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IMPRENSA NEGRA NA DÉCADA DE 20: COM QUANTAS LETRAS SE FAZ A IDENTIDADE AFRO-BRASILEIRA*

Eduardo de Assis Duarte - UFMG



Quem são os culpados dessa negra mancha

que macula eternamente a nossa fronte?

Nós, unicamente nós

que vivemos na mais vergonhosa ignorância,

no mais profundo absecamento (sic) moral,

que não compreendemos finalmente

a angustiosa situação em que vivemos.

Cultivemos, extirpemos o nosso analfabetismo

e veremos se poderemos ou não imitar os norte-americanos.

O Alfinete


19181
Liberta dos condicionamentos essencialistas com que era apresentada no passado, a formulação das identidades configura-se no pensamento contemporâneo como vinculada estreitamente à produção de discursos. Após o vendaval epistemológico dos anos 60/70 e a emergência política das chamadas minorias, cada vez mais se compreende a identidade como forjada ideologicamente nos processos sociais de identificação. Já que ninguém nasce pronto e acabado na íntegra, somos não o que pensamos ser, mas o que fazemos e o que dizemos de nós mesmos, dos outros e do mundo. Nesse contexto, torna-se instigante e necessário refletir sobre o papel exercido pelos jornais da causa negra, do início do século passado, enquanto formuladores discursivos no processo de construção de um perfil identitário e comportamental para os brasileiros afro-descendentes. Eram órgãos pequenos, de parcas tiragens, mas ligados via de regra a movimentos de arregimentação dos remanescentes de escravos, na difícil trajetória de integração à sociedade de classes. Tinham como bandeira o combate à discriminação e a elevação moral, social e econômica do vasto contingente oriundo do regime escravocrata e abandonado à própria sorte no período que se seguiu ao day after da abolição o 14 de maio de 1888.

Apesar de ausentes da historiografia voltada para a imprensa no Brasil (Moura, 1988), jornais como A Liberdade, Sentinela, O Kosmos, Getulino, O Clarim, O Clarim D’Alvorada, Elite ou O Patrocínio, apenas para citarmos alguns editados no Estado de São Paulo na década de 1920, fazem eco a uma jovem tradição que se compõe de iniciativas anteriores, como O Baluarte, surgido em Campinas em 1904, tradição esta voltada para a inserção do negro na cidadania social pela via de sua incorporação ao universo da cultura letrada. Fazer do excluído um leitor para, quem sabe, vê-lo amanhã escrevendo e exercendo seus direitos – este o desafio assumido pelos intelectuais negros que viam no letramento o passaporte para a inclusão social. Dentro desse escopo, nada mais apropriado que o jornal, com seu charme de modernidade e leveza, passatempo e informação. Desse universo, tomo um exemplo a fim de explorar as relações entre imprensa, literatura e o campo identitário.

Em meados da década de 1920, circulou em Campinas o semanário Getulino, autoproclamado “órgão de defesa dos interesses dos homens pretos”. De propriedade dos irmãos Andrade, tinha como redator-chefe o poeta e jornalista Lino Guedes, então um iniciante no mundo das letras, e como redator-secretário o também jornalista e escritor Gervásio de Moraes. O nome do periódico remete de imediato a Luiz Gama e a suas Trovas Burlescas, cuja primeira edição é de 1859. Como é sabido, Getulino é o pseudônimo utilizado por Luiz Gama para publicar suas sátiras e, em edições posteriores, acabou transformado em personagem e incorporado ao próprio nome do livro: a partir desse suplemento de leitura, as Trovas burlescas de Getulino vão edificando a figura do poeta afro-descendente que, através de uma dicção e, mesmo, de toda uma discursividade calcada no popular e voltada especificamente para ser o lugar da fala do outro, assume a etnicidade reprimida, clamando contra o preconceito dos ditos brancos e o branqueamento alienado dos mestiços. Alçado assim a porta-voz, o vate negro passa a ser a voz dos que não tem voz – aquele que fala no e pelo coletivo.

Deste modo, já no próprio título, os jovens editores campineiros inscrevem não apenas a homenagem a um dos fundadores da literatura afro-brasileira, mas, por outro lado, assinalam sua condição de leitores conscientes de seu papel pedagógico na democratização da cidade das letras, em especial no que tange à presença da população afro-descendente. No caso, trata-se de destacar, junto com a “defesa dos homens pretos”, o vínculo entre a literatura e a luta contra o preconceito racial. Num de seus artigos mais eloqüentes, assim se expressa o redator-chefe:


Foi a 29 de julho do ano pretérito que se fundou entre nós o “Getulino.” Há um ano que seus fundadores, cheios de entusiasmo pela idéia que lhes nascera no cérebro criador, resolveram levar até o fim tão alevantada aspiração: emancipar moralmente seus irmãos, que outrora escravizados, embrutecidos, abjetos, não podiam dar cumprimento ao sublime imperativo da caridade bíblica, Resurge et ambula (...). O Getulino é como um clarim marcial, a nossa gente tocando a reunir. (...) Nova campanha vai ser iniciada, nova luta contra o indiferentismo dessa gente que parece algemada e incapaz de progresso, que parece desconhecer por completo o que de belo e sublime há no alfabeto. (Guedes: 1924, grifos nossos)
O texto não deixa dúvidas quanto ao papel idealizado pelos jovens intelectuais negros em sua incursão pela imprensa alternativa. Seu projeto consiste em nada menos que liderar a “emancipação moral” dos afro-descendentes e a imagem do clarim é suficientemente explícita a esse respeito. E, ainda, a referência a Lázaro como imagem do negro mergulhado na ignorância: “levanta-te e anda”, diz o ‘Getulino’ de Campinas, expressando não apenas o desejo messiânico de conduzir os herdeiros de mãe África, mas também deixando claros os vínculos discursivos com a metaforicidade bíblica. Destaque-se, além disso, que a missão moralizante se apóia na sedução da palavra impressa: o “belo” e o “sublime” da língua pátria utilizados a favor da causa, o que significa que, para eles, o fator cultural tem um peso e um papel de relevo no lento trabalho de assunção da cidadania. Com efeito, o Getulino reproduz a feição de outros jornais da época, trazendo o texto literário em meio às notas sociais, comentários os mais diversos, notícias de interesse da comunidade, referências a fatos históricos e editoriais marcados por exortações de cunho político ou moral. Assim, além de colocar a literatura do protesto negro como marca de origem, o jornal se abastece de crônicas, poemas, crítica literária e mesmo de um pequeno romance publicado em trechos.

Para o presente trabalho, interessa-me abordar justamente este último. No caso, a narrativa intitulada A boa Severina, que ocupou a seção “Folhetim do Getulino” durante quarenta e oito semanas, entre agosto de 1923 e setembro de 1924. Tendo como subtítulo Cenas do cativeiro, o romance traz como indicação de autoria o nome de José de Nazareth, ao que tudo indica um pseudônimo utilizado por Lino Guedes.2

Ao adotarem a publicação do folhetim, os jovens editores do Getulino filiam-se a uma tradição centenária na imprensa brasileira. Ao longo do século XIX, praticamente todos os nossos escritores, Alencar e Machado à frente, freqüentaram as páginas dos jornais. A febre do romance romântico, utilizado enquanto peça importante da indústria literária e jornalística, fez com que Machado traduzisse Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, em 1866, mesmo ano do lançamento na França. Longe de ser mero ornamento, a narrativa folhetinizada teve fundamental importância na fixação do hábito de leitura e, conseqüentemente, na viabilização comercial da imprensa escrita.

A partir das primeiras décadas do século XX, as histórias de amor e aventuras foram cedendo espaço à crônica até se transferirem para o rádio e, mais tarde, tornarem-se o carro-chefe da programação televisiva. Entretanto, sua presença nos rodapés dos diários marcou época e não apenas na imprensa tida como comercial. As “tiras” contendo histórias interrompidas, às vezes de forma brusca, fizeram-se presentes tanto nos incertos jornais da imprensa anarquista, quanto nos da causa negra, a exemplo de O Kosmos, órgão paulista que, em janeiro de 1924, inicia o folhetim A família escrava, de Pedro Ribeiro Vianna. Além disso, a estética do roman-feuilleton faz-se presente na ficção voltada para o grande público, como nos livros de Jorge Amado da fase engajada e mesmo depois de Gabriela cravo e canela. Acredito que esta estética ajudou em muito na constituição de um público consumidor para a literatura brasileira do século XX.3

No caso do Getulino e da narrativa de A boa Severina, o projeto implícito ao texto é o de expor as mazelas da escravidão a partir do ponto de vista das vítimas do regime. Para tanto, localiza a ação em meados do século XIX, mais precisamente em 1850, na “Fazenda São Solano”, localizada às margens do Rio Paraíba. A propriedade, “construída nos tempos coloniais”, surge no texto como espaço modelar, típico retrato de inúmeras outras, localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais. Já no capítulo 1, o leitor percebe que a trama pretende-se ancorada na concretude histórica, até como forma de ressaltar o caráter paradigmático dos dramas nela contidos. Ouçamos o narrador:

Basta que o leitor saiba que quanto formar a narrativa é autêntico, é verídico, pois como se impressos numa chapa fotográfica, se conservam os passados fatos, nitidamente, na retina de quem os descreve, para que se compreenda, em toda a sua extensão, o que foi o cativeiro no Brasil. (Cap. 1)

O pretendido realismo insere-se na estratégia de construir pela via da ficção a memória da condição escrava, além, evidentemente, de apimentar o texto com a roupagem verista que lhe confere estatuto de autenticidade e maior apelo popular. Por um lado, promete-se ao leitor o relato despido das fantasias românticas de caráter paternalista ou das deformações naturalistas fundadas no darwinismo social. Por outro, se oferece os dados nada desprezíveis do testemunho e do ponto de vista interno, já que as histórias do cativeiro chegarão até o leitor através de um órgão da imprensa negra dirigido por um filho de ex-escravos. Esse é um fato marcante, pois, até então, as narrativas da escravidão surgiam na literatura brasileira quase sempre pela escrita de autores oriundos da classe senhorial. O propósito de representação da “verdade histórica” é enfatizado ainda pelas imagens da “cena” e da “chapa fotográfica”, verdadeiros paratextos presentes, um, no subtítulo do romance, o outro, no enxerto metalingüístico do primeiro capítulo. O objetivo óbvio é reforçar o caráter e o sentido documental que se quer para a ficção. Examinar até que ponto esse realismo se efetiva é um dos desafios da leitura a que me proponho.

Após construir em rápidas pinceladas a psicologia de alguns personagens – o feitor, o proprietário, a sinhá –, o romance dedica o segundo capítulo à descrição do trabalho forçado, que, naquele momento, consistia em tarefas absurdas de “dez alqueires de colheita para os homens” e de “seis para as mulheres”. Os que não atingissem o total estipulado iam para o castigo. E, logo, o texto destaca a figura de Maria Cassange – escrava de quarenta anos que “dera à fazenda nada menos que oito ‘crioulos’, como se chamavam os filhos de africanos nascidos no Brasil”. Tendo que cuidar de um dos pequenos, Maria é punida por ter “colhido café em menor quantidade do que o da ‘tamina’” e apanha as “relhadas” do feitor. (Cap. 2) O contraponto dramático é estabelecido logo no capítulo seguinte, centrado na figura de Pai Pedro, “velho negro, príncipe de uma das mais antigas estirpes africanas” (Cap. 3) e líder do pequeno quilombo existente nas matas próximas à fazenda.

Está, pois, montado o cenário para o transcorrer das ações. No entanto, o texto escapa a uma possível dicção triunfalista, pela qual o negro herói derrotaria o branco vilão. Ao contrário do que se poderia esperar, o que predomina é justamente o oposto. Após ligeira escaramuça, os quilombolas são enganados por D. Aguirre – um espanhol aproveitador cujo nome surge suplementado historicamente pelas narrativas das conquistas hispânicas – que, depois de tentar vendê-los a outro fazendeiro, termina entregando-os de volta ao Coronel, em troca da recompensa. E este será o desfecho predominante na maioria do embates travados nos quarenta e oito capítulos do folhetim. Em termos de ação dramática, não há vitória definitiva que se concretize, apenas avanços delimitados e pontuais. No episódio do fracassado quilombo, desfaz-se por completo a possível imagem de grandeza ou superioridade do velho africano. Preso à escravidão, Pai Pedro pouco tem da antiga fidalguia, não se destacando nem como guerreiro, nem como líder político. Após a captura, ele reaparece acabrunhado, cumprindo suas obrigações em silêncio até que uma doença mortal o retire da trama. Assim, a imagem de afro-descendente que o romance quer destacar é precisamente a do sujeito honesto e do trabalhador enquadrado nas normas vigentes, nunca a do revoltado ou do marginal. Diante disso, a violência existente é sempre obra dos brancos e o sangue derramado o dos escravos ou escravas.

A faceta verista mostra-se, também, na incorporação de detalhes eticamente obscenos ou vazados na clave da brutalidade bestial ou do grotesco. Alguns exemplos: os suplícios físicos são rotina; a esposa do coronel pede ao padre que lhe revele segredos de confessionário dos escravos; os quilombolas recapturados são marcados a ferro quente, como, aliás, era o costume e constava dos ordenamentos jurídicos dos tempos da colônia4; já o escravo moribundo recusa a extrema-unção alegando “ser filho de padre”...

Além disso, a narrativa abre espaço para a citação e o enxerto, incorpora dados de cronistas e historiadores, passagens de Castro Alves e Machado de Assis, matérias de jornais do século XIX. Entre elas, destaca-se a longa narrativa do assassinato por afogamento de trinta e seis africanos recém-chegados, devido à cegueira adquirida durante a travessia. E ressalte-se que todas estas “cenas do cativeiro” são narradas da perspectiva das vítimas, fato nem sempre corrente, mesmo em textos de nossa literatura abolicionista. Com isto, o romance escapa do simples descritivismo, levando as ações a virem acompanhadas sempre da necessária reflexão, que as situa historicamente, a fim de por em relevo a desumanidade e a hipocrisia dos senhores. Por outro lado, o dado escabroso, próximo em alguns momentos da estética do choque naturalista, atende às exigências do formato folhetim, com vistas a impactar e capturar a atenção do leitor.

O tom preponderante em A boa Severina é, basicamente, fatalista e vincula os afro-brasileiros, escravos ou não, a um destino via de regra adverso. Tal é o caso da libertação e do enleio amoroso que envolve o casal formado pela mucama Severina e o escravo Laurindo – objeto central destas reflexões. Minerador mal adaptado à grande plantação, o personagem é ajudado (e, ao mesmo tempo, punido) pelo acaso. Um belo dia, o jovem encontra perdido em meio à horta da fazenda um valioso anel pertencente a D. Margarida, esposa do Coronel e que permanecerá senhora de seu destino, mesmo depois da alforria. Ato contínuo, repassa a jóia, em pleno confessionário, ao Padre Marcondes, implorando a este, sob juramento de reposição futura, que a vendesse e com o dinheiro comprasse a sua liberdade. E assim se faz. Como em todo folhetim, o império da ação se efetiva quase sempre em detrimento da análise psicológica e de uma reflexão mais profunda sobre os seus propósitos ou motivações. Sem pestanejar, o padre cumpre o prometido. Livre da escravidão, o herói parte para o Rio de Janeiro, onde se estabelece como alfaiate. Passam-se os anos e Laurindo não consegue esquecer Severina – a mucama de etnia Mina cujos traços “se confundiam com os dos mais belos tipos provindos da raça árabe” (cap. 5) – nem o compromisso de ressarcimento do anel. Ou seja, passam-se os anos e o ex-escravo permanece com o coração e a consciência presos ao cativeiro.

Seguindo a tradição folhetinesca, sucedem-se as mudanças bruscas do destino. Após economizar considerável quantia, Laurindo dá provas de sua honestidade ao cumprir a promessa: retorna às margens do Paraíba, e não apenas para devolver a jóia, colocando na antiga armação uma pedra quase idêntica e tão preciosa quanto a que lhe propiciara a alforria. Traz ainda recursos suficientes para a libertação da amada. E o que encontra é a família dos senhores em plena decadência, após a morte do coronel. A fazenda com outros donos e os antigos herdeiros sumidos no mundo. Devolvido o anel e alforriada a mucama, faz-se o casamento. Vivendo agora “na mais negra penúria”, D. Margarida recebe a visita dos noivos, que convidam a antiga sinhá a vir para a Corte morar com eles... E assim se faz. O texto busca ressaltar justamente a “elevação de caráter” (segundo os padrões ocidentais) dos afro-descendentes: seres que não cultivam o rancor e sabem perdoar. Apesar dos maltratos sofridos por ordem de sua antiga senhora, Severina dela se compadece e se dispõe a recebê-la em sua casa. Como se vê, os valores judaico-cristãos falam mais alto e o texto quer fazer crer que são estes os parâmetros para a boa consciência dos remanescentes de escravos, no contexto de sua integração à sociedade multiétnica pós-abolição.

Partem os noivos para a Corte, mas já nos primeiros dias de lua de mel, a felicidade é turvada a partir do momento em que Laurindo revela o estratagema que os libertou. A antiga escrava não se conforma em estar livre “devido a um simples acaso”. (cap. 39) Exibindo claramente a introjeção dos valores dominantes, Severina não admite conviver com a “desonestidade” implícita à operação que viabilizou sua alforria... Entrementes, morre o padre Marcondes e a velha senhora, agora pobre e abandonada pelos filhos, passa a residir com o casal até também falecer meses depois, deixando para eles o anel da discórdia.

Laurindo torna-se o único alvo da indignação da esposa, que se sente culpada por ter adquirido a liberdade de forma “ilícita”. E após julgar ter tido uma “visão” do fantasma de D. Margarida, Severina repudia o esposo e se deixa dominar pela idéia de voltar a ser escrava... Um belo dia foge, sem deixar vestígios e se entrega a um comerciante sem escrúpulos, que rapidamente a negocia junto a um grupo que parte para o interior. Lá chegando, envolve-se no trabalho braçal e o narrador declara que “nesse antro, nesse presídio, o espírito de Severina encontra-se mais satisfeito do que nas ruas movimentadas da Corte.” (cap. 46) Deprimido e frustrado após vasculhar a cidade em busca da esposa, Laurindo, agora cognominado “o velho africano” (cap. 47), morre deixando todos os bens para ela. No entanto, esta também já havia sucumbido, vítima de uma picada de cobra... E, ao final, os bens acumulados com o trabalho do ex-escravo são surrupiados pelo desonesto testamenteiro, que viaja para a Europa a fim de melhor desfrutar a herança roubada.

Somente a vinculação autoral a um moralismo rígido de feição judaico-cristã pode explicar o comportamento da personagem. De fato, a ‘boa’ Severina é aquela que prefere a escravidão e a morte à menor sombra de dúvida quanto a sua honestidade. Assim, o texto de José de Nazareth (ou Lino Guedes) exibe a contradição entre a denúncia do sadismo e da barbárie implícitos à transformação de seres humanos em “peças” de uma colossal força de trabalho não remunerado, e a passividade alienada que, mesmo conhecendo o sofrimento inerente à condição escrava, prefere o cativeiro à liberdade e à felicidade conjugal. A culpa que move o gesto de Severina é própria à consciência submissa que, ao fim e ao cabo, termina por legitimar a escravidão. Seu sacrifício faz dela vítima não apenas de um regime de trabalho, mas, sobretudo, do aparato ideológico que o sustentou durante séculos.

É por esta via que sobressai a sublimação da personagem: através do sofrimento auto-imposto. Ao contrário da Bertoleza de Aluísio Azevedo – que se mata para não voltar ao cativeiro – Severina abdica da vida e do prazer unicamente para se livrar da sombra do “pecado” cometido pelo esposo. Ao contrapor a pureza de caráter da escrava e, mesmo, a fidelidade e a honradez de Laurindo – que se esforça anos e anos movido pelo compromisso – à esperteza desonesta do testamenteiro, o texto quer ressaltar a elevação moral dos remanescentes de escravos numa sociedade hipócrita que os discrimina e inferioriza. Mas não terá exagerado na dose?

A atitude da antiga mucama pode até basear-se vagamente em algum exemplo da vida real. Com certeza, a crônica dos eventos pós-abolição registra a ocorrência de ex-escravos que optaram por continuar com seus antigos senhores, em lugar de tentar uma vida “sem eira nem beira” nos morros ou cercanias das cidades, e esta é, sem dúvida, uma das facetas mais perversas do processo abolicionista. Concedeu-se uma aparência de liberdade que mal ocultava a nova escravidão econômica, social e racial. Todavia, a personagem de José de Nazareth (ou Lino Guedes) vai além, pois se entrega a um novo cativeiro junto a senhores desconhecidos e companheiros de infortúnio totalmente alheios ao seu círculo de amizades. As motivações de Severina não se ancoram em fatores afetivos ou materiais. O que a personagem demonstra é uma culpa absolutamente inverossímil que, ao fim e ao cabo, compromete em definitivo qualquer possibilidade de realismo. Ao contrário, o que se tem é a idealização extremada de uma humanidade submissa até nos espaços mais recônditos da consciência, espécie de escravidão mental que inferioriza e aprisiona o ser humano.

Deste modo, o que o texto tem de mérito – a perspectiva interna, pela qual a parcela submetida da sociedade ganha vez e voz para expor seus sofrimentos e denunciar os responsáveis por tão desumana exploração – fica comprometido justamente por um pensamento que se curva aos valores da camada branca dominante. Se, de um lado, cresce nos momentos em que expõe de forma crítica a verdadeira barbárie consumada pela escravidão; de outro, ele se apequena ao demonstrar o quanto os jovens intelectuais negros, empenhados na formação de uma consciência de cidadania em plena década de 1920, estavam, em verdade, na incômoda posição de caixa de ressonância do discurso judaico-cristão e do que Clóvis Moura (1988) denomina “pensamento social subordinado”.

Em seu estudo sobre a imprensa negra no Estado de São Paulo, Roger Bastide (1973), partindo da compreensão do jornal como veículo para a expressão de “aspirações e sentimentos coletivos”, que permitiriam até “discernir a mentalidade de uma raça” (1973: 129) analisa diversos órgãos desta imprensa para neles destacar o fenômeno do “puritanismo preto” e seu “elemento essencial”, o “culto das conveniências”:


Faz-se entre os brancos uma imagem estandardizada do negro, como preguiçoso, ladrão, bêbado e debochado; em grande parte, a recusa do branco em aceitar empregados de cor está ligada à força dessa representação. É preciso, pois, destruí-la criando outra imagem, suscitando, por conseguinte, um outro tipo de negro que será valorizado moralmente. (Bastide, 1973: 150-1)
Valorizado, pode-se dizer, justamente pelo discurso hegemônico, marcado em diversos níveis por um racismo mal disfarçado, que, inclusive, propugnava abertamente pelo “branqueamento” do país a partir do incremento do fluxo migratório. Disseminado socialmente desde o século anterior, esse discurso dá origem a um conjunto de crenças e estereótipos que colocam o negro num patamar de visível inferioridade frente à mão de obra branca e, mais ainda, se européia. Ao lado disso, no campo das condições sociais de existência, a baixa (ou nenhuma) escolaridade e a crescente indigência material cada vez mais confinam os remanescentes de escravos naquele “exército de reserva” profissional, onde impera a mão-de-obra pouco qualificada, e numa espécie de limbo social, do qual as elites querem distância e empurram para a “sub-urbe” dos morros e periferias das cidades.

Nesse contexto, o “puritanismo preto”, traduzido em culto exagerado das convenções sociais, atuaria junto aos estratos subalternizados em função da cor como consciência subordinada, ou seja, como contraface ou ponta de lança oculta do discurso discriminatório. No fundo, esse puritanismo revela a assunção pelos próprios afro-descendentes, do discurso que os rebaixa. A valorização do “bom comportamento” e das aparências, a começar pela tão exigida “boa aparência” corporal, que leva ao alisamento dos cabelos, seria a resposta possível e a atitude social permitida em termos de afirmação identitária. A partir desse quadro, pode-se compreender o empenho dos que fazem o “Folhetim do Getulino” em “branquear” as consciências e os procedimentos dos personagens escravos. Entende-se, naturalmente, o verbo no sentido de assunção do pensamento e dos comportamentos prescritos pela moral judaico-cristã aclimatada ao país recém-saído da escravidão.

Assim, a idealização de uma negritude conformada aos padrões brancos, destacando a honestidade, o apego ao trabalho, a pureza d’alma, a fidelidade, a família e a maternidade, substitui no romance o tema das revoltas negras consignadas na história ou mesmo as alusões ao passado ancestral, com seus saberes e cultos. O puritanismo oriundo das crenças de um proletariado negro que almeja ascensão e reconhecimento social termina comprometendo o realismo da reconstrução histórica. Apesar disso, A boa Severina traz à luz um momento importante na tomada de consciência da cidadania afro-brasileira em seu processo de transformação. Se o narrador negro tem sua fala marcada pelos estereótipos então vigentes – e isto fica explícito até no emprego do adjetivo “negro” com significação pejorativa – tal fato revela os percalços e as vicissitudes do processo de afirmação identitária. Mas, por outro lado, o gesto de assumir a narrativa da história da raça revela o empenho em fazer-se presente na cidade letrada, para tocar como sujeito na memória de um passado que aprisionou não apenas os corpos, mas também as mentes e os corações.

Notas


1 O Alfinete, nº 2. São Paulo, 3 de setembro de 1918, citado por Clóvis Moura, Sociologia do negro brasileiro (1988).

2 Como a pesquisa está em andamento, esta é uma questão ainda em aberto, assim como a da data de nascimento de Lino Guedes, pois há controvérsia entre as fontes consultadas. Para Oswaldo de Camargo (1986, 1987), o autor nasceu em 24/06/1897. Já para Raimundo de Menezes (1969), Eduardo de Oliveira (1998) e Zilá Bernd (1992), Guedes teria nascido em 23/07/1906, informação confirmada pelo catálogo da Biblioteca Mário de Andrade. Estando correta esta última data, o autor teria assumido a chefia de redação do Getulino (e também a escrita de A boa Severina, caso se confirme o pseudônimo) com apenas dezessete anos.

3 Para o aprofundamento da questão, ver Marlyse Meyer, Folhetim: uma história (1996) e As mil faces de um herói canalha (1998).

4 No Índice cronológico de leis, volume I (ANTT) dos Arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, consta Alvará datado de 3 de março de 1741, determinando que “todos os negros que forem achados residindo voluntariamente em quilombo sejam marcados num ombro com a letra F; e se na ocasião de os marcarem se verificar já estarem marcados, então se lhes corte uma orelha.” (p. 235 v).
Referências Bibliográficas
BASTIDE, Roger. Estudos afro-brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1973.

BERND, Zilá. Poesia negra brasileira: antologia. Porto Alegre: AGE, IEL, IGEL, 1992.

CAMARGO, Oswaldo de (Org.). A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros. São Paulo: GRD, 1986.

CAMARGO, Oswaldo de. O negro escrito: apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1987.



GETULINO, Órgão de Defesa dos Interesses dos Homens Pretos. Números 03 a 64. Campinas, 12/08/1923 a 20/12/1924.

GUEDES, Lino. (Pseud. José de Nazareth). A boa Severina: cenas do cativeiro. In: Getulino, nos 03, de 12/08/1923 a 54, de 28/09/1924.

GUEDES, Lino. O “Getulino” e sua influência em nosso meio social. Getulino, nº 64, 20 de dezembro de 1924, p. 1.

MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. São Paulo: Editora Saraiva, 1969.

MEYER, Marlyse. Folhetim, uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MEYER, Marlyse. As mil faces de um herói canalha. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.

MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.

OLIVEIRA, Eduardo de. Quem é quem na negritude brasileira. Brasília: Secretaria Nacional de Direitos Humanos; Congresso Nacional Afro-brasileiro, 1998.




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