EducaçÃo e a atualidade brasileira



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EDUCAÇÃO E A ATUALIDADE BRASILEIRA” DE PAULO FREIRE: APROXIMAÇÕES INICIAIS

OBJETIVO: O presente ensaio é um caminho importante para o meu trabalho de conclusão de curso. O livro estudado fará parte da minha monografia a qual parte de estudos sobre o pensamento freiriano. O objetivo do presente estudo é compreender os escritos e os pensamentos iniciais de Freire, para um estudo sobre sua c oncepção de gestão, que é a minha pesquisa de monografia. Freire foi um dos maiores teóricos brasileiros, educador, um homem que influenciou e continua a influenciar gerações, formou-se em direito pela Faculdade de Recife, porém dedicou-se a educação, Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997). Segundo Gadotti (1996, p. 107) três filosofias marcaram sucessivamente a obra de Paulo Freire: o existencialismo, a fenomenologia, e o marxismo. No corpo dos seus trabalhos as marcas do valor e do respeito à formação do “Ser Mais”, ao ser humano trazendo a dialogicidade, a coletividade são notórias. Neste estudo apresentarei a primogênita obra de Paulo Freire, Educação e Atualidade Brasileira, visando compreender o pensamento freiriano. Esta obra foi escrita em 1959 no Recife. Produzido para a tese de concurso para a cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas-Artes de Pernambuco, um trabalho intelectual que lhe assegurou este concurso. Freire dedicou sua tese à memória de seu pai Joaquim Temistocles Freire e a sua mãe Edeltrudes Neves Freire. A Elza sua primeira esposa e aos seus filhos: Maria Madalena, Maria Cristina, Maria de Fátima, Joaquim e Lutgardes.

METODOLOGIA: Centralizei o presente estudo na tese de doutorado de Paulo Freire, Educação e Atualidade Brasileira, escrita em 1956 e para complementar e ampliar o meu conhecimento busquei alguns conceitos freirianos a partir das obras: Conceitos de Educação em Paulo Freire das autoras Vasconcelos e Brito (2009) e do Glossário freiriano que fica na última parte do livro Paulo Freire: Uma biobibliografia, organizado por Moacir Gadotti (1996). Essas leituras complementares foram necessárias para aprofundar o estudo, pois, a obra não é tão fácil de ser entendida, precisando de momentos de reflexão e outros de repetição da leitura e anotações reflexivas sobre a complexidade da obra. Elaborei um fichamento das principais idéias e em seguida fiz uma resenha. Cabe aqui introduzir o pensamento de Paulo freire (1981, p.10) sobre o ato de estudar: Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando o escreveu. Comungando com o pensamento do autor, busquei fazer um estudo reflexivo sobre o que ele investigou na sua tese de doutorado. Então, ser um estudante leitor é fazer uma leitura completa dos textos, é poder fazer uma leitura de mundo para que as grandes teorias não fiquem apenas no papel, mas na ação do homem frente ao mundo.

RESULTADOS: Eustáquio Romão organiza a tese de doutorado de Paulo Freire e a publica junto com o Instituto Paulo Freire em 2002. Registra Romão que para a obra ser publica Freire exigiu uma contextualização. Cabendo aqui registra que Romão frisou na obra: É muito importante reconstituir o contexto em que se tornou possível a emergência dessas fontes, bem como o que potencializou as condições para que Paulo Freire nelas bebesse, re-esboçasse algumas e re-laborasse outras, de um modo todo pessoal, genuinamente nordestino [...] (2002, p. XVI).

Na publicação do livro Eustáquio Romão faz a contextualização, denominada de: Contextualização: Paulo Freire e o Pacto Populista; Paulo Rosas faz o primeiro depoimento, a citação acima foi retirada deste: Recife – Cultura e Participação e o segundo depoimento muito tocante, da filha de Freire- Cristina Heiniger Freire – Convivência com meus pais. Ela registra momentos marcantes da história de seu pai e que consequentemente atingiu sua família, um dos foi o exílio. Cristina Freire (2002, p LXXXI) metaforicamente escreve que:

Foram momentos difíceis para todos nós, e acredito que cada um o vivenciou de maneira diferente. Pessoalmente, sentia-me como uma planta violentada arrancada da terra. Este sentimento me acompanhou por muitos anos e só foi diminuindo à medida que fui criando raízes, sempre ficando a dúvida do lugar destas raízes.

E em seguida a tese de doutorado de Paulo Freire, o qual está dividido em Introdução, três capítulos, anexo I e II e as referências.

Na contextualização Romão reflete sobre o cenário internacional e nacional, no primeiro ele apresenta algumas concepções teóricas que influenciaram a década de 50 e 60 e que Paulo Freire bebeu. O existencialismo presente nas obras freirianas foi uma das concepções importantes e que foi “por intermédio de Gabriel Marcel que Freire bebera-se dessa fonte” (ROMÃO, 2002, p. XIX). Gabriel Marcel aceitou ser chamado de existencialista cristã. Outros teóricos da existência Cristã que Freire bebeu foram Jacques Maritan e Emmanuel Mounier, os dois são franceses. Maritan inspirado em Aristóteles e Santo Tomás de Aquino desenvolveu a teoria do Estado do Bem Comum, mas sempre destacando questões esperituais. Para este teórico o regime democrático é o respeito a cada pessoa humana, como Freire teve esses estudos para respaldos teóricos, verifica-se que Freire analise a gestão partindo desta concepção humanizadora.

No cenário nacional Romão trata de questões políticas do Brasil. Inicia sobre a década de 20, momento em que explodiram mais explicitamente as crises políticas, pois ocorreriam as eleições denominadas de “competitivas”, neste modelo de eleição não se saberia quem iria ser o presidente com antecedência, porém sabiam que a competição se daria entre as classes dominantes, este modelo eclodiu uma crise política e social. Na década de 30 vieram as crises conjunturais, de 1930 a 1934 com o governo provisório, que teve como característica o intervencionismo, nacionalismo econômico, planejamento estatal, processo de industrialização, urbanização acelerada, exacerbação da questão social, aparecimento de partidos d dimensões nacionais. Essas características diferem do antigo governo que era a Republica, neste predominava o liberalismo e federalismo.

Na década de 30 com Getulio Vargas no poder centralizou o intervencionismo estatal e na defesa do nacionalismo. Ao chegar na década de 40 no período de 1945 até o 1964 o Brasil , tem o seu cenário político envolvido por questões burguesas como a experiência de democracia burguesa, menos com o general Dutra, que se afastou do Pacto Populista. Os momentos de tensão política do Brasil, permitido a Freire várias reflexões e elaboração de sua tese de doutorado, os contextos políticos e sociais o influenciaram para as críticas.

Neste primeiro escrito Freire escreve alguns conceitos que o acompanhou durante sua vida intelectual e de escritor, pesquisador reflexivo. Freire utiliza como referencia na tese os intelectuais do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado por Juscelino Kubistschek , em julho de 1955, sendo que foi extinto em abril de 1965 pelo golpe militar. “Os críticos “isebianos” procuram mostrar seus pressupostos “liberais”, isto é, a “aliança de classe” na realização do desenvolvimento nacional. Um dos intelectuais citados por Freire é Hélio Jaguaribe, o termo faseológico utilizado por Freire vem deste professor do ISEB. Faseológico significa os aspectos mais singulares de um povo de uma formação social, “Fereire utiliza este termo com um valor semântico da historicidade dialética” (ROMÃO, 2002 p. XLI).

Conscientização, bastante utilizada por Freire este termo foi apresentada ao mesmo pelos intelectuais do ISEB, que por volta de 1964 um conjunto de educadores fizeram uma reflexão intensa sobre esta palavra. Verifica-se que Freire não é o pai deste termo, mas apesar de retirar o termo do ISEB, o teórico não comunga absolutamente com tudo que refletiram os isebianos. (Romão 2002), apresenta que Freire apesar de usufruir deste termo, ele pensou ao contrário dos isebianos, no sentido que para ele o ser humano não era intransitivo por absoluto, porque o homem tem sua vocação ontológica. Assim podendo mudar, avançar o nível de consciência.

A consciência intransitiva apresenta-se de forma ingênua, podendo passar para a consciência transitiva crítica ou para a fanatizada (massificação). Mas o que o teórico quer dizer ao falar em consciência intransitiva? E por que a consideramos importante para tratar a temática da gestão educacional? Acreditamos que a concepção de gestão educacional para Freire esta intrinsecamente relacionada a evolução da consciência.

A intransitividade refere-se aos sujeitos que possuem uma compreensão limitada à condição biológica, estando de forma vegetativa e mitificada, o homem não age em nível histórico (FREIRE, OLIVEIRA; CARVALHO, 1959, 2007). Freire (1956, p.32) escreve na sua primeira obra algumas características da consciência intransitiva:

Falta-lhe historicidade, ou, mais exatamente, teor de vida, em plano histórico. Sua consciência é intransitiva, nestas circunstâncias. É a consciência dos homens de zonas pouco ou nada desenvolvidas do país. São uns “demitidos da vida” ou, talvez mais precisamente, uns inadmitidos à vida, tomada a expressão no seu sentido mais amplo.

O homem que se encontra neste nível de consciência, são seres oprimidos, são incapazes de refletir sobre sua condição social de cidadão, sobre os seus direitos e deveres. A educação é um caminho para que essa forma de consciência ingênua seja superada, e vale destacar que o gestor e o educador qualificado, são capazes de processos democráticos e reflexivos para que se amplie o nível de consciência dos sujeitos, porém não é bem o que se tem visto e vivido na nossa realidade educacional.

A consciência intransitiva está presente nas escolas do campo áreas que pouco se discutem e refletem sobre o papel dos seres humanos na sociedade, assim a visão da realidade é estática. Os oprimidos precisam de lideres que lutam com eles, levando-os a criticidade da sua realidade. As crianças de escolas públicas de áreas urbanas também precisam ter a frente da instituição uma equipe gestora que elevem suas consciências. Mas para isto acontecer de fato é imprescindível uma relação que não favoreça a antidialogicidade e nem a antidemocracia. Que o poder não seja centralizador, burocrático e que não de ênfase as questões hierarquizadas.

Na atualidade o que ainda encontramos são gestores e políticos, que se beneficiam com a consciência intransitiva. Um caso marcante e que esta sendo bastante discutido pelas mídias, é o desvio de verba de merenda escolar. Crianças que já vivem em condições precárias- as e que famílias acreditam que a única alimentação com valores nutricionais será a refeição realizada na escola, mas, que na maioria dos casos são merendas de má qualidade, má conservação, alimentação expostas a bichos e insetos, em outros casos a merenda é inexistente, assim as crianças não têm aula. Quem se beneficia com isto? Gestores políticos, que vivem e se nutrem da consciência intransitiva de populações com pouco poder aquisitivo.

A consciência transitiva divide-se em: transitiva ingênua e transitiva crítica. A primeira já é uma superação da intransitividade, porém se caracteriza pela simplicidade da argumentação, na interpretação dos problemas, não consegue levantar as problemáticas nem chegar à raiz de questões políticas e sociais, estão ligados excessivamente pela emoção (FREIRE, 1956). A consciência ingênua é uma distorção da consciência transitiva, pois ela deveria evoluir, para a crítica, mas fica na massificação, que é o fanatismo. Os níveis de consciência são historicamente formados, podem ser historicamente alterados (OLIVEIRA; CARVALHO, 2007). Desta maneira, os sujeitos podem ou não avançar os níveis de consciência, mas sou enfática ao afirmar que a educação é um dos meios necessários para isto.

A consciência crítica é o nível mais elevado de consciência proposto por Freire, neste nível o homem vive a sua vocação ontológica e histórica, a sua compreensão é profunda e reflexiva, a realidade vive em movimento, existe o diálogo entre consciência e mundo. Luta pela mudança e enquanto luta acredita e espera, almeja a educação como um ato libertador, em que existe comunicação; e a futuridade é revolucionária e não fatalista. É com este nível de consciência que intelectuais da gestão devem buscar junto com educadores, educandos e comunidade um movimento dialógico possível, que vise a evolução da transitividade ingênua para a transitividade crítica. Freire (1956, p. 16) registra que o grande perigo de processos hierarquizados está na:

violência do seu antidiálogo que, impondo ao homem mutismo e passividade, não lhe oferece condições especiais para o desenvolvimento ou abertura de sua consciência que, nas democracias, há de ser cada vez mais crítica. Sem esta consciência cada vez mais crítica, a que os referimos adiante, não é possível ao homem ajustar-se à sociedade atual, intensamente cambiante.

Em todo o momento da obra o autor se posiciona contra a anti-democracia, chamando-a de estranha democracia sem povo que a atrapalhe ou perturbe, criticas a uma pseudodemocracia, que possui um atendimento assistencialista e enganam a sociedade. Contra essa visão o intelectual apresenta as experiências vividas no SESI (Serviço Social da Indústria), exemplo disto momentos em que os operários eram chamados para o debate dos problemas comuns, dando um sentindo socialmente responsável e uma experiência para exercer a democracia. “Experiência que oferecia ao homem proletário oportunidades para a sua participação”. (FREIRE, 1956, p. 19) Isto deste do inicio era de suma importância para o teórico, dar voz ao povo e não silenciar e oprimir, sua luta sempre foi para a transformação social e para isto a conscientização dos seres humanos em busca da mudança.



COCLUSÕES: Na sua tese de doutorado Freire inicia uma discussão sobre dar vozes ao povo e não silenciá-los com posturas falas e calavinosas. Colocando o exercício da democracia como algo necessário para uma organicidade social. Esta primogênita obra de Freire nos possibilita compreender suas outras obras como Pedagogia do Oprimido entre outras, pois em todos os momentos suas análises são a favor do diálogo, de uma gestão democrática e humanística.

A vivência democrática possibilitou no SESI uma intimidade entre grupos de operários e líderes e puderam compreender coisas claras e simples registrou Freire que uma destas coisas foi: “a necessidade, entre os políticos e o povo, de uma comunicação existencial. De uma linguagem existencial, que fale seus problemas e suas dores e apresente soluções concretas e simples”. (FREIRE, 1956, p. 22).

Freire na obra trata o papel do gestor denominando-o de líder, coloca que: A liderança se torna difícil na medida mesma em que é plástica e permeável. Em que repete toda posição “ingenuamente” quietista. E exige dos que lideram crescente convivência com o povo e seus problemas, somente a partir de que é possível a tentativa de suas soluções. (FREIRE, 1956, p. 22)

Educação e Atualidade Brasileira refletem sobre uma formação democrática que seja capaz de possibilitar aos sujeitos uma relação com suas vivências do dia a dia, mas isto é uma atitude de instituições que a equipe gestora possui práticas dialógicas.



REFERÊNCIAS:

FREIRE, Paulo. Educação e Atualidade Brasileira, 1956. ROMÃO, Eustáquio (Org.).São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2002.

______. Pedagogia do Oprimido, 13 ed, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.

______.Ação Cultural para a Libertação. 5 ed, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.

GADOTTI, M.oacir (org.). Paulo Freire: uma biobibliografia. IPF. São Paulo, 1996.

VALE, Maria José. Paulo Freire, educar para transformar: almanaque histórico. São Paulo: Mercado cultural, 2005.



VASCONCELOS, Maria Lucia Marcondes Carvalho; BRITO, Regina Helena Pires de. Conceitos de Educação em Paulo Freire. 3 ed. Petrólis, RJ: VOXES, 2009.


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