EducaçÃO, imperialismo e modo de produçÃo da existência



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EDUCAÇÃO, IMPERIALISMO E MODO DE PRODUÇÃO DA EXISTÊNCIA

Francisco Máuri de Carvalho Freitas

Grupo de Estudos e Pesquisas em Judô: Filosofia, História e Educação / UFES

Grupo de Estudos e Pesquisas História, Trabalho e Educação / HISTEDBR



Resumo

Na atual quadra política da República brasileira se a educação oficial não está voltada à construção de uma nova sociedade, sem classes, então o trabalho pedagógico tem por objetivo consolidar o poder da burguesia. Os intelectuais da ordem reforçam a ação dos aparelhos repressivos e ideológicos de Estado. A densidade política do imperialismo reclama a feitura de análises acuradas quanto às modificações mundiais empreendidas contemporaneamente pelo capitalismo. Para tanto é preciso observar no desenvolvimento deste modo de produção as alterações sofridas no início do século XXI, antecipadas por Lenin já no alvorecer do século XX: domínio da vida econômica pelos monopólios, criação do capital financeiro especulativo e da oligarquia financeira, predomínio da exportação de capitais, em detrimento da exportação de mercadorias, fusão de grandes empresas, partilha do mundo em áreas extrativistas entre as sete maiores e mais poderosas potências capitalistaS, sob comando norte-americano. Essas características são consubstanciadas hoje pela ideologia neoliberal, proclamada como apoteose de novidadeiras formulações teóricas do capitalismo sobre a possibilidade de elevar a condição de vida do proletariado e dos trabalhadores assalariados para patamares invejáveis ao mais rigoroso teórico marxista. Sob o ponto de vista da tradição marxista é inquestionável que o capitalismo alcançou sua forma superior de desenvolvimento e para sobreviver e exercitar-se de forma imperial, precisa se expandir e para isto necessita abocanhar outras regiões e países do globo terrestre. O imperialismo é a marca decisiva e absoluta que diferencia o século XX e o século XXI dos séculos anteriores. O objetivo do presente estudo é reportar a não existência da escola à margem da vida, à margem da política, sendo a afirmação contrária falsa e hipócrita. Na cidade do capital, o local por excelência da política é o Estado. Logo, a tarefa da crítica é afirmar que a construção de um projeto pedagógico escolar à superação do capitalismo “é ontologicamente impossível sem a própria superação do capital”. Todas as tentativas de desenvolver uma política transformadora por intermédio da educação escolar acabam prisioneiras dos mesmos limites que tornam a sociabilidade burguesa e a sociabilidade operária incompatíveis entre si. Enfim, na cidade do capital os discursos da esquerda montados sob categorias abstratas e universais, apenas demonstra que a esquerda perdeu de vista os valores éticos classistas, sua natureza política e, não raro, perdeu a própria vergonha. Este fato não nos deixa alternativa senão trabalhar no sentido de construir outra esquerda, baseada nos princípios classistas e na tradição histórica do marxismo-leninismo.

Palavras chaves: Educação. Marxismo. História. Imperialismo. Partido Comunista.

INTRÓITO

É um direito nosso mudar, mas é um dever ético incontornável assumir que mudamos. E mais ainda: é desonesto mudar e se manter enganando, afirmando que ainda somos os mesmos e, quiçá, “vivemos como nossos pais”!

A substituição da ditadura civil-burocrático-militar (1964–1985), por uma ditadura civil-burocrática (1985 aos dias de hoje), não consegue ofuscar a verdade histórica onde a mais democrática das repúblicas burguesas é uma ditadura contra a classe operária, trabalhadores assalariados e camponeses pobres. Este fato revela o passado e o presente brasileiros marcados pelo cesarismo, abandono de princípios e traições hediondas.

A República Federativa do Brasil, como toda República burguesa está dominada pelo capital financeiro especulativo e pelo agro-negócio do tipo exportador, controlados e dirigidos por uma classe dominante para quem o adjetivo de mantenedora da escravidão assalariada não é simples força de expressão, mas a clara evidência que as forças conservadoras e reacionárias não poderiam agir de outro modo senão se erguendo com todas as armas contra quaisquer resquícios de resistência.

Nesta República para além do discurso ufanista e do delírio academicista, a educação oficial e o trabalho pedagógico em voga objetivam consolidar o poder da burguesia industrial, financeira e fundiária. No lodaçal de intrigas e roubalheiras domésticas, por mais que os intelectuais da ordem reforcem o discurso sobre a neutralidade da ação do aparelho ideológico de Estado escolar, contra eles ergue-se a tese segundo a qual “a escola à margem da vida, à margem da política, é falsidade e hipocrisia” (LENIN, 1986, v. 37, p. 79).

Não existe escola à margem da vida, à margem da política, afirmação em contrário é uma rastaqüera hipocrisia, pois na cidade do capital o local por excelência da política é o Estado. Neste caso a educação pública ou estatal, serve predominantemente as demandas da classe social que tem as rédeas do Estado em suas mãos.

A propósito, ainda hoje, no seio da esquerda em geral, quando se trata da educação como ato político:

Predomina a noção aristotélica: o homem como um animal político. A maior debilidade desta definição está em que iguala o que é ontologicamente distinto: a organização de uma sociedade de classes e a organização de uma sociedade sem classes. Ela é incapaz de refletir a qualidade específica da relação de dominação entre os homens, que é uma das determinações mais importantes das sociedades de classes. Por isso a concepção aristotélica e suas variantes, que fazem da política uma dimensão universal do ser social, afirmam também a universalidade do Estado e do Direito. E, por essa razão, são concepções que nem sequer podem conceber a transição para uma sociedade comunista, isto é, uma nova forma de organização social incompatível com o Estado, com o Direito, com a propriedade privada e, portanto, com a política (LESSA, 2002, p. 104).



OBJETIVOS DO ESTUDO

Nossos objetivos são dois: primeiro, afirmar que nenhuma teoria da educação ou pedagogia, nenhum projeto pedagógica escolar pode pretender a efetivação de valores éticos como precondição para superação do capitalismo, “pela simples razão de que esta efetivação é ontologicamente impossível sem a própria superação do capital” (LESSA, 2002, p. 104). Segundo, tornar evidente que toda tentativa de desenvolver uma política transformadora por intermédio unicamente da educação escolar, na melhor das hipóteses, termina refém dos mesmos limites que tornam a sociabilidade burguesa e a sociabilidade operária incompatíveis entre si.



JUSTIFICATIVA

Na cidade do capital perversa e excludente a esquerda ainda fundamenta seu discurso em valores éticos universais. Ela perdeu de vista os valores éticos classistas sobre os quais deveria pautar sua conduta política, sua própria natureza de esquerda. Não raro, perdeu a própria vergonha. Este fato não nos deixa alternativa senão trabalhar no sentido de “construir uma outra esquerda, baseada nos princípios classistas e na tradição histórica do marxismo revolucionário” (COGGIOLA, 2002, p. 116).

Outra esquerda para quem sob a lei concorrencial do capitalismo imperialista ainda não superada, algumas conseqüências são inevitáveis: dentre elas o “enriquecimento da minoria de indivíduos e o empobrecimento da classe operária e dos trabalhadores assalariados urbanos e rurais” (LENIN, 1981, v. 1, p. 96). Atento à marcha do capitalismo neste país sob a ideologia neoliberal descobre-se como trágica a situação da vida dos camponeses pobres sem-terra compelidos a assumir a condição de trabalhadores assalariados nos mais diversos estabelecimentos de comércio e nas indústrias dos afortunados capitalistas.

O desenvolvimento do capitalismo é paradoxal, de um lado, o inexorável empobrecimento dos trabalhadores urbanos e rurais, decresce o consumo per capita, recrudesce a extorsão da força de trabalho aos níveis de mais-valia absoluta, enquanto, noutro flanco, cresce o mercado para o deleite de minorias dissolutas. O empobrecimento dos trabalhadores longe de representar um obstáculo ao desenvolvimento do modo de produção capitalista, expressa seu desenvolvimento e, por ser sua condição, o fortalece.

Nos marcos do capitalismo em escala planetária, o empobrecimento ocorre ininterruptamente à medida que os meios de produção permanecem concentrados nas mãos de uma mínima minoria que converte em capital os produtos criados submetidos ao mercado como “valor de troca” (LENIN, 1981, v. 1, p. 103).

Justificamos o presente estudo à medida que nele colhemos elementos apontando a educação oficial como aparato de mistificação dos estudantes pela propaganda política, via utilização de abstrações conceituais como “globalização”, neo-eufemismo de imperialismo, e, neste caso, cabe ao escriba demonstrar a inconsistência dessa propaganda.



O CORPUS TEÓRICO

Sobre o eufemismo “globalização” é atual uma tese de Lenin do dealbar do século XX, segundo a qual pari passu com a redução do número de capitalistas usurpadores de todas as vantagens do modo de produção capitalista da existência, é evidente “o aumento massivo da miséria, da opressão, da escravidão, da degradação e da exploração” (LENIN, 1981, v. 1, p. 179).



Vários são os movimentos sociais que declaram ser a “globalização”, o imperialismo como o principal inimigo da humanidade. Mas há que se tomar cuidado quanto ao que se deve entender por “globalização” (disfarce do imperialismo), posto que nesse contexto vemos reunidas, por exemplo, o José Bové, chefe de uma associação de agricultores franceses e o prêmio Nobel de literatura José Saramago, que razões produzem e sustentam a união de personalidades tão díspares numa mesma empreitada?

O significado conceitual do processo político e econômico imperialista quando alcunhado de “globalização” é apenas uma chula falsidade ideológica. A “globalização” vem quase sempre seguida do adjetivo neoliberal ou capitalista, segundo os mais ousados, trata-se do imperialismo predatório. Entre os intelectuais há um pendor acentuado pelo eufemismo, pelo oximoro1 e pela hipérbole2. Por exemplo, “globalização neoliberal” e “imperialismo predatório” são oximoros ou hipérboles do tipo “globalização capitalista” e “globalização imperialista”, ou seja, hipérboles de capitalismo e imperialismo.

Não se trata, entretanto, de “globalização”, mas do imperialismo, estágio superior do capitalismo. Aqui cabe uma pergunta: por que razão os que são contra a globalização não se designam anticapitalistas e antiimperialistas?

Porque nem todos os que pertencem aos movimentos sociais contra a “globalização” são anticapitalistas, apenas alguns poucos se consideram marxistas e pouquíssimos são leninistas, a maioria (incluindo uma gama enorme de ex-marxistas e neomarxistas: eufemismos de revisionismo e fisiologismo) nunca leu Lenin, desconhece, portanto, a genealogia política e ideológica das idéias que supostamente abraçou e que algum dia disse defender.

Sem dúvidas, poucos, pouquíssimos leram a obra de Lenin precitada, até a aprovaram no varejo, mas depois da implosão do Estado soviético, acharam não ser lá muito aconselhável enaltecer as idéias de Lenin. Por esta razão preferem eufemismos e oximoros: no lugar de político, social; no lugar de Partido, movimento; no lugar de revolução, reformas; para substituir o anti-capitalismo, a antiglobalização e assim por diante.

“Globalização” tem a cara do revisionismo de Bernstein e Kautski, predicado mundo afora com letras garrafais pelos progressistas, social-democratas e renegados do marxismo-leninismo. Não afeito a esses subterfúgios, oximoro e eufemismo, continuo considerando que o mundo vive o capitalismo em sua etapa imperialista, etapa terminal, muito embora não se possa afirmar com precisão o momento exato do seu último suspiro.



IMPERIALISMO: GLOSAS À POLÊMICA

A densidade histórica da categoria imperialismo reclama a feitura de uma análise acurada das modernas modificações mundiais empreendidas contemporaneamente pelo capitalismo. Basta observar que o desenvolvimento deste modo de produção produziu alterações no início do século XXI, antecipadas por Lenin no alvorecer do século XX, em número de cinco, são elas: (1) domínio da vida econômica pelos monopólios, (2) criação do capital financeiro especulativo e da oligarquia financeira, (3) predomínio da exportação de capitais, em detrimento da exportação de mercadorias, (4) fusão de grandes empresas, (5) partilha do mundo em áreas extrativistas entre as sete maiores e mais poderosas potências capitalista, sob comando norte-americano.

Todas essas características, mutatis mutandis, são consubstanciadas hoje pela ideologia neoliberal, proclamada como apoteose das formulações teóricas do capitalismo, a qual aponta a possibilidade de elevar a condição de vida do proletariado e dos trabalhadores assalariados para patamares invejáveis ao mais rigoroso teórico marxista.

O imperialismo sob o ponto de vista político e econômico da tradição marxista, fase superior do capitalismo, tem seus passos iniciais cravados no crepúsculo do século XIX e primórdios do século XX, desenvolvendo-se de forma absoluta e incontida no alvorecer do século XXI. É inquestionável que o capitalismo alcançou sua forma superior de desenvolvimento e agora já não exporta apenas mercadorias, mas também capital e mais mercadorias. Reprimido em suas próprias fronteiras, para sobreviver e exercitar-se de forma imperial, o capitalismo precisa se expandir e para isto é preciso quebrar seu casulo nacional, lutar e abocanhar outras regiões e países do globo terrestre. O imperialismo é a marca decisiva e absoluta que diferencia os séculos XX e XXI, dos demais séculos antecedentes.

Numa conferência sobre a relação entre o proletariado e a guerra, Lenin observa que;

O último período do século XIX e o começo do século XX se distinguem pela política imperialista. (...) O imperialismo é um estado do capitalismo em que este, depois de haver realizado todo o que podia realizar, dá uma virada à decadência. É uma época especial não na consciência dos socialistas, senão nas relações efetivas (LENIN, 1984, v. 26, p. 29).

Movimentava-se sorrateira e implacável a ideologia e as práticas nacionalistas que as burguesias nacionais tratavam de transplantar a outras épocas distintas por completo, para ratificar a expansão dos impérios. Nos séculos XIX, XX e XXI o movimento social-democrata e socialista pequeno burguês, irremediavelmente oportunista e a reboque da burguesia, abandonou o ponto de vista da democracia operária, passando a adotar o ponto de vista da velha democracia burguesa.

O século XIX e o século XX representam a época do triunfo gradual da burguesia sobre as caducas instituições feudais, monárquicas e absolutistas; época dos movimentos nacionalistas, movimentos democráticos burgueses que avançavam para assumir o controle total das sociedades ocidentais, a exemplo do que ocorria na Rússia que, ao mesmo tempo, evidenciava a transição da burguesia progressista ao caminho do capital financeiro ultra-reacionário ou banditismo das finanças.

Diante disto, Lenin atribuiu a si mesmo e aos seus pares a missão de desmascarar o oportunismo menchevique e patrioteiro e criticar duramente o “pântano” que fazia a defesa verbal do internacionalismo, enquanto na prática montava uma aliança com os inimigos da classe operária que corria por dentro do movimento operário internacional e ajudava a preparar a época do imperialismo e as comoções imperialistas dele derivadas.

A situação histórica objetiva onde medrava a adolescência do imperialismo era nada mais nada menos que a

Luta do capital financeiro ascendente pela liberação nacional contra o feudalismo, cedeu o lugar à luta contra as forças novas do capital financeiro ultra-recionário, decrépito e caduco, em marcha descendente até a decadência. Os limites nacionais que, num primeiro momento, eram a alavanca do desenvolvimento das forças produtivas da humanidade que se libertava do feudalismo, se converteram agora (...) em obstáculo ao sucessivo desenvolvimento das forças produtivas. De classe avançada em ascensão, a burguesia passou a ser uma classe decadente, interiormente carcomida e reacionária (LENIN, 1984, v. 26, p. 152).

Sobre as afirmações de Lenin a respeito da burguesia, de 1789 a 1917, nos dias hoje, não são necessários comentários extras, pois são comprovadas nos mais diversos boletins e noticiários diários, diuturnos que compõem a programação burlesca, nauseabunda, da mídia televisiva burguesa. Assistindo-os é possível ver claramente, sem subterfúgios, a burguesia brasileira como classe decadente, interiormente carcomida e geneticamente reacionária, proliferando-se em dissolutos bacanais e goliardescos festins, comemorando o lucro do capital sobre a miséria e a ruína do trabalho.

As atuais guerras são feitas como as de antigamente, têm por objetivo fulcral a partilha dos territórios alheios transformados em neocolônias, áreas de extração de matérias primas. Quando os bandidos das finanças internacionais, os ladrões apátridas “sem fronteiras lutam entre si e apresentam os seus interesses como interesses do povo ou da pátria, é uma cínica mentira burguesa” (LENIN, 1984, v. 26, p. 192).

Ao povo que sofre as conseqüências da guerra deve-se dizer sempre a verdade, e essa verdade consiste em ser impossível colocar-se a salvo das calamidades produzidas pela guerra (ela própria uma calamidade) sem uma luta ferrenha e duradoura “para derrotar os governos e a burguesia de cada país beligerante” (LENIN, 1984, v. 26, p. 192)3. Se as guerras e as revoluções anteriores a 1917 eram realizadas para resolver as questões da transformação democrática burguesa e para derrotar o absolutismo feudal ou a opressão estrangeira, tal decorria das condições objetivas e das condições subjetivas necessárias à realização da revolução socialista e que ainda não estavam postas, não haviam amadurecido.

Contrariando a cínica mentira burguesa e os sofismas segundo os quais nenhum socialista poderia falar, antes de fevereiro de 1917, em utilizar uma revolução para precipitar a demolição do capitalismo, entendemos que muito antes de 1907 e até mesmo antes da primeira guerra imperialista, os socialistas de todos os países beligerantes se reuniram sob a seguinte declaração na Resolução de Stuttgart: “utilizaremos a guerra ‘para precipitar a demolição do capitalismo’” (LENIN, 1984, v. 26, p. 193).

Não é possível fugir e nem ocultar a seguinte verdade histórica, em sua etapa imperialista o capitalismo se internacionalizou e moderna e contemporaneamente se caracteriza pela repartição do mundo e domínio de áreas estratégicas,

Entre as ‘grandes’ nações, entre as nações privilegiadas que oprimem todas as demais. As migalhas do botim proporcionado por estes privilégios e por esta opressão vão parar, indubitavelmente, em mãos de certas camadas da pequena burguesia e da aristocracia e burocracia operárias (LENIN, 1984, v. 26, p. 239).

Se o imperialismo nos séculos XIX e XX representava a subordinação das populações das Nações oprimidas ao capital financeiro e à repartição do mundo entre cinco ou seis grandes potências, contemporaneamente representa a subordinação dos países “pobres” às demandas esfaimadas dos sete países mais “ricos” que participaram de todas as guerras imperialistas do século XX. Esta repartição significa que todos os nababos das grandes potências, o banditismo financeiro e a indústria da guerra de extermínio estão interessados na possessão de neocolônias, esferas de influência estratégica, no subjugamento de outras Nações.

O imperialismo, movimentando-se mais claramente desde a primeira grande guerra imperialista (1914-1918), é a fase superior do capitalismo onde o desenvolvimento das forças produtivas e o conseqüente crescimento do capital rebaixa os estreitos limites dos diferentes Estados nacionais. Nota-se ainda hoje, mais que dantes,

A tendência das grandes potências à escravizar outras nações e a conquistar colônias como fontes de matérias primas e mercados para a exportação de capitais. O mundo inteiro formava um organismo econômico único4, o mundo inteiro estava repartido entre um punhado de grandes potências (LENIN, 1984, v. 26).

Em 1915, Lenin afirmava as conseqüências do imperialismo para a classe operária e trabalhadores assalariados: exacerbação da miséria, da desocupação, do aumento do custo de vida, do jugo dos trustes, do militarismo e da reação política contra quem levanta a cabeça de resistência em todos os países. Está tudo controlado. Tudo está sob o controle dos países imperialistas centrais. Talvez, não tudo, à medida que não se consegue agrilhoar as idéias.

O capitalismo, como adverte o Manifesto do Partido Comunista, aninhou-se no mundo inteiro, internacionalizou-se, assumiu e se exercita sobre o monopólio (estatal ou privado, ou ambos numa parceria pecaminosa), alimento indispensável à sua draconiana caminhada. Neste sentido, “a classe operária não pode alcançar seus objetivos de transcendência histórica universal se não combater de modo enérgico o oportunismo e o social-chovinismo declarados, assim como o chamado centro” (LENIN, 1984, v. 26, p. 299).

A etapa imperialista do capitalismo inaugura a era das revoluções sociais. Todas as condições objetivas da época atual põem na ordem do dia a luta revolucionária do proletariado e dos camponeses pobres, de modo que, cabe aos comunistas, sem renunciar aos mais diversos meios de luta legal, subordinarem-se à tarefa vital e essencial da luta revolucionária: trabalhar para elevar a consciência revolucionária dos operários. Uni-los na luta revolucionária transformando-a em guerra pela expropriação dos expropriadores (os capitalistas) e “pela conquista do poder político pelo proletariado, uma guerra pela realização do socialismo” (LENIN, 1984, v. 26, p. 300).

Na primeira Conferência Socialista Internacional, Lenin reporta que os comunistas não deveriam “enganar o povo com a esperança de uma paz próxima duradoura e democrática que exclua a opressão das nações, com a esperança de uma paz sem necessidade da demolição revolucionária dos governos atuais” (LENIN, 1984, v. 26, p. 410). O fulcro dessa questão ainda radica, hoje de forma mais clara, que cada país central quando predica a paz, o faz impondo condições imperialistas de exploração e opressão sobre os países periféricos, portanto, a paz capitalista é a paz em proveito dos países capitalistas centrais.

Nada é mais danoso aos operários e trabalhadores assalariados das cidades e do campo que a inculcação da “enganosa idéia de que a contradição entre o capitalismo e o socialismo não é profunda; pois não há nada que possa embelezar melhor a escravidão capitalista” (LENIN, 1984, v. 26, p. 321).

Não à utopia pequeno-burguesa na qual a liberdade das Nações em geral seria possível sob o capitalismo. Era preciso assumir uma grande decisão: “ou a luta revolucionária ou o servilismo lacaiesco ao imperialismo”. Não havia como não há meio termo. Os inventores obtusos da política da mediação ou da linha intermediária causaram e ainda causam “o maior dano ao proletariado” (LENIN, 1984, v. 26, p. 323).

Sobre a revolução contra o imperialismo, sobreleva considerar que não somos favoráveis a qualquer guerra, a quaisquer custos. Entendemos o imperialismo como a opressão crescente e incontida de um pequeno grupo de Nações sobre as demais, de modo que, é necessário reconhecer o direito das nações à autodeterminação, pois, um povo que oprime a outros povos não pode ser livre. Neste sentido, “um proletariado que aceite a menor violência de ‘sua’ nação sobre outras nações não pode ser socialista” (LENIN, 1984, v. 26, p. 349).

A chamada paz democrática tão alardeada e a escamotear a utopia da pequena burguesia socialista que não saberia viver sem o capitalismo, Lenin pondera que o verdadeiro programa de ação é o programa marxista por ser historicamente o único a oferecer “às massas uma explicação clara e precisa de todo o ocorrido, que lhes aclara o que é o imperialismo e como se deve lutar contra ele” (LENIN, 1984, v. 26, p. 362).

Esta fala está relacionada com as atuais condições das relações entre as mais diversas nações do planeta: “O capital se fez internacional e monopolista. O mundo está repartido entre um punhado de grandes potências (da Europa: Inglaterra, França, Rússia e Alemanha) que prosperam saqueando as outras nações” (LENIN, 1984, v. 26, p. 375).

Na época atual onde, por um lado, registra-se o mais alto desenvolvimento científico e tecnológico do capitalismo mundial, do outro lado, este desenvolvimento só foi possível em virtude da ação de rapina exercida sobre bilhões de habitantes da Terra, por minorias parasitárias internacionais. Sobre isto, Lenin faz a seguinte contestação:

No capitalismo é impossível qualquer outra [forma] de organização. Renunciar às colônias, às ‘esferas de influência’, à exportação de capitais? Pensar nisto significa descer ao nível de um padreco que predica cada domingo aos ricos a grandeza do cristianismo e os aconselha presentear os pobres (...). [Portanto], a guerra não está em contradição com os fundamentos da propriedade privada, senão que é o desenvolvimento direto e inevitável de tais fundamentos. No capitalismo é impossível um processo uniforme de desenvolvimento econômico das distintas economias e dos distintos Estados. O capitalismo, para restabelecer de quando em quando o equilíbrio alterado, não há outro meio possível que as crises na indústria e as guerras na política. (...) A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo (LENIN, 1984, v. 26, p. 377).

Nesta quadra histórica, Lenin considerava impossível que o capitalismo, com as classes sociais, fosse suprimido sem uma ditadura do proletariado. Assim sendo,

Os Estados Unidos do mundo (e não da Europa) constituem a forma estatal de unificação e liberdade das nações, forma que nos relacionamos com o socialismo, enquanto que a vitória definitiva do comunismo não traga a desaparição definitiva de todo Estado, incluindo o Estado democrático. Sem embargo, como consigna independente, a dos Estados Unidos do mundo com pouca probabilidade seria justa, em primeiro lugar, porque se funde com o socialismo e, em segundo lugar, porque poderia conduzir à falsa idéia da impossibilidade da vitória do socialismo em um só país e uma interpretação errônea das relações deste país com os demais (LENIN, 1984, v. 26, p. 377).

Tem-se aqui o seguinte problema, se é fato que o desenvolvimento econômico e social das Nações é uma lei absoluta do capitalismo, então a livre união de todas as Nações e a sua constituição equânime é impossível sem a luta feroz e violenta do movimento operário internacional contra os Estados capitalistas.

A possibilidade de realização do socialismo num só país é de Lenin, tal como ele grafou no texto A consigna dos Estados Unidos da Europa. Essa propositura não é de Stalin como afirmam ainda hoje, aqui e alhures, e à exaustão, os trotskistas. Foi Lenin quem deduziu ser “possível que o socialismo triunfe primeiramente em poucos países, ou inclusive em um só país capitalista” (LENIN, 1984, v. 26, p. 378).

No informe do Conselho de Comissários do Povo em dezembro de 1919, Lenin repete o que sempre dizia, mesmo antes de Outubro e durante a Revolução de Outubro, os comunistas bolcheviques russos se consideravam apenas como um dos destacamentos do exército internacional do proletariado, na verdade, o destacamento que havia assumido a vanguarda dos demais, não em virtude de seu desenvolvimento e de sua preparação política e militar, mas como decorrência das condições objetivas e subjetivas excepcionais da Rússia. Eles não deveriam esquecer, jamais, que a vitória definitiva da revolução socialista russa seria uma conseqüência da vitória do proletariado de vários países avançados (LENIN, 1986, v. 39).

Uma característica marcante define o período principiado no início do século XX: o imperialismo é a etapa monopolista do capitalismo e nela o seu desenvolvimento histórico “se transformou em um sistema universal de subjugamento colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países adiantados” (LENIN, 1983, v. 27, p. 319).

O capitalismo ao chegar a um determinado estágio do seu desenvolvimento, ou seja, a concentração de capital por si mesma conduz direta e inevitavelmente ao monopólio, resultando para algumas poucas empresas gigantescas a facilidade de construírem um acordo hediondo e macabro entre si, “a transformação da concorrência em monopólio é um dos fenômenos mais importantes – para não dizer o mais importante – da economia capitalista dos últimos tempos” (LENIN, 1983, v. 27, p. 327).

Os intelectuais burgueses manipulando a ciência oficial, ciência da parcimônia (a economia e seu instrumental estatístico), intentam

Aniquilar mediante uma conspiração do silêncio a obra de Marx, o qual havia demonstrado, com uma análise teórica e histórica do capitalismo, que a livre concorrência origina a concentração de produção, e que dita concentração, em certo grau de seu desenvolvimento, conduz ao monopólio (LENIN, 1983, v. 27, p. 330).

Mais incrível ainda é compreender e aceitar que esses mesmos intelectuais, diante do quadro caótico internacional onde todas as evidências apontadas por Marx são confirmadas, permanecem proclamando em coro e uníssono que o marxismo foi refutado. Na etapa em questão do desenvolvimento capitalista, os cartéis tornam-se um dos fundamentos de toda a vida econômica, o capitalismo transforma-se em imperialismo, com outras palavras, o imperialismo surge como desenvolvimento e continuação direta das propriedades fundamentais do capitalismo.

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