Educação de Gênero na Infância Rose Marie Muraro



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Educação de Gênero na Infância
Rose Marie Muraro
Creio que a mais importante política de inclusão seria uma educação com enfoque de gênero e raça.

Aqui trataremos apenas do enfoque de gênero pois o de raça ainda levará algum tempo e eu, particularmente, não tenho competência para falar das duas coisas integradamente.

Então trataremos apenas de gênero. Para entender este conceito há uma vasta bibliografia, mas, para fins deste artigo basta dizer que gênero é um conceito complementar ao de classe social. Assim, quando Marx descobriu a classe como método de análise na economia abriu um mundo novo sistematizando a relação opressor/oprimido até então escamoteada. Na segunda metade do século XX as feministas criaram a categoria gênero que dá conta de uma nova opressão – a do homem sobre a mulher – que também abriu um novo mundo para a consciência transformadora do ser humano.

É assim que neste trabalho procuramos mostrar como é a estrutura psíquica masculina e a feminina, como elas nasceram historicamente e como a entrada do feminino no sistema produtivo e no Estado está começando a transformar ambos, e como a educação tem um papel decisivo neste processo até agora.


A estrutura psíquica dos homens
No sistema patriarcal, o sexo masculino é o predominante. E a característica dos homens é a posse do pênis, um apêndice corporal que é o instrumento de prazer e a insígnia do poder dos homens.

Por isso, quando nasce um menino, ele é supervalorizado e tem muitos privilégios em relação à menina. Mas, por estes privilégios, o menino paga caro.

Desde que nascem, meninos e meninas são visceralmente ligados à mãe e este afeto é total: mental e corporal. No caso do menino, ele quer a mãe totalmente para si. Quando o seu sistema nervoso amadurece, lá pelos quatro anos, ele percebe que o pai entra na relação dele com a mãe e que, o pai, é o dono da mãe.

Nesse momento, o menino fica com ódio do pai e quer matá-lo. Mas, como é muito pequeno, só projeta a sua raiva no pai: “Meu pai quer me matar”. Fica, então, apavorado e, com medo de ser morto, isto é, de perder o pênis que é a marca do seu prazer e da sua superioridade, rompe a relação com a mãe. A partir daí o menino, nos casos melhores, separa o afeto que sente pela mãe da sexualidade, conservando o afeto e, ao mesmo tempo, nas culturas mais patriarcais, desenvolvendo, um verdadeiro desprezo pela mãe. E, a partir dela, por todas as mulheres.

Isto foi encontrado por Freud na sua genial descoberta do Complexo de Édipo nas crianças. Ele pensava que isto era uma característica de todas as culturas, mas no fim do século XX, o trabalho psicanalítico das feministas mostrou que este fenômeno acontece, apenas, nas culturas patriarcais em que o homem tem a supremacia.

Desta maneira, desde o s quatro anos, o homem fica para o resto da vida incapaz de amar, se por amor definirmos a ligação afetiva junto com a física como uma só coisa. Assim, fugindo do amor, o menino foge para a inteligência. Nasce, neste caso, no homem um dualismo, uma divisão entre a mente e o corpo, que é conseqüência da separação arcaica que o menino faz entre o pênis e o resto do corpo, quando está vivendo a separação da mãe. Assim, nas culturas patriarcais a mente passa a ter mais importância que o afeto. E, portanto, o homem se identifica com a mente, ganha superioridade sobre a mulher, identificada com o corpo.

E os homens, dedicando-se aos trabalhos mentais, dividem a sua energia sexual. Grande parte dela vai para objetos não corpóreos. Assim, desde criança o homem é treinado para dedicar-se de corpo e alma ao domínio público. A sua libido vai para o trabalho, o poder, o conhecimento, as artes, e, principalmente, para competição, a violência. E isto por uma razão muito simples, porém diabólica.

É por volta dos quatro anos, quando se resolve o processo edipiano, que o menino se identifica sexualmente. E esta identificação é feita com o pai, pois também é homem. Mas, ele já cortou a relação com a mãe. Para melhor entendermos isto, imaginemos um triângulo em que o menino é o vértice e os outros dois são a mãe e o pai. Vamos ver como esse triângulo fica quando o menino corta a relação com a mãe o e pai. É assim:



Portanto, quando se identifica sexualmente, ele o faz sem amor, na solidão absoluta (pois perdeu a mãe e o pai), e na autonomia. Além do mais, ele se identifica com o seu opressor... Por isso, daí para sempre, o menino escolhe, como o único amor que o salva, o amor de si. Logo, se vai amar a mãe, morre (no seu imaginário) e, se vai amar o pai, idem. E, assim, diabolicamente, para sempre o menino está carimbado para pertencer ao domínio público. Deste momento em diante ele pode roubar e matar sem culpa porque foi carimbado para colocar o seu interesse em primeiro lugar, em detrimento dos interesses dos outros.
E o que acontece com a menina ?
Infelizmente, com a menina acontece o oposto. Na cultura patriarcal ela já vem castrada: não tem nada externo para perder. Como o menino, ela também é apaixonada pela mãe. Mas, quando o seu sistema nervoso amadurece, lá pelos quatro anos, na mesma idade do menino, ela percebe que, por ser igual à mãe, é ser inferior ao menino. Neste caso, ela passa a seduzir o pai, o detentor do poder. Mas, como não há para ela ameaça de morte, porque não tem nada a perder, o triângulo amoroso da menina se resolve sem traumas. Ela se identifica sexualmente, mas em vez de ser na solidão, numa dupla relação.

Ela ganha o amor do pai e não perde o da mãe. Daí por diante, unirá, para sempre, o afeto à sexualidade. E, ao se identificar sexualmente, o fará nessa dupla relação. Para a menina, o amor que salva é o amor do outro. Se ela amar a si mesma em primeiro lugar, perderá o pai e a mãe ao mesmo tempo. O triângulo da menina é como vemos na figura abaixo.



Portanto, tal como o menino, a menina fica também carimbada desde que nasce, mas não para o domínio público e, sim, para o privado, para o domínio do amor, do cuidado do outro, da emoção, da intuição, do altruísmo, etc. Todos sabemos que sem estas qualidades o bebê não resistiria um dia. Assim, a mulher fica para sempre destinada ao domínio da geração e da conservação da vida. E infelizmente também para a submissão.

Porque homens e mulheres se tornaram tão diferentes ?
Para entendermos é necessário recuar na história.

No período pré-histórico que durou quase dois milhões de anos, eram o princípio masculino e feminino que governavam o mundo juntos. Em nosso livro Mulher no 3º Milênio (Ed. Rosa dos Tempos) analisamos este fato em detalhe. Mas, resumindo (muito mesmo!) nas culturas mais primitivas o gênero dominante era o feminino. Durante um milhão e meio de anos as mulheres que tinham força física governavam os grupos pela persuasão, a sedução, conseguindo o consenso. As sociedades eram gozosas e o poder um serviço, um estorvo, uma “batata quente” e que passava de mão em mão. Por isso havia vez e voz para todos e rodízio de lideranças. A propriedade de tudo era comum e a lei da solidariedade e da partilha era a vigente. Os grupos eram pequenos. Não havia guerra nem competição pois isso poderia ameaçar a vida de todos.

Nas sociedades seguintes, as de caça quando foi necessária a força física, o masculino se torna o gênero dominante.

Começam as relações de força: o mais forte passa a dominar o mais fraco e o homem passa a submeter a mulher. Começam as lutas por territórios, a violência, a organização de grupos de cima para baixo de forma autoritária e excludente.

Este processo chega ao seu máximo quando os homens descobrem a maneira de fundir os metais e também os mecanismos da gestação, isto é, quem é o pai da criança.

As mulheres são então reduzidas aos trabalhos da casa e da criação dos filhos (domínio do privado) e os homens outorgam a si mesmos o domínio público, da busca da riqueza, do poder do conhecimento, etc. com a agricultura os povos nômades se sedentarizaram, dividem a terra entre as clãs, e começa a criar-se o embrião do Estado (ver adiante). Tudo pela violência já institucionalizada a partir da manipulação do sagrado.

Agora já não é mais a lei da propriedade comum da solidariedade e da partilha mas sim a do mais forte que domina as relações humanas: a lei da competição é o matar ou morrer, invadir ou ser invadido, prejudicar ou ser prejudicado.

E é isto que inicia o período histórico e vem até os nossos dias. Igual. O mesmo. Não ! Com o avanço tecnológico a lei do mais forte ameaça hoje a própria espécie de destruição.

Mas é preciso salientar que neste últimos oito mil anos foi só o homem que se tornou competitivo. A mulher continuou dentro de casa cuidando da vida. Infelizmente. E digo infelizmente porque só ela conservou os valores arcaicos da solidariedade e da partilha que antes eram características dos dois gêneros! . Os homens passaram a ser inimigos uns dos outros. E assim criaram as diversas civilizações.
Então o que fazer ?
E aqui unimos o que dissemos sobre a História (o mundo externo) e a estrutura psíquica (o mundo interno). Para que o planeta possa sobreviver, é necessário que a mulher traga para o domínio público os valores arcaicos da solidariedade e da partilha, que só ela, na cultura patriarcal moderna, conserva e não o homem. A mulher preserva os valores que foram a base da vida da espécie humana. Só o macho criou outros valores que se mostraram, aliás, destrutivos.

Agora que as mulheres são quase 50 % da força de trabalho e que, portanto, não há mais a divisão entre o mundo público e o privado que caracterizou o patriarcado, pode-se dizer que, tecnicamente, ao menos, já entramos numa Era Pós-patriarcal. Fecha-se, pois, um período de, ao menos, oito mil anos. E, como afirmamos, este é a revolução mais silenciosa e mais profunda deste período histórico.


Que acontece, então, quando a mulher passa a trabalhar fora de casa ?
Normalmente, o homem passa a dividir com ela os cuidados da casa e dos filhos. Assim, meninos e meninas são cuidados igualmente por pai e mãe. Ambos se apegam tanto a um quanto a outro. Quando o menino vai se identificar sexualmente, não o faz mais com o opressor, mas, sim, com um pai que também cuidou maternalmente dele, com um pai que também é mãe. Por isso, não tem medo da castração e a sua identificação se dá dentro de uma relação com o pai não na solidão nem no desamor. Então, ele passa a não ter medo do afeto e a não separar mais sexualidade de afeição. Portanto, não é mais competitivo como o homem patriarcal, e pode, enfim, viver a solidariedade.

A menina, como o pênis não é mais símbolo de superioridade, não tem mais inveja dele e, portanto, não se sente mais inferior. Pode desenvolver as suas capacidades intelectuais ao mesmo tempo que as afetivas. E, desta maneira, teremos homens e mulheres mais integrados, cada um desenvolvendo dentro de si tanto as qualidades masculinas, mentais, quanto as femininas, afetivas.

Nestas famílias, já não é mais “natural” que um mande no outro e, sim, que haja vários centros de poder. Será para sempre natural para as crianças, nascidas nela, uma sociedade pluralista, em que as coisas são decididas por consenso e onde há vez e voz para todos, e, portanto, rodízio de lideranças.

O poder volta, então, na família, a ser um serviço e não o privilégio de mandar autoritariamente que pertencia ao antigo macho patriarcal.

Voltemos, agora, para o mundo político. Já vimos como são as instituições que emanam da Família com estrutura psíquica patriarcal. Elas são triangulares como na figura abaixo:

Nesse triângulo vemos um corte abaixo da cúpula. Essas instituições têm um chefe (ou rei, ou papa, ou presidente, ou diretor, etc.) um vice, um ministro e alguns secretários. Depois há um corte com a base. Esta base não manda nada, apenas recebe ordens de cima e é massa de manobra dos seus chefes, a quem tem que obedecer cegamente.

No patriarcado foi sempre assim em todas as instâncias. No Brasil, por exemplo, em 1964, os militares cortaram a cabeça do estado, dos partidos políticos, dos sindicatos, e dominaram ditatorialmente o país durante vinte anos. Na Idade Média, os feudos mudavam de senhores nas guerras, mas os camponeses permaneciam secularmente como escravos da terra, que era a mesma, quaisquer que fossem os seus senhores. E assim sempre. Mas, quais seriam as instituições que emanariam de uma psique pós-patriarcal ? Essas instituições são, em parte, projeções também da libido feminina além da masculina. E elas já existem nos dias de hoje.

Elas são como a figura 4 abaixo. Imagine uma esfera cheia de esferazinhas que vão se movendo continuamente. Não há base nem cúpula, nem dominantes nem dominados. Mas é uma rede onde todos se conectam com todos os outros pontos.


Tudo que acabamos de dizer tem a ver estruturalmente com a entrada da mulher na história a partir da segunda metade do século XX.

É ela que está levando concretamente as lutas populares. Ela entra na contramão da história. Segundo Leonardo Boff elas constituem 70 % dos que levam essas lutas à frente.

Seu corpo que não se dividiu das fontes arcaicas do prazer trazem as emoções e a subjetividade para dentro dessas estruturas “racionais” dissociadas das suas raízes e portanto, filhas do instinto de morte.

Enquanto houve patriarcado, a democracia nunca existiu. A famosa democracia grega, por exemplo era uma terrível ditadura, pois só votavam os senhores das terras, ricos e livres. Pobres, escravos e mulheres não participavam dela ...

Hoje, já há um pequeno embrião do que poderá ser essa democracia. No Brasil, como desejo de combate à corrupção por parte da população, está havendo, hoje, uma tentativa de controlar o estado pela sociedade civil que, esperamos, seja bem sucedida...

Em nosso país, há um novo projeto em andamento que vem de baixo para cima. Ele se origina dos movimentos sociais e dos partidos políticos nascidos desses movimentos. Mas nesse novo modelo não são os partidos e, sim, os movimentos sociais onde as mulheres são maioria que estão dando o tom.

O Novo Estado inclui, também, e essencialmente a remodelação radical da educação convencional que amestra as crianças para os preconceitos do sistema dominante. Um educação libertadora acelera o exercício da democracia política e econômica.

Tudo isto parece uma utopia. Mas é da sua prática que poderemos reverter o processo de destruição do planeta e alcançarmos um auto-regulamentação da espécie pela primeira vez na história humana.

Por isso, termino este artigo com um sentimento de esperança:

Um mundo novo está em gestação.

Em milhões de famílias já começa a haver relações de igualdade e dignidade entre homens e mulheres. Só no Brasil em 22 milhões e meio de famílias homens e mulheres dividem o cuidado dos filhos e da casa (IBGE). E já estão nascendo os filhos menos competitivos: o novo homem e a nova mulher, que poderão reverter o processo de destruição, já estão aí.

Ainda não é a nossa geração que dará os passos efetivos neste sentido. Se o patriarcado levou milhares de anos para se implantar, precisaremos ao menos de mais duas gerações para vermos funcionar as novas estruturas pós-patriarcais.

Mas seus primeiros resultados estão aí.

Tudo isto está acontecendo neste início de milênio. E temos certeza que estruturas patriarcais estão explodindo graças à libertação da mulher e das etnias oprimidas, minando o patriarcado/capitalismo em suas próprias raízes no inconsciente das crianças e nas nossas ações afirmativas.



Resta, portando, a nós pais e educadores ajudar este novo mundo a nascer.





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