Eduardo Sued: Desenho, sempre



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Encontro05.08.2016
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Eduardo Sued: Desenho, sempre.
Ligia Canongia

Os primeiros desenhos de Eduardo Sued datam do final dos anos 40, quando o artista largou a faculdade de engenharia para se dedicar inteiramente às artes plásticas. Desde então, o gênero faz parte fundamental da obra e reflete de maneira exemplar o desdobramento de sua própria trajetória.


Os desenhos da década de 1960, muitos deles nesta exposição, fazem clara alusão aos anos em que Sued viveu em Paris, quando conheceu o modernismo europeu e assimilou certos princípios cubistas. A abstração desses trabalhos funde-se a uma figuração de verve picassiana, em um emaranhado de formas fragmentadas que perturbam a percepção unívoca da imagem. O artista constrói, já nos desenhos dessa época, uma estrutura mental do espaço, voltado apenas para as relações espaciais e sua distribuição na superfície. Na complexidade dessa trama de linhas e formas, os desenhos mais antigos já prenunciavam seu interesse constante pelos deslocamentos perceptivos e pela descentralização do olhar.
O senso desorientador, a multiplicação das coordenadas do grafismo e a pulsação ótica indicavam, sem dúvida, uma filiação cubista que, em última análise, permanece até hoje. Ali, tudo parece entranhado em um tecido relacional que, simultaneamente, mostra-se fragmentário e orgânico. A ênfase absoluta é na integridade da estrutura do desenho, em que os elementos gráficos são decompostos, mas, ao mesmo tempo, alinhavados solidariamente. As coisas passam a não valer mais pelo que representam, e sim pela maneira como funcionam no espaço.
Dos anos 60, as obras expostas saltam para desenhos recentes, em que a grade gráfica torna-se mais aberta e econômica, mas resguardando sempre o caráter formal dinâmico. Grande parte dos desenhos dos anos 2000 apresenta colagens, que adquirem densidade física aparente e avançam da superfície do papel para o espaço real. Com os recortes e sobreposições de camadas diversas de material, Eduardo Sued tangencia o campo tridimensional que passou a explorar também na pintura, a partir da década de 1990. As colagens corpóreas desses desenhos, apesar de sutis, indiciam o interesse do artista na sugestão de um estado intermediário entre o plano e o volume. Entretanto, mesmo projetados para fora, os elementos colados insistem em pertencer ao domínio estrito do desenho, como se pudessem retroceder e de novo se aplainar na superfície.
O espírito da colagem, também ele herdeiro direto do cubismo, acompanha o método do artista desde sempre, e pode ser entendido como uma das raízes conceituais de sua obra. A visualidade de Sued ancora-se na colagem como principio e com caráter absoluto de construção mental; ele pensa por meio de recortes formais e cromáticos. Ao longo do tempo e com o desenvolvimento natural das questões da obra, Sued foi despojando o desenho de seus acessórios e de sua sintaxe prolixa, enxugando o processo gráfico para que restassem apenas as formas essenciais: a engenharia do desenho.


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