EducaçÃo e representaçÕes de imprensa: mestres e discípulos no interior paulista (DÉcada de 1960) gt uberlândia sauloéber Társio de Souza Universidade Federal de Uberlândia – ufu fapesp



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EDUCAÇÃO E REPRESENTAÇÕES DE IMPRENSA: MESTRES E DISCÍPULOS NO INTERIOR PAULISTA (DÉCADA DE 1960)
GT UBERLÂNDIA

Sauloéber Társio de Souza

Universidade Federal de Uberlândia – UFU

FAPESP

sauloeber@pontal.ufu.br


Há uma historicidade da história que

implica o movimento que liga uma prática

interpretativa a uma práxis social.

Michel de Certeau (1970)

Abordamos nesse trabalho, algumas das muitas representações elaboradas pela imprensa de Franca (cidade industrial do interior paulista), em torno do universo educacional, ao longo dos anos 60. Pretendemos revelar aspectos do discurso dominante que fundamentou a organização e a acelerada expansão da rede escolar local, desvendando interesses implícitos nas representações veiculadas de professor e de estudante. Acreditamos, assim, poder compreender o tipo de educação pensada e “dada a ler” (CHARTIER, 1990) por determinados setores sociais, buscando demonstrar, com mais clareza, a forma de legitimação das condições específicas da modernização pela qual passava o país.

No entanto, cremos que o trabalho de decifração do sentido contido numa representação elaborada por um jornal, por exemplo, só é possível mediante a articulação entre texto e contexto. Dessa maneira, é importante lembrar que a década de 60 foi marcada por forte crescimento do sistema de ensino nacional (com a multiplicação tanto das instituições públicas quanto das particulares) o que exigia de todos os níveis de governo maior empenho administrativo nesse setor, objetivando-se controlar a pressão popular por escolarização, já que havia grande expectativa de melhoria nas condições de vida a partir do acesso à escola. Em nenhum momento da história brasileira houve tanto empenho na sistematização da educação. Isso fica evidenciado pelas promulgações da primeira LDBEN no. 4024, no ano de 1961, e por leis que a modificaram como a no. 5692/71 (FREITAG, 1986).

Vale ressaltar que a grande influência das potências capitalistas na área educacional dos países periféricos visava, sobretudo, à ampliação dos mercados dispostos a consumirem seus produtos industrializados. A idéia básica divulgada sobre a educação era a vinculação direta entre nível escolar e renda, encontrando-se aí a fonte de toda a motivação da expansão do sistema de ensino nesse período. Tal discurso representava a principal bandeira ideológica hegemônica nacional e internacional. Assim, a escolarização das massas se tornaria mais um instrumento para acumulação de capital.

A partir dos anos 60, o ensino básico foi de fato massificado nas regiões mais desenvolvidas do país. Em Franca, a rede oficial passou de 10 escolas em 1962, para 21 em 1970 (mais de 100%) e as faculdades de 02 para 04, enquanto as escolas particulares diminuíram de 05 para 03 unidades. Toda essa movimentação nas instituições locais era vista pela imprensa da cidade de formas distintas e até conflitantes, o que reafirmou nosso entendimento de que a atividade jornalística não apenas transmite fatos, mas gera-os, compondo-os com visão bastante particular dos acontecimentos, o que resulta em somatória de subjetividade e de interesses aos quais o jornal está vinculado. Como observou Capelato (1988, p.13): “(...) a imprensa registra, comenta e participa da história. (...) Desde os seus primórdios, a imprensa se impôs como uma força política. Os governos e os poderosos sempre a utilizam e a temem; por isso adulam, vigiam, controlam e punem os jornais.”

A imprensa tem se configurado como uma das principais fontes para as pesquisas cujo objeto tem sido as questões histórico-educativas, em função das limitações do acesso as fontes documentais relativas a educação, seja pela falta de conservação e organização das mesmas, seja pela sua destruição. Em relação às fontes jornalísticas Araújo e Inácio Filho (2005, p.177) afirmaram:


Do ponto de vista temático, a imprensa tem-se revelado em fonte ímpar, pois sua peculiaridade é revelar o movimento da história (seja ele educacional, social, comercial, industrial, político, literário, econômico, cultural etc.) em sua dinâmica cotidiana, tal como visto por aqueles que decidem o que noticiar. (...) Embora, por vezes, o jornal seja encarado como uma fonte suspeita, na verdade é um rico manancial para a investigação histórico-educacional.
A relevância conferida aos jornais locais neste estudo está também no fato de que, até fins dos anos 60, este veículo de comunicação, sobretudo no interior do país, ainda era um dos principais difusores de discursos e imagens, ficando atrás do rádio que ultrapassava a barreira do analfabetismo, por meio da veiculação oral. Apesar do grande número de analfabetos e semi-alfabetizados, o jornal continuava sendo uma força formadora de opinião, mesmo perdendo espaço para a TV, com seu forte apelo tecnológico audiovisual, tornando-se hegemônica no mercado da informação, a partir dos anos 70 (MILANESI, 1978).

Dessa forma, elegemos para nossa análise três jornais locais que consideramos bastantes representativos do período, seja pela tiragem, que ampliava o âmbito de divulgação, seja pelas peculiaridades ideológicas decorrentes da vinculação dos diretores e proprietários desses veículos de comunicação com determinados interesses de grupos locais. Também destacamos o aspecto funcional da pesquisa nesses periódicos, uma vez que suas coleções estão praticamente completas e disponíveis no acervo do Museu Histórico Municipal “José Chiachiri”.

O jornal “Comércio da Franca” foi fundado em 1915 e, até 1950, circulava semanalmente. Nesse período, membros da maçonaria (advogado e industriais) adquiriram-no, dando-lhe formato de periódico diário. Nos anos 60, suas edições variavam entre 2 e 8 folhas e, em 1967, sua tiragem era de cerca de 6000 exemplares. Destacamos sua postura progressista, no início dos anos 60, colocando-se contra a aprovação da LDB no. 4024, e em defesa da escola pública. “Mobilização dos estudantes francanos” e “Atentado à Escola Democrática” são títulos de artigos que convocavam professores e alunos para que se posicionassem contra a LDB que estaria em vias de ser aprovada. Vejamos abaixo:
Alteia-se por todo o país a onda de repulsa ao nefando substitutivo de Carlos Lacerda ao projeto – ‘Diretrizes e bases da Educação’. (...) Causa-nos espécie o fato de, em detrimento das escolas oficiais, serem atribuídas tantas regalias aos institutos de ensino particulares, hoje comercializados como todos sabem. Boa parte dos educandários, inclusive numerosos estabelecimentos religiosos, vem ministrando o ensino com fins meramente lucrativos.

Já “O Francano” surgiu ainda no século XIX, no ano de 1888. Com algumas interrupções em sua impressão ao longo do tempo, circulava duas vezes por semana em 4 páginas e, em 1966, encerrou suas atividades, cerca de um ano após a morte de seu diretor, Taufick Jorge (de origem sírio-libanesa). Ressaltamos na leitura desse periódico que, no início da década de 60, servira como instrumento de propaganda para a reeleição do Deputado Estadual Onofre Gosuen, veiculando nos meses anteriores à eleição diversos projetos de sua autoria que tratavam da criação de instituições de ensino em Franca. Propôs, entre outros projetos, a criação das Faculdades de Arquitetura, de Agronomia, de Filosofia, de Engenharia Industrial, além de grupos e ginásio escolares: “Escolas, Química Industrial e Medicina Veterinária – Três outros importantes projetos de leis, apresentados à consideração da Assembléia Legislativa do Estado, pelo nosso conterrâneo, deputado Onofre Gosuen”.

Por fim, fizemos a leitura da coleção do jornal “O Aviso de Franca” que tinha vínculos com a Igreja Católica e também com setores do operariado da cidade. Iniciou suas atividades em 1924, nos anos 60 circulava semanalmente, era impresso em 2 folhas (04 páginas) e sua tiragem variava de 3000 a 3500 exemplares. Uma de suas particularidades estaria na defesa do ensino privado e da LDB 4024, travando intenso debate com o jornal “Comércio da Franca” que se posicionava contra tal lei. Veiculou artigos bastante reacionários sobre tal questão: “Diretrizes e Bases Repudiadas pelos comunistas” ou ainda, “Escola Pública versus Escola Particular” quando argumentava que a escola privada prestava imensos serviços ao país, colocando em dúvida, a qualidade do serviço público:
Rio (CRF) – Agentes comunistas revolucionam a mocidade estudantil do Rio incintando-a contra o Projeto das Diretrizes e Bases da Educação Nacional, recentemente aprovado por unanimidade na Câmara de Deputados. Em várias partes da Capital aparecem cartazes com o fantoche: ‘Diretrizes e Bases destrói a Escola Pública!’ O democrático Projeto da Educação não sintoniza em absoluto com o totalitarismo soviético.
Percebemos acima que os jornais da cidade adotavam suas próprias posturas ideológicas e atuavam, nitidamente, na defesa de seus interesses que, muitas vezes, eram até opostos, como ocorreu, no início dos anos 60, quando da aprovação da LDB 4024. No entanto, com o advento da ditadura, mesmo os jornais do interior tiveram reduzidos os debates em torno de questões nacionais importantes, uma conseqüência da censura imposta. As discussões sobre sucessão na administração pública foram bastante mutiladas, isto é claro até em Franca, uma vez que os periódicos locais não se prestaram de forma explícita como veículos de propaganda eleitoral, como acontecera com “O Francano”, que dedicara bastante espaço ao então candidato à reeleição, Deputado Gosuen.

Mesmo reconhecendo que os jornais tinham motivações diferenciadas na construção e veiculação de suas representações sobre o universo educacional em Franca, é um fato, no entanto, que todos reservavam espaço relevante de suas edições aos assuntos ligados ao ensino. Uma semelhança entre estes periódicos foi a prioridade dada ao ensino médio e superior, com grande parte dos artigos tratando destes níveis da educação. Até mesmo o jornal “Comércio da Franca”, que adotava linha mais progressista em determinados assuntos, seguia tal tendência, enquanto a educação básica aparecia pouco e sempre vinculada às suas dificuldades, como baixos salários de seus docentes, péssimas condições dos prédios, falta de vagas etc.

A imprensa local privilegiava o mundo restrito dos cerca de 10% da população francana, em idade escolar, que completava os níveis médio e superior, em 1970. A educação nestes níveis de ensino gerava grande prestígio, assim, continuava sendo apresentada e celebrada como um privilégio de classe, mas popularizada apenas no nível do discurso. As preocupações próprias dos grupos dominantes assumiam proporções de interesse geral nas páginas dos jornais que visavam a atingir o público de maior escolaridade, renda e com mais força de mobilização.

Não é possível saber até onde ia a penetração do discurso jornalístico, devido ao grande número de analfabetos e à pobreza que impedia até mesmo a aquisição do jornal, porém é certo que tal discurso advinha em boa parte de uma visão de mundo dominante, difundida com todo empenho pelas classes privilegiadas locais, isso é facilmente perceptível pela observação da origem social dos proprietários dos jornais.

Muito embora os jornais francanos adotassem suas próprias opiniões, todos contribuíram para a consolidação de algumas representações em torno da educação, especialmente, dos estereótipos de aluno e professor. Cremos que a observação da educação representada na imprensa escrita local revela determinados pensamentos e práticas sociais de época, uma vez que a produção desse tipo de documento (jornalístico) pressupõe um ato de poder no qual estão implícitas relações de cunho político-ideológico.

Assim, a utilização do conceito de representação nos parece adequado para este estudo. Chartier entende as representações como elementos de transformação do real e que atribuiriam sentido ao mundo. A construção desse sentido ou simbolismo social não ocorreria dentro de uma liberdade absoluta, pois as representações necessariamente, teriam em sua concepção, um fundo de apoio nas condições reais de existência, ou seja, as idéias-imagens possuiriam um mínimo de concreticidade extraída do cotidiano para que tivessem aceitação social. Assim, o discurso e a imagem não seriam meros reflexos estáticos da realidade vivida, mas poderiam vir a ser instrumentos de constituição de poder e transformação desta realidade. (CHARTIER, 1991)

Como observou Jovchelovitch, as representações, constituídas por um sistema de símbolos, não podem ser entendidas apenas como máscaras de estruturas sociais desiguais, já que são articuladas tanto com a vida coletiva de uma sociedade, como com os processos de constituição simbólica, nos quais sujeitos sociais lutam para dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar. Dessa maneira, “Símbolos pressupõem a capacidade de evocar presença apesar da ausência, já que sua característica fundamental é que eles significam uma outra coisa. Nesse sentido, eles criam o objeto representado, construindo uma nova realidade para a realidade que já está lá.” (JOVCHELOVITCH, 1995, p.74)

Assim, os símbolos difundidos em torno do universo educacional pelos jornais locais adquiriam diferentes significados em meio à acelerada expansão e organização da rede de ensino em Franca. Interessa-nos, neste estudo, observar as construções empreendidas pela imprensa francana sobre os estereótipos de estudante e de professor que, durante os anos 60, ganharam reelaborações diversas, atendendo aos diferentes horizontes políticos daquele momento.

Para isso, no entanto, é fundamental promover o diálogo entre texto e contexto, pois não se pode compreender determinado discurso quando este é arrancado das circunstâncias sócio-políticas e econômicas junto às quais fora elaborado (produzido). Assim, buscamos garimpar significados na tarefa de decifração destas categorias representadas nos jornais locais, procurando vislumbrar, nos comportamentos humanos, ações simbólicas cujos significados eram socialmente reconhecidos. (PESAVENTO, 1995) Na simbologia veiculada pela imprensa escrita junto à sociedade francana, enumeramos algumas dessas idéias-imagens:



  1. o professor era visto como um sacerdote missionário a serviço da “salvação humana”; mas, ao fim da década de 60, começava a ser apontado como culpado pelo fracasso da educação,

  2. já os estudantes eram apresentados como dinâmicos, mas que deveriam se preocupar com a escola, com a sala de aula e não com assuntos que diziam respeito ao exterior da instituição.

Os jornais constituíram-se em importantes testemunhos para a compreensão do jogo de interesses dominantes do período analisado aqui, pois revelaram aspirações e tensões vindas das classes populares, presentes nas entrelinhas e nos silêncios destes mesmos jornais que, na maioria das vezes, portavam-se como representantes do discurso hegemônico. E mesmo que esses veículos de imprensa não tivessem tanta circulação entre as massas de analfabetos e semi-alfabetizados, no Brasil dos anos 60, as representações baseadas na ideologia da modernização, caracterizada pela conservação de estruturas semicoloniais de domínio, eram difundidas com todo empenho e por diferentes formas, entre elas, os jornais.

Em Franca, tais idéias-imagens construídas sobre o universo escolar tiveram como apoio a acelerada expansão da rede de ensino local, e os estereótipos do professor e de estudante não foram elaborações livres desse simbolismo social, ao contrário, apoiaram-se no que já existia, modelados por valores diversos que eram esperados desta classe de profissionais.

A análise das representações sobre a categoria professor, nos jornais francanos, ao longo dos anos 60, implicara, sobretudo, o debate em torno de seu papel na sociedade. Lembremos que, nesse período da história recente do Brasil, o primado da racionalidade técnica e econômica estabeleceu novas relações de dependência e subordinação, articuladas através de práticas sociais de uma psicologia e uma ideologia industriais, que atingiram a fundo a indústria cultural e outras esferas da vida social, como a educação, por exemplo.

Assim, ocorreu a separação entre concepção/execução e a padronização do conhecimento que passou a desvalorizar o trabalho intelectual crítico. É a partir daí que os professores deveriam se tornar servidores civis obedientes no desempenho de ordens daqueles, em geral tecnocratas, considerados criativos e dotados de imaginação. O comportamento dos professores deveria ser controlado, tornado consistente e previsível de maneira que deixariam de ser entendidos como intelectuais, assim como sua atividade também não seria mais vista como tal. Em decorrência disso, perdera a motivação de, como intelectual, intervir na separação entre conceitualização-planejamento versus implementação-execução, limitando sua participação na definição dos propósitos e das condições da escolarização (GIROUX, 1987).

Os jornais, em geral, não apresentavam os professores como indivíduos voltados para a luta contra a imposição ideológica e pedagógica. Dificilmente, eram representados como seres críticos, reflexivos e criativos para o desenvolvimento de uma sociedade democrática. Ao contrário, mostravam o professor como um missionário de valores cristãos a serviço da renovação do mundo. Contudo, tal tarefa social, devido a sua importância, deveria ser controlada para que se mantivessem a ordem e a hierarquia entre as classes, só assim, promover-se-ia o bem-estar social. O artigo abaixo ilustra bem a preocupação com a postura docente:


Professores – Missão nobilíssima é transmitir a verdade às inteligências. Catedráticos, mestres e professôres a têm por função específica. (...) A responsabilidade futura dos jovens pesa muito do que se recebe nas aulas. (...) Das aulas podem sair ladrões, revolucionários, ateus, viciosos de tôda espécie, ou pelo contrário, homens conscientes de seus deveres, homens de caráter, bons patriotas cristãos autênticos.(sic)
O papel de missionário comprometido com os valores patrióticos e cristãos do professor era reforçado, especialmente, em momentos de conjuntura social crítica, com a crescente organização dos setores intelectuais, proletários, estudantis que faziam reivindicações e exigiam mudanças imediatas. O contexto mundial também era complexo em diferentes partes do mundo, sobretudo, no ano de 1968, quando a legitimidade de vários governos fora colocada em questão. É importante entender que o patriotismo que se exigia do professorado, também em Franca, pelo regime autoritário e que recebia apoio relevante de vários setores das classes dirigentes era o seguinte:
Espírito Cívico - Na hora em que a Pátria precisa, o benfeitor aparece. (...) No momento histórico que vivemos, a Pátria Brasileira precisa de nós, O Sr.Presidente da República, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, fez um apêlo a todos os brasileiros especialmente aos ricos, que colaborem com o Governo Federal na obra de salvação econômico financeira do Brasil. (...) Nós, os pequenos financeiramente, não podemos ficar com as mãos na trazeira apreciando o desenrolar dos acontecimentos. Precisamos agir também. Por isso os professores do Instituto de Educação Torquato Caleiro de Franca resolveram oferecer ao Governo Federal um dia de trabalho a fim de colaborar em prol da Pátria. (...) Afinal, vamos honrar o prato em que comemos. (...)”
Vemos que a representação do professor também pode ser observada quando se convocou tal categoria a dar seu testemunho de apoio ao movimento de março de 1964. A oferta ao Estado, de um dia de trabalho, por parte do professores é carregada de grande valor simbólico, já que se tratava de uma das categorias mais prestigiadas da cidade (educadores do IETC, a única escola oficial de ensino secundário), declarando publicamente seu apoio ao novo regime. A coerção militar objetivava manter a ordem social estabelecida, impondo o “espírito cívico” que representava a abdicação do direito de participar, a submissão. Isso é o que se esperava do professorado, sua ação dentro da sala de aula deveria ser vigiada. Mesmo antes do regime militar tal representação já era presente nos jornais locais. Novamente, a imagem do sacrifício é associada ao magistério:

Disparate (...) Não posso compreender a razão de um soldado da Força Pública perceber mais do que um professor primário. (...) Entre e sai governo e ainda não apareceu o amigo do professorado aquele que se disponha sinceramente fazer algo pela classe. (...) Só mesmo por amor à profissão poderá o professor primário carregar sua cruz. Não se compreenderia o sacrifício, a luta e o desprendimento da nobre classe, se não fora ela dotada de resignação e animo forte.(sic)

Como podemos perceber, a representação do professor mantinha-se associada à imagem do sacerdote disposto ao sacrifício (“carregar sua cruz”), tudo em nome de sua importante missão, embora não tivesse nenhuma condição material para realizá-la. Dessa maneira, difundia-se uma idéia de educador que era fixada sob a imagem do missionário idealista, cuja função principal seria a renovação do mundo, a correção de suas mazelas e não a do crítico intelectual: “A ação do professor no combate ao êxodo rural (...) Professor Rural! Cabe a você uma parcela dêsse problema. Há em cada família, em cada criança, uma tendência ao êxodo. (sic)”

A missão de renovação do meio social deveria acontecer dentro das regras do conservantismo e da manutenção da ordem. Assim, esta representação da figura do professor pressupunha um comportamento retilíneo e socialmente imobilizador, já que sua tarefa seria maior, por exemplo, do que a necessidade de se lutar por melhores salários. Isto se dava, sobretudo, em um momento de significativa organização da classe dos professores que gozava de muito prestígio, já que a educação era difundida como um bem da sociedade urbana, mesmo que fosse excludente.

A preocupação em se firmar um estereótipo do professor comprometido com os valores cristãos e patrióticos deve-se, talvez, ao grande movimento das massas que se deslocavam das zonas rurais para as zonas urbanas. Tal fato alterava significativamente os quadros de influência política o que poderia contribuir para que corrosões menores nas estruturas sociais vigentes pudessem levar a um tipo de revolução comunista, tal como acontecera em Cuba, sob a influência da então União Soviética. A figura do professor, que ainda contava com grande prestígio social, deveria ser consolidada a partir do tipo de modernização voltada para a conservação da estrutura de classes vigente. Este prestígio se manifestava em diferentes situações, vejamos abaixo:
Uma Grande Perda – Fomos levar ontem até o Campo Santo aquêle que, em vida, foi conhecido, admirado e respeitado como mestre da juventude – prof. Pedro Nunes Rocha. A cidade tôda, ainda não refeita do abalo provocado pela notícia da morte súbita do querido educador, compareceu em massa aos funerais do prof. Pedrinho, como carinhosamente era chamado o saudoso morto. (...) Franca chora o grande educador. Mas seu nome será sempre lembrando como paradigma de bondade, de civismo e de trabalho – modêlo para tôdas as gerações.(sic) 11
Anteriormente vimos que, tal prestígio se corporificava em cargos eletivos públicos, gerando poder social e econômico quando articulado em instâncias da administração voltadas para interesses de determinados grupos locais. A celebração do professor estava presente em todos os veículos da imprensa escrita, tendo grande destaque em suas páginas: “Professor Hélio Palermo participará da convenção da ARENA” E também: “Comemorações Sobre o Dia do Professor (...) As 7,30 hs. Missa por intenção da alma dos professores falecidos; 10,30 hs. Churrasco no recinto da Exposição de Animais, (...)”12

É preciso ressaltar que já no final dos anos 60 e início da década de 70, esta imagem do professor, apresentado como mestre e missionário, não era mais uma unanimidade. Surgiam as primeiras representações que o vinculavam ao fracasso do sistema de ensino, culpando-o pelos baixos resultados e pouca eficiência revelados pelas estatísticas:


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