Educação Física e Ensino Médio: problemas e impasses



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Educação Física e Ensino Médio: problemas e impasses”

Ensino Médio e Educação Física Escolar: um conto (des)conhecido da educação brasileira pós 1998
Marcelo Feitosa

E tu para que queres um barco , pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza .Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem. Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania de navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada. A ilha desconhecida, repetiu o homem. Disparate, já não há ilhas desconhecidas. Quem foi que te disse, rei, que não há ilha desconhecidas, Estão todas nos mapas. Nos mapas só estão as ilhas conhecidas.”



Saramago, José – O conto da ilha desconhecida

Num belo texto narrativo “ O conto da ilha desconhecida”, José Saramago narra a história de um homem que desejava chegar a uma ilha desconhecida, quando aparentemente tudo já era conhecido.Para isso , o protagonista vivencia uma série de situações para conseguir uma nau que possibilite o encontro daquilo que ainda não era do conhecimento.

A grandiosidade da narrativa de Saramago está na possibilidade de entendermos como os dilemas e impasses criados pela moderna sociedade capitalista, tornou tudo pra além do imediato, como algo desnecessário e portanto, sem sentido para se buscar.

È com a vontade de um viajante que acredita na possibilidade de conhecer uma ilha, ainda, não conhecida que analisaremos como as reformas educativas nos anos de 1990, notadamente a do Ensino Médio, apontaram para a necessidade de se pensar o papel e o sentido de diversas áreas de conhecimento nos processos de escolarização de crianças e jovens.

Desta forma acreditamos que para analisar um segmento como o Ensino Médio e uma área de conhecimento como a Educação Física Escolar, pós reformas educativas, exige de nós, marinheiros de primeira jornada, uma bela preparação- teórica e prática- para compormos durante a viagem (narrativa) os elementos que estruturaram a paisagem dos respectivos contextos: do segmento escolar e da área de conhecimento.

Diante disto, o escopo do texto buscar entender como algumas questões metodológicas e teóricas postas pelas reformas educativas, e sobretudo, pelas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio apresentaram para a Educação Física, no espaço da escola, a necessidade de construir um novo contexto educativo que no limite sinaliza para um movimento de construção, ou de definição do que venha a ser o objeto de trabalho da área no âmbito da educação escolar.



A escola num contexto de transformação: O desvelamento dos anos noventa
Sabemos que os anos noventa têm gestado no debate educativo uma série de preocupações sobre o processo ensino aprendizagem, que literalmente torna nossas vidas um turbilhão de proposições que tem como foco a idéia de aprendizagem.

O professor João Reis Silva Jr., no texto “Mudanças Estruturais do Capitalismo e a política educacional do Governo FHC: O caso do Ensino Médio”, enfatiza que a palavra aprendizagem tornou-se a pedra filosofal em qualquer documento ou programa educacional, apresentando como posição hegemônica um viés extremamente cognitivista para pensar a ação escolar.

De certa maneira, tal viés é ratificado nas propostas estabelecidas pelas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio, que estabeleceu como ponto de partida para um novo contexto educativo pós -1998, mudanças nas/das matrizes curriculares das escolas.

Vale ressaltar que tal preocupação já norteava o próprio parecer da relatora- Parecer CNE/CNB 15/98 - Guiomar N. Mello, que indicava a necessidade dos sistemas e suas escolas criarem múltiplos arranjos institucionais e curriculares inovadores que permitissem à construção de propostas pedagógicas próximas aos princípios (estéticos, políticos e éticos) indicados na LDB 9.394/96.

Desta forma, a compreensão do real movimento estabelecido, nas escolas de Ensino Médio, ainda precisa ser decifrado, pois julgamos que as contribuições intelectuais dadas pelas macro análises que tem marcado os trabalhos sobre o segmento, necessitam hoje mais do que nunca, de leituras destrinchadoras de como as unidades escolares organizam sua gestão administrativa e pedagógica naquilo que acreditam ser o caminho para a realização do novo Ensino Médio.

Lembra a professora Maria Sylvia Simões Bueno, a partir da análise do Parecer CNE/CEB nº15/98 que as dimensões pedagógicas propostas para o novo Ensino Médio, implicaria para as instituições escolares:



“ exigir de equipes escolares imaginárias o conhecimento profundo dos fundamentos científicos e tecnológicos do processo produtivo e dos mecanismos mais sutis do mercado e da vida em sociedade, aliado a uma inusitada capacidade de prever o imprevisível, (...)pressupõe uma perfeita articulação e sintonia entre os sistemas de ensino regular e de educação profissional. São complicadores que não podem ser perdidos de vista.”

É diante deste quadro de mudanças propostas para o Ensino Médio, que gostaríamos de pensar como as reflexões acadêmicas, como também, as tentativas de construção de práticas educativas necessitarão desvendar a gramática deste novo contexto posto pela legislação:





  • Como organizar a matriz curricular por áreas de conhecimento, quando historicamente a experiência escolar tem sido pautada na ação das disciplinas escolares;

  • Como institucionalizar uma prática educativa que incorporasse os eixos interdisciplinariedade e contextualização propostas para o novo currículo;

  • Como uma prática educativa, na Educação Física, que historicamente esteve associada a atividade, notadamente, de prática esportiva, deve repensar o seu movimento e pensar qual o seu objeto de ensino;

  • Como pensar a construção de uma proposta pedagógica que seja resultado da interlocução das diversas áreas de conhecimento para instituir uma prática educativa que atendas as demandas educativas do século XXI;

  • Como constituir uma prática educativa que vise um processo de formação geral, nos diversos campos: o cognitivo, o afetivo, o sensório motor, a sociabilidade para jovens e adultos que freqüentam a escola;

  • Como pensar os espaços de formação de professores, que possibilite uma prática reflexiva como interface da reflexão e da ação cotidiana;

  • Como atrelar os diversos espaços das instituição no ato educativo, tornando-os espaços de aprendizagem;

  • Como organizar as aulas , na intenção de torná-las ponto de partida para as aprendizagens.


Considerações Provisórias
Podemos aventar que decorrente de alguns tópicos que fundamentam o novo Ensino Médio como: a situação de complementariedade em relação a Educação Básica, a organização curricular por áreas de conhecimento, e sobretudo por apresentar um recorte pedagógico que propõem a articulação entre conhecimentos científicos,históricos e tecnológicos apontam para todas disciplinas escolares e especificamente, para a Educação Física, a necessidade de construir uma real identidade que demandará para educadores e intelectuais da educação uma vontade; uma vontade saramaguiana para chegar a uma ilha ainda não conhecida.


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