, em geral, convergem no que diz respeito ao simbolismo desse elemento. Pode-se ressaltar que, apesar da multiplicidade, varias significagoes foram comuns como a relagao entre agua e feminino, maternidade, fecundidade, vida, limpeza, morada, pureza, nascimento e morte, nutriéncia e ciclo da vida. Deste modo, parece que os estudiosos sobre o simbolismo das aguas encaminham-se para urna convergencia. Um dado a ser destacado é que a literatura sobre simbolismo é bem difundida e, em geral, os autores consultam fontes semelhantes. Assim, deve-se estar atento também para essa convergencia.

No entanto, nao obstante a multiplicidade e proliferagáo de significados das aguas, em momento algum, nem tangencialmente, os mesmos autores estabeleceram associagoes entre o simbolismo das aguas e a codificagáo de emogoes. Caso isto ocorra no contexto umbandista, efetivamente se constituirá numa novidade.

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