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Método

Considerando a complexidade do assunto, em primeiro lugar foi realizado um levantamento bibliográfico em duas vertentes: urna relacionada ao simbolismo das aguas na literatura académica e a outra relacionada á conceituagao de emogoes.

Memorándum 17, out/2009

Belo Horizonte: UFMG; Ribeirao Preto: USP

ISSN 1676-1669

http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al5/grambair01.pdf



Graminha, M. R. & Bairrao, J. F. M. H. (2009). Torrentes de sentidos: o simbolismo das aguas no
contexto umbandista. Memorándum, 17, 122-148. Retirado em / / , da World Wide

Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al7/grambair01.pdf

Em seguida foram coletados pontos cantados de umbanda. A escolha por trabalhar com pontos foi decidida para que fosse possível apreender todas as nuances simbólicas das aguas e examinada a sua hipotética vinculagao á expressao de emogoes dentro do ritual. Foram considerados aproximadamente 1200 pontos, que foram obtidos mediante a cedéncia de apostilas de terreiros, recolhidos de páginas de terreiros da internet, ou que já integravam o acervo documental do Laboratorio de Etnopsicologia. O único criterio de exigencia para a inclusao na análise foi o de que, obrigatoriamente, os pontos teriam de ter eficacia ritual, ou seja, serem utilizados em terreiros.

Destes 1200, 155 pontos foram escolhidos para análise. O criterio foi que os pontos deveriam fazer urna alusao a qualquer qualidade de agua. Buscou-se, através da leitura dos versos dos pontos cantados, observar o simbolismo das aguas presentes na umbanda, verificando se as músicas vinham complementar, discordar ou concordar com a literatura académica, e ainda observar se efetivamente se relacionavam ou nao a emogoes, ou se poderiam codificar alguma concepgao das mesmas.

Para esse efeito, através de leituras acuradas dos pontos cantados, buscou-se observar o que as aguas metaforizavam em cada um deles, a fim de que se pudesse chegar as principáis significagoes atribuidas as aguas na umbanda. Tentou-se identificar versos que fossem paráfrases de significados simbólicos de qualidades das aguas. Quando isso foi possível, substituiu-se esse sentido a ocurrencias do termo que as cifrasse e verificou-se se desta forma se obtinham construgoes com sentido. Além disso, levou-se em conta a possibilidade das mesmas qualidades codificarem mais de um significado, compatíveis entre si, abrindo para múltiplas carnadas de sentido. Posteriormente, cruzaram-se entre si os resultados obtidos nesta etapa, tentando, desta maneira, perceber as nuances simbólicas dos dados.

Em seguida, com base nos significados atribuidos as aguas na literatura sobre simbolismo, em intersecgao com os resultados da análise ácima descrita, foram construidas categorías que pudessem descrever os sentidos rituais e simbólicos das aguas na umbanda.

Finalmente, com base nesta construgao de categorías, avaliou-se e discutiu-se a hipótese inicial sobre a eventual existencia de urna etnoteoria de emogoes no contexto umbandista.

Desta maneira, o trabalho tratou do simbolismo das aguas encontrado ñas letras das músicas rituais e nao da ligagao destas com as entidades que poderiam estar relacionadas; para tanto, seria cabível em um estudo distinto, com urna metodología outra, levando-se em consideragao que esta ligagao varia para cada terreiro. Nao se aplicou nenhuma teoría previa á análise dos dados (versos dos pontos cantados). O que se tentou foi compreender sua significagao a partir do ponto de vista umbandista. Partiu-se do principio de que boa parte do saber etnopsicológico possa ser inconsciente, na acepgao de que nao possa ser ¡mediatamente acessado ou reconhecido por informantes individuáis. Um saber coletivo pode se saber sem que se saiba sabido. Foi por isso que se tentou identificá-lo através de músicas rituais e nao através de entrevistas particulares com informantes, por maior que fosse o conhecimento destes sobre a umbanda.

Resultados e Discussao

Nos 155 pontos selecionados para a análise, foram encontradas palavras designativas das seguintes qualidades de agua: rio, mar, alto mar, beira mar, fundo do mar, ondas, cachoeira, lagoa, fonte, agua (em si mesma), sereno, orvalho, lágrimas, chuva e nevoeiro. Também foram considerados termos que referem realidades que no mundo e nos versos aparecem em contigüidade com qualidades das aguas, tais como areia, barco, navio, jangada, canoa e veleiro.

A leitura dos versos permitiu decifrar os principáis sentidos ligados as aguas encontrados na análise dos pontos, nos próprios termos em que eles se formulam. Encontraram-se: maternidade, batismo, luz, segredo, nutriéncia, limpeza, variagoes e nuances do tónus afetivo, balango e vida e morte (ciclo vital). Vale ressaltar que muitos pontos satisfizeram

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contexto umbandista. Memorándum, 17, 122-148. Retirado em / / , da World Wide

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mais de um sentido, bem como ocorreram os que referem mais de urna qualidade de

agua. Ademáis, as categorías se interelacionam.

Alguns dos pontos cantados repetiram-se entre os terreiros. Quando estes eram

exatamente iguais, foram considerados como sendo o mesmo. Quando a letra variava,

foram considerados pontos diferentes. Verificou-se posteriormente, contudo, que

simbólicamente apresentavam os mesmos significados, ainda que houvessem alteragoes

na letra.

As categorías ácima listadas que também apareceram no levantamento bibliográfico

sobre o simbolismo das aguas, nos pontos cantados apareceram com outros coloridos,

nuances e sentidos.

A maternidade, por exemplo, significado que mais apareceu no levantamento

bibliográfico realizado, aparece nos pontos associada as grandes maes, principalmente

ligada aos orixás Iemanjá e Oxum. Porém, na umbanda, muitas entidades e orixás sao

chamadas de pai e mae, o que nao se torna algo específico da linha das aguas. A

organizagao do culto estrutura-se na forma de famílias-de-santo, que sao formas de

estabelecer vínculos e identificagoes entre os seus adeptos, resgatando um sentido de

pertenga a urna comunidade e a um destino comuns, ressignificados conforme condigoes

sociais concretas.

Outras categorías que aparecem na literatura e nos pontos cantados surgiram em alguns

pontos, como batismo, luz e segredo.

O batismo apareceu simbolizado em pontos em que se cita o rio Jordao:

Oh Rio Verde, oh Rio de Jordao

Sao Joao batizou Cristo

Cristo batizou Sao Joao

E os dois foram batizados

No Rio Jordao

Outro sentido que foi encontrada na literatura, mas que apareceu em poucos pontos foi o de luz. Na literatura, tanto Cirlot (1969/1984) quanto Guénon (1962/1993) relacionam a chuva com a luz (portanto, com as divindades femininas Iansa ou Oxum, respectivamente relacionadas á chuva forte e á miúda). Porém, no contexto umbandista urna referencia parece ser outro aspecto do sagrado feminino, a deusa Nana Buruqué (térra molhada: lama, areia úmida, ou olho d'água, conforme as nuances interpretativas dos terreiros):

É Nanaé, Nanaé o Nana Buruque, Nanaé

É Nanaé, agua pura é a luz do viver

Contudo, noutro ponto, o mar aparece refletindo a luz, que simboliza Oxalá. Assim, o mar nao é a luz, ele a reflete:

Refletiu a luz divina

Com todo seu esplendor

Vem do reino de Oxalá

Onde há paz e amor

Luz que refletiu na Terra

Luz que refletiu no mar

É como se de alguma forma a transparencia, claridade da agua, pudesse espelhar ou ser assimilada á luz divina.

O vinculo entre as aguas e a temática do espelhamento e do duplo, apontado na literatura (Durand, 1997; Bachelard, 1942/1989) manifesta-se com nitidez em pontos relativos á luz ou a simbolizagoes da mesma que ocorrem na umbanda, como estrela:

O Céu tem estrela

O Céu tem o Mar

Ó salve a Estrela do Céu

Ó salve a Estrela do Mar

Nem sempre este dinamismo reflexivo aparece puramente especular, duplicador do refletido. Por vezes ocorre por meio de urna inversao (Durand, 1992/1997). É o caso do sentido da agua como vida, freqüente na umbanda e na literatura, com a peculiaridade de, na primeira, no atinente ao mar, poder assumir igualmente o significado de cemitério

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(morte). No caso específico da luz celestial, o seu par invertido, sem nenhuma conotagao moral negativa, parece ser o segredo (no fundo do mar).

A categoría segredo aparece em tres pontos. Em todos eles, o fundo do mar aparece como um lugar misterioso, com um segredo escondido, inacessível:

Onde está o seu segredo

Ninguém chega lá

Num ranchinho de pedra

No fundo do mar

Em dois pontos é afirmado: "tem mironga no fundo do mar" o que traz a conotagao de haver "magia" e misterio no fundo do mar.

Outra oposigao pertinente ao simbolismo das aguas é a dualidade continente contido ou dentro e fora (Durand, 1997; Araújo, 1999). Ao circularem por fora do corpo as aguas banham, limpam. Por dentro, saciam e alimentam (nutrem). Quando transbordam, vazam como choro.

Nutriéncia foi urna categoría de sentido, encontrada no levantamento bibliográfico (Araújo, 1999; Durand, 1997), que surgiu dezesseis vezes.

Na maioria das vezes, a nutriéncia apareceu simbolizada pela agua em si mesma, ou seja, nao como mar, cachoeira, rio, como mostra o trecho abaixo, caso único entre todas as categorías de sentido:

Ai ei eu mamae Oxum

Ai ei eu Oxum Apara

Ai ei eu mamae Oxum

Na cachoeira de Oxalá

Ai ei eu mamae Oxum Dai-me agua pra beber

Teu carinho é meu caminho

Que me dá paz e saber Em outro ponto, aparece ligada as aguas doces, como continente e como contida:

Minha Mae Oxum

Em seus rios e cachoeiras

Eu quero beber

Quero me banhar

Neste ponto, aparece a nutriéncia combinada com o sentido de limpeza, como um banhar-se por dentro. Nao raramente os chas e banhos prescritos nos rituais tém parcial ou na íntegra a mesma composigao.

A dualidade continente/contido apareceu em varios autores. Araújo (1999) fala dessa dualidade. Quando fala do ritual da Barquinha, fala da agua de duas maneiras: aquela usada ritualmente, dentro do cálice sagrado, que simbolizaría o seio materno que produz o leite; e o simbolismo do Daime como mar sagrado, no qual seus participantes devem prosseguir durante a viagem da vida. A categoría de sentido relativa á agua como continente, na acepgao ácima (banhar-se, limpeza), aparece algumas vezes em correlagao com qualidades da agua como simbolizagao de variagoes e nuances do tónus afetivo:

Oxum leva minha dor, Oxum

Leva minha dor Oxum

Leva minha dor,

Que eu preciso trabalhar

Esta agua que lava o meu corpo

Lá no rio vai parar

  1. rio que tudo carrega
    Carrega a minha dor pro mar


  2. oi me leva e leva e levará
    Oi oi mamae Oxum

Leva pra beira do mar, mamae Mamae Oxum me levará

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Geralmente é a agua doce (rio, cachoeira) que limpa e leva o que é visto como ruim para o mar e frequentemente esta limpeza se associa a urna modificagao do tónus afetivo na diregao de um alivio. A limpeza alivia o coragao, como no seguinte ponto:

Oxum lavaos meus olhos

Oxum, minha emogao

Oxum flor das aguas

Lava o meu coragao

Aponte-se, de passagem, que este é o único ponto em que apareceu, explícitamente, a palavra "emogao", identificada com urna interpretagao, por assim dizer, "psicológica", do orixá Oxum.

Mais comumente Oxum e a agua doce aparecem referidas na forma de santos católicos que, no universo umbandista, Ihe estao associados, como no exemplo abaixo:

Baixai... Baixai...,

Ó Virgem da Conceigao,

Maria Imaculada,

Pra tirar a perturbagao;

Se tiveres mágoa de alguém,

desde já seja retirada,

levando pro mar adentro,

pras ondas do mar sagrado

Neste caso, como em muitos outros, a idéia de limpeza incluí o sentido de urna depuragao ética. A limpeza comporta a idéia de limpeza e purificagao ritual, mas também é limpeza da dor, das mágoas e do mal:

Na cachoeira de mamae Oxum

Corre agua cristalina

Do reino de Olorum

Eu vou pedir

Permissao a Oxalá

Pra banhar na cachoeira

E pra todo mal levar

Parece, portanto, haver urna conotagao ética para a idéia de limpeza (como purificagao nao apenas ritual e afetiva, mas também moral). Parece, assim, que a agua doce dissolve e transporta para o mar e que este recepta. O destino mais comum desta sujeira polissémica é o fundo do mar:

Sereia minha Sereia

Minha Sereia do mar

Todo mal desses filhos, ó Sereia

Leva pro fundo do mar, mar, mar No próximo ponto aparece a agua simbolizando o perdao.

Que panorama tao lindo e tao belo

Que Zambi nos mandou Nana

Que chova perdao em minha alma

Como chove flores neste gongá

Assim, quando trata da chuva, a limpeza parece ser num sentido diferente: o perdao, associado a idéia de luz, diferente da limpeza, ele traz um sentimento novo (e considerado nobre). Assim, as diferentes qualidades de aguas simbolizariam diferentes estados afetivos. Na literatura a chuva, como as nuvens, sao consideradas intermediarias ao ar e a agua (Cirlot, 1984) e simbólicamente torna-se associado a ambos os elementos.

A limpeza apareceu na literatura em diversos autores (Durand, 1997; Cirlot, 1984; Bachelard, 1942/1989). Contudo, nos pontos aparece especialmente com um sentido de limpeza e transformagao do tónus afetivo (empregamos esta expressao á falta de melhor para referir o inefável dos estados e processos emocionáis, aludidos no ritual umbandista de maneira poética e evocativa).

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Nos rituais, a agua é sempre referida no processo de purificagao do ambiente e das pessoas que deles participam. Para Vallado (2002), o orixá Oxum também parece estar muito relacionado com a idéia de limpeza, visto que a cachoeira é um local sempre referido a esse orixá e é muito utilizado para se efetuar a "limpeza espiritual" dos praticantes, embora nem esta nem nenhuma divindade possam reduzir-se a urna fungao:

Oxum é remanso manso

Do rio, Oxum

Oxum é o espelho do brilho

Do sol, Oxum

Oxum é a beleza da flor

É o amor que aperta o coragao

Oxum é a forga do canto e da dor, Oxum

Já segundo Bachelard (1942/1989), o grande ideal de pureza é a agua clara. O autor também faz urna associagao da limpeza e pureza com as aguas doces. Afirma que "a agua doce é a verdadeira agua mítica" (p. 158).

Bachelard (1942/1989) também destaca que a figura da agua comporta urna idéia de pureza e seu uso implica a limpeza do material e do inconsciente. Entretanto, nos dados analisados, apesar de a idéia de limpeza estar associada as aguas doces, essa limpeza vai além: é a idéia de um tónus afetivo "leve", flutuante.

Já foi visto que a agua nao apenas envolve e limpa, como pode ser ingerida e contida. O movimento inverso pode igualmente ocorrer. A agua "de dentro" pode verter para fora. Neste caso aparece como choro e em todos os pontos ligada á agua salgada, Iemanjá:

Mae D'água rainha das ondas

Sereia do mar

Mae D'água seu canto é bonito

Quando tem o luar

Como é lindo o canto de Iemanjá

Faz até o pescador chorar

Vai com ela pro fundo do mar

Iemanjá

I é, Iemanjá

Ié, Iemanjá

Rainha das ondas

Sereia do mar

Como é lindo o canto de Iemanjá...

Ás vezes o choro nao é mencionado explícitamente, apenas aludido por urna qualidade de tónus afetivo a ele associada e supostamente suscitada pelas aguas salgadas:

Iemanjá, Iemanjá, Iemanjá

É dona Janaína que vem

Iemanjá, Iemanjá

É toda a tristeza que vem

Portanto, o mar e Iemanjá aparecem associados á agua salgada corporal, que se externaliza como choro, e ás nuances do tónus afetivo a ele associadas. O choro nao deixa de ser um "transbordamento" da agua corporal. Note-se ainda a ausencia nos pontos de referencias a outros líquidos corporais salgados, como o suor e o sangue, talvez por o choro estar habitualmente associado á intensificagao de emogoes, já que estas tratam de estados afetivos (Engelmann, 1978; Delgado, 1971). Iemanjá é no universo afro-brasileiro, na umbanda inclusive, a mae por excelencia e segundo Bachelard (1942/1989) a relagao com o choro é a relagao com a mae:

O mar-realidade, por si só, nao bastaría para fascinar,

como o faz, os seres humanos. O mar canta para eles

um canto de duas pautas, das quais a mais alta, a mais

superficial, nao é a mais encantatória. É o canto

profundo... que, em todos os tempos, atraiu os homens

para o mar. Este canto profundo é a voz maternal, a

voz da mae (p. 120).

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Segundo Vallado (2002), Iemanjá estaría mais associada ao papel de mae do que Oxum.

O seu "humor" também estaría mais propenso a oscilar (relagao simbólica com o

movimento das ondas). Já Oxum, como estaría mais ligada as aguas doces, teria como

papel guardar os sentimentos humanos, por isso seria mais "doce".

Vallado igualmente lista diferentes qualidades de Iemanjá como distintos cenários

marítimos e pode-se supor que as diferengas encontradas nos pontos relativas a

diferentes partes do mar (ondas, beira, alto e fundo do mar) podem estar associadas a

diferentes qualidades de Iemanjá.

Nos pontos, predominantemente, as ondas apareceram relacionadas ao balango, o alto

mar ao deslocamento e o fundo do mar á morte.

As ondas aparecem em conexao com o balango. Esta categoría de sentido foi encontrada

apenas nos pontos cantados e nao no simbolismo. O balango foi encontrado muito

relacionado ao marinheiro, classe de espíritos que na umbanda integra o chamado "povo

das aguas", como o trecho abaixo ilustra:

Ó marinheiro, ó marinheiro

Quem te ensinou a nadar

Marinheiro só

Ou foi o tombo do navio

ou foi o balango do mar O balango apareceu também, como vaivém, em alguns pontos ligado ao vento:

Ñas ondas do mar que vai

Levando nevoeiro

Ñas ondas do mar que vem

Trazendo o Marinheiro

Ó Marinheiro, o Marinheiro

Nevoeiro vai e vem

Trazendo o Marinheiro

Quando eu voltar do mar

E ver aquele veleiro

E também o Marinheiro

Ó Marinheiro, o Marinheiro

Nevoeiro vai e vem

Trazendo o Marinheiro

Desta maneira, pode-se pensar que esta categoría está relacionada a urna intersecgao simbólica entre agua e o ar, exemplificada na relagao ondas e vento. O balango que aparece nos pontos, como acontece em todas as categorías de sentido, é polissémico. Pode aparecer com um provável sentido de justiga, no sentido de fazer um balango, analisar, quando se fala em balango de ouro (mensuragao do valioso):

É que eu tenho um balango, eu tenho um balango

Eu tenho um balango na térra

É que eu tenho um balango, eu tenho um balango

De ouro no fundo do mar

  1. balango também pode ser do corpo:

  2. Zé, tá na mira da lagoa

toma cuidado com o balango da canoa

Oi Zé, mas com tudo o que fizer,

toma cuidado com o balango da mulher

Neste ponto fica clara a equivalencia simbólica entre canoa e mulher, o que pode ser interpretado como o balango da relagao sexual.

O balango do corpo também fica claro através da observagao de rituais umbandistas, já que quando os médiuns incorporam entidades espirituais da linha dos marinheiros o corpo balanga para frente e para tras, num vaivém, em alusao ao balango das aguas e do navio. O balango do corpo é também o balango do transe e o corpo um navio em que se navega a vida.

Neste tópico o entendimento da umbanda parece original. Na literatura o balango é urna categoría que está ligada ao embalar da mae (Bachelard, 1942/1989; Cirlot, 1984;

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Durand, 1997). Mas o balango nao aparece com destaque. Já nos dados analisados o balango apareceu ligado, principalmente, aos marinheiros. Apareceu ligado as ondas do mar e também ao vento e embora tenha aparecido com diversos sentidos, tais como o balango do corpo, justiga e até como o balango da relagao sexual e do transe, nao apareceu ligado ao embalar maternal, diferentemente do que afirma Bachelard (1942/1989): "o movimento das aguas também é característico da representagao do feminino, pois a agua "embala como urna mae" (p. 137).

Urna outra significagao associada á agua é a de vida e, especialmente vinculada ao mar, o seu contraponto como morte. Assim como o balango expressa o movimento do corpo, do barco, esta categoría mostra o movimento da vida, simbólicamente, pela trajetória das aguas na natureza. De certa forma, no atinente ao simbolismo das aguas, é como se aspectos dinámicos da natureza espelhassem o processos corporais. Nos pontos, as diversas qualidades de agua aparecem como um ciclo das aguas, que sao a metáfora do viver:

É Nanaé, Nanaé o Nana Buruqe, Nanaé

É Nanaé, dessa fonte queremos beber

É Nanaé, Nanaé o Nana Buruque, Nanaé

É Nanaé, agua pura é a luz do viver

Abengoe os filhos de Nana

Que levaram as suas aguas

Para a beira do rio

Desaguando no mar azul

Espelho do sol, coragáo do peji E em outro ponto:

Bebo da agua cristalina

Que corre daquela fonte

Da pedreira, do rio, da mata

Que desagua no mar

E e é, E e á

Recorde-se que, segundo a literatura sobre o simbolismo das aguas, o mar em que desagua a agua pode simbolizar o nascimento e a renovagáo, também a morte; o rio o transcurso da existencia; e a fonte o seu principio.

Assim, a agua metaforiza a vida. Nos pontos, o ciclo das aguas, envolvendo diversas qualidades desta, aparece simbólicamente como o ciclo vital, a existencia. Araújo (1999) também afirma algo parecido: "Com isso, podemos deduzir que a agua é um símbolo de vida e fecundidade. Nela há um reordenamento cíclico" (p. 82). A agua aparece como caminho, como algo que leva e traz, como meio de deslocamento e de navegagáo:

A sua térra é longe

E eles váo embora

E váo beirando o rio azul

Adeus Umbanda, que os caboclos

Váo embora, e váo beirando o rio azul

Neste ponto o rio aparece como urna ligagáo entre o mundo "carnal" e o mundo espiritual, já que se trata de um ponto de desincorporagáo de caboclos, urna classe de entidades espirituais umbandista. No ponto abaixo, a agua adquire dois significados distintos, relacionados ao deslocar-se:

Navio Negreiro, na beira do mar, trazendo os Pretos

Velhos para trabalhar

Vamos trabalhar, povo de Congo, traz a sua gira em

qualquer lugar

O navio negreiro chegou, carregado de Preto é de Nagó

Navio virou, no fundo do mar, quem me salvou foi a

Máe Iemanjá

No fundo do mar tem tres panelas, nao tem nesse

mundo quem possa com elas

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No primeiro parágrafo, o navio traz a linha das entidades "preto velhos", muito comum na umbanda, para "trabalhar". Pode-se perceber que navio ai pode estar metaforizando o corpo do médium que vai "incorporar" e, assim, a agua estaría relacionada ao meio espiritual por onde transitam esses espíritos.

Em um outro momento, é dito que o navio afunda e Iemanjá é quem salva. Neste sentido, o afundar para o fundo do mar pode simbolizar a morte, que pode ser interpretada de duas formas: como o fim da vida material (morte do corpo) ou como a morte da consciéncia do médium (transe inconsciente). Desta maneira, a existencia espiritual aparece no ponto como urna forma de navegagao, o que faz com que o mar, e, conseqüentemente, a agua, simbolize tanto a vida quanto a morte.

Cirlot (1984) afirma que "a expressao mítica "surgido das ondas" ou "salvo das aguas" simboliza a fecundidade e é urna imagem metafórica do parto" (p. 64). No ponto cantado aparece o sentido oposto (morte), no trecho "Navio virou, no fundo do mar, quem me salvou foi a Mae Iemanjá".

No ponto, o "salvar", de maneira oposta, nao parece referir-se ao nascimento, mas, pelo contrario, eufemisticamente á morte (por afogamento). Iemanjá recolhe os mortos no seu recinto (mar), que alias parece ser o ponto final de todas as existencias (o mar é pensado ñas religioes afro-brasileiras, por razoes históricas - o tráfico negreiro - e simbólicas, como um grande cemitério). Iemanjá também salva os vivos enviando urna linha de pretos velhos ligados ao mar, espíritos de "mortos" que trabalham na sua linha. Esta associagao entre mar e morte nao está ausente da literatura sobre simbolismo das aguas. O próprio Cirlot (1984) afirma que "o mar, os océanos sao considerados como a fonte da vida e o final da mesma. "Voltar ao mar" é como "retornar á mae", morrer" (p. 372), algo que se afina com os dados analisados.

Durand (1997) também afirma algo semelhante quando diz que "o navio é um fato de habitat antes de ser meio de transporte. (...) A barca, mesmo que seja mortuária, participa assim, na sua esséncia, do grande tema de embalador materno", (p. 251). Voltar á mae também pode significar voltar á natureza, morrer, no sentido de misturar­se com a substancia vital do mundo. Deste modo, a agua seria o caminho da vida e ao mesmo tempo o lugar em que a substancia vital é diluida, dissolvida no universo, na imensidao.

Araújo (1999), em seu estudo sobre a Barquinha, encontrou algo semelhante: "Essa barca é a viagem de suas vidas, em resumo, a viagem dentro de urna grande viagem". (p 76). Em entrevista com os participantes do culto da Barquinha, Araújo (idem) conta que os participantes afirmam que "as aguas sagradas que nos visamos é a luz, o Daime. Chama-se as aguas sagradas que nos levam em preparagao aos pés de Jesús. Esta é a Barquinha, a Barquinha navegando a nossa vida neste plano" (pp. 82-83). Morrer é o destino da conclusao de um ciclo vital, o retorno ao mundo espiritual, e nao um castigo que se sobrepoe a urna uniao com a mae, como refere Ramos (1940). Ele afirma que o canto da sereia seria a expressao de urna atragao incestuosa, já que Iemanjá é a grande mae no candomblé. Porém, nao há nada nos dados analisados que aponte para este cunho punitivo do retorno ao mar. Pelo contrario, o mar pode assumir urna forma antropomórfica e, a par de ter urna polissémica fungao de limpeza, aparecer como um guia no caminho da vida:

E vem, e vem, e vem

E vem beirando o mar

E vem a Mae Sereia

Pra todo mal levar

Eu sou aquela pequenina

Que mora em alto mar

Eu sou quem guia os navios

Sou a Sereia Guiomar

O ponto mostra que as aguas nao sao apenas a estrada da vida. O seu colorido afetivo, o seu toque, pode antropomorfizar-se na forma de guias que conduzem pelos caminhos da existencia. Guia num sentido ético, no qual o mal nao se encontra, o que pode-se inferir que diz do caminho a ser seguido pela umbanda.

Memorándum 17, out/2009

Belo Horizonte: UFMG; Ribeirao Preto: USP

ISSN 1676-1669

http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al5/grambair01.pdf



Graminha, M. R. & Bairrao, J. F. M. H. (2009). Torrentes de sentidos: o simbolismo das aguas no
contexto umbandista. Memorándum, 17, 122-148. Retirado em / / , da World Wide

Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/al7/grambair01.pdf

A sereia pode estar em alto mar, dirigindo os navios, ou fazer-se transportar dentro deles:

Lá no mar tem urna canoinha, carregadinha de flores, dentro déla tem mamae sereia, para nos livrar das dores

Temos aqui, urna boa ilustragao do cunho especular e inversivo do imaginario das aguas na umbanda. Se o navio é o corpo e urna pessoa viva, as aguas do mar que sao mae e morte, mas também guia espiritual, podem estar dentro ou fora do corpo e de certa forma o (corpo) vivo já navega ñas ondas da morte (mundo espiritual). O oposto da vida, a morte, apenas aparentemente Ihe é antagónico, urna vez que a morte é concebida como um recomego ou continuagao, "noutro plano", da vida. A inversao é muitas vezes redundante, ou seja, dois significados antagónicos nao subtraem um ao outro, mas se somam. Por exemplo, o oposto de luz, nao sao as trevas, mas o misterio. E em ultima instancia a luz é misteriosa.

Há igualmente espelhamento entre corpo e mundo, aguas de dentro e de fora, e um interjogo entre as aguas que entram no corpo como alimento e as que o contém como limpeza

Lutz (1988) faz urna consideragao sobre como as emogóes sao interpretadas de acordó com o ambiente cultural:

a idéia de que a experiencia emocional é construida culturalmente nao é simplesmente a idéia de que as emogoes sao experiencias universais que adquirem urna particularidade na cultura através da variagao das situagóes que as eliciam.(...) A situagao da pessoa é sempre interpretada pela emogao (p. 210).

Se as aguas simbolizam emogoes, nao é apenas porque as codificam e as expressam, mas porque de alguma forma o emocional pode comportar urna luminosidade que oriente espiritualmente os fiéis: as aguas que "limpam" mágoas, refletem a luz e, como vida, se tornam caminhos que conduzem aos fins últimos da existencia humana.

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