EducaçÃo e representaçÕes de imprensa: mestres e discípulos no interior paulista (DÉcada de 1960) gt uberlândia sauloéber Társio de Souza Universidade Federal de Uberlândia – ufu fapesp



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‘Nôvo’ Professor (...) – É ai que está o grande papel do professor, que tem sido o responsável verdadeiro pela grandeza do Estado de São Paulo. Aos mestres compete dar vida e engrandecer o nôvo programa, atendendo a uma mentalidade do que deve e pode ser aprendido e para que: ele sabe como orientar o aluno para uma finalidade prática, no aprendizado, e dotá-lo de instrumental válido para a vida. A professora não será mais a velha encurvada, que quase nunca sorri e bate com a régua nos alunos que não podem se abstrair, para entender o que é uma multiplicação: ela agora estará mais preocupada em fazer com que as crianças desenvolvam o espírito criador e desenvolvam suas personalidades de forma harmoniosa. (sic) 13
O artigo acima mostra com clareza o que a classe dominante esperava do “nôvo professor”. Este deveria adotar o utilitarismo como orientação básica do seu conteúdo e métodos de ensino, de forma que o aprendizado tivesse “uma finalidade prática” na vida do aluno, tal orientação tinha como fundo ideológico a política educacional baseada na profissionalização do ensino (“instrumental válido para a vida”). O caráter altamente discriminatório em torno da figura do professor primário em especial, nesse período, também pode ser percebido abaixo:
Os professôres desatualizados (...) É assustadora a notícia sôbre o teste feito a professôres primários para ingresso no serviço de ensino municipal. Apenas 30% dos concorrentes foram aprovados. (...) Não queremos com isso dizer que todos os professôres primários são ignorantes ou preguiçosos. Mas a verdade é que uma grande maioria caiu na rotina. E é muito difícil sair dela. Além de tudo também é sabido que o nível cultural do professor primário é bem fraco. (sic) 14

Num momento em que a atividade docente parecia bastante importante para a concretização do processo de modernização do país, baseado na manutenção de privilégios antigos, o controle sobre tais agentes deveria ser ampliado, com a burocratização da estrutura administrativa do ensino. Isso acabaria por desqualificar ainda mais o magistério, com a inserção de muitos profissionais sem o devido preparo no mercado de trabalho. Assim, para o Estado, tornou-se bastante cômodo culpar o professorado pelo fracasso de sua política educacional. Observemos abaixo:


O Professor do Ensino Supletivo – Tais professôres trabalham no anonimato esbanjando idealismo, coragem e entusiasmo e prestando à nação um serviço que, de forma alguma, pode ser pago com dinheiro. È justamente por ser tão importante, que essa missão exige do mestre segura direção e disciplina espiritual, além do exemplo que deve dar, para com acêrto, conseguir plasmar o povo brasileiro de tendências nitidamente religiosas, oriundas de profundas raízes étnicas e históricas. (...) Deve dar exemplo de conduta, mostrar-se humano diante dêles, tratá-los com urbanidade e consideração, acreditando sempre nas possibilidades de cada um animando-os sempre a crescerem e progredirem. (...) Mãos à obra professor de adultos, pois a sua tarefa é importante e imprescindível e o seu trabalho é além de tudo exemplar e patriótico!(sic)” 15
Nota-se acima que se reconhecia o importante papel social do professor, o que exigia controlá-lo dentro do estereótipo de missionário a serviço da pátria e das tradições cristãs e tal idealismo dinheiro algum pagaria. O processo de aprendizagem deveria ser calcado sobre as “tendências nitidamente religiosas” do povo brasileiro, portanto fiel às “raízes étnicas e históricas” do país. Se existia tanta preocupação das elites em firmar tal concepção do professor é porque a subversão estava bastante próxima a esse grupo, em outras palavras:
(...) a classe dominante tomou especial cuidado em frear e congelar o trabalho conscientizador do professor. A burguesia estatal, principalmente a legislativa e a administrativa, foi pouco a pouco sufocando as funções mais críticas do magistério através de mecanismos controladores e repressivos. (...) Amortecido o seu poder de ação libertária, seria fácil fazer permanecer a realidade idealizada pelo militarismo parasitário e pela burguesia privilegiada, no momento pós-1964. (SILVA, 1996, p.21)
Enfim, dentro do processo de modernização conservadora do país que, acreditamos, pode ser estendido também a Franca, só caberia um tipo de representação da figura do professor: a do sacerdote missionário que, por detrás do apelo cristão e patriótico, deveria promover a educação voltada aos interesses dos detentores do capital, disseminando hábitos consumistas para a consolidação da sociedade de massas.

Mas deixemos de lado a figura do professor e investiguemos a representação do estereótipo do estudante. Como vimos acima, se, mesmo sem uma participação significativa do magistério, projetava-se a imagem do professor sacerdote; pense na representação estereotipada do estudante, especialmente num período de relevante organização do movimento estudantil?

Toda a década de 60 ficou marcada pelo amadurecimento político dos estudantes. O ano de 1968 pode ser entendido como o marco temporal de emergência brutal de um conjunto de fenômenos sociais, quando cultura e política estavam fortemente ligadas. Em 1968, as universidades brasileiras tinham 278 mil estudantes, que representavam apenas 0,3% da população do país. Contudo, estes estudantes foram capazes de catalizar o descontentamento popular contra a ditadura (após alguns anos de repressão). Tal sentimento era crescente em setores da classe média (origem da maior parte destes estudantes), e o movimento estudantil acabou se tornando o canal de atuação da esquerda clandestina que punha em questão o modelo institucional de 1964. Os protestos eram sempre reprimidos, mesmo quando a temática central tratava de questões internas às universidades, como a reforma de ensino. 16

A oposição do movimento estudantil passaria a ter como alvo a opção economicista do governo que priorizara as questões de ordem econômica, em detrimento das de cunho sócio-cultural. Assim, a modernização na esfera econômica caracterizara-se, sobretudo, pelo estabelecimento de um elevado nível de tecnologia, desenvolvendo um sistema industrial avançado, sem, contudo, repercussão no campo social. Segundo Eisenstadt, uma sociedade com esfera sócio-cultural moderna caracteriza-se:

(...) por uma diferenciação crescente dos elementos principais dos sistemas cultural e de valores de maior significação – religião, filosofia e ciência, pela disseminação da alfabetização e da educação secular; por um sistema institucional intelectual mais completo para o cultivo e progresso de papéis especializados, baseados em disciplinas intelectuais. Esses fatos têm estreita ligação com a expansão dos meios de comunicação que controlados pelas elites difundem sua cultura como mercadoria a ser consumida. A nova perspectiva cultural baseia-se na ênfase no progresso e nos melhoramentos; na felicidade e na expressão espontânea de habilidades e sentimentos; na individualidade como valor moral e na eficiência. (EISENSTADT, 1969, p.15)

A modernização nos países da América Latina, em geral, foi marcada por um movimento dual, com o estabelecimento de estruturas modernas que passaram a coexistir com práticas tradicionais e antigas. Assim, a adoção de valores e comportamentos novos dividiria espaço com os conservadores, o que pode ser notado no campo educacional, onde “(...) os governantes oscilaram entre tentar reprimir as atividades autônomas dos estudantes e dirigi-los em suas atividades educacionais, por um lado, em contraposição a ceder a suas exigências, por outro lado.” (Ibidem, p.134)

A política ditatorial que visava conter a demanda por ensino superior não impedira o crescimento da expectativa de escolarização entre os jovens (especialmente os da classe média), provocando importante e rápida expansão do número de estudantes em várias instituições educativas, sobretudo nas instituições escolares de ensino secundário acadêmico/humanista e nas faculdades tradicionais, como as de humanidades (direito, filosofia, etc). As tentativas dos governantes em tentar encaminhá-los para uma escolarização mais técnico-profissional acabaram sendo mal sucedidas, não sendo capazes de manter o controle eficiente dos estudantes.

Dentro deste contexto, os jornais adotavam postura ambígua em relação ao mundo estudantil, veiculando representações dos estudantes que os vinculavam tanto à idéia de dinamismo quanto à de subversão. O jornal “Comércio da Franca” foi o veículo da imprensa escrita que mais tutelou as atividades estudantis, abrindo espaço, em suas colunas, a diferentes grupos de jovens mobilizados nas instituições escolares de ensino médio e superior da cidade. Entre 1960 e 1971, este jornal dedicou ao universo estudantil, 135 artigos, enquanto que as questões voltadas ao professorado somaram 57 matérias. 17

Nos três periódicos da imprensa local analisados, o estudante ideal aparecia como um indivíduo dinâmico, a quem pertenceria o futuro. No entanto, tal qualidade era ressaltada quando aplicada às atividades escolares, sendo um comportamento desejado dentro dos muros da instituição escolar ou quando empenhado na realização de atividades relacionadas à produção de conhecimento ou cultura: “Estudantes francanos vitoriosos em vestibular de Ribeirão Prêto (...) Dos 75 candidatos que prestaram aquêle concurso de habilitação, lograram aprovação 48, dos quais 5 são de nossa cidade (sic)”18

Tal representação do estudante era reforçada, sobretudo, em momentos de crise quando se questionava a legitimidade das autoridades governamentais ou quando da intensificação da repressão militar, a partir de 64:


Os Estudantes e a Revolução – No Brasil, como em outros países houve uma grande infiltração comunista, em todos os setores, principalmente no educacional. (...) No setor estudantil, viu-se, nos últimos anos, uma infiltração total de comunistas em uniões, grêmios, associações e outros órgãos de estudantes, tudo sob as vistas complacentes de certas autoridades federais. Provocavam greves, desordens, indisciplinas, tudo com o fito de criar um clima de hostilidade e de agitação, que dificultava o progresso do país e nos estava levando para a anarquia. (...) E da mesma forma que caiu o govêrno, cairam as hipóteses de que o estudante deve intrometer-se na vida política da nação. O estudante deve apenas preocupar-se com os estudos e, no setor político, apenas com a política educacional.(sic)19
Outro fator ressaltado no perfil do estudante idealizado pelos jornais locais ligava-se às tradições cristãs do povo brasileiro, uma maneira explícita de se combater a difusão das idéias comunistas entre os jovens:
Eleições Estudantís – (...) O mesmo ideal deve persistir hoje na mente dos jovens estudantes, elegendo para seus grêmios e associações, elementos capazes, empreendedores e, sobretudo, honestos e de consciência limpa e cristã, para que possam representá-los condignamente, elevando assim o nome da classe estudantil de Franca, fundindo-lhe prestígio, respeito e acatamento.(sic) 20
Contudo, os jornais se referiam aos assuntos estudantis de forma ambígua e, mesmo quando ganhavam grande destaque nos meios de comunicação, eram abordados sempre com certo receio. Os periódicos buscavam intervir em suas questões de maneira equilibrada, ou seja, afastando-se a bagunça que, em outras palavras, representava a ameaça ao ordenamento social, podendo servir de exemplo a outros setores sociais: “Deflagrada greve geral e pacífica no Inst. Francano de Ensino – Cêrca de oitocentos estudantes (...) deflagraram ontem, às 18 horas, uma greve geral de protesto contra o aumento das anuidades daquele educandário.” 21 A manifestação seria justa se acontecesse dentro da ordem e de forma pacífica. E ainda:
Estudantes! Tratemos de coisas sérias! (...) Vejamos, por exemplo, o que ocorre em Franca, cidade cognominada ‘Atenas da Mojiana’. Estudantes do Grêmio ‘18 de Março’ entraram em conflito com o diretor do IETC por causa do ‘trote’ dos calouros. (...) Enquanto isto acontece por aqui, é aprovado pela Câmara Federal o criminoso projeto Diretrizes e Bases da Educação, que visa a exterminar a escola pública, propiciando aos ‘tubarões’ das escolas particulares maior campo para seu enriquecimento.22

Porém, o principal alvo das críticas dos jornais eram as entidades de organização dos estudantes, seja em nível local ou de âmbito nacional: “UNE precisa dar provas de sua sinceridade” 23 E também:


Agitação Estudantil – Os jovens francanos nunca deixaram de frequentar as aulas para realizar movimentos de agitação pública. (...) Parece que agora essa tranquilidade vai ser afetada por emissários da antiga UEE, pois que, há dias, três representantes daquela entidade, reunindo acadêmicos de Filosofia (...) Trata-se de ameaça que não pode ser menosprezada. Em sua maioria, os estudantes da Filosofia não desejam participar dos movimentos da UEE.” 24

Vemos que a organização dos estudantes era bastante incômoda para a ditadura e para setores da elite, seus aliados, apesar de limitada a pequena parcela da sociedade. As entidades locais de representação dos estudantes da cidade foram monitoradas de perto, isto porque a mobilização dos estudantes preocupava, mesmo em rincões afastados dos centros de poder. Assim, ora adulavam tais organismos, ora os puniam:


Descontentes os Estudantes com a UESF (...) Ao que sabemos, êste movimento será realizado em virtude do descontentamento das entidades estudantis face às atitudes arbitrárias do atual presidente (...), por não concordar absolutamente em receber apenas 20% do preço das cadernetas estudantis e também pelo elevado preço dêsse documento.” E também: “União dos Estudantes – Há vários anos que a UESF vem procurando unificar a classe e sempre foram entusiásticas as eleições de sua Diretoria. (...) Soubemos ontem, porém, que um grupo de estudantes, valendo-se da surpresa que o aumento do preço de caderneta está provocando, explora o desagrado de certos setores e está insuflando algumas agremiações estudantinas a devincular-se da UESF, (...) seria penoso desfazer uma entidade que vem servindo os estudantes, representando-os ainda satisfatoriamente.(sic)25

O exposto mostra-nos que a imprensa buscava introduzir elementos de dúvida sobre a representatividade das organizações de entidades estudantis locais. Muito embora tivesse afirmado o contrário, imprimia-se a UESF (União dos Estudantes Secundaristas de Franca) a marca da discórdia interna entre seus elementos, colocando sua coesão em questão. Também outros órgãos, como Grêmios, Centros e Diretórios Acadêmicos, tinham espaço relevante nos jornais. “A Gazeta Estudantil” era um caderno suplementar do jornal “Comércio da Franca” que circulou por algum tempo, mensalmente, sob responsabilidade do Grêmio “Castro Alves”, tratando de assuntos diversificados sobre as instituições de ensino médio e superior da cidade. 26

Também os D.A.s tinham suas atividades bastante acompanhadas pela imprensa, que participava com proximidade nos seus assuntos, vejamos a matéria abaixo:

Condição Universitária não quer dizer ‘ato institucional’ – Ora, ser autor de atos institucionais não desmerece ninguém, tanto que o marechal Castelo Branco já produziu dois prepara um terceiro. Como se sabe, os ‘atos institucionais’ vêm alterando a constituição da República, superpondo-se às demais normas jurídicas vigentes. O ‘aviso’ do Presidente do D. A. não consegue esconder um cheirinho inquisitorial, tanto que prescreve: todos os aprovados nos vestibulares ‘estarão sujeitos ao trote’ e ‘deverão obedecer às seguintes prescrições’... E lá vem elas: participação direta no trote, corte obrigatório do cabelo ‘à moda indicada pelo Diretório’ (sic), uso de boinas fornecidas pelo D.A., participação do desfile público, além de multa de dez mil cruzeiros em caso de recusar o corte de cabelo... Esta fôlha tem dado tôda a cooperação possível aos órgãos estudantis locais, qualquer que seja seu nível, sempre que êles necessitam de divulgação. (...) Pensem os acadêmicos mais em estudos, em ampliação das bibliotecas, em confecção de apostilas, em incentivar um verdadeiro ‘espírito universitário’, em exigir dos professores programas prévios e indicação de fontes bibliográficas e pensem menos em ‘trotes’, em bailes e em banalidades.(sic) 27


O caráter mais conservador do que progressista do jornal “Comércio da Franca” fica bastante evidenciado pelo trecho do artigo acima, que tratava da polêmica proibição dos trotes universitários, ou seja, novamente, o comportamento esperado dos estudantes deveria ser restrito aos estudos, enquanto que a participação estudantil fora da sala de aula não poderia ser tolerada de forma alguma ou, no máximo, dentro do jogo político controlado pelas classes privilegiadas do país. Neste trecho, observa-se tal postura do jornal “Comércio da Franca” que abrira espaço aos estudantes, publicando na íntegra a deliberação de uma de suas assembléias, que questionava a ausência de diálogo dos governantes militares:

Movimentam-se os Universitários Francanos em Solidariedade aos seus Colegas de todo o Brasil (...) MANIFESTO ‘Nós, alunos da Faculdade de Direito de Franca, reunidos em Assembléia Geral Extraordinária, por convocação do D.A. ‘28 de Março’, tornamos pública a nossa solidariedade aos universitários de todo o Brasil nos seguintes têrmos, face aos últimos acontecimentos: 1º) – Solidariedade aos colegas vítimas de arbitrariedades policiais; 2º) – Protesto contra o pagamento de anuidades em estabelecimentos oficiais; 3º) – Decretação de greve simbólica durante 24 horas em repúdio a tais acontecimentos; 4º) – Hasteamento da bandeira do D. A. ‘28 de Março’ durante o período da greve, em sinal de luto pelo falecimento de universitários.(sic) 28

Finalmente, gostaríamos de mostrar que, no auge da repressão, no governo Médici, um novo elemento surgiria vinculando os estudantes à rebeldia e à subversão, na construção de sua representação nos jornais locais: os tóxicos. Nesse período, o questionamento da ordem social deveria ser tratado como uma aberração, doença que necessitava ser curada e extirpada do país, sendo pertinente lembrar o axioma: “Brasil! Ame-o ou deixe-o!”. Assim, os jovens militantes da esquerda, sobretudo, passaram a ser vistos como doentes que deveriam receber atenção especial da sociedade:
Para evitar a subversão entre jovens estudantes – (...) Estudos profundos realizados por autoridades federais e estaduais evidenciam as principais táticas de envolvimento (...) os terroristas recorrem a duas formas de enredamento. Na primeira, o jovem é atraido a festinhas, com boa música e moças lindas. Passando a ser frequentador habitual delas, surge então o emprego de psicotrópicos. Dominado pelo vício, o jovem é levado a realizar tarefas para o grupo, (...) Outra forma utilizada consiste na ‘escalação’ de uma jovem militante do partido para atuar como ‘isca’ e conquistar o estudante, prendendo-o pelo amor e pelo sexo, para levá-lo à organização subversiva. (...) Outra forma de doutrinação considerada ‘eficaz’ é realizada nos colégios e faculdades por professores e alunos adeptos do marxismo-leninismo.(sic) 29
Acreditamos poder ilustrar, por meio da análise da representação das categorias professor e estudante veiculadas nos jornais francanos, os aspectos do discurso dominante que tinham como pano de fundo a modernização conservadora. Qualquer atitude desfavorável à manutenção da ordem, como a mobilização de estudantes e docentes em torno de questões de cunho político-econômico, era apresentada como baderna, subversão, atraso. Tal tendência fora intensificada com o advento da ditadura militar que promovera uma “caça às bruxas” no meio estudantil. Portanto, é pertinente o entendimento de que:
O golpe de 64 traz consigo a reordenação e o estreitamento dos laços de dependência, a intensificação do processo de modernização, a racionalização institucional e a regulação autoritária das relações entre as classes e grupos, colocando em vantagem os setores associados ao capital monopolista ou a eles vinculados.” (HOLLANDA e GONÇALVES, 1999, p.20)
A agitação no meio estudantil com intervenções do Estado revelava toda a disputa que tinha como centro principal a dominação cultural. A visão hegemônica buscara esconder as desigualdades sociais que configurariam conflitos de classes, e se empenhou na homogeneização social utilizando-se da cultura também, colocada a serviço da manutenção das classes dominadas em permanente desorganização.

O rápido desenvolvimento da indústria cultural no país ao longo dos anos 60 e 70 contribuíra para que a cultura fosse submetida à lógica de produção e distribuição semelhante às demais mercadorias. Desta forma, os bens culturais também se multiplicaram obedecendo-se à produção industrial: lucro, produção em massa, consumo. A escola não fugiu a este tipo de orientação (GOMES, vol.80).



No período militar enfatizou-se, de forma predominante, a economia política do “modelo brasileiro de desenvolvimento” e do “milagre econômico”, um discurso de poder marcadamente economicista, tecnocrata, administrativo, de forma que a política, a cultura e a história fossem dissolvidas no plano econômico. A dominação cultural deveria continuar reafirmando a vocação pacífica do povo brasileiro, a harmonia entre o trabalho e o capital, a maneira ocidental e cristã da civilização brasileira. Isso foi garantido por meio do:
(...) controle do sistema educacional, a influência nas igrejas, as relações com a indústria cultural. [desta forma, compartilhamos da idéia de que] a cultura é uma dimensão fundamental da hegemonia que pode ser construída por uma classe, composição de forças sociais, bloco de poder, Estado. (IANNI, 1992b, p.154)
Desta maneira, a construção empreendida pelos jornais da cidade em torno da representação das categorias educação, analfabetismo, professor e estudante, certamente teve como objetivo contribuir para a efetivação da dominação cultural em âmbito local, mas que expressava a proposta hegemônica adotada pelo regime militar, apoiada por expressivos setores de grupos privilegiados que, antes de qualquer coisa, esperavam a manutenção do ordenamento social. O tipo de educação apresentada e os estereótipos de professor e estudante veiculados atendiam aos imperativos da modernização caracterizada por conservar estruturas políticas, econômicas e sociais bastante antigas na sociedade brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAÚJO, J.C.S. e INÁCIO FILHO, G. “Inventário e Interpretação sobre a Produção Histórico-Educacional na Região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba” In: GATTI JR, D.; INÁCIO FILHO, G. (orgs.). História da Educação em Perspectiva: ensino, pesquisa, produção e novas investigações. Campinas, SP: Autores Associados; Uberlândia, MG: EDUFU, 2005.
BANDEIRA, M. O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil 1961-1964. 6ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
BENEVIDES, M. V. M. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
CAPELATTO, Maria H.R. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto-EDUSP, 1988.
CHARTIER, Roger A história cultural: entre práticas e representações. Trad.Maria M.de Galhardo, Lisboa: Difel (85), Rio: Bertrand Brasil, 1990.
__________. O mundo como representação. Estudos Avançados, v.11, n.5, p.173-91,1991.
CUNHA, Luiz A. Educação e Desenvolvimento Social no Brasil. 5a.ed, Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
CUNHA, Luiz A.; GÓES, Moacir de O Golpe na Educação. 5a.ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
DREIFUSS, René A. 1964: A conquista do Estado - ação política, poder e golpe de classe. 5a.ed., Petrópolis: Vozes, 1987.
DROSDOFF, Daniel Linha dura no Brasil: o governo Médici 1969-1974. São Paulo: Global, 1986.

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