EducaçÃo e educadoras na paraíba do século XX: práticas, leituras e representaçÕES



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EDUCAÇÃO E EDUCADORAS NA PARAÍBA DO SÉCULO XX: PRÁTICAS, LEITURAS E REPRESENTAÇÕES


Márcia Cristiane Ferreira Mendes

(UFPB Bolsista PIBIC/CNPq)

Viviane Freitas da Silva

(UFPB Bolsista PIBIC/CNPq)

Charliton José dos Santos Machado

(PPGE – UFPB)

Maria Lúcia da Silva Nunes

(PPGE – UFPB)



Introdução

Nas primeiras décadas do século XIX, alguns movimentos surgem para expressar as insatisfações das mulheres diante da falta de representatividade política, objetivando serem reconhecidas como sujeitos da história, com direitos iguais nas relações familiares e em outros lugares que eram determinados pela sociedade, na qual elas não tinham espaço, ou seja, coloca-se em discussão a necessidade das mulheres participarem politicamente e socialmente para a construção de uma nova cidadania.

No interior de tantas mudanças, a educação passa a ocupar lugar de destaque, ora como elemento de transformação e de abertura para novas possibilidades de pensar e viver, ora como instrumento de massificação e reprodução do status quo. Todavia, dentre os sujeitos emergentes que perpassaram a educação e a pedagogia no século XX, a mulher ocupa posição de destaque. Através dos movimentos feministas que, já no século anterior, debatendo-se entre o positivismo e o socialismo, buscavam estabelecer espaços políticos e sociais para as mulheres, enfatizando o direito ao voto e à educação. Nesse contexto, puseram em foco para debate e reflexão as relações entre homem, mulher e família, praticadas até então.

A intenção de explicitar as práticas, as representações e as leituras das educadoras paraibanas e a educação no estado no decorrer do século XX, bem como discutir as relações de gênero que perpassam esses processos é contribuir efetivamente para a construção da história da educação, da história da mulher e da história da leitura na Paraíba.

Na pesquisa em desenvolvimento foram utilizados documentos escritos, iconográficos e orais. Por essa perspectiva, buscou-se apoio metodológico nas contribuições da Nova História Cultural.

Para o desenvolvimento da pesquisa foram realizadas visitas periódicas ao Instituto Histórico Geográfico da Paraíba (IHGP) e a Fundação Espaço Cultural da Paraíba (FUNESC). Constatou-se com as visitas às bibliotecas públicas de João Pessoa - PB lacunas no que se refere à seqüência cronológica dos jornais e revistas em seus acervos. Esses materiais encontram-se em fase de digitalização e análise.


Resultados e/ ou conclusões

As fontes têm sido reveladoras de perfis de educadoras, entre elas, algumas poetisas se destacaram por táticas e ferramentas que eram fornecidas através das leituras de romances em suas publicações, ressaltando a formação profissional da mulher, a luta pela educação e pelos direitos políticos. Acerca desta questão, assevera Machado (2006, p.31):

[...] Ressalte-se que, no Brasil, ainda se vivia sob a égide total das tradições patriarcalistas mais arraigadas, desfavorável à presença da mulher na vida publica, o que, por conseguinte, recomendava a manutenção dos padrões consagrados à mulher na ordem familiar, ou seja, na dependência ao marido e às atividades de ocupação doméstica.
Nas destacadas lutas feministas, entre o final do século XIX e inicio do século XX, percebem-se traços de mudanças através das suas práticas de escrita, conforme expressa a citação a seguir:
Partindo dessa compreensão da mulher como excluída da história, necessário se faz também enfatizar a importância da escrita como prática cultural, sobretudo a partir do século XIX, quando deixou de ser um domínio exclusivo dos papéis masculinos e se transformou no principal veículo do acesso feminino à esfera pública. Através da escrita, aos poucos, as mulheres apropriaram-se do mundo e múltiplos significados culturais lhes foram proporcionados, provocando deslocamentos entre as dicotômicas fronteiras dos espaços público e privado, reconstruindo a imagem feminina na sociedade moderna. (MACHADO, 2005, p..18).
Nesse particular, as matérias até então analisadas no jornal A União, entre 1900-1930, apontam a participação de “senhoras e senhoritas em arrancada política”, nos comitês femininos, principalmente, no período de 1930, com as candidaturas presidenciais de Getúlio Vargas e João Pessoa, informação esta veiculada pelo citado impresso em 14 de janeiro de 1930:
Para aquella localidade viajou, pela manhã, o prefeito Fernando Pessoa, acompanhado dos oradores e de um préstito de doze automóveis, conduzindo famílias de alta distincção na sociedade ítabayanense, senhoras e senhoritas, ostentando laços e lenços vermelhos, davam ao cortejo um aspecto elegante e distincto, erguendo vivas à Alliança Liberal e ao presidente João Pessoa.
Em cada documento se faz necessário um estudo minucioso na busca de artigos, matérias, fotos, trechos de poemas, que demonstram, entre outras coisas, a atuação de mulheres educadoras colaborando para uma repercussão feminina positiva na sociedade da época.

Nas revistas Era Nova, Manaíra, De Tudo... localizadas no Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), percebeu-se que as mesmas eram direcionadas às mulheres, embora, sendo escritas por homens, com o objetivo de apresentar as mulheres da alta sociedade; todavia, nessas revistas publicavam-se, também, poesias e artigos de autoria feminina.

Nesse contexto de predominância masculina nos cenários literário, educacional, social e político, as mulheres sutilmente ganharam espaços com as publicações de poemas. Algumas figuras importantes surgiram para marcar o direcionamento feminino no século XX, tais como: Olivina Olívia, Adamantina Neves, Alba Regina, Anayde Beiriz, Daura Santiago Rangel, Rosalina Coelho Lisboa, Júlia Lopes de Almeida, Maria Leopoldina, Sady Garibalde, Coralina Wanderley, Ofélia Lucena Osias, Inácia de Lima, Clélia Lopes de Mendonça, Carmem de Araújo Lima, Violeta Marques da Silva, Beatriz Guedes, Maria da Penha Vinagre, Tércia Bonavides, Analice Caldas, Maria de Sousa Carvalho, Zeferina Ramos, Julia Medeiros, Consuelo Moraes, Emilia Lustosa Cabral, Diva Pacote, que participavam com poesias e discursos, mas além destas, outras educadoras começavam a ganhar espaço e visibilidade.

Ao entender que as educadoras em tela sempre estiveram presentes no debate literário e poético no século XX, a Academia Paraibana de Poesia, fundada em 2 de janeiro de 1949 e reestruturada em 2007, destaca poesias e matérias escritas por mulheres, em sua maioria, educadoras e poetas paraibanas, informação sugerida pelas próprias fontes pesquisadas.

Na perspectiva de ampliar informações referentes à vida das educadoras, mulheres ativas e participativas da construção da história Paraibana de um determinado período, recorreu-se a contatos orais, sendo possível identificar alguns alunos remanescentes das instituições onde as educadoras já pesquisadas trabalharam por toda uma vida. Sobre essa questão, é importante ressaltar:
Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa de figurantes mudos que enchem o panorama da História e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes que outros, os que apenas escreveram a História. (DIAS, 1998, p.11)
Portanto, destacam-se os ex-alunos, Joacil de Brito Pereira, advogado, escritor e ex-deputado estadual e federal (aluno de Olivina Olívia); Osíris do Abiahy, advogado (sobrinho de Olivina Olívia); Pr. João Pereira Filho (sobrinho de 2º grau de Argentina Pereira Gomes) e José Octávio de Arruda Mello, historiador paraibano (ex-aluno de Argentina Pereira Gomes). Os relatos e narrativas contribuem para aprofundar a história contada e registrada através das fontes escritas pesquisadas, a exemplo do depoimento de João Pereira Gomes Filho, acerca da dedicação da professora Argentina Pereira Gomes:

Amante do ensino, louca pelos seus alunos, apaixonada pelo ensino, nunca quis fazer outra coisa na vida, conquanto dissera que houve convites para assumir posto na Secretaria da Educação [...] ela nunca quis se afastar da cátedra, nunca quis sair da sala de aula, todo convite que ela recebeu, ela dizia: ‘desde que não me afaste da sala de aula, desde que não me tire daí’. (JOÃO PEREIRA GOMES FILHO, entrevista realizada em 02/01/2009).

Nesse sentido, a reconstrução da história e memória das educadoras que exerceram um papel determinante na sociedade paraibana revelou-se complexo e minucioso, haja vista que muitos familiares dessas educadoras já faleceram; algumas não foram casadas; poucas famílias doaram ou restauraram documentos relativos à vida das citadas personagens da pesquisa, aprofundando assim, o esquecimento da sua atuação, sua memória histórica e educacional. Por isso, o trabalho do historiador é o mesmo de um incansável garimpeiro, na busca de desvelar o objeto estudado, muitas vezes considerado inacessível.

Portanto, como resultado final, cabe informar que a documentação identificada, catalogada e em continuidade de análise, já aponta para uma relevante dimensão histórica da pesquisa, resgatando através das revistas e jornais, entre outras questões, nomes, datas de aniversários, datas de falecimento, poesias, escritos políticos, participação em eventos, fotografias, contrato de trabalho etc. Material decisivo para a produção de um livro dicionário de educadoras paraibanas do século XX.



REFERÊNCIAS
ASSIS, Francymara Antonino Nunes de. [et al.] (Orgs.) Do silêncio à voz: pesquisa em história oral e memória.. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2008.
LANGLOIS, Charles V.; SEIGNOBOS, Charles. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Renascença, 1944.
GALVÃO, Ana Maria de Oliveira & LOPES, Eliane Marta Teixeira Lopes. História da educação. Rio de Janeiro, DP&A, 2001.
MACHADO, Charliton José dos Santos. A dimensão da palavra: práticas de escrita de mulheres. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2005.
_____. Mulher e Educação: história, práticas e representações. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2006.
REIS, José Carlos. Novelle histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre, Bloch e Braudel. São Paulo: Ática, 1994.
SILVA, Marinalva Freire da. Daura Santiago Rangel: uma educadora. João Pessoa: Idéia, 1993.
SAMARA, Eni de Mesquita, TUPY, Ismênia S. Silveira T. (Org.). História, documentos e metodologia de pesquisa. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

ANEXOS


Profº. Beatriz Correia de Souza- REVISTA ERA NOVA - 15 de Agosto de 1925, Anno V, Num. 85, s.nº.



Profº. Maria da Penha Vinagre - REVISTA ERA NOVA- 15 de Junho de 1924, Anno IV, Num. 64, s.nº


Prof. Petronilda Mesquita- REVISTA ERA NOVA- 15 de Junho de 1924, Anno IV, Num. 64, s.nº.



Profº. Emilia Lustosa Cabral – REVISTA ERA NOVA - 15 de Setembro de 1925, Anno V, Num. 86, s.nº.



Profº. Maria Alba Araújo - REVISTA MANAÍRA - Abril/ Maio de 1944, p.1.



Profº. Abigail Souto, REVISTA ERA NOVA-15 de Junho de 1924, Anno IV, Num. 64, s.nº



Profº. Elvira Pereira de Araújo, REVISTA ERA NOVA - 15 Outubro de 1925, Anno V, Num. 88, s.nº.





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